segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Maria Bethânia, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino e Oscar Niemeyer falam sobre o "Homem Nu”, em 1968




O homem nu é imoral? A pergunta, quem diria, volta a ecoar em pleno século 21. Aqui, ela é título de uma matéria de capa (ao lado) da revista O Cruzeiro, de março, de 1968. É em cima da proibição da peça Cordélia Brasil, de Antonio Bivar, e abre com a nudez em página inteira do pintor e ator Luiz Jasmim, que morreu em 2013, aos 72 anos. Ele atuava na peça com Norma Bengell. Só que o “homem nu” não era o motivo da censura. “A verdade é que no meu texto não havia a indicação de homem nu. E Luiz Jasmim nem aparecia nu em cena. Mas continuava genial na autopromoção”, conta Bivar, em seu livro de memórias Mundo Adentro Vida Afora, no capítulo "Vaidade, teu nome é Jasmim".


Golpe de autopromoção à parte, a matéria é interessante. Lembra que no ano anterior a revista francesa Lui trouxe pela primeira vez publicidade com um “homem nu” e entrevista os principais artistas e intelectuais da época: Nelson Rodrigues, Oscar Niemeyer, Fernando Sabino (O filme O Homem Nu, roteiro dele, estava em cartaz) e a jovem Maria Bethânia, entre eles. É a opinião deles que interessa aqui quando o homem nu está de volta e causa polêmica entre conservadores – também de volta ou alguma vez não estiveram? 

Maria Bethânia: “Não há imoralidade alguma num homem nu como também  numa mulher nua. Acho que depende de cada um. De seu modo de ver, de encarar a situação. Cada um tem um pensamento diferente quando vê um homem nu e cada um o concebe a sua maneira. O imoral vê imoralidade. Além disso, acredito que a mulher carioca vá aceitar bem a inovação, e os homens, logicamente, farão muitas piadas. O negócio é esse mesmo: o autor tem que ter liberdade de botar para fora tudo o que vem à sua cabeça. E se um homem nu fica bem em certa situação na cena, que venha o homem nu.”

Nelson Rodrigues: “O último carnaval desmoralizou completamente a nudez. Tirou da nudez o seu suspense e todo o seu patético. Só escandalizou quem não se despiu. Aliás, é preciso estabelecer uma cronologia da culpa. A primeira culpada foi a praia. Não há nudez pior do que a do biquini. O biquini é algo semelhante ao barbante que a índia enrola em cima do umbigo. Sei que no caso presente o problema é a nudez masculina. Será imoral a nudez masculina e a feminina não? Eis uma pergunta imbecil que só poderá ter respostas igualmente imbecis. Eu diria que a nudez masculina é ignóbil para o homem, mas duvido muito que a mulher tenha uma ideia pouco lisonjeira do nu másculo. Seja como for, acho de um cinismo gigantesco que se proíba a nudez no palco e se permita a nudez carnavalesca e praiana. É só. Estou exausto.”


Fernando Sabino: “Deus criou o homem nu. A folha de parreira apareceu depois. A nudez é, pois, natural; e imoral, se imoralidade existisse, seria a vestimenta – inclusive o ato de tirá-la. Mas tudo depende da finalidade a que ela se destina – não só a de preservar o recato também natural do homem, como o de protegê-lo devidamente dos chamados rigores da natureza e adequá-lo ao meio em que exerce a sua convivência com outros homens em sociedade. Existindo tal adequação, a nudez ou a vestimenta serão necessariamente estéticas, na medida em que buscam aprimorar aquilo que já é necessariamente belo. E o que é belo jamais é imoral, se integrado em seu verdadeiro contexto. Tanto é imoral um homem nu dentro de uma igreja ou em plena rua, como um homem de terno e gravata dentro de uma piscina ou de uma sauna. A nudez de um homem ou de uma mulher é mais do que natural e bela, em si – é sagrada. Ainda mais quando perfazem o ato do amor, que é o ato da criação. A imoralidade está nos que conspurcam a nudez com seus próprios olhos ou com a imaginação, projetando em tudo a sua secreta incapacidade de amar o homem tal como ele é, tal como nasceu: pobre, sozinho e nu, frágil criatura de Deus, matéria de salvação.”

Oscar Niemeyer: “Sou contra qualquer censura que limite a criação artística, estabelecendo um clima de revolta e desacerto. Não sei se é fundamental no espetáculo a presença, no palco, de um homem nu. Mas isso é problema do autor. O importante é que o público seja informado das peças em cartaz, a fim de que escolha a que preferir.”



A capa e a abertura estão lá em cima, aqui a matéria.



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A hora da buzina: Clarice Lispector vê Chacrinha



Amanhã, sábado, faz cinquenta anos que essa crônica foi publicada: Clarice Lispector foi conferir o tão falado programa do Chacrinha, cujo centenário se comemora esse ano. Clarice ficou "triste, decepcionada?". Mas ela não gostou nem das cores do Velho Guerreiro? A TV ainda era em preto e branco. Fiquei pensando o que Clarice diria dos mais atuais O Aprendiz, Pânico, Big Brother...
Abaixo, tudo foi escrito por Clarice. E a prova está lá no final rs

                                     Chacrinha?!

De tanto falarem em Chacrinha, liguei a televisão para seu programa que me pareceu durar mais que uma hora.
E fiquei pasma. Dizem-me que esse programa é atualmente o mais popular. Mas como? O homem tem qualquer coisa de doido, e estou usando a palavra doido no seu verdadeiro sentido. O auditório também cheio. É um programa de calouros, pelo menos o que eu vi. Ocupa a chamada hora nobre da televisão. O homem se veste com roupas loucas, o calouro apresenta o seu número e, se não agrada, a buzina do Chacrinha funciona, despedindo-o. Além do mais, Chacrinha tem algo de sádico: sente-se o prazer que tem em usar a buzina. E suas gracinhas se repetem a todo o instante – falta-lhe imaginação ou ele é obcecado?
E os calouros? Como é deprimente. São de todas as idades. E em todas as idades vê-se a ânsia de aparecer, de se mostrar, de se tornar famoso, mesmo à custa do ridículo ou da humilhação. Vêm velhos até de setenta anos. Com exceções, os calouros, que são de origem humilde, têm ar de subnutridos. E o auditório aplaude. Há prêmios em dinheiro para os que acertarem através de cartas o número de buzinadas que Chacrinha dará; pelo menos foi assim no programa que vi. Será pela possibilidade da sorte de ganhar dinheiro, como em loteria, que o programa tem tal popularidade? Ou será por pobreza de espírito de nosso povo? Ou será que os telespectadores têm em si um pouco de sadismo que se compraz no sadismo de Chacrinha?

Não entendo. Nossa televisão, com exceções, é pobre, além de superlotada de anúncios. Mas Chacrinha foi demais. Simplesmente não entendi o fenômeno. E fiquei triste, decepcionada, eu quereria um povo mais exigente.


Publicado no Jornal do Brasil em 7 de outubro de 1967. Está no livro A Descoberta do Mundo, que reúne as crônicas que ela escreveu lá, de agosto de 1967 até dezembro 1973. E, meio ao estilo O Aprendiz, Clarice Lispector foi demitida por telefone, com três crônicas que não foram publicadas.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Quando Astolfo adotou o nome de Rogéria

Rogéria morreu ontem, 4 de setembro, aos 74 anos. Quando soube lembrei de uma foto que postara há tempos no facebook, ela de Astolfo e Rogéria, e a publiquei novamente em homenagem a ela. Aqui está a reportagem inteira: são seis páginas da revista O Cruzeiro, de agosto de 1967, matéria assinada por Jorge Audi. Rogéria tinha 22 anos (na verdade 24, deve ter diminuído dois anos), e imitava Jean Harlow, Marilyn Monroe e Carmen Miranda em Deu a Louca em Hollywood, de Carlos Machado. "A conquista do sucesso, pelas armas da simpatia, da espontaneidade e do esforço", escreve o repórter. Abaixo, as seis páginas e depois a matéria inteira, que vale a pena ser lida.








                   
                               Quando Astolfo adotou o nome de Rogéria
                                     Reportagem de Jorge Audi


Um pouco de imaginação, um pouco de técnica e uma boa dose de paciência. Máquina fotográfica e algumas lâmpadas própria. Atrás da máquina, um fotógrafo; do outro lado, um bm profissional na arte de representar. E ela, em fotos, a história de uma conquista. Naturalmente, que na realidade, se trata de um truque válido somente para ilustrar um episódio humano. Não da conquista de uma mulher por um homem, como faz crer a ilustração. Mas a de uma personalidade por outra. De Astolfo Barroso Pinto por Rogéria; duas personalidades bem distintas numa só pessoa. Nas fotos, portanto, só existe um personagem posando. Ora como Rogéria, ora como Astolfo, um dos melhores travestis que já surgiram nos palcos brasileiros. 

Astolfo Barroso Pinto tem 22 anos. Nasceu em Cantagalo, no estado do Rio, e ainda mora naquele estado, exatamente em Niterói. Teve infância feliz e lembra com felicidade de brincadeira típicas daquelas idades. Tem dois irmãos e "a mãe mais espetacular do mundo". Afirma que sua compreensão foi básica na luta pelo sucesso. Sempre uma palavra de incentivo e coragem, quando voltava da rua carregado de dúvidas e desânimo. Estudou até a idade de 17 anos, tendo cursado o ginasial e iniciado o científico. Daí veio a necessidade de trabalhar. Dois anos, funcionou como maquilador nas televisões cariocas, razão pela qual é perito nessa técnica.

A personalidade de Rogéria começou a surgir num baile de carnaval, em 1961, quando, pela primeira vez, fez travesti. Noutro baile, três anos depois, fantasiou-se de Dama da Noite, uma criação de Geraldo Cavalcanti. Ganhou prêmio de originalidade e o olhar técnico de um descobridor de sucessos. Hugo de Freitas, que montava um show de travestis na Galeria Alasca, fez-lhe o convite. International Set era o título do espetáculo que ficou nove meses em cartaz. Rogéria começou como figura de destaque e logo passou a ser estrela. Era o caminho do sucesso. Dali veio um show de grande montagem, Les Girls, que ficou em cena dois anos e foi exibido em vários estados do Brasil. Quando terminou, havia deixado um salto de grandes experiências em viagens, novas amizades e um melhor lugar no estrelato. E, ainda mais, um prêmio como melhor travesti. Depois levou sua arte para outros ares. São Paulo, onde trabalhou no Michel e La Vie en Rose. Fez, ainda Folias 66, show de Eloína. 

Voltou ao Rio para Alô, Bonecas, no Stop, e Agora é que São Elas, no Teatro Dulcina. É aí que Rogéria conta uma história de decepção. Não cumpriram os pagamentos tratados e viu-se obrigada a abandonar os espetáculos, que terminaram no dia seguinte.

Já colecionou vários prêmios e troféus. Isso, naturalmente, porque se dedica e gosta do trabalho que faz. Adora ficar em casa, sem fazer nada, o que raramente consegue, em face da quantidade de compromissos. Dorme quando normalmente se acorda e acorda quando normalmente se dorme. 

Sua grande chance surgiu com um contrato de Carlos Machado, para estrelar Pussy, Pussy, Pussy Cat, peça que lotou a casa durante sete meses e na qual apareceram todas as certinhas do Stanislaw Ponte Preta. Além desse show de Machado, no Fred´s, ainda está fazendo Vem Quente Que Estou Fervendo, de Gomes Leal, no Teatro Rival, e Balanço das Boasm no Beco, de Denis Duarte, no Little Club. No momento, está apresentando Deu a Louca em Hollywood, onde imita Jean Harlow, Marilyn Monroe e Carmen Miranda. O novo espetáculo de Carlos Machado conta com a participação do coreógrafo e figurinista Juan Carlos Berardi, que é o orientador profissional de Rogéria. E aqui termina a história de uma conquista. A conquista do sucesso, pelas armas da simpatia. da espontaneidade e do esforço. Uma história de Astolfo Barroso Pinto, ou de Rpgéria.

                  Revista O Cruzeiro, 26 de agosto de 1967


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Flores segundo Clarice Lispector

Cleyde Yaconis em seu jardim. Jordanésia
Ela, a primavera, vem aos poucos e já anda por aí. É só reparar no sol, na maneira como ele bate e se firma, e no canto de alguns pássaros, como o sabiá, para perceber a sua presença. Para saudá-la, fui buscar um catálogo imenso de flores e uma escritora poderosa para falar delas. Abaixo, flores, muitas flores e por Clarice Lispector. Ah, é mais uma daquelas falsidades de internet e não foi ela quem escreveu. Foi, criatura. Foi ela. Duvida? Pega um exemplar de Água Viva e se não leu seu queixo vai cair. É impressionante a cada linha. Poderia até dizer o número da página em que começa esse trecho das flores, mas varia de acordo com a edição - está lá pela metade do livro. 

Ah, para abrir, uma foto de Cleyde Yaconis em seu jardim. Ela amava flores, as colecionavava e me ensinou a gostar ainda mais delas. E abaixo, foi tudo escrito por Clarice Lispector

                        FLORES SEGUNDO CLARICE LISPECTOR

Rosa é flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas têm gosto bom na boca – é só experimentar. Mas rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sensualidade. As brancas são a paz de Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosas brancas. As amarelas são de um alarme alegre. As cor-de-rosa são em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.
  
Já o cravo tem um agressividade que vem de certa irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas de suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram o pequeno caixão de criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com horror. Como transportar o cravo para a tela 

O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Não importa se é pai ou mãe. Não sei. Será o girassol flor feminina ou masculina? Acho que masculina.


A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca o seu perfume. Violetas diz levezas que não se podem dizer.

A sempre-viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego quer dizer: sol de ouro. 

A margarida é florzinha alegre. É simples e à tona da pele. Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil.

A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é espontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre porque é epífita. Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática. Adoro orquídeas. Já nascem artificiais, já nascem arte.


Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.


Flor dos trigais só dá no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Nos presépios da Espanha não se separa dos ramos de trigo. É um pequeno coração batendo.


Mas angélica é perigosa. Tem perfume de capela. Traz êxtase. Lembra a hóstia. Muitos têm vontade de comê-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado.

O jasmim é dos namorados. Dá vontade de pôr reticências agora. Eles andam de mãos dadas, balançando os braços e se dão beijos suaves ao quase som odorante do jasmim.

Estrelícia é masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e o seu canto. Só que não espera pela aurora. A violência de tua beleza.


Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora e é para quem ama o perigo. Só sai de noite com o seu cheiro tonteador. Dama-da-noite é silente. E também da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosíssima: é um assobio no escuro, o que ninguém agüenta. Mas eu agüento porque amo o perigo. Quanto à suculenta flor de cactus, é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o esplendor nascendo da esterilidade despótica.

Estou com preguiça de falar de edelvais. É que se encontra à altura de três mil e quatrocentos metros de altitude. É branca e lanosa. Raramente alcançável é a aspiração.


Gerânio é flor de canteiro de janela. Encontra-se em São Paulo, no bairro de Grajaú e na Suíça.

Vitória-régia está no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Enorme e até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, é de se morrer delas. Elas são o amazônico: o dinossauro das flores. Espalham grande tranqüilidade. A um tempo majestosas e simples. E apesar de viverem no nível das águas elas dão sombras. Isto que estou te escrevendo é em latim: de natura florum. Depois te mostrarei o meu estudo já transformado em desenho linear.

O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria.

      Trecho do livro Água Viva, de Clarice Lispector





quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O que a vida me ensinou: Somerset Maugham

Autoajuda é algo que não me atrai - tanto que nunca lembro como se escreve, se leva hífen. Adoro ler sobre experiências das pessoas contadas de maneira assim como se aquilo nem tivesse ocorrido com elas e não estivessem querendo passar nada. E quanto mais velhas elas estiverem maior é meu interesse. Hoje me apareceu - no sentido de aparição mesmo - este texto de Somerset Maugham. Ele escreveu dois dos melhores livros que li - Servidão Humana e O Fio da Navalha - e sempre presto atenção quando topo com seu nome. Esse O que a vida me ensinou é divertido e profundo, lê-lo é como se fosse uma visita ao velho escritor. Foi escrito em 1963, quando ele tinha 87 anos, dois anos antes de sua morte, no final de 1965, na Riviera Francesa de que ele fala aqui.


Quando o leitor tiver a minha idade descobrirá que, das seis horas da tarde em diante, a vida começa a se tornar um pouco mais difícil. Mas, se você tomar um uísque a esta hora, a noite será mais fácil de enfrentar.

Escrevi meu primeiro romance, Liza de Lambeth (O Pecado de Liza), à noite, no período em que frequentava a escola de medicina. Recomendo vivamente o exercício da medicina como preparação básica à carreira literária. Quando as pessoas vão ao hospital ficam, em geral, confusas e temerosas. Podemos vê-las sem suas máscaras. Podemos ver a vida em toda a sua crueza.

Só estive na Rússia uma vez, em 1918. Era um agente britânico em Petrogrado e a revolução marchava a passos largos. Nunca mais voltei, mas há poucos meses, por uma razão misteriosa, recebi meu primeiro cheque, por direitos autorais, vindo da Rússia. Sei que lá traduziram minhas obras, juntamente com a de outros autores, durante anos e anos, sem nunca pagarem os direitos. Subitamente, sem explicações, enviam-me um cheque, por uma peça teatral que mal me lembro de ter escrito. Os russos são difíceis de entender.

Recebo muitas visitas em minha velhice. Jean Cocteau, bom amigo, vem frequentemente. Adlai Stevenson esteve aqui. Do mesmo modo Cecil Beaton, Marc Chagall, S. J. Pereleman, Art Buchwald e Christoper Isherwood.

Um dos últimos visitantes não era famoso, mas causou-me uma grande impressão. Era um marinheiro da Sexta Esquadra Americana. Aparentava ser um rapaz correto e inteligente. Descobrimos, depois de ter saído, que levara todas as canetas do meu escritório, enquanto eu mostrava a casa. Cerca de um mês depois, escreveu-me uma agradável carta, agradecendo-me a hospitalidade. Terminava, dizendo ter-me escrito com uma das canetas que levara.

Na minha idade, ninguém se irrita com um incidente desta natureza. Na realidade, considerei-o de uma malícia encantadora. Rio sempre ao contar a história. O rapaz tinha um maravilhoso senso de ironia.

Gosto de viajar, apesar de velho. A América é muito cansativa para mim. Gosto de ir à Alemanha, a Baireuth, ouvir o “Anel dos Niebelungen”, de Wagner.

Tenho muita dificuldade em lidar com jornalistas. Não faz muito tempo, um repórter chegou aqui, vindo de Londres. Disse que desejava entrevistar-me e que na sua pasta tinha todas as informações de que precisava, sobre minha formação. Perguntei-lhe se tinha um exemplar do meu necrológio. Isto causou-lhe espanto. Prometi-lhe, porém, uma excelente entrevista, se me deixasse ler meu necrológio. Ele o tinha consigo realmente e deu-mo para ler. Achei-o um pouco frio e indaguei se poderia dar-lhe um pouco de calor. Quando concordou, concedi-lhe a entrevista.

A vizinhança de Cap Ferrat mudou completamente. Quando vim para cá só havia 30 casas no Cap. Agora existem duzentas. A área desenvolveu-se tanto que organizou-se um sindicato de ladrões.

Logo depois da guerra, estes homens, os ladroões das “villas”, começaram a rondar e avisaram que se desse uma contribuição anual, minha casa não seria tocada. Pareceu-me razoável a proposta. Pago-lhes, pois, todos os anos. Contudo, um dos meus vizinhos expulsou-os quando vieram ter com ele. Nas férias seguintes não só furtaram sua propriedade, mas, vindo em carroções, limparam-no completamente. Vez por outra, deixam bilhetes nas estradas, para avisar-me de que estão por perto. Devo dizer que mantiveram a palavra. Negócio é negócio.

Tenho receio de que o problema dos jovens, hoje, se prenda ao fato de se tomarem muito a sério. Uma pessoa com vinte ou trinta anos não deve se levar muito a sério. Aos quarenta anos, talvez. Mais provavelmente, aos cinquenta. Não estou bem certo. Tenho oitenta e sete anos e não sei se já me tomei a sério alguma vez na vida.

Quando moços, não podemos permitir dizer tais coisas. O leitor pode inferir daí que a idade nos traz muitas vantagens. Na minha juventude nunca toleraria que surrupiassem as canetas ou que ladrões exigissem remuneração.  Mas, uma atitude serena em face destes aspectos do comportamento humano, é um dos prazeres da velhice.

Significa muito estar livre das cadeias do egoísmo: ciúme, inveja, inquietude, sofreguidão, tudo isso que distorce a visão da realidade. Agora que as opiniões demasiadamente pessoais estão virtualmente extintas, encontro prazer simplesmente em olhar em torno e sorrir um pouco da condição humana. Francamente, às vezes fico pensando com pude viver tanto tempo sem as recompensas de minha idade.


                      Publicado no jornal Diário Carioca, em 1963

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Sam Shepard, Patti Smith e o tempo passando

Sam Shepard na casa de Patti Smith, em 2006, no documentário Dream of Life
Na segunda-feira estranha, a notícia da morte de Sam Shepard veio no rastro da de Jeanne Moreau e logo pensei em Patti Smith. Também em Jessica Lange, com quem ele viveu 17 anos, mas mais em Patti. Escrevendo assim parece que os conhecia, que são amigos, da família ou algo assim e, de certo modo, são. A parte de Só Garotos em que ela conta o relacionamento (curto) dos dois, que teve o Chelsea Hotel como cenário, havia ficado comigo. Corri ao livro, umas dez páginas tocantes, e um fim de romance pra não se esquecer:

Antes de Sam ir embora de Nova York para Nova Scotia, ele me deu algum dinheiro em um envelope. Era para eu me cuidar.
Olhou para mim, meu caubói com jeito de índio. “Você sabe, os sonhos que você teve comigo não eram os meus sonhos”, ele disse. “Talvez sejam só sonhos seus.”

No dia seguinte, ela escreveu um texto tocante na The New Yorker (link abaixo) se despedindo do amigo. É como se fosse um final para a parte Sam e Patti de Só Garotos, que não tinha acabado nos “sonhos meus", "sonhos seus” do adeus de 1971 e virara uma amizade depois desses anos todos.

O joelho de Patti e a mão de Sam
Hoje,os dois me chegaram em Dream of Life, documentário sobre Patti, de 2006. Antes do encontro, ela mostra o violão “um velho Gibson preto 1931, um modelo da depressão”, que Shepard comprou para ela numa loja do Village quando do romance no Chelsea Hotel. Um pouco mais adiante, a sequência tocante: Na casa dela, eles cantam e tocam violão, Sam mais ri do que fala e Patti relembra a tatuagem que fizeram juntos quando jovens (a dele uma lua crescente na mão esquerda e a dela, um raio    no joelho esquerdo). “Foi uma noite estranha”, comenta         Sam Shepard. E daí cantam “Foi uma noite estranha no       Chelsea Hotel”.




Aqui, o texto de Patti na New Yorker: My Buddy. Em inglês


Aqui, o documentário Dream of Life (com legendas em espanhol). É de se ver inteiro, mas o encontro dos dois é no 47:27





quinta-feira, 25 de maio de 2017

Viva o amor

Em um apartamento perdido na cidade, comemoravam um mês juntos numa espécie de encantamento tudo a ver com a noite de sábado, outono a pleno. Um mês é bodas de que mesmo? Pouco interessa, o que importa é a felicidade no instante em que ela é e ela habitava naquele ali e então. E os bestinhas aproveitavam o momento, sem ligar para o cenário em ruínas ao redor deles, que incluía a possível queda do presidente golpista que tinha derrubado presidenta eleita. Se ele cair, que ele caia, pois tudo raia. Era assim.

Riam, zoavam um com a cara do outro, dançavam, se agarravam, suspiravam, lacrimavam. Bom explicar: havia o ser suspirento e o ser lacrimoso, pois se as duas características se juntassem em um corpo só seria duro aguentar. E tudo regado à música, de épocas e gêneros variados que saía de vinis, i-pod e CDs. Do brega ao considerado chique sem a menor cerimônia. “Essa é pra você” e lá vinha ~~ eu estou completamente apaixonada amor ~~ com a cantora brega dos anos 70, que se misturava ao vozeirão masculino começo dos 60: ~~ tá vendo esse cara? Esse cara está amando você ~~ Essa era das gringas, mas havia um com espírito ali que brincava de tradutor de rádio de outros tempos.


Num determinado momento, houve a necessidade de recorrer ao celular para verificar o que mesmo? Algo. E nas mensagens havia uma foto enviada secretamente pelo outro há minutos, um retrato de quando era criança. Lacrimou ao perceber o mimo e com mel na voz perguntou: “é presente do nosso primeiro mês?”. A resposta veio seguida de um suspiro: “É. Pode ser”. Daí, levantaram pra se beijar e uma voz de mulher se fez ouvir ~~ Viva o Amor. Viva vocês ~~. Era Isaurinha Garcia, Nua & crua, o disco que tocava no momento. Caíram na risada, houve suspiros, houve lacrimejos e beijos, muitos e intensos beijos naquela comemoração que fim parecia não ter. Era a felicidade no instante em que ela é.

Maria Bethânia, Nelson Rodrigues, Fernando Sabino e Oscar Niemeyer falam sobre o "Homem Nu”, em 1968

O homem nu é imoral? A pergunta, quem diria, volta a ecoar em pleno século 21. Aqui, ela é título de uma matéria de capa (ao lad...