quarta-feira, 6 de junho de 2018

Rita Lee, Sonia Braga e uma certa malha rendada

Rita Lee por Vania Toledo e Sonia Braga clicada por Antonio Guerreiro, ambas no final dos anos 70

A colorida é a foto que abre FavoRita, livro de Rita Lee saindo agora e basicamente de fotos. Repare na malha rendada, parece a mesma que Sonia Braga usa na foto em preto e branco, né? Pois é a mesma. Jura? Abaixo Rita Lee conta em texto retirado do livro:

"Certa vez, não lembro onde nem quando, encontrei com la bella Sonia Braga, que me presenteou com um "body" cor de pele de um material igual ao daquelas meias de arrastão, só que de corpo inteiro. Eu ia ter uma sessão de fotos com Vania Toledo e pensei em usar a tal peça, mas, ao vesti-la, me vi praticamente nua, então pensei que uma boa saída seria se a estilista Barbara Hulanicki, que na época morava em São Paulo, bordasse umas estrelas de lantejoulas prateadas cobrindo as partes mais reveladoras de minha anatomia. Mesmo assim dá para ver minha cara de quem não estava totalmente confortável dentro daquela persona peladona."

terça-feira, 5 de junho de 2018

O charme dos gatos nas capas de discos

Foi assim: Peguei na estante um CD da Miúcha com um gato na capa e daí fui atrás de outros com eles dividindo o estrelato com os artistas. Imaginei que havia muitos, não encontrei tantos assim. Aqui estão os que vieram na minha escavação. Claro que devem existir outros. Se você lembra de algum, é só avisar que incluo aqui. Y gracias, Cleiton, pelas inclusões.
PS: Já começaram a chegar os "esquecidos". Estão no fim na categoria MAS COMO EU ESQUECI DESSES. E são capas incríveis: Fellini, Pitty, Bob Dylan. E esses apenas por enquanto

                                      OS NACIONAIS
Abre e fecha com Maysa. Por quê? Ah, porque tinha olhos de gato, né. Além disso, o primeiro traz um gato siamês e o segundo, ilustração.  E tem Marisa Gata Mansa, Miúcha que inspirou tudo, Angela Roro de tênis bamba e siamês e uma contracapa de Gal com gato na ilustração - Ela preferiu sua boca (linda) para ilustrar O Sorriso do Gato de Alice. Bobinha :)

                                     
Maysa: Música de Maysa, 1960


Marisa Gata Mansa: A Suave Mariza, 1959

Miúcha: Rosa Amarela, 1999. BMG

Angela Ro Ro: Só nos Resta Viver, 1980. E o gato siamês era da fotógrafa Marisa Alvarez Lima, que clicou  a foto


Gal Costa: O Sorriso do Gato de Alice, 1993


Maysa: O Último Disco, 1974


OS GRINGOS
Claro que vai abrir (e encerrar) com Cat Stevens, o cara que tem gato no nome. E com duas capas lindas: uma abaixo e outra no fim. São ilustrações, assim como o de Joni Mitchell, mas que ilustrações - E assinadas por eles. Ueba, tem gato em dois clássicos, um pretão com Tina Turner nos anos 80 e o outro tigrado com Carole King. Tem francesa com gato? Tem sim senhor: a Syilvie Vartan com dois lindaços, um branco e outro amarelo. E duas muito das chiques: Julie London (pena que ilustração) e Peggy Lee. Atenção para o gato na capa do homem orquestra Ray Conniff: é a cara da Ema, a gata aqui de casa. E ela tinha que estar aqui, claro :)

Cat Stevens, Teaser and the Firecat, 1971

Tina Turner: Private Dancer, 84. 

Carole King: Tapestry, 1971

Joni Mitchell: Taming the Tiger, 1997
]
Sylvie Vartan: L´Homme en Noir, 1964.
Julie London: Wild, Cool & Swinging, 1991
                                                                       
Peggy Lee: All My Best

Ray Coonniff: Dance The Bop!, 1959

                                        MAS COMO ESQUECI DESSES
E já começaram os que não lembrei: Pitty, Fellini (que tem gato na capa e contracapa), Bob Dylan, Quincy Jones....
The Cure: The Love Cats, 1983


Pitty: Sete Vidas, 2014
Bob Dylan: Bringing it all Back Home, 1963
Quincy Jones: Quincy Plays for Pussycats, 1965
Blink-182: Chehire Cat, 95
Jerry Garcia Band: Cats under the stars, 1978
Jimmy Smith: The Cat, 1964
Vários: Mambo for Cats, 1957


Cher: Dark Lady, 1974

Klaxons: Surfing the Void, 2010


Fellini: Fellini Só Vive 2 Vezes, 1986



quinta-feira, 31 de maio de 2018

A matéria de Audálio Dantas que revelou Carolina de Jesus




O jornalista Audálio Dantas, 88 anos, morreu ontem. Profissional brilhante, teve uma longa e bem sucedida trajetória. "Um exemplo como jornalista e como cidadão, protagonista de um dos mais sofridos acontecimentos de nossa história recente, o assassinato de Vladimir Herzog. Junto com Fernando Pacheco Jordão colocaram corajosamente o Sindicato dos Jornalistas como Centro da resistência à ditadura em 1975.", escreveu o cineasta João Batista de Andrade no Facebook.

E um dos momentos marcantes do repórter Audálio Dantas foi no final dos anos 50: uma matéria na favela que acabou revelando a escritora Carolina Maria de Jesus, autora do best-seller Quarto de Despejo. Abaixo, em texto escrito em 1993 para o prefácio do livro, ele conta:

"Entrei na história deste livro como jornalista, verde ainda, com a emoção e a certeza de quem acreditava poder mudar o mundo. Ou, pelo menos, a favela de Canindé e outras favelas espalhadas pelo Brasil. Repórter, fui encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê, no bairro do Canindé. Lá, no rebuliço favelado, encontrei a negra Carolina, que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer. E tinha! Tanto que, na hora, desisti de escrever a reportagem.

A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história - a visão dentro da favela.

Da reportagem - reprodução de trechos do diário - publicada na Folha da Noite, em 1958, e mais tarde (1959) na revista O Cruzeiro, chegou-se ao livro, em 1960. Fui o responsável pelo que se chama edição de texto. Li todos aqueles vinte cadernos que continham o dia a dia de Carolina e seus companheiros de triste viagem."

Abaixo, a matéria de seis páginas publicada pela revista O Cruzeiro, em 1959. E no final, o link para a entrevista que Cynara Menezes fez com Audálio, em 2014, sobre Carolina de Maria de Jesus, publicada no site Socialista Morena.






Link para entrevista com Audálio sobre Carolina de Jesus, no site Socialista Morena


quarta-feira, 16 de maio de 2018

O petróleo é nosso: EUA odeiam isso. E faz tempo




O interesse americano pelo petróleo brasileiro vem originando golpes. Há quem ache isso paranoia, mas é uma situação que vem de muito tempo. Duvida? Olha então o que aconteceu com o lendário jornalista Justino Martins (1917-1983), editor da cultuada Revista do Globo, de Porto Alegre, correspondente na Europa do jornal O Globo e diretor-editor da revista Manchete por muitos anos. Na revista Status, de maio de 1975, ele falou de sua carreira para Gilberto Mansur e Daniel Más. É uma bela entrevista. E o que interessa aqui é quando ele conta que teve o visto negado pelos Estados Unidos, na metade dos anos 40. O motivo: "Você pode dizer tudo o que quiser contra o Governo americano, mas você escreveu contra a Standard Oil (Esso), que é que eu posso fazer?", ouviu do cônsul. Abaixo um trecho da entrevista, e na última pergunta ele conta a negativa do visto. E no fim da entrevista, alguns anúncios da Standard Oil (Esso) nos anos 40. Esse ao lado saiu na revista O Cruzeiro, em 1947

Revista Status, Maio de 1975

Status: Na Revista do Globo, você é quem dava a linha política?
É. E era uma linha definida; eu fazia uma revista que lutava contra a ditadura de Vargas, e que depois lutou pela libertação de Prestes, pela campanha do petróleo é nosso...


Status: E por causa disso, você acabou na Europa?

Eu fui para a Europa, logo depois da guerra, em 1946, por dois motivos: primeiro, porque todo brasileiro tem certo atavismo, né? Mesmo em terceira geração, vive olhando pra Europa. E eu, de tanto ler literatura francesa, queria ir para a Europa. E o segundo motivo é que como não pude ir para os Estados Unidos fui para a Europa. Proibido de ir para Siracuse fui para Siracusa.


Status: o motivo político
Eu tinha tomado umas posições de esquerda e estava, politicamente, muito ilhado aqui. Foi quando recebi um convite do Ministério da Educação dos Estados Unidos para dar um curso de literatura numa grande universidade de Nova York, a de Siracuse. Aquilo era uma honra, sobretudo porque eu era um cara jovem. É que, durante a guerra, tinha vindo ao Brasil um coronel - era um professor, mas vestido de coronel - junto com o John  Ford, aquele diretor de cinema. Vieram fazer filmes documentários para esse negócio de guerra e eu é que acompanhei os dois no Rio Grande do Sul. Depois, o tal professor-coronel chegou a Ministro da Educação dos Estados Unidos. E quando a universidade pediu pra ele um professor de literatura brasileira, ele se lembrou de mim.


Status: E você não pode ir?
Pois é. Teve até um banquete oferecido pela Assemblía do Rio Grande e eu aí me enfeitei todo e disse vou-me embora. Pedi licença na Livraria do Globo, que já tava querendo se livrar de mim porque eu estava fazendo uma revista praticamente comunista, embora não fosse filiado ao partido e nem pensasse nisso. Tudo pronto, fui pedir o visto no Consulado e o que aconteceu? Fui uma das primeiras pessoas a ter visto negado pelos Estados Unidos. Em boa companhia: o Dante Santoro, aquele compositor clássico, que tinha recebido um prêmio nos Estados Unidos e ia buscá-lo; o Picasso, na França, que tinha pedido o visto e acabou nunca embarcando, e eu.


Status: Você foi considerado um inimigo do Estados Unidos?
Eu cheguei, pedi o visto e o cônsul me disse: "Não podemos lhe dar o visto porque você é inimigo dos Estados Unidos". Aí eu disse: "Poxa, eu passei a guerra toda lutando a favor da causa aliada, contra o nazismo, contra a gestapo no Brasil, o facismo, integralismo, o diabo a quatro, que negócio é este?" Ele então abriu uma gaveta e me mostrou um dossiê com tudo que era reportagem minha sobra a campanha do petróleo, Monteiro Lobato, essas coisas, e me disse esta frase: "Você pode dizer tudo o que quiser contra o Governo americano, mas você escreveu contra a Standard Oil, que é que eu posso fazer?" Era uma época em que a Standard Oil pagava páginas inteiras nos jornais do Brasil com histórias em quadrinho, "provando" o mau negócio que o Brasil faria se nacionalizasse a riqueza do subsolo.

Abaixo, alguns anúncios da Standard Oil (Shell) nos anos 40

Diario de Noticias, 1945
O Cruzeiro

A Cigarra, 47

 

terça-feira, 24 de abril de 2018

Todo seio nu será excluído: a fúria dos algoritmos




O post já sem a foto
É bela a foto de Walter Luiz e foi publicada pela revista O Cruzeiro, em junho de 1970, numa reportagem de seis páginas nas filmagens de Como Era Gostoso o Meu Francês. Nela aparecem sorridentes o diretor Nelson Pereira dos Santos sem camisa e a atriz Ana Maria Magalhães, a índia Seboipep, com os seios de fora. Sábado, dia em que morreu Nelson Pereira dos Santos, Ana escreveu um belíssimo post no facebook em homenagem ao diretor e com duas fotos dessa matéria. A "com os seios de fora" foi excluída pouco depois. Sim, foi apagada da postagem da própria atriz.




No domingo pela manhã, postei a foto com um aviso: "Atenção, facebook: essa foto linda saiu na revista semanal O Cruzeiro. E a nudez é simplesmente porque o filme é sobre índios e eles andavam nus. Obrigado.". Demorou quase dois dias para receber o aviso da remoção (ao lado, o "censurado" fui eu quem escrevi) por "não seguir nossos Padrões da Comunidade", o que já havia ocorrido no Instagram, minutos depois da postagem. A postagem segue em minha linha do tempo do facebook, com o seguinte aviso: "Nós analisamos sua publicação novamente e ela não está em conformidade com nossos Padrões da Comunidade relacionados à nudez ou atividade sexual. Apenas você pode ver esta publicação." Lerda em impedir o vazamento de dados de seus usuários, a firma de Mark Zuckerberg é agilíssima quando se trata de nudez  - seios parecem ser inimigos número um.


Primeiro grande filme histórico nacional, Como Era Gostoso o Meu Francês conseguiu um certificado de censura livre em plena ditadura militar, não sem antes haver proibição para todas as idades. "Alegando "exploração em excesso por problemas de sexo", além de "mostrar desnecessariamente o nu masculino", o Serviço de Diversões Públicas do Departamento de Polícia Federal veta a exibição de Como Era Gostoso o Meu Francês em todo o território nacional, liberando-o apenas para o exterior". escreve Helena Salem no livro Nelson Pereira dos Santos - O Sonho Possível do Cinema Brasileiro.

censura livre
Nelson Pereira dos Santos foi a Brasília tentar a liberação do filme e após algumas tratativas a censura aceitou negociar o nu dos índios, mas não do homem branco. Sim, o "problema" era a nudez de Jean (Arduíno Colassanti), o francês que viveu entre os índios, o personagem título do filme. O impasse rendeu uma bela crônica de Clarice Lispector no Jornal do Brasil (abaixo), em outubro de 1971: "Talvez seja inocência minha, mas por favor me respondam: qual a diferença entre o corpo nu de um índio e o corpo nu de um homem branco?".

Em novembro, o filme foi liberado, com alguns cortes e, surpresa, "censura livre". Já havia sido exibido da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes (foi rejeitado pela seleção oficial por causa da nudez de seus personagens, dizia Nelson) e na mostra competitiva do Festival de Berlim. A estreia no Rio de Janeiro foi em janeiro de 1972 e o filme foi sucesso de público.

"Será que daqui a pouco nos escandalizaremos se virmos um menino branco nu? Por que em menino pode e em adulto não pode?", escreveu Clarice no finalzinho da crônica. Ela nem imaginava que quase quarenta anos depois, em pleno século 21, a foto de uma atriz com os seios nus seria censurada pela poderosa rede social. E da página da própria atriz. É o terror dos novos velhos tempos, travestido de algoritmos.

A crônica de Clarice Lispector citada no texto

Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1971
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E aqui, Ana Maria Magalhães fala de Nelson Pereira dos Santos, sobre as filmagens de Como Era Gostoso o Meu Francês e o vídeo inclui imagens do filme


E aqui, a matéria completa pela revista O Cruzeiro, em junho de 1970





domingo, 22 de abril de 2018

Angela Davis, Dilma e a história do cartaz que correu o mundo





A foto de Angela Davis ao lado de Dilma Rousseff segurando o cartaz Lula Livre, escrito em diversas línguas, foi a imagem da semana. Uma das, tá certo, porque também houve aquela de Leonardo Boff à espera de visitar Lula na prisão. O surpreendente é que a da ativista americana com o cartaz não foi publicada nos jornais brasileiros, que nem sequer noticiaram a conferência. E olha que no final da fala que apresentou Dilma na Universidade de Stanford, Angela falou assim: "Obrigado, Dilma Rousseff. Acredito falar por muitas pessoas nesse país quando digo que estamos com você nos seus esforços para garantir um futuro democrático para o Brasil".

"Obrigado, Dilma Rousseff. Acredito falar por muitas pessoas nesse país quando digo que estamos com você nos seus esforços para garantir um futuro democrático para o Brasil": Angela Davis

E como  o cartaz chegou a Dilma e foi parar nas mãos de Angela Davis? A grana dos petralhas, certo? Errado. É uma história linda, daquelas que mostram a força que as coisas têm quando elas precisam acontecer. Começa no domingo anterior, dois dias antes da palestra de Stanford. Numa conversa com amigos de um grupo online, a "mãe" do cartaz, Jô Hallack escreve: "Podia ter um dia normal, mas tô aqui fazendo um cartaz do Lula porque sou maluca". E maluca maluca, ela fez o cartaz, postou nas redes e....

Corta para terça-feira, dia da exibição no Rio do documentário O Processo, sobre o impeachment de Dilma. É perto da meia-noite, Jô Halack chega em casa exausta após assistir o filme. Eu estava vendo online a palestra de Dilma em Stanford, mas a transmissão estava péssima, parava a toda hora. E era o dia da saída da Paula do BBB, sim aquele programa em que Gleici venceu e gritou Lula Livre, mas isso é dois depois. Volto pro computador, a fala de Dilma já tinha acabado e levo um susto: na tela aparece uma criança segurando um cartaz que parecia ser o da Jô. Como assim? Printo e mando pra ela: "é o teu cartaz, Jô?" E olha que ainda não havia entrado em cena Angela Davis. Sim, era o cartaz da Jô. Minutos depois, justamente quando se completava dois anos da deposição de Dilma, o mito do ativismo segurava o cartaz.

E como aquele cartaz foi parar lá? Jô Hallack ainda não tinha a menor ideia. Foi assim, ela soube depois, e aí entra em cena Felipe Amarante, o responsável por levar o cartaz para Dilma e para Angela Davis. Depois, ele escreveu para Jô contando e ela postou no facebook.:

"A história do pôster é curiosa. Moro em Walnut Creek, fica a uns 20 minutos de Berkeley. Fui para a palestra da Dilma sem convite.

Apos uma pesquisa no Google dei de cara com sua obra de arte. Estava atrasado, mas descobri uma gráfica pelo Google em pleno caminho. Quando cheguei o cara já foi com minha cara porque já tinha visitado o Brasil. Combinamos 40 posters por 38 dolares. Enquanto ele abria o arquivo fui reparando na decoração da loja, foto do George Carlin, bandeira palestina... Fiquei feliz em estar dando dinheiro para uma loja como aquela e não a uma FedEx da vida... 

Sem abrir o pôster ele já foi falando bem da Dilma. Na hora que ele abriu o pôster e viu a foto do Lula, falou que iria melhorar a qualidade do papel pelo mesmo preço combinado.
Após um pequeno ajuste na centralização ele imprimiu e logo me entregou os posters. Quando fui pagar, notei que ele usava uma camisa do partido comunista. E foi logo dizendo o preço 20 dolares. 

Pensei comigo, este Lula é realmente foda. Nos despedimos sem ele falar o porque do desconto. Nem precisava, seu sorriso camarada, disse tudo. 
Ps:Vou voltar lá com a foto da Angela Davis."

E assim foi: o cartaz que começou a ser bolado por Jô Hallack numa tarde de domingo, dois dias depois, estava nas mãos de Angela Davis e começava a correr o mundo. É incrível a força que as coisas têm quando elas precisam acontecer.

Aqui, o link com a apresentação de Angela Davis e a palestra de Dilma na Universidade de Stanford. 


E aqui, pós-palestra, o momento Lula Livre



sexta-feira, 6 de abril de 2018

Farol Santander, mais um truque paulistano




a vista puxadinho do café
"É um truque", disse para todos que me perguntavam do Instituto Moreira Salles da Paulista. Depois de conhecer o Farol Santander, minhas noções de truque foram elevadas a outras e maiores potências e até simpatizo mais com o espaço cultural da Paulista. Impressionante: o poderoso banco espanhol conseguiu até miguelar a vista da cidade, a cereja do bolo do portentoso edifício Altino Arantes, o velho prédio do Banespa, que ficou um ano sendo reformado. A vista virou dois puxadinhos (um de cada lado e protegidos por altos vidros),  do Café Suplicy, que ocupa lugar majestoso no 26º andar. É como se tudo fosse construído pra destacar o tal café. E a vista aquela, após esse andar, que se tinha acesso subindo escadas até o ponto mais alto do prédio? Impossível chegar até lá, está fechada.


Mapa do farol
No hall da entrada há um lustre gigante - 13 metros e 1,5 tonelada. "Boa experiência", saúdam os funcionários do "centro de entretenimento, cultura e lazer", como se os visitantes estivessem prontos a penetrar em outros e desconhecidos mundos. "Experiência" aí é marketing, aquilo que move os truques e os transforma em lugares badalados. "Ah, é incrível tomar um café lá no alto com vista para a cidade?": ah tá. 


A "experiência" não é gratuita, ao contrário de outros espaços culturais mantidos por grandes bancos. Preço do ingresso: 20 reais e 10, meia. E clientes Santander? Olha, os felizardos tem dez por cento na entrada inteira, incríveis dois reais. "Ah, mas cobrar ingresso é bom e seleciona": isso é meio clichê entre esnobes paulistanos.


Há uma pista de skate e o 25º andar foi transformando em loft, que "pode ser reservado pelo Airbnb" (uau!), e diárias em torno de R$ 3500. "É de luxo!". Claro que o loft, para poucos e endinheirados, não pode ser visitado. ~

E as exposições? É aí que o cheiro de truque cala mais alto. Pra começar elas nem  têm catálogo ou folhetos distribuídos para quem pagou o ingresso. "O espaço é novo (inaugurou em fevereiro, presente do banco no aniversário da cidade) e no futuro pode ter"", dizem os solícitos funcionários. Obrigado pela informação, pode ser novo sim, mas cobra ingresso, né.

A principal exposição do que eles chamam "arte imersiva" é uma daquelas instalações toda luzes e efeitos. Interessante sim, mas léguas distante de uma "experiência". Para apreciar melhor, deita-se em pufes e é como se ficasse a um metro de uma explosão de fogos de artifícios, com algumas explosões que trazem as tais sensações. E de quem é? Do coletivo Tundra.

No andar abaixo, o 22º, o truque explode em Diurnas, de Laura Vinci. Paredes brancas, uma ou duas cruzes em vermelho e muitas e pequenas pombas, unicórnios ou algo semelhante (???)  em dourado, espalhados pelas paredes brancas. Minha sensação maior foi diante dos vidros das janelas com a vista para a cidade: imundos, não devem ver um pano há anos. Havia algo mais para ver ali? Um site me diz que sim: "Uma experiência íntima de paisagens e natureza: através de projeções em videomapping que ocupam as paredes laterais da sala, o público pode ver sombras de árvores evidenciadas ou apagadas pela ausência ou incidência da luz, no ritmo da respiração. No ambiente, folhas de árvores cobertas de ouro incitam a reflexão sobre essa natureza cada vez mais rara e distante das cidades." Repito: não vi nada disso, projeção nenhuma, apenas muito vazio, paredes brancas e a sujeira dos vidros das janelas. Em outros dois andares há uma expo Saramago, com um monte de vídeos que preferi deixar de lado.

A parte memória fica nos andares inferiores

Bom, fim das expos. Agora é a parte "Memória", do segundo ao quinto andares. Duas salas com os retratos dos homens que fizeram a história da coisa toda, os presidentes do Banco Agrícola, depois Banespa e, enfim, Santander. Apenas olhei da porta, assustado com o poder daquele homaredo todo branco e com cara de poder. Fotografei da porta esse na foto ao lado pelo visual ator pornô dos 70/80. Depois são escritórios e salas de reuniões preservados com móveis e objetos de outros tempos. Nada que não tenha na Caixa da Praça da Sé, por sinal. O que mais? Ah, tem um andar Vik Muniz, com painéis de fotos do prédio com o toque dele. "olha, que paulistano".

Finda "experiência", recorro as escadas do segundo andar para acessar o térreo e respirar, mas quem disse que consigo? Porta anti-fogo fechadíssima, saída só pelo elevador, que demora e demora, trazendo sensação de claustrofobia. Foi uma experiência sim conhecer o Farol Santander. Uma experiência horrível e com a sensação do truque que ergue e destrói coisas belas.

Rita Lee, Sonia Braga e uma certa malha rendada

Rita Lee por Vania Toledo e Sonia Braga clicada por Antonio Guerreiro, ambas no final dos anos 70 A colorida é a foto que abre FavoRit...