segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ali na esquina do sonho com a razão

Um hotel de beira de estrada. Não de uma cidade pequena, de uma média mas daquelas que você nunca pisou, apesar de localizada a 100 km de onde mora. Um domingo. Um domingo comum, mas não um domingo banal. Um alguém. Um alguém especial, bem mais que especial, um alguém adorável que te desperta a vontade de ser a melhor das criaturas do mundo – e é a melhor das criaturas do mundo. ´

Um domingo. Um hotel de beira de estrada. Um alguém. A vida pode ser tão simples e tranquila e as vezes ela é. Existe um heliponto no hotel de linhas modernistas. Mas há os encantos escondidos do posto ao lado, meio descampado, que abriga um restaurante para quem está de passada. Ali, uma taça de café com leite, com coxinha ou pão com queijo ou lanche de lingüiça quando a tarde parece ansiosa em ceder espaço pra escuridão da noite.

O olho no olho, a cumplicidade, o nem precisar falar muito para ser entendido, o caminhar lado a lado bem devagar, sem pressa, sem nenhuma pressa, o cigarro compartilhado, el pincipito novato que pede cuidados. Falar besteiras, deixar a censura de lado, imaginar-se fazendo coisas absurdas num espetáculo do José Celso Martinez Correa, rir, cagar de rir e de coisas que pra outras pessoas seriam consideradas nojeiras. Descobrir as delícias do sono, mergulhar num mundo bem ali na esquina do sonho com a razão. Um domingo, um hotel de beira de estrada. Um alguém. Pedir mais o quê? Outro domingo, qualquer lugar, o mesmo alguém.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Os 90 anos da gata valente de pele de tigre

“As amarguras não são amargas quando quem canta é Chavela Vargas”. Quem fala é o espanhol Joaquin Sabina, também mestre em “levezas” da vida. Nesta sexta, 17 de abril, a mexicana Chavela Vargas completa 90 anos e sua voz carrega o peso dos anos de uma existência rica e maluca daquelas ovelhas negras que nunca hesitaram em transformar limões em limonadas. Dela se diz que tomou toda a tequila do México e que teve tantos amores (um dos mais conhecidos é Frida Kahlo) como desamores. E quando jovem fumava cigarro de palha e levava uma pistola no cinturão.

Sua biografia Y Si Quieres Saber Mi Passado fala de sua vida, sua morte e ressurreição. No final dos anos 70, enfrentou problemas de saúde devido ao alcoolismo e outros excessos e se retirou por quase dez anos. “Sai do inferno e o fiz cantando”, disse. E um dos responsáveis pela volta foi Pedro Almodovar que desde garoto era seu fã. Ele já disse que as canções de Chavela o encorajaram a abandonar sua cidadezinha e partir em busca de seus sonhos. Chavela canta em De Saltos Altos, A Flor do Meu Segredo e Carne Trêmula. Outra participação incrível no cinema é em Frida.

Chavela voltou recentemente para sua cidade natal, San Joaquín de Flores, na Costa Rica. O motivo? “Para estar perto do mar e para que as sereias venham me visitar”, disse

Abaixo, o começo de Por el Bulevar de los Sueños Rotos, que Joaquin Sabina compôs para ela:
En el bulevar de los sueños rotos
vive una dama de poncho rojo,
pelo de plata y carne morena.
Mestiza ardiente de lengua libre,
gata valiente de piel de tigre
con voz de rayo de luna llena.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Tim Maia e eu, eu e Tim Maia

Aquele vozeirão, melancolia e alegria misturando-se nas canções não sei se nas doses exatas, mas com precisão quase sempre. Tim Maia era o cara. E tive a honra de estar com ele, uma única vez pra nunca esquecer. Foi em abril de 1995, três anos antes de sua morte. Trabalhava numa revista e a gravadora ofereceu uma entrevista. Ele lançava disco novo, aquele do esfriamento global, e vinha a São Paulo. “Oba, entrevista com Tim. Quando?”. Quase caí pra trás quando me disseram que seria às 8:30 da manhã. Não, ela não estava brincando era mesmo nesse horário. Bom, ironia das ironias, eu teria de madrugar para entrevistar o homem.

Cheguei em cima da hora ao apart hotel onde ele estava hospedado, certo de que tomaria um chá de sofá ou que tudo não teria passado de brincadeira. Que nada, ele já me esperava e em minutos estava em seu apartamento – a mulher dele e a assessora da gravadora nos acompanhavam. Uma simpatia Tim Maia e a entrevista corria deliciosa. De repente, ele interrompeu pra comentar sobre um cachorro confinado numa varanda do prédio em frente, prisioneiro naquela miséria de metros quadrados. Falamos disso alguns minutos. E quando a entrevista acabou, veio a assessora: “mas onde estava aquele cachorro que vocês tanto falavam?”. Tive que dizer pra ela que não havia cachorro nenhum, mas se Tim Maia queria vê-lo quem seria eu pra questionar.

Foi um papo delicioso e ao final ele desceu pra ser fotografado no jardim. Já era perto do meio-dia. O homem alegre, cheio de histórias, que parecia se divertir com suas tiradas e sempre atento ao que lhe falava não estava mais ali. Tim continuava amável, mas uma certa melancolia parecia tomar conta. Foi aí que entendi porque a entrevista tão cedo: à medida que a tarde avançava vinha um certo desconforto. Desse encontro, guardo um autógrafo na capa do CD – com uma letra enorme como o próprio Tim Maia. Tenho o maior orgulho desse dia.

quarta-feira, 11 de março de 2009

História de uma planta

Nasci em um parque e lá vivi feliz alguns dias agarradinha aos meus. Foram apenas alguns dias, não sei precisar quantos, até que num certo domingo ensolarado e quente, quente demais, apareceram uns dedos sedentos e me extraíram do seio famíliar. Foi apavorante, tremeliquei toda e tive medo pelo que me esperava. Fui parar em uma sacola de lona, junto a alguns objetos – garrafa de água, óculos escuro, caderneta de anotações, caneta – e duas semelhantes a mim, também raptadas. Não sabia onde estava e minhas folhinhas balançaram dentro de algo em movimento durante alguns minutos.

Só fui libertada dentro de um espaço que me pareceu agradável – depois vim a saber que era um apartamento. Aquelas mãos que me haviam raptado, cuidadosamente me fixaram numa terra nova. Tremi de prazer, foi meu primeiro contato direto com a terra. Agora eu não era mais um bebê, estava pronta a me tornar uma planta adulta e espalhar minha espécie pro mundo. Em uma semana fiquei assim e tô bem feliz em meu novo lar. Pertinho de mim, uma das manas que saiu do parque cresce feliz. Foi bom ter vivido alguns dias ao ar livre, mas não sinto a menor saudade.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Eu Não Estava Lá

Não existe nada imperdível. É meio um mantra meu e acredito mesmo nisso. Show, peça, filme: nada, nada é imperdível, nada que se deixa de ver faz a menor diferença na vida. Não sou de lamentar o leite derramado, mas gosto de pensar em coisas que eu não vi porque não teria como e adoraria ter visto. O quê? Shows por exemplo. O mitico é um da Elizeth Cardoso com Jacob do Bandolim e Zimbo Trio, no João Caetano, em 1968. Ok, eu já havia nascido e até poderia ter estado lá, mas era criança demais pra entender o que deve ter rolado naquele palco e me deixa arrepiado ao ouvir a gravação tantos anos depois. Ao final, os aplausos pro bis emocionam até múmia. Se lá tivesse, teria vertido milagrimas.

O segundo é de alguns anos depois, John Lennon no Madison Square Garden de Nova York, em 30 de agosto de 1972. Também poderia ter estado lá, apesar da menoridade. Era o auge das inquietações de John que se apresentava com sua amada Yoko – ao contrário de muitos nada tenho contra ela e até acho que fez muito bem à cabeça perturbada do ex-Beatle. Voltando ao show: já me imaginei milvezes berrando quando John ataca de Mother, o acerto de contas com a mãe morta. Ou quando começa Woman Is The Nigger of The World, Imagine, Give Peace a Chance.

Poderia ficar nesses dois, mas daria os 30 segundos finais da minha vida para ter visto um espetáculo da Maria Bethânia no início dos anos 70, aqueles bem teatrais. Qual? Drama 3º Ato ou Rosa dos Ventos. Acho que esse ultimo, que leva o subtítulo de um show encantado e reza a lenda que algo baixava no palco. Ah, lembrei de mais um: Gal Fatal, no Teresa Raquel. Gal Costa na flor da juventude, pernas de fora, tocando violão e ensandecendo os hippies. E o show que reunia Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque e Miúcha? Bom, por esse acho que daria o minuto final da minha vida, ou até dois. Mas eu não estava lá. Paciência.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Hit Parade

Quase adolescente, costumava fazer minha parada de sucessos em sangaba. Ouvia rádio o dia inteiro e não dava paz ao dial na caça às músicas que eu mais gostava. Em folhas de caderno anotava os nomes e um traço ao lado a cada vez que eu a ouvia. No final da semana contabilizava e definia as minhas campeãs. Era uma coisa meio séria, mas com direito a pequenas fraudes para que minhas queridinhas ficassem no topo da lista. E quais eram minhas queridinhas? O tempo se encarregou de levá-las, mas três me vem sem dificuldade: Skyline Pigeon, Music and Me e My Eyes Adored You. Sim, eram praticamente todas em inglês e a maioria da trilha das novelas, bem de acordo com a época.

As coisas mudam sim, mas para permanecerem praticamente como eram. Continuo ouvindo música quase o dia todo, principalmente no computador, mas no rádio também e em qualquer aparelho. Não preciso mais escrever a relação delas, nem contabilizar, basta acionar as “25 mais tocadas” do i-tunes e vem imediatamente a lista precisa e sem fraudes. E quais são elas às vésperas do carnaval 2009?

Em quinto lugar, Ma Memoire Sale, tema do filme Canções de Amor. Na sequência, 10 Contados, com a Céu, tema do início de alguma coisa meses atrás marca um momento importante. Em terceiro, Doce Solidão, Marcelo Camelo, essa é mania atual e aquele assovio na introdução que me acompanha direto. Me Gusta Cuando Callas, poema de Neruda na voz veludo de Alejandro Sanz é a vice, por motivos exclusivamente ligados ao coração. Tem apenas cinco execuções menos que a campeoníssima Janta, Marcelo Camelo e Malu Magalhães, que é tão linda, mas tão linda que tem o poder de me transportar de volta à adolescência. É, nada muda tanto assim.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A morte do casarão no sábado gris

Havia um casarão antigo, amarelado, na esquina da alameda Santos com Hadock Lobo. Nada tinha de lindo, mas atiçava minha imaginação e me transportava para outros tempos e lugares, especialmente quando ali passava à noite. Atraído pelas sombras, muitas vezes parei para observá-lo e inventar mil histórias. Havia um quê de abandono, de descuido e a presença de vida era denunciada apenas por algumas luzes acesas. Quem moraria ali? Nunca vi ninguém.

Hoje, um sábado gris que em nada lembrava o verão de fevereiro, esse que era um dos últimos casarões da região, começou a ser demolido. Quando por ali passei, no final da manhã, não havia mais o teto e as paredes amarelas pareciam agonizar diante da garoa fina, aquela que caracterizava São Paulo em outras décadas. Era como se o casarão morresse num clima semelhante àquele de quando foi construído.

Não parei, não fiz questão de olhar muito, semelhante ao que faço quando topo com mortos e atropelados pelas ruas da cidade. Fiquei triste e ponto. Quero lembrar do casarão amarelo da Santos com a Hadock como ele era. Podia até ser feio, mas dava de dez na modernice lata fria do vizinho Renaissance, que em nada atiça minha imaginação. Sei lá o que devem construir lá, certamente um prédio, o que sei é que vou achá-lo pavoroso. Ah, vou sim e vai ser o meu protesto pelo casarão amarelado que morreu no sábado gris.

Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...