sábado, 30 de maio de 2009

Meus três eu


Quando se fala em pessoas com várias personalidades, costuma-se citar o filme As Três Máscaras de Eva, com a Joanne Woodward. Minha referência é outra. A Lara/Diana/Marcia que Glória Menezes viveu na novela Irmãos Coragem. Parece que Janete Clair se inspirou no tal filme, inclusive.

Bom, tudo isso pra contar que também sou três. Nem me venha com “cuidado com a esquizofrenia”: é nada disso. O Vilmar é o mais conhecido. Mas também existem o Vitor e o Horácio. O Vitor tem até sobrenome, e-mail. Ele costuma escrever pra jornais reclamando e inclusive já foi publicado. Também ataca em outros e mais descontraídos momentos que também vou manter em suspense. É bem mais extrovertido e atirado.

Horácio é o mais maluco, pois existe para apenas uma pessoa, uma amiga querida. Tabalhamos numa redação há trocentos anos e brincávamos de trocar os nomes, como se o pessoal de um escritório fosse. Ela era Marlene, eu, Horácio e não lembro dos nomes dos outros colegas. Bom, mas nossos codinomes ficaram e a gente só se chama assim. Ela mora em Nova York e escreve pro Horácio, não pro Vilmar, que entende tudo e se diverte com isso. Ah, Horácio e Vitor também convivem bem entre si. Já Vilmar e Vitor... bom, eles são farinha do mesmo saco.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sons que me soam

Sons que de repente chegam e se fazem notar. Gosto dos que realizam isso discretamente. Odeio os estridentes, feito buzinas e em praticamente todos os casos. E me irritam os provocados, como alguém batucando com os dedos na cadeira ou na mesa sem motivo algum, só por não ter nada melhor que fazer.

Agora, existem aqueles que me capturam, me fazem pensar e até sonhar. O tic-tac do relógio de parede da cozinha na madrugada é um deles. Bom demais ir andando pela casa, melhor ainda no escuro, e sentir aquele sonido suave rompendo o silêncio. É o martelar do tempo, implacável mas com certa discrição.

Outro é um certo farfalhar que minha gata faz ao comer. Seus dentes triturando os grãos de ração produzem um barulhinho suave que muitas vezes se mistura a um charmoso ronronado, principalmente quando estou por perto a observar. É irresistível: sento ali perto e observo até ela saciar o apetite. Volta e meia ela me devolve um olhar misto de felicidade por eu estar ali com um por que você está com essa cara tão interessada.

O terceiro é o sacolejar de um penduricalho de pedras azuis pendurado na janela da sala. Esse nem sempre é agradável e depende muito da intensidade do vento. Se ele é forte, pode até irritar. Mas quando o vento vem suave produz uma sonoridade discreta e insistente, como se um leve sino de antiga igreja fosse. Existem sons que de repente chegam e se fazem notar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Documentários musicais para 2040

Tem muita gente comentando Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei. E vem aí Loki, obra-prima sobre Arnaldo Baptista. Ambos falam de ídolos do começo dos 70 numa onda de documentários musicais nacionais. Fiquei pensando o que as novas gerações podem esperar e imaginei produções que possam atiçar as massas daqui a uns 30 e poucos anos, Eis a safra de documentários para 2040.

Tem pelos menos três inevitáveis. Sempre Fui Anjo vai misturar pagode, mulheres, sexo, polícia, suborno e revelar toda a verdade sobre Belo, ídolo das massas no comecinho do século.

Meus Tempos de Garota promete chocar. Nele, Thammy, a filha da Rainha do Bumbum nos anos 80, escancara uma história que o tempo se encarregou de enterrar: a preparação e os abusos que sofreu para se transformar num símbolo sexual.

Inspirado no clássico Laranja Mecânica, Lavagem Cerebral aborda um dos enigmas do rock nacional: o fim dos Raimundos. Depois de uma longa ausência, Rodolfo explica tin-tin por tin-tin sua conversão e a lobotomia sofrida a mando de roqueiros rivais.

A safra de documentários nacionais 2040 promete ser imperdível. Ainda bem que existem grandes possibilidades de eu estar mortinho até lá.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Uma tarde com Drummond


É viajar no tempo e acompanhar Carlos Drummond de Andrade em 22 de janeiro de 1951, quando o poeta tinha 49 anos. E abaixo um poema que começa assim: "na curva perigosa dos cinquenta"


“Tarde de chuva fina no centro. Junto à livraria, observo minuciosamente as ruínas do tempo, que me sorriem. Para não sofrer com o espetáculo, preferia fechar os olhos. Eles, porém, inspecionam por conta própria, máquina fotográfica a funcionar independente de mim. Chove no passado, chove na memória. O tempo é o mais cruel dos escritores, e trabalha no barro.” (do livro O Observador no Escritório)

Quarto em Desordem
Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

Salve salve Mélissa

Delícia “descobrir” uma nova cantora e em tempos de you tube a coisa fica bem mais fácil. Foi assim no sábado, quando encontrei uma matéria com Mélissa Laveaux no El País. A moçoila é canadense, filha de imigrantes haitianos, radicada em Paris e esbanja estilo. Pra quem tem alguns anos na estrada pop dá pra perceber rastros de Tracy Chapman, Macy Gray e Lauryn Hill – isso pra não ir muito longe.

É só ouvir Needle in the Hay pra se encantar com Mélissa, que com uma voz cortante se apropria da canção de Elliot Smith, um dos nomes mais interessantes do folk anos 90.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

A mulher que berra

Maria, o nome é lindo. Mas basta alguém chamá-la assim pra começarem gritos absurdos que muitas vezes duram um tempão. É a louca de plantão aqui do meu bairro. Aparenta andar ali pelos quarenta e poucos (será?), vive pelas ruas da vizinhança, tem uma cara forte, nariz pequeno, cabelos pretos encaracolados e aquele ar de quem há muito vive em outra sintonia. Faz muitos anos que a conheço e até a cumprimento de vez em quando. Ela nunca me respondeu, apenas com os olhos, vivos, espertos.

Ela não tem hora pra entrar erupção e não é raro acordar de madrugada com seus gritos. E olha que moro num sexto andar, fundos, bem afastado da rua. Às vezes vou a janela e a vejo caminhando pelo meio da rua deserta, enrolada num cobertor a bradar seu desespero aos quatro ventos. Grita tanto e há tantos anos que suas cordas vocais sofrem o calejo de tanto esforço. Não se entende o que ela berra, fica apenas aquele som terrível que parece vindo das entranhas e que é acionado sempre que alguém diz a palavra terrível: Maria.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

De um lugar Perdido

Tenho um CD chamado De un Lugar Perdido do madrilhenho Antonio Vega. Foi recomendação do Pedro Almodovar, via um site, faz alguns anos. Comprei pela internet e logo aquelas canções bem melancólicas foram me capturando. Li sobre Vega na internet e mal conhecia seu rosto que o encarte do CD ocultava por meio de sombras. Acabo de ler num jornal espanhol que Vega morreu nesse 12 de maio, aos 51 anos e vinha doente faz algum tempo. Ese Chico Triste y Solitario é o título da matéria do El Mundo.

Antonio Vega era da geração de Cazuza e Renato Russo e no final de 1978 formou a Nacha Pop, inspirada por Ramones e Siouxie & The Banshees. A banda durou dez anos e ele partiu para a carreira solo. Teve sua fase de mergulho nas drogas, caiu em
depressão quando a mulher morreu em 2004...
“No creo en más infierno que tu ausencia. Paraíso sin ti, yo lo rechazo. Que ningún juez, declare mi inocencia”, diz a dolorosamente bela A Trabajos Forzados.

Pálido, fraco, doente, enfrentava a saúde frágil no palco e suas apresentações costumavam provocar arrepios nos fãs. Era um cara bonito, talentoso e triste. O CD que tenho parece mesmo ter vindo De un Lugar Perdido.

Abaixo, o link para Estaciones, que abre o CD e é a minha preferida.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Foi mal aí

"São cem, São mil, São cem mil. Um milhão. Do mal, do bem. Lá vem um”.

É Perdeu, que abre o ótimo Zii e Ziê de Caetano Veloso. Versos feito esse, que escancaram sem explicitar, impressionam tanto quanto “os 30 milhões de meninos abandonados do Brasil, com seus peitos crescendo, seus paus crescendo e seus primeiros mênstruos”, de Outros Românticos do disco Estrangeiro (1989) Os tais apocalipses mais totais, cada vez mais perto.

Sexta, depois das onze, um amigo saia da faculdade, no paulistano Moema, trocava música no i-pod e, distraído como ele só, nem percebeu dois caras se aproximarem e meterem a mão na mochila e no i-pod. Apavorado, teve presença de espírito e disparou: "mano, você tá louco... aqui é diadema... não é playba de moema não caralho... você tá louco?". E sabe o que ele ouviu? "Diadema, cara? foi mal... vai lá... foi mal aí". E olha que é o terceiro quase assalto que ele sofre, mesmo com o passaporte Diadema.

“Ai, dói no peito aparição assim”: Perdeu é trilha do meu outono.

sábado, 9 de maio de 2009

A vida é sonho e fantasia

Ritual sagrado: ler jornal no meu café preferido, no final da manhã de sábado, diante de um expresso, água com gás e cigarro. É incrível como ali certas matérias (deixo as notícias do dia-a-dia de lado) assumem outros ares e são capazes de influenciar o meu dia. Hoje foi assim.

Primeiro, uma entrevista com uma atriz quarentona que tem uma cara serena e sempre despertou minha curiosidade, mesmo sem ser das mais conhecidas –pouco sabia dela. Começa falando da mãe, que começou a perder a memória quando ela tinha uns 20 anos. “A vida é sonho e fantasia”, lhe ensinou a mulher intensa, interessante e não exatamente um exemplo de maternidade. Depois, a atriz fala das duas filhas, de como são diferentes, de como se preocupa em fazê-las sentir amada, de como conheceu o marido artista plástico, de como se sente com 23 tendo 46... banalidades assim, bem a vida como ela é, ou costuma ser pra alguns.


Nas páginas de literatura, topo com Carol Ann Duffy, poeta escocesa de 53 anos, a primeira mulher a ganhar um título inglês carregado de tradição. “Mãe solteira e lésbica assumida”, tá escrito com destaque. Vou direto a um verso dela: “Em algum lugar do outro lado desta vasta noite e da distância que existe entre nós dois, eu penso em ti”. Pronto, bastaram essas palavras pra me interessar devorar a matéria imensa e viver alguns minutos de puro delírio descobrindo alguém de quem nunca ouvi falar e saber um pouquinho de suas paixões desenfreadas e inquietações. Foi como se naquele café me tivessem apresentado duas novas e interessantes pessoas. E todo sábado costuma ser assim. É só escolher o jornal certo.


É bom contar que ao pagar a conta, conversei com a garçonete simpática. Ela me contou dos maltratos diários e das pressões que recebe do patrão apenas por estar grávida e breve sair em licença maternidade, que sai de lá todos os dias chorando e outras barras nada leves. Os temas que me tocaram no papel estavam ali diante de mim. Ela trabalha até julho, depois vou ter de trocar de café, me recuso a frequentar um lugar onde os patrões maltratam uma mulher grávida.

terça-feira, 5 de maio de 2009

No hype do hype

Odeio ficar de fora de um bom hype pop. Como assim? Isso mesmo: um hype pop é fundamental e um bom exemplo é Susan Boyle e primeira vez daquele vídeo. Ok, poucos dias depois eu não aguento mais nem ouvir falar dela, algo relacionado a uma hypefobia que deve habitar em mim.

Sim, não existe nada imperdível nessa vida, mas alguns filmes, livros, discos, vídeos a tornam mais interessante. Sei lá porque havia perdido o filme Crepúsculo, uma história de vampiros e hype adolescente total, baseado num best-seller. Enfim, chegou o dia de eu entrar na zona Twilight, me diverti bastante, o clima kitsch não me incomodou e descobri uma coisa: hype adolescente não tem idade e os mais velhos que embarcam vão com uma vantagem extra: a bagagem de uma vida de cultura pop.

Depois de um tempo as novidades escasseiam e tudo remete a algo que você já viu. Com Crepúsculo, história moderna de vampiros, me aconteceu isso, ali estavam elementos de Os Garotos Perdidos, O Vampiro Lestat. Noviça Rebelde e de vários filmes de Tim Burton – até poderia se chamar Os Vampiros se Divertem e cenas como o jogo de baseball e a visita da lindinha mocinha humana à casa dos vampiros são de rolar de rir.

Ah, e tem os atores. A lindinha Kristen Stewart já foi filha da Jodie Foster (O Quarto do Panico) e a namoradinha do carinha de Na Natureza Selvagem – e foi aí que me apaixonei por ela. É um daqueles rostos que poderia ser uma mistura das jovens Demi Moore, Julia Roberts, Winona Ryder. Sim, elas já tiveram 20 anos. E o mocinho Robert Pattinson? Tem um quê de canastrão, os lábios mais vermelhos que a mocinha, um olhar de peixe morto. À primeira vista pensei no vesgo charmoso Christopher Lambert de Subway, um cult dos anos 80. Mas era rebate falso e logo me veio um produto nacional – eta Brasilzão -, o Carlos Alberto Ricelli garotão – a voz sussurada é mais um ponto de semelhança entre os dois. Bom, acho que não vou ler o livro agora, mas já estou à espera da sequência The Twilight Saga: New Moon e dessa vez juro que assisto nos primeiros dias. Hype pop fica ainda melhor quando consumido assim que sai do forno.

Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...