sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Livro reúne todas as crônicas de Clarice Lispector. Ou quase


Livro Todas as Crônicas: R$ 89,90

Com uma foto belíssima, 700 páginas e capa dura, o livro Todas as Crônicas, saindo pela Rocco, impressiona já ao vê-lo exposto na livraria. Até pelo título que se pretende abrangente, definitivo. Mas estarão "todas as crônicas" ali mesmo?  A editora segue as pegadas de sucesso da bem editada coletânea Todos os Contos (2016), que abrigava em um só volume os livros de contos da escritora e mais alguns dispersos. O cuidado editorial aqui não parece o mesmo e várias "falhas" tornam o título impreciso, o que é uma pena.

Tribuna da Imprensa, 4 janeiro 1974
Foi como colunista do Jornal do Brasil que Clarice Lispector encontrou popularidade e começou a espantar o "hermética" que a crítica insistia em colar nela. De agosto de 1967 a dezembro de 1973, Clarice escreveu lá todo sábado. Foram quase seis anos até ser demitida no meio das festas de fim de ano por um bilhete (à esquerda), tendo devolvidas três crônicas que estavam no jornal como adiantamento. E isso o prefácio (fofo) de Marina Colasanti não conta. Nem o posfácio.

Essas colunas, que rechearam livros como A Descoberta do Mundo (1984) e Para Não Esquecer (1978),  são  a cereja do bolo aqui e vão até a página 575 de Todas as Crônicas. Depois dessa primeira parte com a produção da era JB 1960/1970, o volumoso livro dá um drible na cronologia. Suas últimas 120 páginas, a segunda e terceira partes, são de textos  inéditos em livro. Eles vêm de O Jornal (sete, de 1946), revista Senhor (seis, de 61), revista Jóia (20, de 1968/69), as derradeiras em Última Hora (seis, de 1977, o ano em que ela morreu) e do livro Para Não Esquecer (15, sem data, sim, sem as datas em que foram escritas).

Todos os contos: 2016
Datas: eis um dos problemas desse Todas as Crônicas, que as  dispensa no corpo do livro, além do que apenas três asteriscos separam as colunas, que vão se emendando confusas. Se quiser saber a data, o leitor precisa consultar o índice ao final, o que dificulta o prazer da leitura e de situar o momento preciso em que Clarice as escreveu. Mais: por confusos "critérios editoriais" que o posfácio tenta explicar, foram retiradas crônicas (ou contos) que Clarice publicou na coluna e depois lançou em livros, trocando os títulos, muitas vezes. Por esse "critério editorial" dançaram trinta textos (praticamente todos estão em A Descoberta do Mundo) que, às vezes, ela parcelava a publicação em duas, três ou até quatro semanas consecutivas. Ao final, no posfácio que leva o título "Crônica de todas as crônicas", estão listadas essas três dezenas de exclusões e com a página em que se encontram em Todos os Contos (os dois livros são da mesma editora). "O ovo e a galinha", "A legião estrangeira", "Felicidade clandestina" são alguns dos contos famosos publicados no JB e suprimidos aqui. Ok, critério editorial e ainda serve para não aumentar muito as 700 páginas, o que inviabilizaria a edição. E, para não complicar mais, melhor nem tocar nos critérios dessa divisão crônicas, novelas, contos, pensamentos, anotações.

VOCÊS SE LEMBRAM DE GLÓRIA MAGADAN?

A Descoberta do Mundo, o livro com as colunas de Clarice no JB, é considerado por muita gente o melhor da escritora. Há quem o leia como Bíblia, abrindo ao acaso e conferindo a página diante de seus olhos. Estão lá grande parte dos escritos dela publicados no jornal. Muitos que ficaram fora são agora recuperados, "cerca de 60 textos (entre crônicas e notas)", avisa o posfácio. Entre os "recuperados", destaque para dois em que Clarice fala do incêndio de que foi vítima e que a deixou três dias entre a vida e a morte: "Rispidez necessária" (16 maio 1970) e "Vocês se lembram de Glória Magadan?" (10 abril 1971). O incêndio também é o tema de  "Mistérios da alma humana", essa em outubro de 1968, na revista Jóia,

"Assim, grande atenção foi necessária para não deixar escapar nem um único fragmento sequer dos textos publicados no Jornal do Brasil", avisa o posfácio. Mas muitos ficaram de fora sim. Pode-se citar dezenas, mas vou resumir em "Apenas um cisco no olho" (abaixo), que em 29 de dezembro de 1973, com esse título premonitório, encerrava a coluna e a participação de Clarice no JB. Acabava assim: "Pois, como eu ia dizendo, lembrei-me do Ano-Novo, assim, de repente. Desejo um 1974 muito feliz para cada um de nós." Com a demissão súbita e a perda do espaço no Jornal do Brasil, o 1974 de Clarice Lispector foi complicado. E esse último texto histórico não poderia ficar de fora de um livro que se chama Todas as Crônicas, sejam quais forem os "critérios editoriais".



Outro "critério editorial" foi eliminar citações de autores famosos que Clarice fazia, às vezes praticamente na coluna toda, entre aspas, claro. O campeão era Jorge Luis Borges, que aparece em várias colunas. Em outras vezes, traduzia textos que lia e lhe chamavam a atenção. E a partir desses autores, volta e meia falava de si mesma. Em "A descoberta", maio de 1973, citava um trecho de Truman Capote (à direita) sobre superstições para dar observação dela sobre o tema. Em 18 de julho de 1970, a coluna "Folclore brasileiro" reunia algumas lendas de Henriqueta Lisboa e uma observação: "A primeira ("Mulher dengosa") eu ouvi de cozinheiras da minha infância." Em 11 abril de 1970, usa resposta de Hemingway (à esquerda) quando perguntado se a situação financeira do escritor prejudicava a boa literatura. Claro que isso não estava ali de graça, ela provavelmente usava o escritor para falar de algo que a inquietava. Tem muitos, muitos mais exemplos disso e essas licenças reveladoras estão todas fora de Todas as Crônicas. O interessado por Clarice perde a chance de saber quem eram os escritores que ela lia (ou até traduzia) naquele momento.


O livro A Descoberta do Mundo como modelo é evidente até na repetição de alguns "erros" que existiam nele. Em vez de recorrer às colunas originais, simplesmente repetem o que está no livro anterior. "As dores da sobrevivência: Sérgio Porto" não encerra a coluna do dia 28 setembro 68, como registra Todas as Crônicas e ocorria em A Descoberta. Abre a do sábado seguinte, 5 de outubro. "Mãe-gentil", que fecha a coluna de 12 de outubro de 1969, chama-se "Mãe-gente", na coluna do JB. Errinhos que poderiam ser facilmente corrigidos numa visita às colunas originais do jornal, aliás disponíveis na internet.


"Outra reintegração significativa no campo das artes plásticas foi a da crônica "Paul Klee e o processo de criação", datada de 22 de julho de 1972", diz o posfácio. Ueba, corro ao índice e a crônica não está lá. Ficou de fora. (ao lado a coluna do JB)



Diário Carioca, 1950
Clarice recorria muitas vezes ao baú e textos escritos em diferentes épocas eram publicados outra vez, às vezes mudando o título. Todas as Crônicas traz alguns dos anos 50, republicados quase 20 anos depois. Avisa o posfácio: "É o caso, por exemplo de "O medo de errar", publicado no jornal A Manhã em 2 de julho de 1950, e que vai aparecer na edição de 13 de setembro de 1969 do Jornal do Brasil". É nessa data que "O medo de errar" aparece no livro. Por que não a de sua primeira publicação? O posfácio cita vários casos e ignora muitos outros. Exemplos: "A sala assombrada" (JB 27 de setembro de 1969) foi publicado primeiro no Diário Carioca, em 1950. "Algumas pessoas" (ao lado), também do Diário Carioca em 1950, gerou duas crônicas no JB: "A inspiração" (9 maio 1970) e "A antiga dama" (27 novembro 1971). Como no original havia quatro histórias, pode ter gerado mais duas, que não identifiquei. Ah, O Diário Carioca não consta no livro como um dos órgãos de imprensa em que Clarice colaborou.

CHILDREN´S CORNER

Clarice em O Jornal: 1946
Em 1946, morando na Suíça, Clarice Lispector enviou colaborações para jornais cariocas. "Eu também publiquei algumas coisas , na Manhã e no Jornal. São pequenos trechos, algum poema, tudo ligado pelo título geral de "Children´s corner". Talvez eu mande para você, mas não vale a pena.", ela escreve em carta datada de 8 de fevereiro de 1947, para o amigo Fernando Sabino, que morava em Nova York. Essas primeiras colunas dela, publicadas em duas edições de O Jornal, rendem nove páginas de Todas as Crônicas, que exclui dois textos: "O manifesto da cidade e A rosa branca", publicados em 2 de fevereiro de 1947. Como assim, excluir dois contos da estreia da colunista Clarice? Pois é.

Está aí, no final de 1946, o início do título "Children´s corner", uma marca de Clarice. Três anos depois, ela começou colaboração no Diário Carioca e a coluna de estreia (2 julho 1950) saiu sem título. Na edição seguinte vinha a errata: "àquelas anotações diversas se deu o nome de "Children´s Corner"." No final dos anos 50, Clarice retomou "Children´s corner", para nomear sua seção na revista Senhor. Foi na Senhor que Clarice se tornou mais "conhecida" e foi lida pelo garoto Caetano Veloso, que depois iniciaria a irmã Maria Bethânia nos mistérios de Clarice, mas essa é outra história.

JÓIA

Os escritos para a Jóia, revista mensal feminina da editora Bloch, estão aqui em 36 páginas. São de 1968/69, quando ela já escrevia todo sábado no JB. "Tati Moraes e eu traduzimos uma peça de Lilian Hellman para Tonia Carrero levar": assim começa "Traduzir procurando não trair", a primeira das "crônicas" na Jóia, sobre suas experiências com tradução. Interessante, mas que peça foi? Clarice não conta e Todas as Crônicas, que dispensa as notas de rodapé, também não desvenda. Trata-se de Os Corruptos, montada por Tônia em 1967. Inéditas em livro, essas crônicas da Jóia, as mais numerosas depois das do JB,, trazem bastante informações para quem quiser conhecer mais do cotidiano de Clarice - idas ao teatro, encontros com os amigos.

As seis crônicas de A Última Hora valem por serem as derradeiras de Clarice. Como várias já haviam saído em outros jornais e livros, não foram incluídas em Todas as Crônicas. A última em UH, o posfácio informa, é "Tempestade mental", na edição de 5 e 6 de novembro de 1977, "na semana em que faleceu", informa erradamente o prefácio. Clarice morreu um mês depois, em 9 de dezembro. 

Segue o posfácio: "Todavia, esse texto nada mais era que "Brain storm", editado no Jornal do Brasil em 22 de novembro de 1969. Era sim e voltou  também em 1º setembro de 71 como o título de "Tempestade de almas", isso não informam. Enfim, "Tempestade mental" não foi incluída em Todas as Crônicas, porque está em Todos os Contos  e com esse título. Confuso? É. E bastante. Um emaranhado, mas que poderia ter sido resolvido em uma edição mais cuidadosa.

O Cruzeiro

Os quinze textos do livro Para Não Esquecer formam a terceira e última parte desse Todas as Crônicas, sem informação de quando foram escritos e nem de onde foram publicados. Parecem estar aqui apenas para justificar o "Todas" do título. De dois deles consegui a origem: "Berna" e "Um homem espanhol" saíram na revista O Cruzeiro, com os títulos  de "Instante alpino" e "Pepe, el guia" (ao lado), em setembro de 1949 e fevereiro de 1950, respectivamente. E na prestigiada página três, que abrigava crônicas escritas por mulheres. Todas as Crônicas omite essa origem e nem fala nas colaborações de Clarice Lispector em O Cruzeiro, a revista mais prestigiada daquela época.


Todas as Crônicas não é livro que vá interessar aos não-iniciados na obra de Clarice Lispector. E essas "falhas" servem para diminuir o prazer da leitura para os iniciados. E não, o título exagera, ali não estão "todas as crônicas" escritas por Clarice. Um "Quase" caberia muito bem no lugar de "Todas". Uma parte dois pode vir a nascer tranquilamente. E A Descoberta do Mundo, que não inclui todas as colunas do Jornal do Brasil, segue sendo o melhor livro editado com elas. Foi a coluna no JB  que começou a levar o verbo de Clarice Lispector a um público maior. E esse público aumentaria com Maria Bethânia declamando seus textos em shows. Essa também é outra história. E até já escrevi um pouco sobre isso. (Link abaixo)

http://viledesm.blogspot.com/2017/12/a-mulher-que-popularizou-clarice.html


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Rita Lee, Sonia Braga e uma certa malha rendada

Rita Lee por Vania Toledo e Sonia Braga clicada por Antonio Guerreiro, ambas no final dos anos 70

A colorida é a foto que abre FavoRita, livro de Rita Lee saindo agora e basicamente de fotos. Repare na malha rendada, parece a mesma que Sonia Braga usa na foto em preto e branco, né? Pois é a mesma. Jura? Abaixo Rita Lee conta em texto retirado do livro:

"Certa vez, não lembro onde nem quando, encontrei com la bella Sonia Braga, que me presenteou com um "body" cor de pele de um material igual ao daquelas meias de arrastão, só que de corpo inteiro. Eu ia ter uma sessão de fotos com Vania Toledo e pensei em usar a tal peça, mas, ao vesti-la, me vi praticamente nua, então pensei que uma boa saída seria se a estilista Barbara Hulanicki, que na época morava em São Paulo, bordasse umas estrelas de lantejoulas prateadas cobrindo as partes mais reveladoras de minha anatomia. Mesmo assim dá para ver minha cara de quem não estava totalmente confortável dentro daquela persona peladona."

terça-feira, 5 de junho de 2018

O charme dos gatos nas capas de discos

Foi assim: Peguei na estante um CD da Miúcha com um gato na capa e daí fui atrás de outros com eles dividindo o estrelato com os artistas. Imaginei que havia muitos, não encontrei tantos assim. Aqui estão os que vieram na minha escavação. Claro que devem existir outros. Se você lembra de algum, é só avisar que incluo aqui. Y gracias, Cleiton, pelas inclusões.
PS: Já começaram a chegar os "esquecidos". Estão no fim na categoria MAS COMO EU ESQUECI DESSES. E são capas incríveis: Fellini, Pitty, Bob Dylan. E esses apenas por enquanto

                                      OS NACIONAIS
Abre e fecha com Maysa. Por quê? Ah, porque tinha olhos de gato, né. Além disso, o primeiro traz um gato siamês e o segundo, ilustração.  E tem Marisa Gata Mansa, Miúcha que inspirou tudo, Angela Roro de tênis bamba e siamês e uma contracapa de Gal com gato na ilustração - Ela preferiu sua boca (linda) para ilustrar O Sorriso do Gato de Alice. Bobinha :)

                                     
Maysa: Música de Maysa, 1960


Marisa Gata Mansa: A Suave Mariza, 1959

Miúcha: Rosa Amarela, 1999. BMG

Angela Ro Ro: Só nos Resta Viver, 1980. E o gato siamês era da fotógrafa Marisa Alvarez Lima, que clicou  a foto


Gal Costa: O Sorriso do Gato de Alice, 1993


Maysa: O Último Disco, 1974


OS GRINGOS
Claro que vai abrir (e encerrar) com Cat Stevens, o cara que tem gato no nome. E com duas capas lindas: uma abaixo e outra no fim. São ilustrações, assim como o de Joni Mitchell, mas que ilustrações - E assinadas por eles. Ueba, tem gato em dois clássicos, um pretão com Tina Turner nos anos 80 e o outro tigrado com Carole King. Tem francesa com gato? Tem sim senhor: a Syilvie Vartan com dois lindaços, um branco e outro amarelo. E duas muito das chiques: Julie London (pena que ilustração) e Peggy Lee. Atenção para o gato na capa do homem orquestra Ray Conniff: é a cara da Ema, a gata aqui de casa. E ela tinha que estar aqui, claro :)

Cat Stevens, Teaser and the Firecat, 1971

Tina Turner: Private Dancer, 84. 

Carole King: Tapestry, 1971

Joni Mitchell: Taming the Tiger, 1997
]
Sylvie Vartan: L´Homme en Noir, 1964.
Julie London: Wild, Cool & Swinging, 1991
                                                                       
Peggy Lee: All My Best

Ray Coonniff: Dance The Bop!, 1959

                                        MAS COMO ESQUECI DESSES
E já começaram os que não lembrei: Pitty, Fellini (que tem gato na capa e contracapa), Bob Dylan, Quincy Jones....
The Cure: The Love Cats, 1983


Pitty: Sete Vidas, 2014
Bob Dylan: Bringing it all Back Home, 1963
Quincy Jones: Quincy Plays for Pussycats, 1965
Blink-182: Chehire Cat, 95
Jerry Garcia Band: Cats under the stars, 1978
Jimmy Smith: The Cat, 1964
Vários: Mambo for Cats, 1957


Cher: Dark Lady, 1974

Klaxons: Surfing the Void, 2010


Fellini: Fellini Só Vive 2 Vezes, 1986



quinta-feira, 31 de maio de 2018

A matéria de Audálio Dantas que revelou Carolina de Jesus




O jornalista Audálio Dantas, 88 anos, morreu ontem. Profissional brilhante, teve uma longa e bem sucedida trajetória. "Um exemplo como jornalista e como cidadão, protagonista de um dos mais sofridos acontecimentos de nossa história recente, o assassinato de Vladimir Herzog. Junto com Fernando Pacheco Jordão colocaram corajosamente o Sindicato dos Jornalistas como Centro da resistência à ditadura em 1975.", escreveu o cineasta João Batista de Andrade no Facebook.

E um dos momentos marcantes do repórter Audálio Dantas foi no final dos anos 50: uma matéria na favela que acabou revelando a escritora Carolina Maria de Jesus, autora do best-seller Quarto de Despejo. Abaixo, em texto escrito em 1993 para o prefácio do livro, ele conta:

"Entrei na história deste livro como jornalista, verde ainda, com a emoção e a certeza de quem acreditava poder mudar o mundo. Ou, pelo menos, a favela de Canindé e outras favelas espalhadas pelo Brasil. Repórter, fui encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê, no bairro do Canindé. Lá, no rebuliço favelado, encontrei a negra Carolina, que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer. E tinha! Tanto que, na hora, desisti de escrever a reportagem.

A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história - a visão dentro da favela.

Da reportagem - reprodução de trechos do diário - publicada na Folha da Noite, em 1958, e mais tarde (1959) na revista O Cruzeiro, chegou-se ao livro, em 1960. Fui o responsável pelo que se chama edição de texto. Li todos aqueles vinte cadernos que continham o dia a dia de Carolina e seus companheiros de triste viagem."

Abaixo, a matéria de seis páginas publicada pela revista O Cruzeiro, em 1959. E no final, o link para a entrevista que Cynara Menezes fez com Audálio, em 2014, sobre Carolina de Maria de Jesus, publicada no site Socialista Morena.






Link para entrevista com Audálio sobre Carolina de Jesus, no site Socialista Morena


quarta-feira, 16 de maio de 2018

O petróleo é nosso: EUA odeiam isso. E faz tempo




O interesse americano pelo petróleo brasileiro vem originando golpes. Há quem ache isso paranoia, mas é uma situação que vem de muito tempo. Duvida? Olha então o que aconteceu com o lendário jornalista Justino Martins (1917-1983), editor da cultuada Revista do Globo, de Porto Alegre, correspondente na Europa do jornal O Globo e diretor-editor da revista Manchete por muitos anos. Na revista Status, de maio de 1975, ele falou de sua carreira para Gilberto Mansur e Daniel Más. É uma bela entrevista. E o que interessa aqui é quando ele conta que teve o visto negado pelos Estados Unidos, na metade dos anos 40. O motivo: "Você pode dizer tudo o que quiser contra o Governo americano, mas você escreveu contra a Standard Oil (Esso), que é que eu posso fazer?", ouviu do cônsul. Abaixo um trecho da entrevista, e na última pergunta ele conta a negativa do visto. E no fim da entrevista, alguns anúncios da Standard Oil (Esso) nos anos 40. Esse ao lado saiu na revista O Cruzeiro, em 1947

Revista Status, Maio de 1975

Status: Na Revista do Globo, você é quem dava a linha política?
É. E era uma linha definida; eu fazia uma revista que lutava contra a ditadura de Vargas, e que depois lutou pela libertação de Prestes, pela campanha do petróleo é nosso...


Status: E por causa disso, você acabou na Europa?

Eu fui para a Europa, logo depois da guerra, em 1946, por dois motivos: primeiro, porque todo brasileiro tem certo atavismo, né? Mesmo em terceira geração, vive olhando pra Europa. E eu, de tanto ler literatura francesa, queria ir para a Europa. E o segundo motivo é que como não pude ir para os Estados Unidos fui para a Europa. Proibido de ir para Siracuse fui para Siracusa.


Status: o motivo político
Eu tinha tomado umas posições de esquerda e estava, politicamente, muito ilhado aqui. Foi quando recebi um convite do Ministério da Educação dos Estados Unidos para dar um curso de literatura numa grande universidade de Nova York, a de Siracuse. Aquilo era uma honra, sobretudo porque eu era um cara jovem. É que, durante a guerra, tinha vindo ao Brasil um coronel - era um professor, mas vestido de coronel - junto com o John  Ford, aquele diretor de cinema. Vieram fazer filmes documentários para esse negócio de guerra e eu é que acompanhei os dois no Rio Grande do Sul. Depois, o tal professor-coronel chegou a Ministro da Educação dos Estados Unidos. E quando a universidade pediu pra ele um professor de literatura brasileira, ele se lembrou de mim.


Status: E você não pode ir?
Pois é. Teve até um banquete oferecido pela Assemblía do Rio Grande e eu aí me enfeitei todo e disse vou-me embora. Pedi licença na Livraria do Globo, que já tava querendo se livrar de mim porque eu estava fazendo uma revista praticamente comunista, embora não fosse filiado ao partido e nem pensasse nisso. Tudo pronto, fui pedir o visto no Consulado e o que aconteceu? Fui uma das primeiras pessoas a ter visto negado pelos Estados Unidos. Em boa companhia: o Dante Santoro, aquele compositor clássico, que tinha recebido um prêmio nos Estados Unidos e ia buscá-lo; o Picasso, na França, que tinha pedido o visto e acabou nunca embarcando, e eu.


Status: Você foi considerado um inimigo do Estados Unidos?
Eu cheguei, pedi o visto e o cônsul me disse: "Não podemos lhe dar o visto porque você é inimigo dos Estados Unidos". Aí eu disse: "Poxa, eu passei a guerra toda lutando a favor da causa aliada, contra o nazismo, contra a gestapo no Brasil, o facismo, integralismo, o diabo a quatro, que negócio é este?" Ele então abriu uma gaveta e me mostrou um dossiê com tudo que era reportagem minha sobra a campanha do petróleo, Monteiro Lobato, essas coisas, e me disse esta frase: "Você pode dizer tudo o que quiser contra o Governo americano, mas você escreveu contra a Standard Oil, que é que eu posso fazer?" Era uma época em que a Standard Oil pagava páginas inteiras nos jornais do Brasil com histórias em quadrinho, "provando" o mau negócio que o Brasil faria se nacionalizasse a riqueza do subsolo.

Abaixo, alguns anúncios da Standard Oil (Shell) nos anos 40

Diario de Noticias, 1945
O Cruzeiro

A Cigarra, 47

 

terça-feira, 24 de abril de 2018

Todo seio nu será excluído: a fúria dos algoritmos




O post já sem a foto
É bela a foto de Walter Luiz e foi publicada pela revista O Cruzeiro, em junho de 1970, numa reportagem de seis páginas nas filmagens de Como Era Gostoso o Meu Francês. Nela aparecem sorridentes o diretor Nelson Pereira dos Santos sem camisa e a atriz Ana Maria Magalhães, a índia Seboipep, com os seios de fora. Sábado, dia em que morreu Nelson Pereira dos Santos, Ana escreveu um belíssimo post no facebook em homenagem ao diretor e com duas fotos dessa matéria. A "com os seios de fora" foi excluída pouco depois. Sim, foi apagada da postagem da própria atriz.




No domingo pela manhã, postei a foto com um aviso: "Atenção, facebook: essa foto linda saiu na revista semanal O Cruzeiro. E a nudez é simplesmente porque o filme é sobre índios e eles andavam nus. Obrigado.". Demorou quase dois dias para receber o aviso da remoção (ao lado, o "censurado" fui eu quem escrevi) por "não seguir nossos Padrões da Comunidade", o que já havia ocorrido no Instagram, minutos depois da postagem. A postagem segue em minha linha do tempo do facebook, com o seguinte aviso: "Nós analisamos sua publicação novamente e ela não está em conformidade com nossos Padrões da Comunidade relacionados à nudez ou atividade sexual. Apenas você pode ver esta publicação." Lerda em impedir o vazamento de dados de seus usuários, a firma de Mark Zuckerberg é agilíssima quando se trata de nudez  - seios parecem ser inimigos número um.


Primeiro grande filme histórico nacional, Como Era Gostoso o Meu Francês conseguiu um certificado de censura livre em plena ditadura militar, não sem antes haver proibição para todas as idades. "Alegando "exploração em excesso por problemas de sexo", além de "mostrar desnecessariamente o nu masculino", o Serviço de Diversões Públicas do Departamento de Polícia Federal veta a exibição de Como Era Gostoso o Meu Francês em todo o território nacional, liberando-o apenas para o exterior". escreve Helena Salem no livro Nelson Pereira dos Santos - O Sonho Possível do Cinema Brasileiro.

censura livre
Nelson Pereira dos Santos foi a Brasília tentar a liberação do filme e após algumas tratativas a censura aceitou negociar o nu dos índios, mas não do homem branco. Sim, o "problema" era a nudez de Jean (Arduíno Colassanti), o francês que viveu entre os índios, o personagem título do filme. O impasse rendeu uma bela crônica de Clarice Lispector no Jornal do Brasil (abaixo), em outubro de 1971: "Talvez seja inocência minha, mas por favor me respondam: qual a diferença entre o corpo nu de um índio e o corpo nu de um homem branco?".

Em novembro, o filme foi liberado, com alguns cortes e, surpresa, "censura livre". Já havia sido exibido da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes (foi rejeitado pela seleção oficial por causa da nudez de seus personagens, dizia Nelson) e na mostra competitiva do Festival de Berlim. A estreia no Rio de Janeiro foi em janeiro de 1972 e o filme foi sucesso de público.

"Será que daqui a pouco nos escandalizaremos se virmos um menino branco nu? Por que em menino pode e em adulto não pode?", escreveu Clarice no finalzinho da crônica. Ela nem imaginava que quase quarenta anos depois, em pleno século 21, a foto de uma atriz com os seios nus seria censurada pela poderosa rede social. E da página da própria atriz. É o terror dos novos velhos tempos, travestido de algoritmos.

A crônica de Clarice Lispector citada no texto

Jornal do Brasil, 16 de novembro de 1971
.
E aqui, Ana Maria Magalhães fala de Nelson Pereira dos Santos, sobre as filmagens de Como Era Gostoso o Meu Francês e o vídeo inclui imagens do filme


E aqui, a matéria completa pela revista O Cruzeiro, em junho de 1970





Livro reúne todas as crônicas de Clarice Lispector. Ou quase

Livro Todas as Crônicas: R$ 89,90 Com uma foto belíssima, 700 páginas e capa dura, o livro Todas as Crônicas , saindo pela Rocco, im...