domingo, 30 de agosto de 2009

Notícias de uma planta

No começo de março, contei aqui a história de uma planta que, num domingo ensolarado e quente, foi tirada do convívio dos seus em um parque paulistano e veio morar comigo. Cinco meses depois, com o inverno em seus derradeiros suspiros e os pássaros já anunciando a chegada da primavera, volto a ela. Sim, está viva e feliz, não se preocupe. A nova é que deu frutos. Bom, melhor ir aos poucos.

Lá pelo fim de abril voltei ao tal parque e fui ver como estavam as parentas da planta. Que desolação, restava pouco sinal de vida naquela família verde e vermelha. Apenas uns três galinhos resistiam e nem pensei muito em trazê-los todos pra casa, tadinhos. Pois um deles se tornou a planta mais viçosa do meu jardim, sitiado em cima de uma mesa de madeira bem grande, pensada pra mesa de centro. Sem que demorasse muito, ela, que devia ter vocação pra modelo, foi se espichando (a foto tem alguns meses, ela tá o dobro) e em suas laterais gerando outras que volta e meia transporto pra novos vasos. O resultado é uma invasão dessa folhagem rajada de verde e vermelho colorindo minha casa.

E qual é o nome dela? Bom, somos velhos conhecidos, mas nunca soube. Hoje, lendo uma crônica de um escritor que eu adoro, o Caio Fernando Abreu, descobri pistas. O pai dele dizia que era tinhorão e ele preferia chamá-las de tigrina. Procurei tinhorão no google e realmente é bem parecida. Se não for, é uma variação. Mas pra mim, vai ser eternamente tigrinas, que “são ótimas, bem dispostas, saudáveis e parecem muito felizes”, na descrição do Caio. E minha família de tigrinas vindas de um certo parque é exatamente assim.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Nas pegadas

Gosto de seguir pessoas muito antes do Twitter. É bom explicar isso – e logo. Esse seguir tem a ver com encontrar gente que você admira e observá-las de longe, seguir seus passos por uns momentos. Dois escritores renderam momentos inesquecíveis.

O primeiro foi Mario Quintana que era figurinha fácil pelas ruas de Porto Alegre. Muitas vezes caminhei quadras e mais quadras atrás daquele velhinho incrivel, feliz por compartilhar do mesmo tempo e espaço com ele.

A outra é Lygia Fagundes Telles. Sempre tive vontade de tietá-la, mas até hoje faltou coragem, apesar de encontrá-la na rua algumas vezes. A inesquecível foi num sábado à tarde na Oscar Freire. Quase na esquina da Consolação, a avistei na metade do quarteirão. Lygia caminhava devagar, linda como sempre, e com uma sacola de livraria na mão. De repente um vendedor de balões passou por ela que se voltou e se deteve alguns minutos para observar os balões coloridos. Eu atravessei a rua e fiquei só olhando a cena, depois a segui um pouquinho.

E tem um seguimento internacional bem interessante, um astro de Hollywood, uau. Estava em Madri, na Gran Via, a Paulista de lá, com um amigo e de repente ele cochicha: Richard Gere. Olhei e disse que ele tava doido, pra perceber segundos depois que era mesmo o astro, vestindo jeans e camiseta branca e caminhando com um cara mais jovem que parecia ser seu segurança. Começamos a segui-los, mas um quarteirao depois eles devem ter percebido, olharam pra nós com cara de poucos amigos, sairam da avenida enorme e começaram a andar pelas ruas paralelas e menores.

Existem outros, mas esses três bastam pra exemplificar meu estilo following de observar.

domingo, 23 de agosto de 2009

Tudo Sobre Você

Primeiro veio a palavra, quando dezembro engatinhava e eu não esperava nada, nada. Achava que tinha tudo. Moleque, moleque de tudo.
Logo veio a voz, mas continuavam reinando firme as palavras, enquanto o ano agonizava.
Então entraram em cena sete ondas e uma só pra mim, repleta de todo amor que houver nessa vida.
Havia trabalho a ser feito, portas semi-abertas me aguardavam.
Veio a batucada, as palavras continuavam, vez em quando a voz, as portas quase se fecharam, mas restou uma fresta me aguardando, um dia, quem sabe, um dia.
Na dança do tempo era a vez de maio e nos últimos suspiros do mês das luzes oblíquas chegou a imagem – e de uma claridade absoluta.
As portas tinham se aberto. Agora era passar por elas, esquecer os medos, e aproveitar o que me aguardava.
Junto com o frio, veio o riso, continuaram os empates, a redescoberta do quão bom pode ser compartilhar.
Palavra, voz, imagem: como pode ser tão bom. Que os deuses sejam mesmo deuses. E eles tendem a ser. Axé!


sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nas pegadas de Tânger

Gosto de imaginar uma cidade e ficar pirando nela. Sempre uma das tantas que meus pés nunca pisaram. Penso agora em Tânger, encravada entre o paraíso e o estreito de Gibraltar, que já me encanta pelo nome misterioso. O próximo passo é acionar o google mental, apenas o mental. Pronto: a referência um é Bob Dylan, em If You See Her Say Hello, um amor que acabou e alguém deve estar em “Tangier”. É de cortar o coração. Renato Russo regravou lindamente essa, apenas trocando o “her” do título por “him”.

Próxima parada: Paul Bowles, um escritor pra se apaixonar – comigo isso aconteceu. Na autobiografia Tantos Caminhos, ele conta como descobriu a cidade nos anos 40. Um de seus livros mais famosos, O Céu Que Nos Protege mostra os descaminhos de um atormentado casal pelo deserto. Bertolucci o filmou lindamente com participação luxuosa de Bowles. Eu vejo, vejo de novo, vejo mais uma vez e fico cada vez mais enlouquecido com a história e com Tânger, onde Paul Bowles morreu com quase 88 anos, em 1999.

Pra mim, o céu que nos protege, que título mais lindo, só pode ser o de Tânger. Agora, abandono o google da memória e vou pro virtual atrás de imagens da cidade que me encanta, com os versos de Dylan nos ouvidos “... she might be in Tangier”... “i know every scene by heart”.


sábado, 11 de julho de 2009

Quase amigo


Um amigo bem jovem assistiu Pode Ser Que Seja Só o Leiteiro Lá Fora e se encantou com o verbo de Caio Fernando Abreu. Ele ficou meio assim quando falei que conheci o cara, era meu vizinho, me abraçava quando cruzavamos na rua e eu gostava de observa-lo de longe a escolher cenouras no supermercado. Quase amigos fomos.


Faz doze anos que Caio F. morreu e continua firme nas mentes e corações juvenis. É só olhar o roteiro do jornal: dificilmente não tem peça baseada em seus escritos.


Na PUC de Porto Alegre dos anos 80, andávamos com um livro do Caio debaixo do braço. Quando mudei pra São Paulo, resolvi ligar. Ele foi gentil, agradeceu eu gostar dos seus livros e perguntou “como essa cidade tá te tratando?”. Voltei a ligar várias vezes e sempre ouvia a mesma pergunta.


Um dia, dei de cara com Caio na Augusta e me apresentei. Ele riu, me deu um abraço forte, conversamos, uma cena bem Caio F: dois forasteiros se encontram ao acaso na metrópole que os acolheu.


Um pouco antes de morrer, Caio veio a SP lançar Ovelhas Negras, na livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Fui, ganhei um autógrafo lindo, um abraço. Mais tarde, o vi com amigos numa mesa do Viena e fiquei alguns minutos a observá-lo à distância, como quando o via escolhendo cenouras no supermercado.


Lembro do Caio direto ao cruzar por alguns lugares muito ele: a Paulista tarde da noite, a Augusta lado centro ao anoitecer, o relógio no alto do conjunto nacional, o prédio da Hadock Lobo onde ele morou. E confesso: tenho uma certa inveja do meu jovem amigo que começa a descobrir o universo de Caio F.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Anjos e demônios de Lou Reed

Berlin, de Lou Red, deve ser um dos discos mais tristes já gravados – não por acaso encerra com uma canção chamada Sad Song. É de 1973, foi um fracasso de vendas, o tempo o transformou em obra prima e há muito frequenta minha galeria de favoritos. Volta e meia, aquelas canções sobre amor, perda e dor retornam a me inquietar. E quase sempre é como se as ouvisse pela primeira vez.
E não é que nessa noite quieta e fria elas estavam à minha espera de um jeito diferente. Ao acaso, assisti na tevê Berlin, um documentário que Julian Schnabel dirigiu a partir de shows que Lou Reed fez em Nova York, em 2006, com as canções do disco.

E o que fez Schnabel? Simplesmente filmou tudo sem a menor afetação e ilustrou aquelas canções maravilhosas com imagens que beiram o onírico. Quem assistiu O Escafândro e a Borboleta sabe que o diretor não é de brincar em serviço. Anjos, a atriz francesa Emanuelle Seigner transformada em Caroline e o melhor: Lou Reed ali, tomado por aquelas canções, exalando sinceridade a cada sílaba. E como atração extra, Anthony nos backings. Bem no finalzinho, Anthony, que é protegido de Lou Reed, solta aquela voz de anjo na clássica Candy Says, e seu corpo parece tremer a cada acorde. É de arrepiar. Ao final, Lou Reed olha pra ele com aquele cara de não tô acreditando (abaixo, o vídeo). Berlin, o filme, é obra-prima. E agora vi que existe em DVD – não descanso enquanto não comprar.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O fim da espera

Tem certos discos que aguardo com ansiedade, com ansiedade juvenil. Foi assim com Pelo Sabor do Gesto, da Zélia Duncan. E não me faltavam motivos. Pra começar, faz um bom tempo que ela é uma das cantautoras mais interessantes. A moça é ousada, cerca seus discos de um cuidado especial e não grava por gravar. E mais: é tão doida por música quanto eu e parece manter a coisa da fã. Duvida? Ela deu um tempo na carreira solo pra ajudar a reviver Os Mutantes. E foi resgatar Simone pra uma parceria muito interessante.

E mal podia esperar pelo CD novo porque sabia que tinha duas versões de músicas da trilha encanto total do filme francês Canções de Amor (trailer no fim do post). Mais: ela foi atrás de Telhados de Paris, tão bela quanto antiga do Nei Lisboa, que é ídolo no sul e bem pouco conhecido no resto do país. Zélia sempre se declara maluca por Rita Lee e caprichou na escolha de Ambição, escondida na trilha de uma novela dos anos 80. A própria Rita regravou no início dos 90 mudando alguns versos. Zélia preferiu a versão original.

Bom, a espera pelo acabou hoje e meio que matei o horário do almoço pra comprá-lo. Ouço agora de novo e de novo. Simplesmente ouço e me encanto, pelo sabor do gesto.