quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Um encontro para a eternidade



O texto abaixo "veio ocasionalmente" e a foto me capturou. Comecei a ler e fez ainda mais sentido - e de um jeito impressionante meio idas e voltas da vida. É do Samuel Wainer, uma capa da Ilustrada em julho de 1980, alguns dias depois da morte de Vinicius de Moraes. Samuel conta que escreveu a partir da foto e o poema O Operário em Construção, de Vinicius, é destaque. Bom, é Vinicius, Lula, O Operário em Construção, Serra e muita coisa da nossa história recente por Samuel Wainer. Boa leitura!

                                 Um encontro para a eternidade
                                           Samuel Wainer

À medida que a imagem de Vinicius de Moraes vai se fixando na memória nacional como a do seu grande poeta e compositor, mais afastada fica a sua figura de militante político. Entretanto, a herança cultural e a herança ideológica de Vinicius lhe asseguram perfeitamente ocupar um dos lugares só reservados aos verdadeiros heróis do povo.

Já escrevi alhures que fomos amigos durante quase quarenta anos. E como minha atuação jamais se situou propriamente no campo da poesia, nem da música, é de Vinicius sempre pronto a apoiar as causas populares, sempre entre os que se colocavam à frente dos movimentos libertários, simples e modesto, mas infalível, é dele que desejo dizer algumas linhas.

E para que falar mais do que lembrar que foi aqui, em São Paulo, num daqueles sombrios dias de fins de 1963, que Vinicius leu no Teatro Paramount, pela primeira vez, esta sua homília cívica: “O Operário em Construção”. Não há na nossa poesia de conteúdo socializante muita coisa mais bela que esse cântico de desespero e esperança que brotou certamente do mais fundo da alma de Vinicius.

E ele jamais se afastou desse caminho. Desde quando, nos inícios da década de 40, ainda tão adolescente, rompeu com as amarras oligárquicas que o prendiam à decadente aristocracia nacional. Não ficava apenas nas palavras, embora mais de uma vez eu me lembre de Vinicius aqui, em Paris ou Santiago, sempre suave, mas irremovível, batendo-se como um leão pelas suas ideias. Não há nada que possa pagar o estímulo nacionalista, por exemplo, que Vinicius deu ao cinema brasileiro. Como será impossível estimar o que representa em influência política a que ele exerceu pela sua música, poesia, prosa e ação sobre a mais bela geração artística que o Brasil já produziu. João Gilberto, Nara, Baden, Tom, Chico, Caetano, Toquinho, Gil, Carlinhos Vergueiro e tantos outros. E porque não lembrar, enfim, a presença de Vinicius no histórico CPC, o Centro de Cultura da UNE, onde a sua poesia e seus cânticos já abrindo caminhos para a “bossa nova”, eram a chama que alimentava o romantismo político da geração de José Serra?

Creio melhor poupar o espaço desta “Folha” da nossa editora Helô Machado, espaço que será muito melhor ocupado se nele couber o poema de Vinicius “Operário em Construção”, um poema de que tantos falam, tão poucos ouviram e tantos precisariam conhecer hoje.

A foto que ilustra o poema veio ocasionalmente às mãos do redator destas linhas. É de autoria de Buby Costa e nela surge Vinicius, à sombra da cruz, entre Lula e Tito Costa, na inesquecível missa de 1º de maio de 1979, comemorativa da greve dos metalúrgicos que naquele ano lançou as raízes do novo sindicalismo brasileiro.

Quem ouviu no Estádio da Vila Euclides, mais tarde, e pela manhã no Paço da Prefeitura de São Bernardo, aqueles milhares de operários, recitando em coro o poema de Vinicius, jamais poderá esquecer aquele momento. A que Vinicius, apesar do “show” de véspera no Tuca haver terminado de madrugada, foi dos primeiros a comparecer e o último a partir. Foi um encontro para a eternidade.

                                        FSP, 20 de julho de 1980 

E aqui, o poema O Operário em Construção:
http://letras.mus.br/vinicius-de-moraes/87332/

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