sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Cor e Destino


Meu 2009 foi regido por Caio Fernando Abreu. A leitura de Para sempre Teu Caio F, da Paula Dip – meu livro coração do ano - foi abrindo porteiras e os “acasos” se sucedendo numa série de Pequenas Epifanias que tanto me fizeram feliz.
Aqui vai um texto dele quase inédito. Foi publicado na revista HV, em setembro de 1987, nunca saiu em livro e quero que mais pessoas tenham acesso a ele. Ficaria imenso demais aqui e editei, mas quem quiser degustá-lo inteiro é só pedir.
Feliz Natal, Feliz Natal. Merecemos, como ele um dia escreveu.


Cor e Destino

Dei para pensar nas pessoas – não só nas pessoas, mas também nas situações, nas emoções – como tendo cores.

Acordar de manhã bem cedo, sair para a rua antes que as lojas se abram, com poucas pessoas e certa névoa no ar, para mim é indiscutivelmente branco.
São alaranjadas certas noites de energia solta no ar, na mesa de um bar ou assistindo a algum show.

São verde bem clarinho certas tardes, principalmente as de inverno, quando há sol e, de repente, as coisas meio que param, infinitamente calmas.

Há também momentos marrons: tentei trocar a fita corretiva desta máquina elétrica, coisa que nunca consigo fazer direito, embora consulte sempre as instruções.

Esperar horas numa fila de banco, tentar atravessar a Nove de Julho, em SP, para mim é completamente marrom.

Quando surge alguma irritação, então vira marrom riscado de vermelho.

Mas vermelho total só quando pinta ódio, vontade de gritar e bater. Filme de Stallone e Schwarzenegger é vermelho – nada a ver com a ideologia.

Tem também vozes, caras, pessoas. Suzanne Veja cantando Tom’s Diner é azul bem clarinho, azul-aquarela, meio transparente, quase branco.

Já Vida Bandida, com Lobão, pende mais para o bordô.

E Billie Holliday será sempre roxo, às vezes mais carregado, com a voz mais rouca das últimas gravações, às vezes absolutamente violeta.

A cara do Jânio Quadros varia do cinza-chumbo ao negro, mas a de Xuxa é enjoativamente rosa-choque, daquele que Jayne Mansfield adorava.

Destino também tem cores – não sei até que ponto você escolhe ou as coisas se armam e, quando se dá conta, a cor já está aí, definitiva.

Sarney, por exemplo, acho que escolheu ou foi vítima de um destino marrom. Pelo menos a sensação que ele me dá é a mesma de tentar atravessar aquele corredor de ônibus da 9 de Julho.

Aliás, políticos são quase sempre marrons.

Elba Ramalho – quer apostar? – é puro amarelo: amarelo-grito, amarelo-estridente.

Augusto de Campos me parece mais um destino azul-marinho, todo sóbrio.

Caetano Veloso, azul-claro, às vezes vermelho.
Lygia Fagundes Telles: puro bege.

Fico pensando em Ana, que já morreu. Ela tinha um destino não de uma, mas de todas as cores.

Quem me dera o meu, o seu, o nosso fossem assim também. Que marrom não há de ser, nem cinza-chumbo.

Eu daqui, vadiamente, sento e escrevo estes delírios.
Você daí, tão vadio quanto eu, pára e lê – deve haver alguma cor nisso. Espero que bem clarinha.

Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...