sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Água Viva ainda viva 33 anos depois

Novela de Gilberto Braga exibida em 1980, Água Viva está de volta no Canal Viva. Trinta e três anos depois, acompanhar aquela história assume outros sabores. E permite observar a mudança do gênero novela: cenas e diálogos imensos, elenco enxuto, uma trilha sonora de sonhos puxada por João Gilberto e a preciosa Wave, assuntos sérios tratados sem apelação (o dinheiro e o valor dele é tema central). Dia desses, por exemplo, o professor Edir (Claudio Cavalcanti) ensinou que Umberto D, o clássico de Vittorio de Sica tem esse título em homenagem ao pai do diretor: o "D" é uma simplificação de De Sicca. Sim, nos anos 80 neorealismo italiano cabia na novela das oito e não assustava a audiência. E alguns dos temas discutidos continuam polêmicos no Brasil do séc 21, "O toplessaço" no Rio há alguns dias mostra isso.

Isto É, 23 de abril de 1980
A "comuna" que abriga a turma jovem da trama é destaque e esse texto abaixo fala dela com propriedade. É um box de um perfil de três páginas com Lucélia Santos na revista Isto É de 23 de abril de 1980 - O tipinho que deu certo, título que se referia ao padrão de beleza da estrela bem diferente das gostosonas da época. “Nova estética às oito da noite” e “Lucélia Santos um mito erótico para os 80?” eram chamadas da matéria assinada por Benicio Medeiros. A novela estava há dois meses no ar. A "comuna" abrigava Fabio Junior e Jorge Fernando (e Lucélia Santos circulava sempre por lá) que, em 1978, protagonizaram (junto com Denise Bandeira) a série Ciranda Cirandinha, precursora de assuntos jovens e ousados na televisão. Quem se interessar, Ciranda Cirandinha foi lançada em DVD. Bom, segue o texto sobre os jovens da novela de Água Viva. Ah, só mais um detalhe: Gilberto Braga tinha 34 anos quando escreveu Água Viva. Bem jovem para o padrão de autores do horário nobre. João Emanuel Carneiro, o mais jovem deles, tinha 42 quando fez Avenida Brasil.


                                          A esfuziante rapaziada global

Uma noite deu para perceber que enrolavam cuidadosamente alguma coisa entre os dedos, na forma de um baseado. Discutem política com a liberdade que a retórica dos mais velhos não conhece. Soltam-se em seus windsurfs ou voam em suas motocicletas. Expressam-se em gíria. Libertam-se em topless. Extravassam-se em sentimento e emotividade. Vivem em comunas ou estão mergulhados num permanente conflito com os pais, caretas, imbecis, idiotizados.

Em Água Viva, a batalha de gerações já tem um vencedor. O autor. Gilberto Braga, 34 anos, fez a esperada opção. Seus meninos são exuberantes, amam a vida, amam-se e são amados. E, em toda essa bronzeada e risonha galeria, nenhum deles apresenta o efeito multifacetado, a densidade existencial, o elenco de contradições do personagem Janete – o alter ego telenovelístico de Lucélia Santos e, dizem, cópia impecável da própria protagonista.
A censura cororoca certamente deve estar de olho nessa esfuziante moçada, com o já surrado argumento de que nem sempre o que é bom para Ipanema (leia-se, no caso, Leblon) é bom para o fundão do Brasil. Dir-se-à, logo, que há exageros, perigosa e exemplar licenciosidade em se viver junto, por exemplo, sem estar casado. Eis aí a composta meta-ironia: censura contra novela reproduzindo a batalha de gerações. Aguardar para ver a quem a Globo dará razão. (Revista Isto É, 23 de abril de 1980)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O cabeludo magrela e a menininha


O cabeludo com Etty Fraser e Paulo Autran: 1972

A menininha com Milton Moraes e Elsa Gomes: 1976
Post rapidinho que estas duas fotos anos 70 merecem. Na PB, foco no garotão cabeludo e magrela que divide a cena com Etty Fraser e Paulo Autran. Na colorida, na menininha ao lado de Milton Moraes e Elsa Gomes. O cabeludo e a menina estão juntos em Água Viva (1980), novela de Gilberto Braga em reprise no Canal Viva. "Ah, esse suspense está me matando" hahaha Pois é. Chega. Vamos às fotos.

O cabeludo é Fábio Júnior, ainda longe dos "vinte e poucos anos" - tinha 19 - e se chamava Fábio D'Ayrosa. É de Um Pássaro no Meu Ombro, teleteatro exibido pela TV Cultura em 1972.

A menininha é Isabela Garcia, com oito/nove anos no filme Ninguém Segura Essas Mulheres, de 1976. Curiosidade: essa comédia em três episódios foi produzida por Silvio Santos em rara (e única) incursão ao cinema.

PS: A Ana Oliveira (@anamdo) me mandou via twitter um vídeo (abaixo)do "magrela cabeludo" contracendo com Cacilda Becker no teleteatro Inês de Castro. É de 1968 e Cacilda morreu em junho do ano seguinte.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Droga: DVD de Pé na Cova não tem a temporada completa

 
O povo todo do Irajá
A boa: tá saindo o DVD de Pé na Cova, a melhor série 2013 - e não só da TV aberta. A nem tão boa: não é a temporada completa, os dois dvds acomodam 10 dos 22 episódios da primeira temporada. E a libertária série de Miguel Falabella merecia DVD com a 1ª temporada completa, como acontece com as estrangeiras. 

O DVD começa com A Nação Laica, o segundo episódio, quando Ruço completa 50 anos. Os Furacões Têm Nome de Mulher, o episódio inicial, com apresentação dos personagens, ficou de fora. E quem não viu na TV vai ficar sem saber, por exemplo, o passado de Luz Divina. A irmã de Juscelino e vizinha de Ruço era funcionária pública (categoria y) e um belo dia surtou na repartição, achou que as divisórias de fórmica eram um labirinto e ficou zanzando ali dois dias seguidos, até ser internada.

Antes de estrear, houve quem dissesse que a série era chupada da gringa A Sete Palmos (Six Feet Under). Coitados, não sabiam de que falavam - a única semelhança é o tema morte. Pé na Cova estreou no começo do ano e muitas vezes as confusões do povo da FUI (Funerária Unidos do Irajá) retratavam o que rolava na realidade. Quero Morrer no Carnaval, o terceiro episódio também fora do DVD, o morto era o travesti Giselle, cujo nome de batismo era Amarildo (olha as coincidências!). O Tal do Civismo e A Morte é Uma Canção, os dois últimos epísódios, exibidos no começo do julho e incluídos no DVD, foram embalados pelas manifestações de rua – e no Irajá também rolava a confusão (olha as trapaças do acaso). Alô, Som Livre, está na hora dos DVDs das séries da Globo sairem com temporada completa.

Pé na Cova: todos os episódios


1 – Os Furacões Têm Nome de Mulher
2 – A Nação Laica (No DVD)
3 – Quero Morrer no Carnaval
4 – Toma Que o Defunto é Teu
5 – O Primeiro Homem na Lua (No DVD)
6 – O Lobo no Rebanho
7 –  Na Primavera da Vida (No DVD)
8 – A Beleza Está no Olho de Quem Vê
9 – A Virgem do Irajá
10 – Freud Nunca Explica
11 – A Ausência do Pai
12 – Ladrão Que Rouba Ladrão
13 – Seria Cômico se Não Fosse Sério
14 – O Morto de Chinó
15 – A Surpresa do Inesperado (No DVD)
16 – Se Houver Amanhã (No DVD)
17 – O Céu Que Nos Espera (No DVD)
18 – O Vôo da Borboleta Monarca (No DVD)
19 – O Beijo no Irajá (No DVD)
20 – A Mais Sólida Mansão
21 – O Tal do Civismo (No DVD)
22 – A Morte é Uma Canção (No DVD)

sábado, 7 de dezembro de 2013

"Eu fui obrigada a conhecer o avesso do mundo": texto de Fauzi Arap

"Eu vou lhe contar que você não me conhece. Eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve...".  Um hino para os fãs de Maria Bethânia este texto é de Fauzi Arap,   introduz Um Jeito Estúpido de Te Amar (Isolda e Milton Carlos) no disco Pássaro da Manhã (1977) e frequentou bastante as redes sociais no dia da morte de Fauzi (quinta, 5 de dezembro). Há outro texto incrível de Fauzi no show Pássaro da Manhã, nunca lançado em disco, mas disponível para baixar na internet. No final, vai o mapa da mina e o texto, mas antes uma historia.

Programa do show Pássaro da Manhã
Desde que comecei a ouvir Bethânia me encantei com Fauzi Arap, com o nome dele nos créditos, mas só muitos anos depois assisti a um show Dela com direção Dele. E houve um dia Imitação da Vida, maravilha de show da Bethânia dirigido por Fauzi e que para mim foi como se eu tivesse visto o encantado Rosa dos Ventos (sei lá o que daria pra ter assistido esse show). Era dezembro de 1996, assisti com Olair Coan, que era amigo de Fauzi e, ao final, foi cumprimentá-lo e me apresentou a ele. Tenho dificuldade pra tietar, mas não resisti. Fui logo dizendo que enlouquecera com Mare Nostrum, o livro de memórias dele que tinha acabado de sair, e já tinha lido duas vezes. O homem, que era reservado, me olhou com uma cara entre assustado e satisfeito  e disse bem humorado "duas vezes você leu o meu livro, tenho que dar atenção especial". E ficou ali de conversa com o Olair e comigo. Perguntei quem era o autor de um texto absurdo no show. Ele disse que não sabia, achava que era do José Vicente, mas que Bethânia havia encontrado entre seus guardados e não tinha certeza.

Bom, abaixo o lindo texto de Fauzi Arap que introduz o bolero Pecado, quase ao final do 1º ato do show Pássaro da Manhã.

"Eu fui obrigada a conhecer o avesso do mundo. Pra sobreviver a dor de não entender o que tinha acontecido, à dor de te perder, tudo. Eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um... E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança."

Mapa da mina. Lindeza de texto, né? E na voz de Maria Bethânia, então, é de arrepiar. Para ouvir, é só acessar o incrível blog Maria Bethânia Re (verso) e baixar o show Pássaro da Manhã. E lá tem outros incríveis shows de Bethânia, inclusive o lendário Rosa dos Ventos, lançado em CD sim, mas em versão reduzida. Eis o link:

E aqui "Eu vou lhe contar...", na voz de Bethânia



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A única capa de revista de Cleyde Yaconis


Fotos de Hélio Santos

Cleyde Yaconis completaria 90 anos hoje, 14 de novembro. Tive a honra de escrever Dama Discreta, o livro dela para a Coleção Aplauso, lançado em 2004 e, desde então, não nos perdemos de vista. Mesmo anos depois de o livro publicado, continuava buscando material sobre ela. E nesse tempo todo, a internet facilitou muito a pesquisa em jornais e revistas antigas.

Ainda nas entrevistas para o livro, me impressionou que Cleyde Yaconis nunca havia sido capa de revista. Bom, nas minhas lembranças há (será?) uma Manchete (ou Cruzeiro) dos anos 60 com ela dividindo a capa com a irmã Cacilda Becker na peça Maria Stuart. Na década de 70, um suplemento de tv da Amiga. Em 2009, ela e mais uma dúzia de paulistanos ilustravam a capa da Veja SP. E nesse mesmo ano, foi homenageada com uma bela capa da Olhares, da Escola Célia Helena, onde deu aulas. Mas capa de revista assim da grande imprensa só com Cleyde Yaconis nunca vi. E olha que ela foi uma das maiores atrizes desse país.

Ano passado, encontrei na rede um exemplar da revista A Cigarra, de setembro de 1959 e na capa, surpresa, estava Cleyde loira, jovem e linda. Corri ao telefone para avisá-la da “descoberta”, como fazia sempre – lembro de quando achei um jornal de dezembro de 1939 com a notícia da formatura ginasial dela. Descrevi as fotos, a reportagem (claro que ela não lembrava de nada) e fiquei de levar o material na próxima visita. Umas três semanas depois, Cleyde foi internada, era o dia do último capítulo de Avenida Brasil, que ela assistiu no hospital. Fui visitá-la no sábado final da manhã e levei a “capa”. Ela gostou muito e soube que mostrava para os médicos. Seis meses depois, Cleyde faleceu no dia 15 de abril desse ano, sem ter saído do hospital. Eu adoro essa capa de revista e o fato de que a encontrei e mostrei para ela. É a única capa de revista com a grande Cleyde Yaconis. Se outras existirem, adoraria conhecê-las.


Sobre a capa de A Cigarra: Cleyde tinha 35 anos de idade. A Criatura e a Personagem é o título da matéria de A. Accioly Netto. É em primeira pessoa e trata essencialmente de teatro. Funciona como uma palestra de Cleyde Yaconis e o que ela pensava mais de 50 anos depois não era muito diferente do que está ali publicado. É só ler O Amor Que Vem do Conhecimento, o primeiro capítulo de A Dama Discreta, para perceber as semelhanças. Abaixo, a matéria de A Cigarra.
                                                         
                                  A Criatura e a Personagem                        




- O teatro , como toda atividade artística, não é apenas fator de cultura. É muito mais que isso, pois o grau de civilização de um povo pode ser medido de acordo com o grau de desenvolvimento do seu Teatro. O “representar” faz parte do homem, está dentro de si, podendo ser considerado como sua mais primitiva necessidade. Ontem, como hoje e sempre, o homem fará Teatro. Observemos as crianças... Elas brincam? Sim, mas representando sempre! Eu, por exemplo, que nunca pensei, quis ou pretendi ser atriz, detestava declamar na escola, “brincava”, no entanto, de “casinha”, recebendo as visitas como dona de casa ou fazendo de modista para garotas de 4 a 10 anos, maquiladas e vestidas de “gente grande”, enrolando-nos em toalhas de mesa com franjas, de sapatos altos e nos dando nomes estranhos e inexistentes. Durante horas improvisávamos textos, inventávamos danças, compenetradas de que, de fato, éramos outras pessoas. Os garotos também se transformavam em bandidos, mocinhos, heróis, chegando à preocupação da escolha dos tipos para diferentes papéis. Com o correr do tempo, porém, poucos são os que se dedicam à arte teatral. A maioria fica constituindo o público. De ambos, porém, dependerá o futuro do Teatro, pois de nada adiantarão os esforços conjuntos dos autores e atores em fazerem bom teatro, se o público não os apoiar com sua presença. Mesmo procurando divertir, deverá o Teatro ter sempre em mira o “fator cultura”, do contrário fugirá da sua finalidade. Voltando ao princípio, portanto, essas crianças que representavam por insinto, quando tornadas adultos, indicarão, pelas suas exigências de arte e de teatro, o nível de cultura a que atingiram.



Importante dentro do teatro é toda obra completa, isto é, literatura, arquitetura teatral, conteúdo humano, obra social etc. Para mim, tanto é importante (no sentido exato da palavra) transmitir a cultura, como divertir, trazer alegria e bem-estar ao publico. Nos gêneros mais populares, portanto, também deveria ser exigido o melhor. O “boulevard” por si só não pode ser considerado importante como obra teatral. Possui, porém, certo valor dentro do teatro, quando executado primorosamente com a finalidade precípua de distrair, o que não deixa de ser importante. Quando levado à cena, tem que ser mais do que nunca “bom”. É preciso não esquecer que o grau de civilização de um povo também se pauta pela exigência que ele faz ao gênero “boulevardier”. Eu mesma, como público, aceito até a alta comédia. Contudo, quando cansada, nervosa, exausta da vida que levo, prefiro, às vezes, um filme musicado, leve, colorido, de final feliz... Mas principalmente nessas películas, sou intransigente no que diz respeito à sua qualidade. Como atriz, acho ótimo intercalar no repertório sério a comédia inconsequente, tipo “boulevard” de categoria, pelo descanso dos ensaior, mas estou sempre apavorada, com medo de que a peça “pegue” e fique quatro meses em cartaz! O ideal seria, dentro de um repertório pesado, difícil, árduo para os atores, uma peça leve que servisse como repouso para atores e público, mas que ficasse pouco tempo em exibição. No TBC, por exemplo, foi incluida entre a peça “Jornada”, de O´Neill e “Maria Stuart”, a peça de Hugh Mills, “Perigos da Pureza”. O fito da programação foi divertir o público e os atores. Apesar disso, a peça exigiu desses últimos, o maior de seus esforços para levar a cabo uma representação no estilo de uma época de fim de século, quando se combatia os convencionalismos da Comédie Française e do Teatro de “Boulevard”. Aliás, como todos sabem, esse sistema de intercalação de peças leves é usado nas melhores companhias do mundo inteiro. A elite do teatro poderá assistir a uma peça pelo prazer do texto, apenas como forma literária, mas a massa do público espera sempre mais alguma coisa e deve receber. Como atriz prefiro sempre os textos que contenham uma ideia, uma mensagem.



O ator só poderá chegar a viver integralmente o personagem quando a sua criação é o produto de estudo e composição. No estudo e na preparação de um personagem é necessário considerar o presente, o passado e o futuro, assim como as relações deste personagem com os outros. Quanto mais perto conseguirmos chegar, mais nos sentiremos como ele próprio. Tomando a Elizabeth, por exemplo, posso dizer que após três anos da primeira representação, reensaiando o papel, gradativamente sinto que a própria Elizabeth vai se aproximando de mim ou eu dela. Todos os problemas reais dessa criatura extraordinária vão interferindo no texto de Schiller. As razões políticas, religiosas e femininas que tanto influíram em seus atos cruéis, vão abrindo diante de meus olhos extasiados novas facetas para a representação dessa personagem. Esse mesmo fenômeno acontece quando contraceno com os meus colegas. Quanto mais próximo do personagem nos achamos, tanto mais nos identificamos com ele. Posso dizer, portanto, que chego a sentir verdadeiro ódio de Maria Stuart, quando contraceno com Cacilda Becker. Somos seres humanos, e não máquinas que se ligam à hora de entrar. Para qualquer artista são necessários, antes de sua apresentação, não somente a concentração, como também a abstração e o maior afastamento possível dos problemas que o afligem. Quando não o consegue completamente, a representação poderá, às vezes, se ressentir de falhas. Isso tanto no que diz respeito a preocupações, como ao mal estar físico, doenças, etc. Para qualquer ator, porém, pior do que 40 graus de febre ou dores tremendas, é a voz se achar afetada. As doenças, no entanto, desaparecem ou diminuem de 80% ao se entrar em cena. Do mesmo modo, não se sente, no palco, nenhum ferimento que resulte de queda, corte, pancada ou qualquer outro acidente.


A influência do personagem é exercida na vida comum, principalmente durante o estudo e a sua preparação, pois se dorme e acorda pensando no papel. Durante o dia, nesse período de busca contínua qualquer incidente com coisas ou pessoas constitui material para a construção do personagem. Quando a represento, ela não interfere diretamente no meu modo de agir ou de pensar. Continuo sempre sendo eu mesma, embora certos papéis possam me trazer, com a continuidade da representação, estados psicológicos diversos, tais como depressão, irritação, nervosismo ou mesmo uma certa euforia. Fatos de minha vida íntima também não interferem na apresentação da personagem que eu represento. Quando o papel é bom, não tenho preferências, tanto represento com prazer o cômico como o dramático. Papel bom não é exclusivamente o de protagonista e, sim, aquele que foi ideado pelo autor de tal forma que dê margem ao artista constituí-lo totalmente. Os papéis indesejáveis são, portanto, os mal idealizados, abandonados pelo autor, ou incluídos na peça sem outra finalidade senão a de prestar algum esclarecimento ao entrecho. Enfim, a minha preferência é decididamente para os papéis característicos, tanto no setor cômico como no dramático.

Eu entrei para o teatro por acaso. Fiquei como meio de vida e continuei por vocação. Comecei no TBC, em 1950, onde permaneci até 1957. Saí para formar a companhia com gente já conhecida do TBC. No TBC aprendi tudo que sei graças as oportunidades e aos diretores excelentes que tive: Ziembinski, Celi, Salce, Bollini e Vaneau. Nestes mais de sete anos representei em mais de 30 peças e recebi três prêmios: 1953 – Governador do Estado – Senhora Frola, 1956 – Saci – Conjunto das interpretações do ano, 1957 – Medalha de Ouro da ABCT do Rio de Janeiro – Leonor de Mendonça. Meus papeis favoritos até hoje: Senhora Frola em “Assim É, Se Lhe Parece”, direção de Celi; Luci, em “Mortos Sem Sepultura”, direção de Bollini; Elizabeth, em “Maria Stuart”, direção de Ziembinski; Coroba em “O Santo e a Porca”, direção de Ziembinski; Elisa, de “A Rainha e os Rebeldes”, direção de Vaneau. O papel mais difícil é o que me dá mais trabalho, continua sendo Elizabeth. Acidentalmente entrei para o teatro e nele continuo. Não posso saber se poderia viver longe dele, antes que isso aconteça. Sempre desejei ser médica e sinto ainda a vaga melancolia de um sonho não realizado. Nenhuma outra profissão, pelo fato de ser rendosa, me afastaria do teatro e, se enriquecesse subitamente, hoje aplicaria ¾ da fortuna no teatro e ¼ reservaria para um outro desejo: propriedade agrícola, pois já possuo até uma pequena chácara. Amanhã, talvez, minhas ideias não sejam as mesmas a respeito de aplicação de capitais... O meu futuro, dentro dos meus planos, não vai além da excursão do TBC à Europa, porque 24 horas do meu dia estão tomadas com os preparativos para essa viagem. Não me sobra tempo para divagações...

sábado, 9 de novembro de 2013

Diretor de elenco: uma profissão à procura de reconhecimento


O documentário Casting by (Diretor de Elenco), de Tom Donahue, estreou no começo do mês nos Estados Unidos. E por aqui, está sendo exibido nos canais da HBO e disponível no NOW para os assinantes net. Como o título explicita, trata de uma profissão importante, mas ainda sem reconhecimento na indústria do cinema - a única categoria dos créditos principais,  que não concorre ao Oscar. Através da história da pioneira Marion Dougherty, que começou na TV no final dos anos 40 e que por cinco décadas trabalhou na escalação de atores para filmes, o documentário conta a história da profissão.

Marion Dougherty e o cartaz de Golpe de Mestre (The Sting)
James Dean, Clint Eastwood, Jon Voight, Christopher Plummer Jack Lemmon, Robert Duvall, Bette Middler, Glenn Close, Dustin Hoffman são alguns astros que, nos primórdios, passaram pelo olho clínico de Marion Dougherty. É ela estrela de Casting by, ao lado de colegas como Lynn Stalmaster e Juliet Taylor. Enquanto Marion atuava em Nova York, Lynn era o homem para elenco em Los Angeles. E Juliet Taylor, a mulher que escala o elenco para Woody Allen desde o final dos anos 70, começou como assistente de Marion. A Primeira Noite de Um Homem, Perdidos na Noite, Butch Cassidy, Taxi Driver, A Última Sessão de Cinema, Máquina Mortífera, O Mundo Segundo Garp têm seu processo de seleção de elenco contados no documentário e algumas histórias deliciosas. No roteiro, o parceiro de Mel Gibson em Máquina Mortífera não era negro, mas Marion Dougherty não hesitou em indicar Danny Glover para o papel. 

E nos depoimentos estão Martin Scorsese, Woody Allen, Clint Eastwood, Robert Redford, Al Pacino, John Travolta, Glenn Close. Marion Dougherty morreu em 2011 e o filme é dedicado a ela. No começo dos anos 90, um elenco de estrelas fez campanha para ela ser homenageada pelo Oscar, mas isso não aconteceu. Com histórias deliciosas, Casting by é documentário pra ser visto e reflete as transformações na indústria do cinema. Para muita gente, a época de ouro do cinema já passou e perdeu lugar para as séries de TV e isso também está na parte final do documentário, em um depoimento de Linda Lowy, a diretora de elenco de Grey´s Anatomy. Casting by está disponível no NOW e tem exibição na HBO HD na próxima terça, às 14:25.

Woody Allen escreveu um artigo para o Hollywood Reporter pedindo o reconhecimento dos diretores de elenco e falando da participação decisiva de Juliet Taylor em seus filmes. Ele cita vários atores que foram lhe apresentados por Juliet, inclusive Meryl Streep que, ainda desconhecida, fez um pequeno papel em Manhattan. Abaixo o link com o artigo de Woody Allen.




segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A arte de visitar amigos

É tempo de celebrar os 100 anos do nascimento de Vinicius de Moraes. E aqui, a faceta colunista do homem, no jornal Última Hora. É a segunda etapa, "a volta do colunista pródigo", como explicita o título da coluna deste retorno, em 4 de janeiro de 1966: “Uma das fatalidades da minha condição é escrever para ULTIMA HORA. Sou fundador do jornal em duas etapas de sua movimentada existência, isso sem falar em Flan, que foi seu único (e sensacional) rebento, um tablóide caindo de bossa, aí por volta de 1953”.

A partir daí, Vinicius escreveu diariamente e sobre tudo, até abril de 1966. O que me chama atenção nessa "A Arte de Visitar Amigos" é o momento zanga de "pessoas que se dizem seus amigos", nada a ver com “o poetinha”. E uma nota de redação, no final, explica que ele não "liberou" a tal coluna durante um tempo. Boa leitura.    


                                                 A arte de visitar amigos


Eu ando tão irritado com um certo tipo de gente, que vive “de graça” e pensa que tudo lhes é devido, que hoje resolvi ir à forra. Pombas! Não sou homem de guardar ressentimentos, prefiro extravasá-los. Em todo caso, se isso servir para alertar certas pessoas, não terei escrito esta série em vão. Porque são pessoas que se dizem seus amigos ou suas amigas, estão sempre nas praias e nos bares a erradiar que “o poetinha é meu do peito”, “o Vinicius é um grande praça”, “o poeta é um cara legal, gosta de todo mundo” – e diante da falta de que fazer, propõem imediatamente a dois ou três desconhecidos já mais para lá do que para cá:
- Vamos dar um pulo lá para vocês conhecerem ele? Tem uisque!



Uísque sempre tem em minha casa. Quando as vacas estão mais gordas, é do melhor “escocês”. Quando as vacas estão mais magras, há sempre um Drury’s ou uma cerveja para quebrar o galho. Mas alguma coisa há, no bar ou na geladeira. Com direito a ovos mexidos, naturalmente.

Mas não para quem eu não conheço, ou não o merece, faço questão de frisar, infenso a desconhecidos. Já vivi bastante para saber que a amizades é uma flor de cultivo longo e delicado, e meu tempo é curto para desperdiçá-lo com relações de meia-hora. Os “amigos” de quem falo só se lembram de você se o presunto estiver pendurado na sua porta, do contrário estão se danando para a sua existência. Eles gostam é da sua festa, do seu uísque, das moças que frequentam sua casa, da liberdade com que abrem sua geladeira, do desplante com que jogam a cinza do cigarro no seu tapete ou colocam os fundilhos molhados do copo justo no lugar que mancha, em sua mesa, quando há ao lado um objeto feito especialmente para protê-lo. Alguns frequentam sua casa há anos e nunca se lembraram que você tem uma mulher senão para, quem sabe um dia, fazer-lhe charme para ver que bicho dá. Nunca lhes ocorreu o pensamento de trazer-lhe uma flor, um maço de cigarros, uma bagana chupada que seja. Deixa a idiota fazer o café, o strogonoff, tirar o gelo, limpar os cinzeiros cheios dos “seus” cigarros até as bordas!


Vinicius de Moraes nos anos 60
Não sei o que mais admirar nessas pessoas, se a sua gratuidade ou a sua desfaçatez. Vivem a ditar regras sobre comportamento alheio. Quem as visse falar diria estar em presença do próprio Catão, o Antigo, pronto para destruir Cartago. Estão sempre a emitir conceitos e acham que a própria casa foi feita exclusivamente para dormir. E quanto mais tarde, melhor depois de ter desfrutado da casa alheia, da bebida alheia, da comida alheia e da mulher casual. Dormem então o sono dos justos, para no dia seguinte recomeçar tudo de novo, localizando pelo telefone as festinhas em perspectivas ou as garotas desprogramadas. Esses nunca pagam nada, não tem perigo! Na hora de “se coçar” há sempre um súbito pipi a fazer ou uma oportuna telefonada a dar. Quem paga é, naturalmente, o burro do Vinicius de Moraes, o bobo do Paulinho Soledade, o cretino do José Marques da Costa. Quando não com dinheiro, com cheque. Quando não com cheque, com um espeto assinado. Eles assistem com a maior superioridade a toda essa burocracia.



Sei que alguns amigos meus, de natureza desconfiada, mas inteiramente fora dessas acusações, vão ficar pensando se eles também... Mas não. Que cada um ponha a mão na consciência. Proque, daqui por diante, os que se tornarem arredios é porque enfiaram a carapuça. E nesse caso é porque ela lhes cabe. E se ela lhes cabe, passem muito bem.

Nota da Redação: Logo após enviar esta crônica à redação de ULTIMA HORA, Vinicius de Moraes resolveu suspendê-la. Muito delicado, e já arrependido de um primeiro impulso de zanga, temia ferir suscetibilidades a esmo. Antes de viajar para Cannes, contudo, Vinicius “liberou” a crônica, com duas ou três pequenas correções.
                                Ultima Hora – Sábado, 23 de abril de 1966

E aqui, uma beleza de carta que Vinicius escreveu para Chico Buarque no finalzinho de 1968
http://viledesm.blogspot.com.br/2012/01/carta-de-vinicius-para-chico-1968.html

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Seis nos embalos tropicalistas



Uma sessão fotográfica bem final dos anos 60. E quem são? A palavra chave é... tropicália. Ah, nem vem me dizer que não reconheceu ninguém. "É que não são de minha geração". Sei. São praticamente dois trios - o da esquerda, de São Paulo e o da direita, da Bahia. Os três garotos tocando o puteiro à esquerda são eles mesmo: Sérgio, Rita e Arnaldo - Os Mutantes. E os três da direita? Olha como o negão agita.  Magrão ele, né. Salve Gilberto Gil. E a gata de pé, cheia de colares e pose, seu nome é... Gal. Agachadinho, atrás de Gal, uma presença discreta e meiga. Conheço esse cara! Conhece sim. É Tom Zé. E cadê Caetano? Tá na foto não.

Topei com essa maravilha de foto, num blog que é uma preciosidade, o de Césio Vital Guadereto, dedicado à revistas antigas. É só entrar lá, fuçar e se deliciar. Ei-lo: http://revistaamiga-novelas.blogspot.com.br

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

8 livros nacionais LGBT não-ficção (ou quase)


Uma lista de 25 livros LGBT não-ficção da Flavorwire (link no final) me levou a pensar na produção nacional. Bom, um dos primeiros foi escrito por um argentino, mas se passa todo no Brasil e por isso ele está aqui. E o "não-ficção" não é para ser seguido ao pé da letra, já que alguns deles, avisam os autores, misturam fatos ficcionais. Uma história da homossexualidade, um romance lésbico nos 50/60, A Recife gay do começo dos 60, o cotidiano de um cinema de pegação no Rio, a SP gay dos 80/90, a trajetória de uma drag queen e crônicas da primeira metade dos 90 sobre o lesbianismo. A relação não tem a menor pretensão de ser completa e se lembrar de algum não incluído, é só deixar um comentário que, assim, a lista vai aumentando

Devassos no Paraíso – João Silvério Trevisan 
Livro pioneiro, publicado em 1986 (ao lado a capa original), que faz uma história da homossexualidade no Brasil, do período do Descobrimento até a Aids. . Em 2000, saiu uma edição revista e atualizada. Trabalho de pesquisa extenso, inclui depoimentos de sodomitas ouvidos pela Inquisição, opiniões de viajantes que passaram por aqui, a produção dos escritores que abordaram o tema. Para contar a história da homossexualidade, o autor passa pela antropologia, biologia, medicina e outras áreas. "Este livro não pretende discutir as "causas" da homossexualidade. Tal questão -que historicamente tem obcecado cientistas, psicólogos e juristas- parece-me dispensável e equivocada", explica o autor no capítulo Ser ou Não Ser Homossexual. 

Flores Raras e Banalíssimas – Carmen L. Oliveira
É o livro que inspirou o filme Flores Raras e tem como subtítulo “A história de Lota de Macedo Soares e Elizabeth Bishop”. A urbanista carioca e a poeta americana viveram um romance intenso nos anos 50 e 60, entre o Rio de Janeiro, Petrópolis, Ouro Preto, Nova York. Com um intenso trabalho de pesquisa, a autora narra a relação das duas de modo apaixonante, a partir de depoimentos, versos, cartas, documentos e notícias de jornais. Lançado em 1995, o livro resgatou a esquecida história de Lota, a mulher que mudou a paisagem do Rio com a criação do Parque do Flamengo. “Aquela miúda e franzina criatura toda nervos, toda luz que se chamava Dona Lota”, no olhar de Carlos Lacerda.


ORGIA – Tulio Carella
Tem como subtítulo Os Diários de Tulio Carella Recife 1960 e a narrativa é de escritos íntimos do poeta, ensaiasta e dramaturgo premiado, o argentino Tulio Carella (Lucio Ginarte, no livro). Foi publicado em 1968 e ganhou reedição caprichada em 2012. Lúcio Ginarte chega ao Brasil em 1960 para lecionar teatro na Universidade Federal de Pernambuco. É um quarentão, quase dois metros de altura, casado e que deixa sua terra em busca de novos ares. “Ensinar teatro no Recife? Que é o Recife? Como é possível deixar Buenos Aires por uma cidade perdida na imensidão do continente americano?”.  Na cidade, ele se encanta com os corpos de negros e mestiços que circulavam por seus bares, ruas e cais. As descrições dos encontros têm forte carga erótica.


CINEMA ORLY – Luis Capucho (Interlúdio Editora, 1999)
O título se refere ao cinema de pegação, “no subsolo da Cinelândia, praça tradicionalmente frequentada pelas bichas”. E a primeira frase deixa bem claro o que se vai ler nas próximas 140: “Há muito não vou ao Orly assistir a um filme pornô e pagar um boquete”. E o livro reconstitui esses tempos de no escurinho do Orly, com os frequentadores conhecidos do narrador, travestis. LuisCapucho é também cantor e compositor, teve a música Maluca gravada por Cássia Eller. Uma de suas canções se chama Cinema Orly e ele fez várias outras inspiradas no cinema, que vai citando durante a narrativa despurada, no estilo revelador e sem vergonha. Esgotado, pode ser encontrado no Estante Virtual.



Trem Fantasma – Carlos Hee (Mandarim, 2002)
“Não há ficção nas próximas páginas. Os nomes podem não ser reais. Mas os locais e as situações são pura verdade”, explicita a apresentação. É o ambiente gay da São Paulo do final dos anos 70 e começo dos 80 o tema do livro escrito pelo jornalista Carlos Hee. Os capítulos têm nome dos lugares da época: Medieval, Caneca de Prata, Off, Aquarius, Trianon, Praça Roosevelt, Homo Sapiens, Val Improviso, Bel Ami, Colorido. A sexualidade dos 70 em sua plenitude, mesmo estando nos anos 80, e antes do aparecimento da Aids. Bem no começo, um clube de Nova York que tem como atração “um homem nu deitado dentro de uma banheira cheia de urina”. E uma turma de amigos às voltas com saunas, boates, mictórios e arbustos em noites de drogas, sexo e prazeres fugazes, antes que a barra pese. Esgotado, pode ser encontrado no Estante Virtual.


Risco de Vida – Alberto Guzik 
A São Paulo dos anos 80, seu ambiente cultural e principalmente teatral é o cenário do livro de Alberto Guzik. “Não tive a intenção de escrever um romance biográfico, embora muita coisa incluída nessas páginas tenha acontecido de fato. Misturei fantasia e realidade”, avisa Guzik numa nota ao leitor. São quase 500 páginas de uma narrativa envolvente e no centro de tudo uma história de amor e morte, a do crítico teatral Thomas, trinta e muitos anos, que deseja tornar-se escritor com o bailarino Claudio, 20 e poucos anos. Em volta, o circuito gay e a vida cultural da São Paulo daquele tempo. Quando lançado, Risco de Vida foi elogiadíssimo. Esgotado, pode ser encontrado no Estante Virtual.





Salete Campari, Uma Drag Queen - Ângela Oliveira
A trajetória do garoto nascido em 1969 que saiu de Araruna, interior da Paraíba, e se tornou festejada drag queen na paulicéia. A mãe era professora primária e o pai cavava açudes em terras particulares. Segundo homem e sexto na escadinha de sete filhos, os pais morreram quando pequeno. Sonhava ter um sapato Montreal, que via Silvio Santos anunciar.  O garoto deixa sua cidade de caminhão, para morar com o irmão, dono de um boteco em São Paulo, e a cunhada. Aos 17, “virgem de tudo” o primeiro e “fantasmagórico” amor, um soldado, que o levou pela primeira vez a uma boate gay (Val Improviso). E aos poucos vai entrando na história a poderosa Salete Campari com seu visual Marilyn Monroe. A edição é bem cuidada e a narrativa simples.


Grrrls – Garotas Iradas Vange Leonel (2001)
Textos inéditos e outros publicados na revista Sui Generis, a bem cuidada revista gay da primeira metade dos 90, “sempre conservando esta ótica pós-punk e  pós-feminista”, avisa Vange Leonel na introdução. Polêmicas e bem humoradas, as 42 crônicas têm o lesbianismo como tema. Vange escreve curiosidades sobre personagens históricos (Safo, Joana D’Arc, Virginia Woolf), filmes, personagens da cultura pop e o que rolava na época – as Riot Grrrls, Xena e muito mais cabem no texto saboroso da autora. Em A Gomorra Paulistana, uma divertida “via sacra” pelo circuito bolacha da SP de então.


E. aqui, a lista da Flavorwire: 25 Essential Works of LGBT Non-Fiction
http://flavorwire.com/408340/25-essential-works-of-lgbt-non-fiction/

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Rainha da Sucata: a história por trás de uma serenata

Gianfrancesco Guarnieri, Nicette Bruno e Flavio Migliaccio
É um momento precioso de Rainha da Sucata (1990), em reprise no Canal Viva: desesperado de amor, o sofrido Saldanha (Gianfrancesco Guarnieri) arma uma serenata para reconquistar Neiva (Nicette Bruno), a mãe de Maria do Carmo (Regina Duarte). Ele recruta o quitandeiro seu Moreiras (Flavio Migliacio) para acompanhá-lo ao violão. Além do prazer de ver a cumplicidade de Guarnieri e Migliaccio, velhos companheiros do Teatro de Arena nos anos 60, a cena guarda uma história saborosa. A música da serenata foi composta por Mozart de Abreu para sua noiva Anna, em 1937. Sim, eles são os pais de Silvio de Abreu, o autor da novela.

Silvio de Abreu com os pais
Silvio conta o romance dos pais no livro Um Homem de Sorte: “meu pai tocava num conjunto musical que foi contratado para animar uma casa noturna de Catanduva. Na cidade, conheceu Anna Mestieri, minha mãe, que trabalhava como costureira. Enredo para filme da Metro dos anos 40, não foi nada bem recebido pelos pais da moça, mas eles, apaixonados, venceram as resistências, acabaram se casando”. E eles viveram muitos anos juntos. Mozart faleceu com 96 anos há quatro anos e Anna, com boa saúde, completa 101 anos em dezembro.

Serenata, esse é o nome da música da citada cena, foi gravada por Francisco Petrônio na época da novela, mas Silvio de Abreu fez questão de ter Guarnieri cantando em cena. “O Saldanha não é nenhum Francisco Petrônio, mas tá dando pra quebrar o galho”, comenta rindo Maria do Carmo.


No vídeo abaixo, a cena que, infelizmente, não está inteira. Começa no capítulo anterior, que não encontrei no youtube, mas dá bem a idéia da preciosidade e dos talentos em cena.

sábado, 10 de agosto de 2013

Serge Gainsbourg e Jane Birkin com Elis no Rio



Olho na foto: Bem no centro, Elis Regina com o logo inicial da Apple numa camiseta prafrentex, presente do garotão Steve Jobs. Brincadeira, É Elis, claro, mas a maçã no peito só uma bossa daqueles tempos, outubro de 1971. E a cantora não é a única superstar ali. Repare no casal cheio de charme bem à esquerda. Sim, Jane Birkin e Serge Gainsbourg. Onde estava esse povo todo? No Rio, Festival Internacional da Canção. Elis e Serge eram do júri e Jane veio acompanhar o marido. Ah, Nancy Wilson e Shirley Bassey  (na época de Goldfinger) também estão no retrato (as duas negonas de longo claro).

É divertido observar como os jornais da época apresentaram o casal, um ano após o estouro do "escândalo" Je t'aime moi non plus: Serge sempre irônico e controlando os passos de Jane. 

Aqui, o carioca Correio da Manhã, no sábado, 2 de outubro de 1971:

"... Serge irônico e nervoso. Jane, de calça americana e camiseta de meia, muito à vontade com sua inseparável bolsa de palha e os cabelos irreverentemente soltos sobre os ombros." (tradução: Jane estava de jeans e camiseta)

Melhor a narração da entrevista coletiva"Como Serge já se tornou conhecido por seu sarcasmo, a entrevista se tornou uma guerra, com perguntas insinuantes e respostas evasivas.
A coisa foi a tal ponto que se chegou a perguntar a Serge se era verdade que ele não gostava de mulher.
Enquanto Serge falava, Jane apenas olhava, segurando o queixo com uma das mãos". 



com o título "autor proibido se diz moralista", o Jornal do Brasil (28 outubro de 1971) vai pelo mesmo caminho, 

Jornal do Brasil
"muitos gestos, olhares nervosos, dificuldade em se exprimir e uma constante preocupação com as idas e vindas da mulher, 20 anos mais nova (....), Serge Gainsbourg afirmou ser um individualista com moral rigorosa, que não gosta de ser colocado no movimento mundial de erotismo na arte."

"pálido, de cabelos grisalhos, barba por fazer, no rosto fechado contrastava estranhamente com sua mulher Jane Birkin, ontem à tarde no Hotel Glória o alvo maior dos fotógrafos junto à piscina. 


"Se pareço agressivo é porque adoto essa postura pra preservar minha vida particular - justificou""A impressão que causa nos outros é sempre de irritação, olhar tenso, as roupas escuras contrastando com a palidez exagerada. Serge Gainsbourg é reticente no que diz, tem o andar pesado. Jane Birkin é alta e esguia, ri quase sempre, se diverte com as solicitações dos jornalistas para as poses, depois de consultar o marido"

domingo, 4 de agosto de 2013

A juvenília de Caetano Veloso

Hoje, na coluna de O Globo, Caetano Veloso fala do primeiro show solo, em Salvador, 1965. As lembranças dele chegam a partir da leitura de Billie Holiday e a biografia de uma canção, livro sobre Strange Fruit, que conta ter ganhado em João Pessoa. Já li muito sobre Caetano e não lembro de nada sobre esse show, que tinha a participação de Dedé (ainda namorada) e se chamava Cavaleiro (link no final). Com a coluna na cabeça, lembro um achado recente em meus guardados: uma Vogue especial Caetano. Não encontrei a data, mas deve ser de 1987. Bom, são vários textos interessantes, mas o que interessa aqui é um sobre os primeiros tempos do cara em São Paulo, quando era somente “o irmão de Bethânia”, em 1965, logo após o show de Salvador. Foi escrito por Edmar Pereira, que já faleceu e tive a honra de conviver na redação do Estadão/ Jornal da Tarde, na primeira metade dos 90. E mais: uma das fontes da matéria é Dirceu Soares, jornalista daquela turma de mineiros que fez o JT. Também já falecido, Dirceu Soares foi uma das pessoas (a pessoa) que mais força me deu quando cheguei em São Paulo. E nem preciso fechar os olhos para ouvir agora a voz dele, aquele sotaque mineiro, a me contar bem devagarinho histórias de quando convivia com os então desconhecidos garotos da Tropicália. Em homenagem a ele e a Edmar, segue a citada matéria. 

E olha que doido: abro agora “Críticas de Edmar Pereira” (Imprensa Oficial) e no primeiro parágrafo da apresentação escrita por Luiz Carlos Merten (que eu chamo de “mestre”), encontro o seguinte: “Em junho de 1974, Edmar Pereira, na época um jovem crítico chegado de Minas, publicou seu primeiro texto no Jornal da Tarde, de São Paulo. Era uma ode a Billie Holiday”. Pronto: Havia sim uma ligação com a coluna do Caetano. Tudo fecha, então, porque tudo é fechado, não deve haver espanto. Queria ter escrito essa frase, mas quem o fez foi o Caio Fernando de Abreu numa crônica belíssima: Para embalar John Cheever. Sim, não deve haver espanto.


                                                  Quando eu te encarei
                                                  frente a frente,
                                                  não vi o meu rosto

                                                   Por Edmar Pereira

São Paulo não era ainda seu espelho. E Narciso achava feio e apavorante o reflexo que via, não existia ainda a convivência que destrói os temores, prevalecia a aparência sobre qualquer realidade menos hostil. E o espelho, como via o Narciso ainda inédito, ou quase? Tão magro, tão baiano, cabelos encaracolados, uma blusa de gola roulée. Um pouco depois o famoso paletó xadrezinho, que acabaria se tornando um modelo nacional. Mas isso seria depois, ainda seria muito cedo para o trinfo de Alegria, Alegria. Era ainda antes que corações brasileiros se enchessem de maternal ternura pelo garoto magricela, que coçava a cabeça, sorria sem jeito e acertava todas no Esta Noite se Improvisa. A voz da irmã Bethânia reverberava Carcará na Ipiranga com São João e outras esquinas da cidade, mas Caetano era ainda apenas um discreto coadjuvante de um certo grupo baiano que tomaria, primeiro na surdina e depois ruidosamente, de assalto a música brasileira.

Caetano, Gracinha e Gil
Todos estavam ainda ofuscados pelo brilho do cometa Bethânia. Mas ouvidos atentos e olhos curiosos já eram capazes de identificar Caetano como “irmão dela”, o autor do outro lado do compacto que levara o Carcará a todas as paradas. Caetano anunciava a manhã, o canto do galo, o tempo de buscar uma flor nova, a sua. Mas tão discreto e tão tímido, falando tão pouco e tão baixo que se ouvia muito melhor a metralhadora verbal de Tom Zé, via-se muito melhor a inteligência fascinante de um Gilberto Gil redondinho, cuja enorme simpatia era quase que completamente disfarçada por um cavanhaque pedante. Ouvia-se também mais uma certa Maria da Graça, que os íntimos chamavam Gracinha e já saudavam como a mais afinada voz do grupo, espécie de João Gilberto em versão feminina e juvenil.

Caetano ainda procurava seu rosto. E se ocupava em decifrar enigmas propostos pela esfinge, como a possibilidade concreta de poesia das suas esquinas, onde passeavam meninas discretamente deselegantes. O poeta de Santo Amaro, calçado de sandálias de couro, tinha sobressaltos, e mesmo nas noites de segunda-feira, amparado pelo violão no Teatro de Arena ou nas inconstantes passagens pelo Juão Sebastião Bar, não descobrira ainda como usar seu magnetismo. O jornalista Dirceu Soares lembra desse tempo, entre 1965 e 1966. Lembra do “menino elétrico, vivo, observador, atento a tudo, que era capaz de expressar uma opinião a respeito de qualquer coisa. Mas para quem não conhecia sua intimidade, ele era somente “o irmão da Bethânia”, frase imediatamente entreouvida pelas mesas do Barrouquinho cada vez que ele movimentava sua silhueta magra pela Galeria Metrópole.

Essas lembranças coincidem com as de Paulo Cotrim, jornalista, crítico de comidas, sempre apaixonado por jovens artistas, na época o criador do histórico Juão Sebastião Bar, uma das ilhas de liberdade no revolto mar da ainda jovem ditadura. Cotrim contra que certa vez abrigou Caetano por duas noites no seu apartamento, aliás hiperpovoado: “O Paulo José e o Paulo Cesar Pereio, jovens atores recém chegados do Sul, estavam morando lá. O Plínio Marcos, jovem autor de Dois Perdidos Numa Noite Suja, peça que não era uma das favoritas dos novos donos do poder, também aparecia clandestinamente para dormir. Caetano e seu amigo Macalé tiveram que ficar na sala, não havia outro espaço. Ele levava então uma vida extremamente simples e despojada. Impossível não lembrar de suas sandálias. Ou de que, mesmo aparentemente apagado e feioso, era um espírito aberto, de diálogo agradável e boa cultura.


A primeira imagem de Caetano arquivada pelas retinas de Cotrim “é sua chegada no Juão, em 65, todo tímido e sem jeito. Ele às vezes tocava, era aplaudido quando cantava É de Manhã, mas o Gil chamava muito mais atenção e Bethânia naturalmente já era a grande estrela, fazendo o show Opinião, no TBC. Tinha também a Gal, ainda Gracinha, e todo mundo insistia para que ela ficasse em São Paulo, porque com aquela voz faria certamente uma carreira. Mas ela só falava em saudades da mãe, que ia mesmo voltar para a Bahia, que não aguentava mais... Caetano já mostrava outras canções, mas as pessoas prestavam pouca atenção. 

o link para Lendo: a coluna de Caetano Veloso em O Globo

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A filha de Mick Jagger, a ex e o trabalho escravo


Você abre o jornal e em meia capa da Ilustrada estão Jerry Hall e Georgia Jagger, a ex e a filha de Mick Jagger, lindas e loiras posando para a Le Lis Blanc. Daí você pensa, mas vem cá, essa griffe não é aquela que, li no fim de semana, está envolvida com trabalho escravo? É, é sim. Bem indecente isso, né.

Googleio e vem uma notícia de ontem (“Jerry Hall, o retorno da top dos 70´s") no site da Lilian Pacce: “As duas posaram para Max Abadian em NY e também estão juntas na campanha de primavera-verão 2013/14 da Le Lis Blanc”. Referência a “trabalho escravo”? Nada. E uma vírgula após o nome da marca e um texto assim “griffe acusada de envolvimento com trabalho escravo” só aqueceria, né. Acorda, Alice!

A próxima no Google (Jerry Hall Georgia Jagger Le Lis Blanc) é da Elle Brasil, que vai estampar as duas na capa da edição de agosto: “Em total sintonia, mãe e filha posaram para as lentes do fotógrafo Max Abadian, em Nova York, usando looks by Le Lis Blanc”. Ah, tem mais: a capa “mostra Georgia e sua inconfundível boca vermelha vestindo top metalizado Bo.Bô”. E aí? Bom, a Bo.Bô é outra griffe envolvida com trabalho escravo. Quer dizer: a ex de Mick Jagger e a filha estão emprestando sua imagem (altos cachês, claro) para griffes envolvidas com trabalho escravo no Brasil (Matéria publicada sábado por O Globo explica o caso). Será que elas sabem? Bom, não são novatas inexperientes atrás de uma graninha extra e devem ter agentes e advogados que investigam as empresas com que vão trabalhar.

A campanha da Le Lis Blanc também é destaque no site da Harper´s Bazar nacional. “ Os cliques da mãe e filha estão rolando no Hotel Surf Lodge, nos Hamptons, Estados Unidos, mesma região onde Cara Delevingne posa para a Bo.Bô”.  Olha aí: Cara Delevingne, “queridinha dos fashionistas” também empresta sua imagem para griffe envolvida com trabalho escravo.

“O que Georgia Jagger, Jerry Hall e Cara Delevingne têm em comum?”, pergunta o Glamurama em 5 de junho. Oba, furo, alguém relacionou as gatas com trabalho escravo. Bem capaz. Nada disso, o site (há dois meses) apenas registrava a agitação fashionista com as campanhas do grupo Restoque, dono da Le Lis Blanc e Bo.Bô, nos Hamptons. Quer dizer: um simples anúncio fashion leva a uma história esquisita, indecente. Tá tudo dominado e há algo de podre no mundo fashion.


Abaixo, os links para a matéria de O Globo sobre o assunto e para todos os sites aqui citados.

Matéria O Globo

Blog da Miriam Leitão, O Globo

Site Lilian Pacce

Site Elle Brasil

Harper´s Bazar Brasil

Glamurama


Clarice Lispector: Meu Natal

Clarice Lispector com o marido e filhos no Natal de 1956, EUA. Do livro Fotobiografia Esta crônica natalina encerra a coluna de C...