domingo, 10 de dezembro de 2017

Eva Todor, uma mulher de teatro e carreira de 80 anos




Eva Todor em Anastássia, 1956


“Nunca tive fracassos, períodos de declínio na minha carreira. Dos papeis de menina, passei para as velhas, sem traumas e choques, sempre numa curva ascendente”. Essa afirmação de Eva Todor foi numa entrevista em que fiz com ela quando fazia a peça Como se Tornar uma Supermãe em Dez Lições e havia acabado de gravar a novela Top Model. Eva Todor morreu hoje, aos 98 anos. Ela nasceu na Hungria, desembarcou no Brasil aos oito anos e com 14 já estava no palco. Foram mais de 70 anos de carreira e muitas, muitas peças – no começo encenava uma peça a cada mês. A Senhora da Boca do Lixo (Jorge de Andrade), Em Família (Oduvaldo Viana Filho) e o musical Chiquinha Gonzaga são algumas de suas principais montagens.  Locomotivas (1977) Te Contei (1978), Coração Alado (80), De Corpo e Alma (92), Olho no Olho (93) e  América (2005) são algumas das principais novelas em que atuou. Eva fez poucos filmes, Meu Nome não é Johnny (2006) foi dos últimos.

A trajetória da atriz está em Eva Todor – O Teatro da Minha Vida, escrito por Maria Angela de Jesus e publicado na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial de SP. No final, o link.

Abaixo, alguns momentos da grande atriz Eva Todor

1953
Revista O Cruzeiro, 1958
Revista O Cruzeiro, 1958
Revista O Cruzeiro, 1957

 
Peças dos anos 40
Peças dos anos 40

Revista A Scena Muda, 1941
Revista A Scena Muda, 1949



A Scena Muda, 1929

E aqui o link para o livro O Teatro da Minha Vida, que pode ser baixado gratuitamente

Sobre o amor, um texto de Luiz Carlos Maciel

Colunas de Luiz Carlos Maciel na Revista Ele & Ela
Por meninice minha, a coluna Underground do Pasquim que Luiz Carlos Maciel escrevia no Pasquim me chegou com alguns anos de atraso. E eu adorava uma coluna que ele mantinha na revista Ele & Ela no final dos anos 70. Sim, naqueles tempos as revistas de “mulher pelada” também eram pra ler e através delas eu, garoto interiorano, fui descobrindo um mundo. As revistas se foram após esses anos todos, as colunas de Maciel não – as páginas arrancadas passaram a habitar os livros dele, que volta e meia voltava a ler. Fiquei em dúvida de qual postar aqui: Sobre o Amor, Carta Sobre o Mistério e A Mentira do Tempo, são as preferidas e não sei se foram publicadas em livro. Optei por Sobre o Amor. Acho que ele gostaria. Ah, éramos amigos no Facebook e quando ele aceitou minha solicitação de amizade foi uma alegria tão grande, como se eu o tivesse conhecido, o que não ocorreu. E hoje, quando soube de sua morte, bateu uma tristeza imensa.


                                              Sobre O Amor
                                            Luiz Carlos Maciel

Maciel, o gato Antonico e sua mulher Maria Claudia nos posters: contracapa do livro Negócio Seguinte (1982)
Meu Amor, resolvi escrever, hoje cedo, quando acordei, uma declaração de amor. Acordei em paz e achei que seria fácil escrever coisas bonitas – pois parece que se escrevem, naturalmente, coisas assim, quando se está em paz. Considerei, com espontâneo bom senso, que, afinal, de contas, não pode existir melhor literatura do que aquela  que puder fazer um bem qualquer, mesmo um momento de alegria ou simples prazer, a nosso semelhante. E quem é meu semelhante? Você, vida, a quem julgo amar, o tempo todo, como a mim mesmo e, em certas circunstâncias, nas quais pareço experimentar, na plenitude, o que chamam de paixão, até mesmo mais do que isso.

Em seguida, porém, pensamentos posteriores, de ordem histórica, lançaram sombras sobre o sol nascente. Não, raciocinei, não vivemos um tempo de declarações de amor, mas de bens, de imposto de renda e, até, de princípios. Declarações de tudo, menos de amor. Eis uma força, sem dúvida real, cantada pelos poetas, venerada pelos religiosos, especulada, quase sempre com susto, pelos filósofos que, no entanto, não é reconhecida pela ordem formal das coisas. O amor nos parece, oficialmente, um acidente mais ou menos marginal, uma perturbação imprevista pelas leis, uma tempestade tão incontrolável quanto qualquer tempestade, e contra a qual – segundo o normal, o socialmente aceitável – é necessário alguma espécie de proteção.

Sim, na ordem social em que vivemos, a magia da paixão é um estado considerado um tanto ou quanto patológico, e nós procuramos, através de feitiçaria disciplinadora de nossos costumes, instituições, preceitos e preconceitos, substituí-la pelo medo e a necessidade de segurança. Amor não dá camisa a ninguém – esta é a conclusão da ideologia dominante, introjetada pela educação e outros meios de coação social em cada um de nós. O amor não dá, ao contrário do cálculo, da representação cotidiana ou do trabalho compulsivo e neurótico que nos acenam com promessas de camisas, calças, sapatos, sobretudos e outras miragens diabólicas. Talvez essa não seja uma maneira muito natural de viver, mas não nos importamos com isso, desde que que resolvemos que o ser humano é aquele cuja natureza, por uma contradição chocante, mas que não nos surpreende, é a de se sobrepor à própria natureza, conquistá-la, dominá-la e, por fim – como é inevitável, por uma questão de automática justiça – assassiná-la dentro de cada um de nós.

Assim são as coisas – e não adianta espernear. E aprender o jogo, segundo as normas vigentes, a dançar conforme a música, parece ser uma condição sine qua non de sobrevivência, num mundo em que a violência também parece crescer, sem impedimentos maiores, a partir da suposição tácita de que a hostilidade mútua, o ódio em todas as suas manifestações, das mais grosseiras às mais sutis, é verdadeiro regulador de nossas relações interpessoais e a base de nossa coexistência. Por isso, até nos sentimos vagamente bem, quando temos raiva de alguém ou alguma coisa, porque tal sentimento nos adapta ao mundo tal como ele funciona, não nos sentimos estrangeiros ou marginais quando ele nos domina mas, pelo contrário, cheios de razões e direitos, enquanto o amor é sempre tingido de culpa pelas ferozes artes do sistema.

A primeira regra do jogo social, observa Alan Watts, é fazer de conta que não se trata de um jogo. Apontar a farsa como farsa, denunciá-la, mostrar que o jogo, ainda que as apostas sejam feitas com o sangue de cada um, é uma audácia que desqualifica o jogador e deve ser devidamente punida. Confesso que já tentei esse lance, meu amor, como muitos de nós tentaram – e sei que sempre é possível tentar de novo, desde que não nos abandonem a imaginação e a coragem – e transgredir algumas de suas regras, na certeza de que um jogo, qualquer que seja, mesmo os que são diabolicamente apresentados em nome de ordem e da justiça humanas, é um jogo e que, portanto, suas regras só podem ter sido feitas para serem mudadas, a qualquer momento sempre que for necessário. Tentei – e não me dei muito bem. Tentei – e posso tentar de novo. Talvez esteja até tentando, sem saber, como se não nos restasse mais nada, senão tentar, e reiterar as tentativas, até que o jogo, por um milagre incalculável – pois só quem pode aspirar a esse momento é o coração, e não a cabeça -, consentisse em nos mostrar a verdadeira face e recuar para seu verdadeiro lugar, que é atrás, e não na frente do amor. Não há mais nada a fazer senão tentar, mesmo não tentando – um truque, aliás, recomendado por muitos sábios, desde Lao Tsé, pelo menos -, pois a aspiração por um mundo melhor parece ser o impulso fundamental  de nossa natureza, o avatar mais amplo e luminoso do próprio amor. Tentar é, por isso, amar ao próximo como a si mesmo, como outro sábio recomendou. E como eu te amo, meu amor. Agora, amor, coloque-se no lugar do amor, e veja o que você faria num quadro desses em que toda espontaneidade é suspeita e toda maquinação cultuada como um deus. É possível que você simplesmente silenciasse e abrisse, no vazio desse silêncio, o espaço para uma carinhosa estratégia. É isso, me parece, que o amor faz, está fazendo, o tempo todo, diante dos dentes cegos da repressão. Ele se cala e, no silêncio, alimenta as próprias energias, em calma, em paz. Em silêncio.

Desmentir as regras do jogo é deixar que elas, simplesmente, se desmintam como com efeito o fazem – para quem vê bem – todos os dias, a todo instante. A vida, filha do amor, o auxilia sem descanso nessa tarefa desmistificadora e também silenciosamente cria suas surpresas, seu terror e sua maravilha. Por isso, como dizia ainda o velho Lao Tsé, não sabe aquele que fala e cala aquele que sabe.

Tudo, não apenas o resto, é silêncio, desde que o amor, fonte da vida, é silêncio. Não precisamos misturar declarações de amor com as de bens, rendas ou princípios. Basta-nos olhar. Assim, nos olhos. Basta-nos sorrir. Basta-nos dar as mãos. Basta-nos o silêncio.

Mostrar que o jogo é um jogo, tentar, é não tentar: abrir um espaço, abraçar o vazio, para que, atrás ou na frente, fique quem deve estar lá. Não vamos deixar que o mundo, as exigências, e repressões do mundo usurpem o lugar de nosso amor e substituam com sua feitiçaria, tão cheia de promessas quanto de traições, a magia primordial que é a origem desta nossa ilusória existência. Calemo-nos. Vamos amar em silêncio. Que o carinho anteceda o discurso, que a compreensão silencie o argumento e a sensação acalme o pensamento enlouquecido que manipula o grande jogo do mundo. Não há nada a discutir, não há nada a dizer. Não há nada a pensar.

O amor, deixe que eu repita, é o silêncio.


                  Publicado na revista Ele & Ela, março de 1978

sábado, 9 de dezembro de 2017

A mulher que “popularizou” Clarice Lispector

Bethânia na capa de A Cena Muda e Clarice por Loredano


Você já viu foto de Clarice Lispector e Maria Bethânia juntas? Eu nunca – e já procurei bastante. E Bethânia, senhores, foi quem levou a escritora que tinha fama de hermética, difícil, para um público maior, incluindo seus textos em shows. Bom lembrar: os direitos pelos textos rendiam muito mais que a venda de muitos livros de Clarice, que costumava passar por dificuldades financeiras. Essa faceta de Bethânia não costuma ser muito reconhecida. O nome dela aparece em duas citações no índice remissivo da biografia de Clarice escrita por Benjamin Moser. A primeira na introdução (“Ficou mortificada quando Maria Bethânia se jogou a seus pés, exclamando “minha deusa!”) e a outra sobre uma festa de aniversário de Clarice, com Bethânia e Chico Buarque como convidados.

“Maria Bethânia me telefonou, querendo me conhecer. Conheço ou não? Dizem que é delicada. Vou resolver”, Clarice registrou, em dezembro de 1967, em crônica publicada no Jornal do Brasil. Era o primeiro ano que escrevia a coluna no jornal e parecia “assustada” com a popularidade. “Maria Bethânia me conhece dos livros. O Jornal do Brasil está me tornando popular”, escreve mais adiante.

“Curto Clarice desde os 14 anos quando li o conto A Legião Estrangeira. Fiquei fascinada, passei a reler suas histórias, tornei-me sua amiga e pude observar que suas narrações, apesar de não serem de uma linguagem tão simples, se interpõem à própria autora, que foi a rainha da simplicidade”, disse Bethânia em entrevista de 1984, época de A Hora da Estrela, o espetáculo que fez baseado o livro de Clarice.

A meninice, esses “14 anos” que Bethânia lembra, se refere a Santo Amaro da Purificação e a leitura de A Legião, recomendada pelo irmão Caetano Veloso,  veio através da revista Senhor, que publicava os contos de Clarice no fim dos anos 50. Foi em 1967 que Clarice subiu ao palco na voz da cantora. O primeiro texto foi Mineirinho, que provocava comoção em Comigo me Desavim, dirigido por Fauzi Arap. Depois veio a explosão Rosa dos Ventos, também com Fauzi como diretor, que apresentava um trecho do ainda inédito Água Viva. “Fiquei surpreso quando descobri que ela acabava ganhando mais com sua pequena participação na bilheteria do show do que com a publicação de muitos de seus livros”, escreveu Fauzi no livro de memórias Mare Nostrum.

Em 1973, Drama – Luz da Noite, outro show antológico de Bethânia, dirigido por Antonio Bivar e Isabel Câmara, também trouxe texto inédito de Clarice. “Como a maioria dos escritores, que volta e meia passam por dificuldades financeiras, Clarice nessa época tinha as suas. Bethânia tinha adoração por ela e foi extremamente generosa para com a escritora quanto aos royalties. Discretamente, sem nenhum alarde, por meio de seu empresário, ordenou à SBAT que, de todos os pagamentos aos autores do texto do show, arrecadasse uma parte maior da renda bruta para Clarice. Por um texto de oito linhas Clarice Lispector recebia 1% da renda do show em toda a sua temporada e, posteriormente, no disco. Pelo nosso trabalho de diretores do espetáculo e autores de alguns textos, Isabel e eu recebíamos, via SBAT, 2,5% cada um.”, conta Antonio Bivar no livro de memórias Aos Quatro Ventos.

“Ela vem sempre aqui conversar comigo, que criatura adorável. Todo show meu tem um texto dela. Menos este que não tem texto nenhum, só música, pois é “A Cena Muda”, contou Bethânia a Fernando Sabino em entrevista publicada no jornal do Brasil, em 1974. Dez anos depois, ela faria um espetáculo inteiro em cima de um livro de Clarice: A Hora da Estrela, direção de Naum Alves de Souza, em que dizia as falas de Macabéa. Infelizmente esse não fez sucesso e não foi lançado em disco - há uma gravação do show no youtube (no final). Canções compostas especialmente para o show - A Hora da Estrela de Cinema, O Nome da Cidade, Da Gema, Para eu Parar de me Doer - estão em A Beira e o Mar, daqueles discos que marcaram viradas na carreira da cantora. Os textos de Clarice Lispector, assim como os de Fernando Pessoa, outro “popularizado” por ela, seguem como presença marcante nos shows de Maria Bethânia. E a foto de Clarice e Bethânia juntas, existe?


Aqui, Clarice e o LSD por Fauzi Arap
http://viledesm.blogspot.com.br/2017/12/clarice-lispector-e-o-lsd-por-fauzi-arap.html

Gravação do show A Hora da Estrela (1984) no youtube




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Clarice Lispector e o LSD

Clarice Lispector e Fauzi Arap em 1965: Perto do Coração Selvagem

Nas biografias de Clarice Lispector não existe referência à experiência com LSD. Quem toca no assunto é Fauzi Arap em Mare Nostrum – Sonhos, viagens e outros caminhos, que escreveu em 1998. Foi Fauzi, que morreu em 5 de dezembro de 2013, quem aproximou a escritora de um público mais pop. Em 1965, ele adaptou Clarice para o teatro com o espetáculo Perto do Coração Selvagem, que tinha Glauce Rocha e o jovem José Wilker no elenco.. E o principal: foi Fazi quem apresentou Clarice a Maria Bethânia, incluindo textos dela nos shows da cantora, primeiro em Comigo me Desavim (1967),  depois no histórico Rosa dos Ventos, cuja  pequena porcentagem na bilheteria rendia muito mais que a venda de muitos de seus livros, e em muitos outros shows. A partir daqui é Fauzi quem conta, tudo retirado do livro, de um capítulo que se chama Perto do Coração Selvagem. Abaixo os trechos principais.

“Foi quando descobri Clarice Lispector. Em 1964 foram publicados dois livros da escritora: A Legião Estrangeira e A Paixão Segundo G.H. Mas, em minha memória, me parece que só vim a descobri-los em 1965, já em minha volta ao Rio. Desde as primeiras linhas, A Paixão se anunciava como um encontro salvador:

.... estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.

O alívio que a leitura do livro me trouxe, eu não soube explicar exatamente num primeiro momento. Mas era surpreendente como aquele livro retratava minha própria viagem lisérgica, de forma elegante e completa. Para mim, desde o início, não se tratava de literatura, mas quase de um milagre. Apesar de Clarice, na época, ser considerada uma escritora difícil, ela me soava fácil como se fosse uma velha conhecida.

(....)

Acho que desde o início planejei adaptar A Paixão para o teatro. Cheguei a rascunhar algumas ideias, mas não era fácil. E foi numa mesa de bar que Carlos Kroeber, o grande ator e homem de teatro, acabou encampando a ideia e me animando a seguir adiante. Tínhamos uma grande aliada, a grande atriz Glauce Rocha, também apaixonada pelo romance, e meu sucesso pessoal em Pequenos Burgueses me abria muitas portas. Acabei por escrever um roteiro,m que incluía A Paixão, fragmentos de A Legião Estrangeira e dois diálogos de Perto do Coração Selvagem, primeiro romance de Clarice, que acabamos escolhendo para nome do espetáculo.

A primeira vez que encontrei Clarice foi em seu apartamento no Leme, um bairro tranquilo do Rio. Fui mostrar-lhe o roteiro e quem sabe conseguir sua aprovação. Mal acabei a leitura, fui surpreendido com o que ela disse. Imaginei não ter compreendido bem, mas ela repetiu – ela realmente estava me perguntando se poderia publicar meu roteiro!? Eu perguntei: “Como assim? È tudo seu!”. E ela disse que ficava “tão simples vista por mim...

Depois da entrevista, desci eufórico com o sucesso, e só lá embaixo descobri ter esquecido a pasta com roteiro e anotações. Voltei, mas tomei o cuidado de bater na porta de serviço para tentar não incomodá-la. Mas ela me surpreendeu vindo entregar o material pessoalmente, e principalmente se desculpando comigo por nosso encontro ter sido muito “intenso”. Eu não soube o que responder e demorei a compreender o sentido que do que ela dizia. Ela insistiu, dizendo que da próxima vez falaríamos de assuntos mais leves e corriqueiros! Para mim, naquele momento ela ainda me parecia meu par ideal, com quem eu poderia no futuro falar sobre absolutamente tudo, sem censura. Mas ali eu testemunhava um primeiro indício de alguma coisa que eu viria a descobrir ser uma espécie de autocensura, que ela praticava para caber no mundo de todos.

(...)

Nos meses seguintes, voltei a visitar Clarice algumas vezes. Mas foi só aos poucos que descobri que minha insistência em conversar sobre percepções alteradas e estados de consciência especiais a incomodava. Para meu espanto, compreendi que ela só se permitia escrever sobre tudo aquilo, mas se recusava a falar da mesma forma. Assim como eu havia escolhido seu livro como álibi para falar do que me interessava, para ela também a literatura era um álibi. E seu extremo cuidado com as palavras não era casual. Era sua prática cotidiana para tentar caber no mundo, sem escandalizar ninguém. De alguma forma, ela pretendia não ser responsável pelo que escrevia.

Entre 65 e 71, com minha volta a São Paulo, pouco nos encontramos. Só depois que o tempo passou, pude compreender que, naquele momento, minha adoração silenciosa de fã e tiete, que gostaria de transferir para seu ídolo toda a responsabilidade de existir e caber dentro da vida verdadeira, era um peso a mais para sua vida torturada. Acabei incluindo textos seus nos shows que vim a fazer com Maria Bethânia, em 67, e mais tarde, em 71. E foi em 71 que nos tornamos amigos. Ela me deu os originais do livro que viria a ser publicado em 1974 – Água Viva. E eu escolhi um trecho para o final do show Rosa dos Ventos. Fiquei surpreso quando descobri que ela acabava ganhando mais com sua pequena participação na bilheteria do show do que com a publicação de muitos de seus livros. Entre 71 e 74 ficamos grandes amigos, e aí eu não era mais o fã, mas um companheiro solidário, com quem ela podia se abrir e desabafar. E foi numa dessas vezes que ela acabou me fazendo uma revelação espantosa – que ela havia experimentado o LSD, como eu, na companhia do mesmo Dr. Murilo Pereira Gomes.

Ela me disse ter aceitado experimentar o ácido num grupo de escritores, que incluía Paulo Mendes Campos, devidamente acompanhados pelo Dr. Murilo, mas que ela não havia sentido absolutamente nada. Disse até que a certa altura se ofereceu para descer e comprar sanduíches para todos. Foram preciso muitos anos, e ter me tornado seu amigo, para descobrir que a forte impressão que eu tivera de que A Paixão Segundo G.H. relatava uma experiência lisérgica não havia sido gratuita. Eu já sabia que no caso de A Paixão, ao contrário de outros romances como A Mação no Escuro, que ela reescrevera quarenta vezes, a feitura fluíra de forma espantosa. Ela me havia contado que a cada dia ditava um capítulo para uma amiga, e que não havia retocado nem uma linha.

O cuidado que o Dr. Murilo tinha de espaçar as sessões lisérgicas com um intervalo mínimo de quinze dias se devia ao fato de muitas vezes o ácido agir de forma retardada, informação que constava do folheto explicativo da Sandoz. Nos dias subsequentes a uma sessão, a qualquer momento, poderia acontecer de aflorar do inconsciente mexido algum tipo de resposta ou insight , mesmo que durante a sessão o indivíduo não tivesse se permitido o reconhecimento. Eu já conhecia outros casos de pacientes que não reagiam ao ácido, mesmo que as doses ministradas pelo Dr. Murilo fossem aumentadas e muito. No meu modo de ver, apesar de Clarice não ter sentido nada na reunião propriamente dita, com certeza foi o LSD que catalisou mais tarde o estado de verdadeira inspiração  em que ela escreveu o livro, considerado sua obra-prima. A aparente coincidência vivida por mim, em 65, ao encontrar o livro, não havia sido nada fortuita.

(...)

Não consigo ver A Paixão Segundo G.H. apenas como literatura. Embora Clarice tenha criado a personagem como um tênue disfarce sobre si mesma e suas percepções espontaneamente transcendentes, o livro não passa do relato da viagem essencial dela mesma, Clarice Lispector. Raras vezes a arte atinge essa capacidade de mergulho análoga a certos êxtases dos santos e capaz de provocar a chamada “suspensão da descrença”. Ao capturar o registro essencial de uma mudez de alma como a que vive sua personagem, Clarice acabou ultrapassando os parâmetros da cultura e da estética, para estabelecer uma verdadeira revelação. Apesar de disfarçada de “arte”, para mim, A Paixão não passa de um relato iniciático. Uma das vantagens de ser artista é o descompromisso que possibilita uma linguagem aberta, capaz de alcançar até mesmo os céticos e profanos.
(...)


Abaixo, A Mulher que "popularizou" Clarice Lispector: Maria Bethânia
http://viledesm.blogspot.com.br/2017/12/a-mulher-que-popularizou-clarice.html






segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Maria Bethânia, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino e Oscar Niemeyer falam sobre o "Homem Nu”, em 1968




O homem nu é imoral? A pergunta, quem diria, volta a ecoar em pleno século 21. Aqui, ela é título de uma matéria de capa (ao lado) da revista O Cruzeiro, de março, de 1968. É em cima da proibição da peça Cordélia Brasil, de Antonio Bivar, e abre com a nudez em página inteira do pintor e ator Luiz Jasmim, que morreu em 2013, aos 72 anos. Ele atuava na peça com Norma Bengell. Só que o “homem nu” não era o motivo da censura. “A verdade é que no meu texto não havia a indicação de homem nu. E Luiz Jasmim nem aparecia nu em cena. Mas continuava genial na autopromoção”, conta Bivar, em seu livro de memórias Mundo Adentro Vida Afora, no capítulo "Vaidade, teu nome é Jasmim".


Golpe de autopromoção à parte, a matéria é interessante. Lembra que no ano anterior a revista francesa Lui trouxe pela primeira vez publicidade com um “homem nu” e entrevista os principais artistas e intelectuais da época: Nelson Rodrigues, Oscar Niemeyer, Fernando Sabino (O filme O Homem Nu, roteiro dele, estava em cartaz) e a jovem Maria Bethânia, entre eles. É a opinião deles que interessa aqui quando o homem nu está de volta e causa polêmica entre conservadores – também de volta ou alguma vez não estiveram? 

Maria Bethânia: “Não há imoralidade alguma num homem nu como também  numa mulher nua. Acho que depende de cada um. De seu modo de ver, de encarar a situação. Cada um tem um pensamento diferente quando vê um homem nu e cada um o concebe a sua maneira. O imoral vê imoralidade. Além disso, acredito que a mulher carioca vá aceitar bem a inovação, e os homens, logicamente, farão muitas piadas. O negócio é esse mesmo: o autor tem que ter liberdade de botar para fora tudo o que vem à sua cabeça. E se um homem nu fica bem em certa situação na cena, que venha o homem nu.”

Nelson Rodrigues: “O último carnaval desmoralizou completamente a nudez. Tirou da nudez o seu suspense e todo o seu patético. Só escandalizou quem não se despiu. Aliás, é preciso estabelecer uma cronologia da culpa. A primeira culpada foi a praia. Não há nudez pior do que a do biquini. O biquini é algo semelhante ao barbante que a índia enrola em cima do umbigo. Sei que no caso presente o problema é a nudez masculina. Será imoral a nudez masculina e a feminina não? Eis uma pergunta imbecil que só poderá ter respostas igualmente imbecis. Eu diria que a nudez masculina é ignóbil para o homem, mas duvido muito que a mulher tenha uma ideia pouco lisonjeira do nu másculo. Seja como for, acho de um cinismo gigantesco que se proíba a nudez no palco e se permita a nudez carnavalesca e praiana. É só. Estou exausto.”


Fernando Sabino: “Deus criou o homem nu. A folha de parreira apareceu depois. A nudez é, pois, natural; e imoral, se imoralidade existisse, seria a vestimenta – inclusive o ato de tirá-la. Mas tudo depende da finalidade a que ela se destina – não só a de preservar o recato também natural do homem, como o de protegê-lo devidamente dos chamados rigores da natureza e adequá-lo ao meio em que exerce a sua convivência com outros homens em sociedade. Existindo tal adequação, a nudez ou a vestimenta serão necessariamente estéticas, na medida em que buscam aprimorar aquilo que já é necessariamente belo. E o que é belo jamais é imoral, se integrado em seu verdadeiro contexto. Tanto é imoral um homem nu dentro de uma igreja ou em plena rua, como um homem de terno e gravata dentro de uma piscina ou de uma sauna. A nudez de um homem ou de uma mulher é mais do que natural e bela, em si – é sagrada. Ainda mais quando perfazem o ato do amor, que é o ato da criação. A imoralidade está nos que conspurcam a nudez com seus próprios olhos ou com a imaginação, projetando em tudo a sua secreta incapacidade de amar o homem tal como ele é, tal como nasceu: pobre, sozinho e nu, frágil criatura de Deus, matéria de salvação.”

Oscar Niemeyer: “Sou contra qualquer censura que limite a criação artística, estabelecendo um clima de revolta e desacerto. Não sei se é fundamental no espetáculo a presença, no palco, de um homem nu. Mas isso é problema do autor. O importante é que o público seja informado das peças em cartaz, a fim de que escolha a que preferir.”



A capa e a abertura estão lá em cima, aqui a matéria.



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A hora da buzina: Clarice Lispector vê Chacrinha



Amanhã, sábado, faz cinquenta anos que essa crônica foi publicada: Clarice Lispector foi conferir o tão falado programa do Chacrinha, cujo centenário se comemora esse ano. Clarice ficou "triste, decepcionada?". Mas ela não gostou nem das cores do Velho Guerreiro? A TV ainda era em preto e branco. Fiquei pensando o que Clarice diria dos mais atuais O Aprendiz, Pânico, Big Brother...
Abaixo, tudo foi escrito por Clarice. E a prova está lá no final rs

                                     Chacrinha?!

De tanto falarem em Chacrinha, liguei a televisão para seu programa que me pareceu durar mais que uma hora.
E fiquei pasma. Dizem-me que esse programa é atualmente o mais popular. Mas como? O homem tem qualquer coisa de doido, e estou usando a palavra doido no seu verdadeiro sentido. O auditório também cheio. É um programa de calouros, pelo menos o que eu vi. Ocupa a chamada hora nobre da televisão. O homem se veste com roupas loucas, o calouro apresenta o seu número e, se não agrada, a buzina do Chacrinha funciona, despedindo-o. Além do mais, Chacrinha tem algo de sádico: sente-se o prazer que tem em usar a buzina. E suas gracinhas se repetem a todo o instante – falta-lhe imaginação ou ele é obcecado?
E os calouros? Como é deprimente. São de todas as idades. E em todas as idades vê-se a ânsia de aparecer, de se mostrar, de se tornar famoso, mesmo à custa do ridículo ou da humilhação. Vêm velhos até de setenta anos. Com exceções, os calouros, que são de origem humilde, têm ar de subnutridos. E o auditório aplaude. Há prêmios em dinheiro para os que acertarem através de cartas o número de buzinadas que Chacrinha dará; pelo menos foi assim no programa que vi. Será pela possibilidade da sorte de ganhar dinheiro, como em loteria, que o programa tem tal popularidade? Ou será por pobreza de espírito de nosso povo? Ou será que os telespectadores têm em si um pouco de sadismo que se compraz no sadismo de Chacrinha?

Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios. Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada, eu quereria um povo mais exigente.


Publicado no Jornal do Brasil em 7 de outubro de 1967. Está no livro A Descoberta do Mundo, que reúne as crônicas que ela escreveu lá, de agosto de 1967 até dezembro 1973. E, meio ao estilo O Aprendiz, Clarice Lispector foi demitida por telefone, com três crônicas que não foram publicadas.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Quando Astolfo adotou o nome de Rogéria

Rogéria morreu ontem, 4 de setembro, aos 74 anos. Quando soube lembrei de uma foto que postara há tempos no facebook, ela de Astolfo e Rogéria, e a publiquei novamente em homenagem a ela. Aqui está a reportagem inteira: são seis páginas da revista O Cruzeiro, de agosto de 1967, matéria assinada por Jorge Audi. Rogéria tinha 22 anos (na verdade 24, deve ter diminuído dois anos), e imitava Jean Harlow, Marilyn Monroe e Carmen Miranda em Deu a Louca em Hollywood, de Carlos Machado. "A conquista do sucesso, pelas armas da simpatia, da espontaneidade e do esforço", escreve o repórter. Abaixo, as seis páginas e depois a matéria inteira, que vale a pena ser lida.








                   
                               Quando Astolfo adotou o nome de Rogéria
                                     Reportagem de Jorge Audi


Um pouco de imaginação, um pouco de técnica e uma boa dose de paciência. Máquina fotográfica e algumas lâmpadas própria. Atrás da máquina, um fotógrafo; do outro lado, um bm profissional na arte de representar. E ela, em fotos, a história de uma conquista. Naturalmente, que na realidade, se trata de um truque válido somente para ilustrar um episódio humano. Não da conquista de uma mulher por um homem, como faz crer a ilustração. Mas a de uma personalidade por outra. De Astolfo Barroso Pinto por Rogéria; duas personalidades bem distintas numa só pessoa. Nas fotos, portanto, só existe um personagem posando. Ora como Rogéria, ora como Astolfo, um dos melhores travestis que já surgiram nos palcos brasileiros. 

Astolfo Barroso Pinto tem 22 anos. Nasceu em Cantagalo, no estado do Rio, e ainda mora naquele estado, exatamente em Niterói. Teve infância feliz e lembra com felicidade de brincadeira típicas daquelas idades. Tem dois irmãos e "a mãe mais espetacular do mundo". Afirma que sua compreensão foi básica na luta pelo sucesso. Sempre uma palavra de incentivo e coragem, quando voltava da rua carregado de dúvidas e desânimo. Estudou até a idade de 17 anos, tendo cursado o ginasial e iniciado o científico. Daí veio a necessidade de trabalhar. Dois anos, funcionou como maquilador nas televisões cariocas, razão pela qual é perito nessa técnica.

A personalidade de Rogéria começou a surgir num baile de carnaval, em 1961, quando, pela primeira vez, fez travesti. Noutro baile, três anos depois, fantasiou-se de Dama da Noite, uma criação de Geraldo Cavalcanti. Ganhou prêmio de originalidade e o olhar técnico de um descobridor de sucessos. Hugo de Freitas, que montava um show de travestis na Galeria Alasca, fez-lhe o convite. International Set era o título do espetáculo que ficou nove meses em cartaz. Rogéria começou como figura de destaque e logo passou a ser estrela. Era o caminho do sucesso. Dali veio um show de grande montagem, Les Girls, que ficou em cena dois anos e foi exibido em vários estados do Brasil. Quando terminou, havia deixado um salto de grandes experiências em viagens, novas amizades e um melhor lugar no estrelato. E, ainda mais, um prêmio como melhor travesti. Depois levou sua arte para outros ares. São Paulo, onde trabalhou no Michel e La Vie en Rose. Fez, ainda Folias 66, show de Eloína. 

Voltou ao Rio para Alô, Bonecas, no Stop, e Agora é que São Elas, no Teatro Dulcina. É aí que Rogéria conta uma história de decepção. Não cumpriram os pagamentos tratados e viu-se obrigada a abandonar os espetáculos, que terminaram no dia seguinte.

Já colecionou vários prêmios e troféus. Isso, naturalmente, porque se dedica e gosta do trabalho que faz. Adora ficar em casa, sem fazer nada, o que raramente consegue, em face da quantidade de compromissos. Dorme quando normalmente se acorda e acorda quando normalmente se dorme. 

Sua grande chance surgiu com um contrato de Carlos Machado, para estrelar Pussy, Pussy, Pussy Cat, peça que lotou a casa durante sete meses e na qual apareceram todas as certinhas do Stanislaw Ponte Preta. Além desse show de Machado, no Fred´s, ainda está fazendo Vem Quente Que Estou Fervendo, de Gomes Leal, no Teatro Rival, e Balanço das Boasm no Beco, de Denis Duarte, no Little Club. No momento, está apresentando Deu a Louca em Hollywood, onde imita Jean Harlow, Marilyn Monroe e Carmen Miranda. O novo espetáculo de Carlos Machado conta com a participação do coreógrafo e figurinista Juan Carlos Berardi, que é o orientador profissional de Rogéria. E aqui termina a história de uma conquista. A conquista do sucesso, pelas armas da simpatia. da espontaneidade e do esforço. Uma história de Astolfo Barroso Pinto, ou de Rpgéria.

                  Revista O Cruzeiro, 26 de agosto de 1967


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