segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Decifrar a borra


Descobri a cafeomancia nesse fim de semana. Cafeo o quê? Então, uma tradição nos paises árabes, é a arte de adivinhar o futuro através da borra do café que fica nas paredes da xícara depois de bebê-lo. Quem me iniciou foi uma amiga querida, que aprendeu a prática com uma egípcia. É saborear o café, emborcar a xícara, esperar alguns minutos e começar a decifrar as imagens: árvore, coroa de rei, pássaros, animais, pessoas... Surge um mundo doidinho pra ser decifrado ali bem diante do nosso nariz. Em caso de dúvida, a foto acima ajuda a esclarecer. É só tomar alguns cuidados: pra borra ficar espessa e totalmente legível, tem que evitar o acúcar. Com adoçante funciona, mas se o café for bebido puro é o ideal. É diversão e precisão na certa.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Em sangue e máximas

"De tudo o que se escreve, aprecio somente aquilo que alguém escreve com seu próprio sangue. Aquele que escreve em sangue e máximas não quer ser lido, mas aprendido de cor". É do Nietzsche e tem tudo a ver com um livro que me caiu nas mãos e não me sai da cabeça: O Lado Fatal, da Lya Luft. São poemas que ela escreveu logo após a morte de Helio Pellegrino. Terrivelmente belos, dolorosos, de uma sinceridade estarrecedora. Eis um deles:

O meu amado tinha indagações enormes:
andava de um lado para outro em minha frente:
não se conformava com os conformados, os corruptos,
os medíocres e os vendidos deste mundo.
Não se conformava com a miséria, a dominação, o desvalimento.
Não se conformava também quando não o entendiam.
Passava as mãos pelo cabelo grisalho
e ardia como um jovem de dezoito anos na sua ira:
"Tenho vocação é de terrorista."

(Eu escutava, com medo de que ele saltasse da varanda
levado pelo vendaval de seu furor de justo.)

Depois, ele fechava as portas de vidro sobre a noite quente,
me pegava pela mão, dizia:
"Vamos dormir."


E então era todo mel e ternura.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Alegre Menina

Um moço que voa a trouxe pra mim numa madrugada dessas. Já a conhecia, até tive o primeiro disco que sumiu sei lá como e sempre me chamou a atenção aquela voz de criança, de criança sapeca, que lembra Elza Soares, mas sem excessos. Tem uma pureza em Mart’nália, um cantar despreocupado, um à vontade na vida sem exatamente se preocupar em estar à vontade, um jeitão de quem faz revolução sem ligar a mínima pra isso. E tô dizendo tudo isso por quê? Ah, porque “ela é minha mais entre as dez mais” e desde aquela madrugada reina debochada aqui em casa. Foi trilha de fim de ano e vai atravessar 2009 juntinho, ah vai.

Mart’nália grava pela Biscoito Fino, não é fácil encontrar seus CDs e soube que alguém já reclamou disso com Martinho da Vila (rarara), que deve ter adorado. Hoje achei dois CDs da bela e tô aqui fissurado por Madrugada, que tem até música na abertura da novela das sete. E falando em novela, Mart’nália reinava em Paraíso Tropical, volta e meia fazia show no luxuoso bar do Hotel - os dois gays da novela sempre estavam na platéia babando –, cantando a bandeirosa Cabide, que Ana Carolina fez pra ela. Bandeirosa Cabide? Mas qual música naquela voz abençoada não vira bandeirosa? Adoro quando ela canta Alguém me Avisou, sai da letra no verso “sempre fui obediente” pra emendar um rápido “mentira” e voltar com “mas não pude resistir”. E tem a nova e deliciosa Tava por aí, um samba rock que me capturou de cara com versos como esses: “a vida continua nua e crua e muito boa. O vento é o leque da pessoa que andava à toa”.

No CD novo não faltam regravações deliciosas, como Sai Dessa, do repertório de Elis Regina e Alegre Menina, a que revelou Djavan. Essa é Mart’nália uma lufada de vento fresco nas cantoras comportadinhas (queridinhas, ouçam Mart’nália) que poluem a MPB dita moderna. Mart’nália tem a força e audácia do Ney Matogrosso. E viva Mart’nália!!!

Tranquila e simples

“Man, que tua noite de réveillon seja tranqüila e simples, como 2009 e a vida toda precisam ser”. Recebi essa mensagem de um amigo querido. É justo assim: tranqüila e simples que vai continuar sendo. Hoje desci pra comprar comida japonesa, tava com ganas de sushi, mas tudo mudou num segundo ao passar pelo PF aqui do lado de casa: que sushi que nada, minha gana era de costela. Enchi uma quentinha delas e vim rindo sozinho pra casa me banquetear, completamente entregue a delícia do acaso.
Não sei quanto o mundo é bão, mas ele fica melhor quando sei que existe alguém que adora Bom Dia Vietnã porque o personagem do Robin Williams dedica sua vida a alegrar o dia-a-dia de outras pessoas. E se emociona com Dia Branco (Eu te prometo o sol... se o sol sair/ ou a chuva.. se a chuva cair) porque a canção fala de coisas reais, possíveis, nada de falsas ilusões. Tranquila e simples: quero assim e vai ser.

Gracias a eles

Em livros, filmes, músicas, blogs, peças e coisas mais essa gente toda fez meu 2008 bem mais legal. Gracias a eles! A ordem é da memória, com uma pequena ajuda da agenda.

R.E.M., Arnaldo Baptista, Murakami, Ney Matogrosso, Vetusta Morla, Paulo José, Wong Kar Wai, Damien Rice, Aline Lacerda, Baulenas, Vitor Ramil, Jorge Drexler, Julieta Venegas, Louis Garrell, Beto Guedes, Kieslowski, Fernanda Takai, Cleyde Yaconis, Vanessa Redgrave, Meryl Streep, Julie Delpy, Hugo Carvana, Woody Allen, Julio Medem, Louise Cardoso, Joana Fomm, Eddie Vedder, Emile Hirsch, Domingos Oliveira, Adriana Calcanhotto, Maria Bethânia, Laís Bodansky, Bruna Lombardi, Pedro Almodóvar, Caetano Veloso, Ingmar Bergman, Heath Ledger, Leandra Leal, Denise Fraga, Wagner Moura, Letícia Sabatella, Dorival Caymmi, Mathieu Almaric, Neil Young, Patti Smith, Clarice Lispector, Miguel Bosé, Penélope Cruz, Patricia Pìllar, Cesaria Évora, Marisa Monte, Walter Salles, Win Wenders, Laurie Anderson, Patricia Pahl, Rafael Barioni, Antoniela Canto, Pâmio, Obama, Audrey Tautou, Alejandro Sanz, Neruda, Cazuza, Nando Reis, Helena Elis, Mart’nália, Chico Buarque e Fele.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Caminhos do Sul


Pra encerrar o ano um retorno à cidade onde nasci cai como luva. Toda vez que volto pra São Gabriel, que adoro chamar Sangaba, me vem à mente Peggy Sue, o filme do Coppola. Faço longas caminhadas por ruas que me conhecem como ninguém, repletas de lembranças. E muitas vezes ao dobrar uma esquina ou lançar um olhar mais atento sobre alguma casa antiga recebo a visita de velhos fantasmas. E é como se eles me abençoassem, como se também gostassem do reencontro. Falo alto com eles, rio com eles e sigo em frente, certo de que outros surgirão ao dobrar a próxima esquina.

E aí na foto tá a velha estação ferroviária, pertinho da casa da minha mãe. Adoro o prédio e é como se fosse o quartel general dos meus fantasminhas camaradas.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Imperfeitinhas perfeitas

Se voz fosse quesito, Jessé seria o ídolo dos ídolos. É uma das minhas máximas essa frase, que me desculpe o cara que até morreu, mas ele pra mim é sinônimo de vozeirão. Amo música e vozes, nem sempre aquelas perfeitas. Claro que sobra lugar para elas que não sou tão maluco assim, mas são as imperfeitinhas que me pegam fácil fácil. Quem por exemplo? Beto Guedes vem logo à cabeça e até porque acabei de ouvir a maravilha Amor de Índio, que ninguém canta como ele. Seu companheiro de Clube da Esquina, Lô Borges também não é nenhum Milton Nascimento. Nem Chico Buarque, mas gosto de ouvir Chico na voz de Chico – A voz do dono e o dono da voz. Marina Lima quase perdeu a voz e nunca seus encantos. E tem aquelas emissões sutis tão bem representadas pelo trio Nara Leão, Rita Lee e Fernanda Takai. Quem mais? Ah, são tantos, mas com os citados aqui já ta bom.

Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...