quarta-feira, 27 de abril de 2011

Carta ao Tom, a primeira


~~ Rua Nascimento e Silva cento e sete / você ensinando pra Elizete... ~~ É essa a Carta ao Tom mais conhecida, de 1974. Dez anos antes houve outra Carta ao Tom, escrita num porto no dia 7 de setembro. É menos conhecida, igualmente bela, era lida por Vinicius na abertura de um clássico show que ele fez com Dorival Caymmi na boate carioca Zum-Zum.

Vinicius ainda dividia-se entre a música e a diplomacia, a parceria com Baden estava estourando e ele “estava feliz” com o sucesso de Garota de Ipanema nos Estados Unidos: “Vamos ver se desta vez os intermediários deixam “algum” para nós...”.

Abaixo, a “Carta ao Tom”, como publicada na coluna do Vinicius no jornal Última Hora, a pedido de uma leitora (ele conta no último páragrafo) em 14 de fevereiro de 1966.
E lá no fim, o link pra ouvir a Carta lida por Vinicius que abre o show/disco Vinicius & Caymmi no Zum Zum


Porto do Havre, 7 de setembro de 1964
Tonzinho querido:
Estou aqui num quarto que dá para uma praça que dá para toda a solidão do mundo. São 10 horas da noite e não se vê viv’alma. Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu estou. E como sempre, nessas horas, escrevo para você cartas que nunca mando. Você já passou um 7 de setembro, Tonzinho, sozinho num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectiva? É fogo, maestro!


Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente tenho o Brasil que é uma paixão permanente em minha vida de constante exilado. A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa Embaixada há uma festa que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão. Ainda há pouco telefonei para lá, para cumprimentar o Embaixador, e veio todo mundo ao telefone. Estão queimando um óleo firme!

Estou doido para ver você e Carlinhos e recomeçar a trabalhar. Imagina que este ano foi dedicado ao Baden, pois Paris não é brincadeira. Mas agora o tremendão aconteceu mesmo. A Europa teve que curvar-se. Mas ainda assim fizemos umas musiquinhas, como Formosa, você vai ver: - tudo sambão. Parece até que a saudade do Brasil, quando a gente está longe, busca mais a forma do samba tradicional do que a bossa-nova – não é engraçado? São como diria o Lucio Rangel, as raízes –


Vou escrever agora para casa pedindo dois “menus” diferentes para a minha chegada. Para o almoço, um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco bem tostado, uma couvezinha à mineira, e doce de côco. Para o jantar, uma galiazinha ao molho-pardo com um arroz bem soltinho – e papos-de-anjo! Mas daqueles como só a mãe da gente pode fazer. Daqueles que se a pessoa fosse honrada mesmo só devia comer metida num banho morno e em trevas totais pensando no máximo na mulher amada.


Fiquei muito contente com o sucesso de Garota de Ipanema nos Estados Unidos. E Astrudinha, hein? Que negócio tão direito! Vamos ver se desta vez os intermediários deixam “algum” para nós... Fiquei muito contente também com a notícia do sucesso de Berimbau aí no Brasil. Dizem que estão tocando a musiquinha para valer, e isso me agrada muito pelo Baden. E para que mentir – por mim também. É bom a gente saber que não foi esquecido, que o povo continua cantando as nossas coisas, pois no fundo mesmo é para ele que a gente compõe. Lembro-me muito bem quando fizemos o samba numa madrugada, há três anos atrás. Eu disse a Baden: - “isso tem pinta de sucesso” – e ficamos cantando e cantando o samba até o sol raiar...
***
Esta é “a carta que não foi mandada” (realmente!) e com a qual inicio o show da boate Zum- Zum, ao lado de Caymmi, o Quarteto em Cy e o conjunto de Oscar Castro Neves, agora mouinhoado com a inclusão de Roberto Menescal. Como o terminamos quinta-feira próxima, e provavelmente de vez, publico-a a pedido da leitora Jussara Campos, que me declara “não ter dinheiro nem para ir ao Zum-Zum, nem para comprar o disco que já ouviu na loja”. E faço mais: convido Jussara a ir assistí-lo terça-feira. É só chegar ao Adolfo, o porteiro, e mandar me chamar, dizendo que é minha convidada.

http://www.mediafire.com/?nt11q0fhxc145zt

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um dia na vida de João Gilberto 30/01/1960


30 de janeiro de 1960. João Gilberto recebeu a reportagem do Última Hora em sua casa no Rio de Janeiro. O fotógrafo Rodolpho registrou tudo. João, a mulher Astrud, o violão, um gato, a televisão e familiares.



Deve ter sido um dia intenso para João. Ele tinha 29 anos, em março do ano anterior lançara o disco de estréia (o antológico Chega de Saudade) e vivia de shows. Era um homem a caminho do estrelato, que logo gravaria O Sorriso, o amor e a flor, o segundo disco.


Astrud faria 20 anos dois meses depois e há pouco trocara o Weinert da família alemã pelo Gilberto do marido recente. Era amiga de Nara Leão, que apresentou os dois. Em Eles e Eu, seu livro de memórias, Ronaldo Bôscoli, namorado de Nara na época, diz que foi ele o cupido, mas numa espécie de contra-ataque: “Profundamente insinuante, malandro, mulherengo (embora negasse), ele arrastou uma asa para Nara que me deixou muito a perigo. Arranjei para ele uma moça que era amiga de Nara, chamava-se Astrud e adorava música”.


Astrud e João “se casaram no começo de 1960. Foi uma cerimônia rápida, simples e civil , num cartório em Copacabana, tendo Jorge Amado como padrinho”, conta Ruy Castro no livro Chega de Saudade. E Ruy conta mais, muito mais: um filho estava a caminho e os dois foram morar num apartamento em Ipanema, na Visconde do Pirajá. Paf: é esse das fotos


Então, é olhar os retratos e observar o primeiro apartamento do casal João-Astrud, que tem jeito de um quarto-e-sala. A televisão de destaque na sala, e o gato. Pera lá, o gato: será que é esse que, conta a lenda, teria se jogado pela janela, depois de ouvir João cantando pela zilhonéssima vez O Pato? Será???


É o felino da foto sim, um vira-lata chamado Gato, mas a história contada por Ruy Castro é outra. Em 28 de março de 1960, no estúdio, gravando O Amor, o sorriso e a flor, João recebeu um telefonema de Astrud dizendo que Gato caíra da janela.



“Gato havia cochilado no parapeito e despencado, vários andares abaixo, como João temia que um dia acontecesse – e por isso vivia recomendando a Astrud que não deixasse a janela aberta. João ficou desesperado, interrompeu a gravação e voou de táxi para casa. Astrud recolhera Gato ainda com vida e eles o levaram ao veterinário, mas o bichano morreu no caminho. Naquele dia, no estúdio, os músicos da orquestra inventaram a história de que o gato de João Gilberto se suicidara porque não aguentara mais ouvi-lo ensaiando “O pato”.



Taí o Gato feliz com João e Astrud, dois meses antes da tragédia num dia que deve ter sido um dia feliz para a família Gilberto: 30 de janeiro de 1960.

João Carlos Barroso: os primeiros passos de um ator coadjuvante

A primeira foto é de Homem, Besta e Virtude, peça de 1962 Leio na capa do site: "Morre João Carlos Barroso, de Roque Santeiro e Z...