quinta-feira, 31 de maio de 2018

A matéria de Audálio Dantas que revelou Carolina de Jesus




O jornalista Audálio Dantas, 88 anos, morreu ontem. Profissional brilhante, teve uma longa e bem sucedida trajetória. "Um exemplo como jornalista e como cidadão, protagonista de um dos mais sofridos acontecimentos de nossa história recente, o assassinato de Vladimir Herzog. Junto com Fernando Pacheco Jordão colocaram corajosamente o Sindicato dos Jornalistas como Centro da resistência à ditadura em 1975.", escreveu o cineasta João Batista de Andrade no Facebook.

E um dos momentos marcantes do repórter Audálio Dantas foi no final dos anos 50: uma matéria na favela que acabou revelando a escritora Carolina Maria de Jesus, autora do best-seller Quarto de Despejo. Abaixo, em texto escrito em 1993 para o prefácio do livro, ele conta:

"Entrei na história deste livro como jornalista, verde ainda, com a emoção e a certeza de quem acreditava poder mudar o mundo. Ou, pelo menos, a favela de Canindé e outras favelas espalhadas pelo Brasil. Repórter, fui encarregado de escrever uma matéria sobre uma favela que se expandia na beira do rio Tietê, no bairro do Canindé. Lá, no rebuliço favelado, encontrei a negra Carolina, que logo se colocou como alguém que tinha o que dizer. E tinha! Tanto que, na hora, desisti de escrever a reportagem.

A história da favela que eu buscava estava escrita em uns vinte cadernos encardidos que Carolina guardava em seu barraco. Li, e logo vi: repórter nenhum, escritor nenhum poderia escrever melhor aquela história - a visão dentro da favela.

Da reportagem - reprodução de trechos do diário - publicada na Folha da Noite, em 1958, e mais tarde (1959) na revista O Cruzeiro, chegou-se ao livro, em 1960. Fui o responsável pelo que se chama edição de texto. Li todos aqueles vinte cadernos que continham o dia a dia de Carolina e seus companheiros de triste viagem."

Abaixo, a matéria de seis páginas publicada pela revista O Cruzeiro, em 1959. E no final, o link para a entrevista que Cynara Menezes fez com Audálio, em 2014, sobre Carolina de Maria de Jesus, publicada no site Socialista Morena.






Link para entrevista com Audálio sobre Carolina de Jesus, no site Socialista Morena


quarta-feira, 16 de maio de 2018

O petróleo é nosso: EUA odeiam isso. E faz tempo




O interesse americano pelo petróleo brasileiro vem originando golpes. Há quem ache isso paranoia, mas é uma situação que vem de muito tempo. Duvida? Olha então o que aconteceu com o lendário jornalista Justino Martins (1917-1983), editor da cultuada Revista do Globo, de Porto Alegre, correspondente na Europa do jornal O Globo e diretor-editor da revista Manchete por muitos anos. Na revista Status, de maio de 1975, ele falou de sua carreira para Gilberto Mansur e Daniel Más. É uma bela entrevista. E o que interessa aqui é quando ele conta que teve o visto negado pelos Estados Unidos, na metade dos anos 40. O motivo: "Você pode dizer tudo o que quiser contra o Governo americano, mas você escreveu contra a Standard Oil (Esso), que é que eu posso fazer?", ouviu do cônsul. Abaixo um trecho da entrevista, e na última pergunta ele conta a negativa do visto. E no fim da entrevista, alguns anúncios da Standard Oil (Esso) nos anos 40. Esse ao lado saiu na revista O Cruzeiro, em 1947

Revista Status, Maio de 1975

Status: Na Revista do Globo, você é quem dava a linha política?
É. E era uma linha definida; eu fazia uma revista que lutava contra a ditadura de Vargas, e que depois lutou pela libertação de Prestes, pela campanha do petróleo é nosso...


Status: E por causa disso, você acabou na Europa?

Eu fui para a Europa, logo depois da guerra, em 1946, por dois motivos: primeiro, porque todo brasileiro tem certo atavismo, né? Mesmo em terceira geração, vive olhando pra Europa. E eu, de tanto ler literatura francesa, queria ir para a Europa. E o segundo motivo é que como não pude ir para os Estados Unidos fui para a Europa. Proibido de ir para Siracuse fui para Siracusa.


Status: o motivo político
Eu tinha tomado umas posições de esquerda e estava, politicamente, muito ilhado aqui. Foi quando recebi um convite do Ministério da Educação dos Estados Unidos para dar um curso de literatura numa grande universidade de Nova York, a de Siracuse. Aquilo era uma honra, sobretudo porque eu era um cara jovem. É que, durante a guerra, tinha vindo ao Brasil um coronel - era um professor, mas vestido de coronel - junto com o John  Ford, aquele diretor de cinema. Vieram fazer filmes documentários para esse negócio de guerra e eu é que acompanhei os dois no Rio Grande do Sul. Depois, o tal professor-coronel chegou a Ministro da Educação dos Estados Unidos. E quando a universidade pediu pra ele um professor de literatura brasileira, ele se lembrou de mim.


Status: E você não pode ir?
Pois é. Teve até um banquete oferecido pela Assemblía do Rio Grande e eu aí me enfeitei todo e disse vou-me embora. Pedi licença na Livraria do Globo, que já tava querendo se livrar de mim porque eu estava fazendo uma revista praticamente comunista, embora não fosse filiado ao partido e nem pensasse nisso. Tudo pronto, fui pedir o visto no Consulado e o que aconteceu? Fui uma das primeiras pessoas a ter visto negado pelos Estados Unidos. Em boa companhia: o Dante Santoro, aquele compositor clássico, que tinha recebido um prêmio nos Estados Unidos e ia buscá-lo; o Picasso, na França, que tinha pedido o visto e acabou nunca embarcando, e eu.


Status: Você foi considerado um inimigo do Estados Unidos?
Eu cheguei, pedi o visto e o cônsul me disse: "Não podemos lhe dar o visto porque você é inimigo dos Estados Unidos". Aí eu disse: "Poxa, eu passei a guerra toda lutando a favor da causa aliada, contra o nazismo, contra a gestapo no Brasil, o facismo, integralismo, o diabo a quatro, que negócio é este?" Ele então abriu uma gaveta e me mostrou um dossiê com tudo que era reportagem minha sobra a campanha do petróleo, Monteiro Lobato, essas coisas, e me disse esta frase: "Você pode dizer tudo o que quiser contra o Governo americano, mas você escreveu contra a Standard Oil, que é que eu posso fazer?" Era uma época em que a Standard Oil pagava páginas inteiras nos jornais do Brasil com histórias em quadrinho, "provando" o mau negócio que o Brasil faria se nacionalizasse a riqueza do subsolo.

Abaixo, alguns anúncios da Standard Oil (Shell) nos anos 40

Diario de Noticias, 1945
O Cruzeiro

A Cigarra, 47

 

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