segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sem essa de gata mimada


Quem me conhece ou já conversou cinco minutos comigo sabe: existe uma maravilha chamada Ava em minha vida. É uma montanha de pelos, pretos por todo lado e brancos apenas nas quatro patinhas, bigode e peito. São 11 anos de intenso convívio, uma relação perfeita, com raríssimas rusgas. Aquela cara sempre séria onde reinam dois olhos de um verde profundo, está sempre ali e atenta a tudo que acontece comigo e se estou triste, a atenção é redobrada. E de vez em quando até brincamos de piscar.

Dizem que os animais não têm inteligência. Dizem, né, dizem tanta coisa. Eu questiono o que seja inteligência e pra que ela serve. Ava e eu não falamos a mesma língua. Ela entende meu “humanês” perfeitamente, não o fala talvez por timidez ou pra não me intimidar e até desenvolveu um “miadês” pra se comunicar comigo. É todo um alfabeto de diferenciados miados, cada um com seu significado, alguns se assemelham a pios, outros são longos, repetitivos, insistentes, quase lamentos.
Quando bate a fome, utiliza praticamente uma sinfonia miaus pra que a leve até seu prato, localizado estrategicamente na área de serviço. É um dos caprichos da preta. Ali, entre um e outro grão de ração, me olha feliz e solta os mais doces e incríveis ronronados – e ronronados, quem é propridade de um gato sabe, é sonido que representa prazer total não que eles transmitem asma, como muito ignorante costuma propagar. Quando estou mais paciente, fico ali vendo Ava se banquetar e atento aos ronronados, misturando ao som da ração sendo triturada por aqueles dentes afiados.
Ah, Ava veio das ruas, está longe de fazer o tipo gatinha dócil, tem temperamento forte e indomável e seu nome é homenagem a Ava Gardner, a diva de Hollywood que Jean Cocteau elogiou como “o animal mais lindo do mundo”. Monsieur Cocteau estava certo, e muitas vezes me divirto a imaginar o que ele diria se conhecesse essa montanha de pelos que mora aqui em casa.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ali na esquina do sonho com a razão

Um hotel de beira de estrada. Não de uma cidade pequena, de uma média mas daquelas que você nunca pisou, apesar de localizada a 100 km de onde mora. Um domingo. Um domingo comum, mas não um domingo banal. Um alguém. Um alguém especial, bem mais que especial, um alguém adorável que te desperta a vontade de ser a melhor das criaturas do mundo – e é a melhor das criaturas do mundo. ´

Um domingo. Um hotel de beira de estrada. Um alguém. A vida pode ser tão simples e tranquila e as vezes ela é. Existe um heliponto no hotel de linhas modernistas. Mas há os encantos escondidos do posto ao lado, meio descampado, que abriga um restaurante para quem está de passada. Ali, uma taça de café com leite, com coxinha ou pão com queijo ou lanche de lingüiça quando a tarde parece ansiosa em ceder espaço pra escuridão da noite.

O olho no olho, a cumplicidade, o nem precisar falar muito para ser entendido, o caminhar lado a lado bem devagar, sem pressa, sem nenhuma pressa, o cigarro compartilhado, el pincipito novato que pede cuidados. Falar besteiras, deixar a censura de lado, imaginar-se fazendo coisas absurdas num espetáculo do José Celso Martinez Correa, rir, cagar de rir e de coisas que pra outras pessoas seriam consideradas nojeiras. Descobrir as delícias do sono, mergulhar num mundo bem ali na esquina do sonho com a razão. Um domingo, um hotel de beira de estrada. Um alguém. Pedir mais o quê? Outro domingo, qualquer lugar, o mesmo alguém.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Os 90 anos da gata valente de pele de tigre

“As amarguras não são amargas quando quem canta é Chavela Vargas”. Quem fala é o espanhol Joaquin Sabina, também mestre em “levezas” da vida. Nesta sexta, 17 de abril, a mexicana Chavela Vargas completa 90 anos e sua voz carrega o peso dos anos de uma existência rica e maluca daquelas ovelhas negras que nunca hesitaram em transformar limões em limonadas. Dela se diz que tomou toda a tequila do México e que teve tantos amores (um dos mais conhecidos é Frida Kahlo) como desamores. E quando jovem fumava cigarro de palha e levava uma pistola no cinturão.

Sua biografia Y Si Quieres Saber Mi Passado fala de sua vida, sua morte e ressurreição. No final dos anos 70, enfrentou problemas de saúde devido ao alcoolismo e outros excessos e se retirou por quase dez anos. “Sai do inferno e o fiz cantando”, disse. E um dos responsáveis pela volta foi Pedro Almodovar que desde garoto era seu fã. Ele já disse que as canções de Chavela o encorajaram a abandonar sua cidadezinha e partir em busca de seus sonhos. Chavela canta em De Saltos Altos, A Flor do Meu Segredo e Carne Trêmula. Outra participação incrível no cinema é em Frida.

Chavela voltou recentemente para sua cidade natal, San Joaquín de Flores, na Costa Rica. O motivo? “Para estar perto do mar e para que as sereias venham me visitar”, disse

Abaixo, o começo de Por el Bulevar de los Sueños Rotos, que Joaquin Sabina compôs para ela:
En el bulevar de los sueños rotos
vive una dama de poncho rojo,
pelo de plata y carne morena.
Mestiza ardiente de lengua libre,
gata valiente de piel de tigre
con voz de rayo de luna llena.

Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...