sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A filha de Mick Jagger, a ex e o trabalho escravo


Você abre o jornal e em meia capa da Ilustrada estão Jerry Hall e Georgia Jagger, a ex e a filha de Mick Jagger, lindas e loiras posando para a Le Lis Blanc. Daí você pensa, mas vem cá, essa griffe não é aquela que, li no fim de semana, está envolvida com trabalho escravo? É, é sim. Bem indecente isso, né.

Googleio e vem uma notícia de ontem (“Jerry Hall, o retorno da top dos 70´s") no site da Lilian Pacce: “As duas posaram para Max Abadian em NY e também estão juntas na campanha de primavera-verão 2013/14 da Le Lis Blanc”. Referência a “trabalho escravo”? Nada. E uma vírgula após o nome da marca e um texto assim “griffe acusada de envolvimento com trabalho escravo” só aqueceria, né. Acorda, Alice!

A próxima no Google (Jerry Hall Georgia Jagger Le Lis Blanc) é da Elle Brasil, que vai estampar as duas na capa da edição de agosto: “Em total sintonia, mãe e filha posaram para as lentes do fotógrafo Max Abadian, em Nova York, usando looks by Le Lis Blanc”. Ah, tem mais: a capa “mostra Georgia e sua inconfundível boca vermelha vestindo top metalizado Bo.Bô”. E aí? Bom, a Bo.Bô é outra griffe envolvida com trabalho escravo. Quer dizer: a ex de Mick Jagger e a filha estão emprestando sua imagem (altos cachês, claro) para griffes envolvidas com trabalho escravo no Brasil (Matéria publicada sábado por O Globo explica o caso). Será que elas sabem? Bom, não são novatas inexperientes atrás de uma graninha extra e devem ter agentes e advogados que investigam as empresas com que vão trabalhar.

A campanha da Le Lis Blanc também é destaque no site da Harper´s Bazar nacional. “ Os cliques da mãe e filha estão rolando no Hotel Surf Lodge, nos Hamptons, Estados Unidos, mesma região onde Cara Delevingne posa para a Bo.Bô”.  Olha aí: Cara Delevingne, “queridinha dos fashionistas” também empresta sua imagem para griffe envolvida com trabalho escravo.

“O que Georgia Jagger, Jerry Hall e Cara Delevingne têm em comum?”, pergunta o Glamurama em 5 de junho. Oba, furo, alguém relacionou as gatas com trabalho escravo. Bem capaz. Nada disso, o site (há dois meses) apenas registrava a agitação fashionista com as campanhas do grupo Restoque, dono da Le Lis Blanc e Bo.Bô, nos Hamptons. Quer dizer: um simples anúncio fashion leva a uma história esquisita, indecente. Tá tudo dominado e há algo de podre no mundo fashion.


Abaixo, os links para a matéria de O Globo sobre o assunto e para todos os sites aqui citados.

Matéria O Globo

Blog da Miriam Leitão, O Globo

Site Lilian Pacce

Site Elle Brasil

Harper´s Bazar Brasil

Glamurama


quinta-feira, 11 de julho de 2013

Dois velhos de passeata




Estavam os dois velhos ali, numa passeata na Paulista, hoje à tarde. No mesmo espaço, separados fisicamente por alguns metros. Mas só fisicamente. Em volta, uma multidão, bandeiras e mais bandeiras, causas e mais casas sociais. E entre os dois, um abismo, o da história desse País. O velho do MST me chamou atenção pela animação, pelo jeito de marchar como se sambasse desajeitado mas cheio de charme. Vi de longe, passou por mim e corri para fotografá-lo entre os companheiros do movimento – atrás estava um casal jovem, a moça sem uma perna. Havia um fogo no cu ali – é bom explicar, pra mim fogo no cu é alegria de viver. O homem velho desfilava feliz com sua bandeira vermelha de uma causa demonizada há anos pelos meios de comunicação. Exagero meu? Então repare no modo com que os apresentadores dos jornais nacionais da vida pronunciam a palavra MST como se palavrão cabeludo fosse.


Acompanhei com o olhar o velho do MST até ele sumir no meio do povo e segui caminhando no sentido contrário da marcha. Logo surgiu o outro, o velho ditadura. Ele andava sozinho com aquele cartaz de sandices. Ninguém dava a menor para ele – tá alguns risinhos de repulsa – era como se não existisse, numa solidão absurda no meio de um povo que treme só de ouvir falar a tal ditadura que ele enaltece. No velho ditadura não havia fogo no cu, só uma certa tristeza, um ressentimento, um cinismo, um estar de mal com o viver nítido mesmo com os óculos escuros. Era como se como o cartaz ele lamentasse a ditadura não ter acabado com o velho MST. Voltei para fotografá-lo de longe e de frente e quando se sentiu diante da câmara, o velho ditadura deu uma paradinha pra posar pra foto. Patético. Estavam os dois ali na avenida, a poucos metros, e tão distantes. O de mal com a vida do velho ditadura vou esquecer logo, mas a postura de vida do velho MST fica comigo. Tem que ficar.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Hilda Hilst e Marlon Brando: Meia Noite em Paris


Hilda: Biarritz, 1957. Foto do Cadernos de literatura do IMS
“Organizei um livro em forma de entrevistas, pretensiosas. Conto dos entrevistados, enquanto conto de mim”: é assim que Rita Ruschel auto-apresenta seu Meus Tesouros de Juventude. Editado em 1983, volta e meia o retiro da estante e releio uma das “entrevistas, pretensiosas”. Tem Elis Regina, Tom Jobim, Toquinho, Lima Barreto, o pai dela Alberto Ruschel e muitos outros que, como diz o título, ela conheceu quando jovem. Hoje, fui direto a Hilda Hilst: “Eu a conheço desde pequena. Conheço é força de expressão. Foi o tipo inesquecível da minha infância”. São onze páginas que se lê com a sensação de estar andando com as duas mulheres pelo sítio de Hilda em Campinas, quando a escritora tinha 50 anos: “Estávamos caminhando pelo jardim, indo em direção à figueira centenária. (...) Sentamos embaixo da árvore, na mesa e nos bancos de pedra. Começava a ventar, jeito de tempestade”.

Marlon Brando e Irwin Shaw: Paris, 1957. Foto site Irwin Shaw
A vontade é de copiar o perfil inteiro. Ainda mais depois que o googleio revelou que não está na rede. Nada. Vou é copiar um parágrafo extenso, que reúne Hilda, Marlon Brando, Dean Martin, Hotel Ritz, Paris. É como se fosse uma das tramas do Meia Noite em Paris, do Woody Allen. Acontece em 1957, quando Hilda viajou pela Europa, de junho a dezembro. E Brando esteve por lá nesse ano filmando Os Deuses Vencidos (The Young Lions), baseado em livro de Irwin Shaw (olha os dois na foto ao lado, em 1957) em que interpretou um oficial nazista. Abaixo, o relato de Rita Ruschel.

“Numa noite daquelas antigas, eu escutei Hilda e a minha mãe conversando meio de surdina. Fecharam a porta da sala e eu, do meu quarto, pude entreouvir uma referência a Marlon Brando. Elas estavam falando do meu ídolo cinematográfico, o gênio das telas. Como se tratava de uma pessoa muito importante para mim, deixei por isso mesmo, guardei as coisas assim dentro de mim. Quando fui entrevistá-la vinte anos mais tarde cheia de dedos, resolvi esclarecer a minha fantasia. Foi assim. Hilda estava em Paris namorando Dean Martin, rapidamente. Jantaram com Tony Curtis e ela escapou para o Hotel Ritz. Sabia que naquela noite chegava Marlon Brando. Debaixo de uns martinis seguiu para lá. Trajando na ocasião um vestido longo bordado e uma tiara na cabeça, enfeitando de brilhantes o seu cabelo louro. O gerente avisou que Monsieur Brando não poderia recebê-la. Ele sairia muito cedo para filmar na manhã seguinte. Como ela passou alguns francos por baixo do balcão, o francês, gentilmente, indicou o caminho. Bateu na porta do apartamento, insistiu e ninguém abriu. Achou estranho. Nisso um ator francês saiu do apartamento em atitude suspeita, avisando que o ator não estava hospedado lá. Depois que ele foi embora, Hilda insistiu até que Marlon Brando abrisse. Estava de foulard e chambre de seda. Ela, desapontada, achou que ele era muito baixinho, não sabe se por estar de salto muito alto ou se pelos martinis que tinha tomado. Ao cumprimentá-lo a tiara escapou de sua cabeça e ela foi obrigada a ajeitá-la, sem graça. Como não foi convidada a entrar, na soleira da porta, foi avisando que tinha vindo do Brasil apenas para entrevistá-lo. Ele estranhou o adiantado da hora, mas ela foi convincente. À queima-roupa perguntou “O que você acha de Franz Kafka?” Ele, estarrecido com o nível, respondeu “Quero que se lixe o Kafka e a família dele inteira!” Hilda desancada teve que recompor a tiara mais uma vez. Engatou uma primeira e prosseguiu “Senhor Brando eu vim de longe para saber isso, os jornalistas só lhe fazem perguntas banais.” Ele, vendo aonde ela queria chegar, disse que daria uma entrevista bastante extensa noutra noite, porque realmente teria que estar de pé muito cedo no dia seguinte. “We´ll keep on touch”. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O cerco da polícia à Paulista


O começo do cerco na Paulista
Estava na Paulista quando ela começou a ser fechada pela polícia para evitar que manifestantes tivessem acesso a ela. Isso mesmo: a polícia fechou a avenida para evitar o acesso dos manifestantes e isso não é piada, não tem graça nenhuma e é triste, muito triste. Vi o começo do cerco. Saí do metrô na Consolação antes das oito da noite e desci a avenida, que tinha trânsito nos dois lados, para acompanhar a manifestação, ver o que estava acontecendo. Andei umas duas quadras, parecia que a manifestação estava distante e resolvi voltar pra Paulista. Encontro o acesso à Paulista e Consolação pela Rebouças fechado pela polícia. Na esquina da Paulista com a Consolação, uma barreira com montes de policiais. Na pracinha, carros da polícia meio que camuflados.

Não havia trânsito de carros naquele quarteirão, apenas pessoas circulando com jeito de quem volta do trabalho. E nem sinal de "manifestantes". Vejo policiais revistando jovens, qualquer cara jovem era suspeita. De repente, mais policiais fecham o acesso à Paulista pela Bela Cintra. O número de carros da polícia aumenta muito e até um furgão gigante da Tropa desfila fazendo barulho. Nada de "manifestantes", repito. Volto andando pra Consolação, já sem carros e com muitas pessoas saindo do trabalho, nos pontos de ônibus, muitas apavoradas. Um policial diz a uma senhora em desespero pra ela ir pela Paulista e descer pela Peixoto Gomide que "eles ainda não chegaram lá" e que dava para circular. Entendi que o "eles" eram os manifestantes. Ou seria a polícia? 

Desço o primeiro quarteirão da Consolação. E de repente, começo a ouvir o som de bombas que parecem estar sendo detonadas na altura do cemitério. Além do barulho, volta e meia, clarões. Em volta, gente assustada, uns garotos skatistas, o cheiro das bombas e de repente começa uma correria. Volto pra Paulista, mas é impossível dobrar a esquina. Carros, uns dez, em alta velocidade, cruzam a avenida no sentido Angélica. E uma tropa de choque com seus escudos marcha assustadoramente. É impossível virar a Paulista. O cerco estava se completando e logo bombas na esquina do Riviera, muitas bombas, som assustador. Logo bombas do outro lado da rua também. 


Fico em frente ao Belas Artes e logo uma bomba explode no meio da rua, bem no ponto de ônibus. Pessoas correm apavoradas sem saber para onde. O som das bombas agora é intenso na entrada da Paulista e não vejo "manifestantes", não ali, só se estivessem dispersados. Paro numa marquise, ao lado de um senhor mais velho, uns garotos com mãos pra cima. De repente, três policiais pela calçada "circulando, circulando", mandam. "Pra onde, está tudo cercado", eu digo. O policial me diz pra descer em direção à estação de metrô, que a ação agora seria pra cima, na Paulista. Dito e feito, consigo entrar no metrô, cheio de gente no saguão, usado praticamente como abrigo anti-bombas. E lá fora, bombas, bombas pra todo lado, aquele som assustador. Uns 15 minutos depois, a coisa parece ter acalmado e vou em direção a Paulista, tomada por policiais, mas com circulação permitida. E sim, agora tem muita gente por lá nas calçadas, jovens quase todos.

Quase na esquina da Consolação, repórteres entrevistam um policial que está vestido feito Robocop. São quantos os que entrevistam? Uns 20. E o povo que passa, grita: "entrevista quem tava lá", "entrevista eu", "fascistas". Sigo pela Paulista e após a Bela Cintra o povo ocupa a rua vazia de carros com gritos de "sem violência". Ao longe, o som das bombas, que logo chegam até ali. Correria. Gente tossindo e berrando "filhos da puta". Mais bomba. Acompanho os que fogem das bombas pela Hadock Lobo, lado Jardins, são dezenas. Os olhos ardem. O som das bombas continua. O som de quantas bombas ouvi? Mais de 50? Pode ser. Talvez mais.


Alguns minutos depois, já em casa, o barulho das bombas na Paulista continua. E até umas onze da noite, o massacre segue, com a polícia (e seus cachorros e cavalos) "caçando" manifestantes. Dá uma vergonha de ter visto aquilo tudo e saber que aqueles policiais foram comandados, mandados a rua para bater. Disso não tenho a menor dúvida. E tudo pra quê? Pra defender do povo a gloriosa avenida Paulista, como se uma donzela imaculada ela fosse.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma noite em 1974: Bethânia por Fernando Sabino

Um de volta ao passado rápido: Aqui, uma visita ao camarim do Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, em 1974, durante a temporada de Cena Muda, um dos shows antológicos de Maria Bethânia. O guia não poderia ser melhor: Fernando Sabino, então com 50 anos. Ao estilo das entrevistas de Clarice Lispector (amiga de Sabino) com personalidades, ele traça um delicioso perfil de Bethânia, com coisas que eu não sabia – e olha que já li trocentas mil matérias com ela. A mana de Caetano tinha 28 anos, já era famosa, claro, mas muito mais por seus concorridos shows e não pela vendagem de discos. Era considerada cantora de elite. Uma das “novidades” daqui: uma noite por temporada ela fazia um show sem cobrar ingressos e para entrar bastava levar um presente. E Maria Bethânia levava três dias para abrir a montanha de mimos. Bom, vamos direto ao texto do Fernando Sabino. E pra completar esse de volta ao passado rápido, lá no final uma canção de A Cena Muda: Exemplo, de Lupicinio Rodrigues.


   Fernando Sabino: Diálogo com Bethânia em furta-cor

Como será ela, afinal? Tanto que já ouvi falar. Tantas vezes que já ouvi seus discos. Carcará. Manhã, do Caetano. Apito da Fábrica, de Noel. Rosa dos Ventos, aquele lindo show do Teatro da Praia. E este agora, A Cena Muda a que já assisti. Pois então? Baiana, irmã do Caetano, Santo Amaro da Purificação, candomblé. Escrever sobre alguém como Maria Betânia – ou Bethânia? Terá H no seu nome.
Neste estado de espírito vou para o Teatro Casa Grande. Ela disse ao telefone que eu chegasse às oito, antes vai haver um ensaio e o espetáculo começa às nove e meia. Entrasse pela porta dos fundos, o porteiro se chama Antonio Carlos.
Chego às sete e meia e ela já está se preparando no seu camarim:
- Não ensaiamos ainda, porque o pessoal não chegou.
O pessoal são os sete músicos que a acompanham, e os iluminadores. Ela mesma produz o espetáculo. A direção é de Fauzi Arap, como sempre, que entende seu ofício e entende Bethânia. Há três pessoas com ela , que têm de sair para me dar lugar no minúsculo camarim: a irmã e dois amigos.
Uma mulher-pássaro diante do espelho, cabelos presos, roupão amarelo. No palco, ela se transfigura, cresce de tamanho – ou os outros diminuem, sei lá. Fico a olhá-la, fascinado, enquanto ela passa meticulosamente uma camada de base no rosto. O nariz adunco, os olhos agora voltados para mim, brilhantes como os de um menino olhando por cima do muro o quintal do vizinho:
- Quer um uísque?
Uísque sem gelo, por causa da garganta, talvez. Nunca fez impostação de voz, só um pouco de exercício de respiração. E o cigarro não lhe afeta as cordas vocais, como a mim, que de tanto fumar ando rouco como uma gralha velha. Em compensação, bato à máquina melhor do que ela, que escreve com um dedo só.
- Escreve o quê? Poesia?
- Não: meus sonhos. Escrevo todos os meus sonhos.
- Para o seu analista?
- Não, para mim mesmo. Já parei a análise, não preciso mais.
- De que você mais gosta na vida?
- De brincar. Sou gêmeos. E você?
- Sendo dois, um brinca com o outro, não é? Sou balança. Você usa mamadeira?
- Adoro. Não há nada melhor pra angústia. Outro dia, um amigo meu, homem sério, compenetrado, foi me visitar, e estava na fossa. Então dei uma mamadeira pra ele. Ele não queria, mas acabou aceitando. Ficou bom logo.
- Com quê? Uísque?
- Não, mingau: de aveia, maizena, essas coisas. Ou água mesmo. Bebo água o tempo todo.
Várias garrafas de mineral sobre a penteadeira. Mas continuamos no uísque.
- Tem rede na sua casa?
A casa está em reforma – o decorador é o Argolo. Vai ter uma porção de redes. É uma casa chinesa na Estrada das Canoas, lá em São Conrado. Mas não é de sentar no chão não: tem móveis. Tudo baixinho, mas tem. E as paredes não são de papel: são de vidro.
- Só que acabo transformando tudo numa fazenda baiana.
Tem bicho também: cachorro, gato, tartaruga.
- O cachorro é o Sabu. Aquele ator indiano, de turbante, lembra? Sabu comeu a tartaruga. E o gato comeu um rato que tinha comido veneno, acabou morrendo também. Tem passarinho, mas só solto. Gaiola me dá aflição.
Tem um piano, mas ela não toca, apesar de ter estudado oito anos. Toca violão – dá pra se acompanhar. Vitrola e gravador, é lógico. Principalmente música americana: Bessie Smith, Nina Simone. E Billie Holiday:
- Sou pirada, tenho tudo dela.
Lê o mais que pode: tudo de Clarice, várias vezes, uma glória:
- Ela vem sempre aqui, conversar comigo, que criatura adorável. Todo show meu tem um texto dela. Menos este, que não tem texto nenhum, só música, pois é A Cena Muda. O que ela tem escrito sobre Brasília é fabuloso. Brasília, aquele fracasso triunfal. Aquele horror que dá na gente, help! Help! Help! Entao entra um garçom e pergunta: quer um cafezinho?
Passamos a falar da nossa admiração por Clarice Lispector. A conversa se ilumina de dourado. Ela me olha pelo espelho?
- Você já leu um livro chamado O Coração é um Caçador Solitário?
De Carson McCullers: o amor do casal de surdos-mudos. E A Balada do Café Triste, história de um anão.
- Já li também. E Katherine Mansfield...
Agora ela diz que vai me contar uma coisa. Faz um ar matreiro, para de se maquilar, me olha no fundo da sua adolescência:
- Eu tinha 13 anos e eles não queriam que eu lesse seu livro, houve uma espécie de conselho de família. Caetano é que ficou de decidir, como irmão mais velho, ele queria que eu lesse, então eu li.
É a minha vaidade acariciada como um gato angorá. Tento parecer natural:
- Que é que você achou?
- Curti. Principalmente por ser proibido. Mas não havia nada de mais.
Enquanto conversamos, entra e sai gente, ela cumprimenta afetuosamente um e outro. É o pessoal do show que está chegando. Tem um sentado no chão a meu lado, outro de pé junto à porta.
- Minha melhor qualidade? Acho que é não saber mentir. So digo a verdade.
- “Não tenho nenhum prazer em conhecê-lo”
Ela ri:
- Isso também não. Mas não levo desaforo para casa. O maior defeito, os meus amigos acham... Sou impulsiva, sabe? Intolerante às vezes, eles dizem. Não gosto de ser mandada.
- Inaptidão para a vida militar.
- Isso mesmo. Só faço o que eu quero.
Mas é organizada, boa administradora de si mesmo, tem lá a sua própria disciplina. Dependura sua roupa, não deixa toalha no chão depois do banho, não apaga cigarro na xícara de café. Vou perguntando, ela vai respondendo. Não deixa pasta de dentes destampada e tem horror de tubo espremido pelo meio. Resultado de educação rigorosa, em família de economia estrita. E colégio de freiras: é de formação católica, como todo brasileiro. Mas o catolicismo tem um Deus distante do mundo, sentado num trono – prefere coisas mais simples, direta, ligada à própria natureza: Candomblé. Na penteadeira o retrato da sua querida Menininha de Gantois. É filha de Iansã – me explica o sentido de cada colar ao seu pescoço: Oxossi, Ogum. Vai à Bahia sempre que pode, mas gosta de morar no Rio. Baiano é ótimo: aquela preguiça, aquele mormaço, um ritmo próprio na maneira de ser e pensar. Saiu de lá aos 17 anos trazida pela Nara, para o Opinião. E tome Carcará – não queriam que cantasse outra coisa. Ela queria Noel. Fora do palco, que é a sua razão de viver, gosta é de fazer talhas em madeira. Tem aqueles instrumentos todos – formões, martelos, e o outro, não se lembra o nome, eu também não, é preciso que alguém à porta do camarim venha em nosso auxílio: goiva. E de pintar com purpurina. Gosta de tudo que brilha: pailleté, lamé, cetim.
- De que cor você é?
- Não sei... Acho que furta-cor. Aquela que muda conforme a luz.
- Cor de pena de pavão.
- É isso aí. Nos bosques de Viena tinha muitos.
- Que é que você foi fazer lá?
- Fui cantar.
- Nos bosques de Viena?
- Em Viena mesmo. Em vários lugares da Europa. Mas eu gosto é daqui mesmo. Aqui é que eu sei viver.
- Você vive com o corpo inteiro.
- Podes crer. Moro sozinha, mas meus pais vêm sempre, meus irmãos, meus amigos...
Lá fora a plateia repleta como sempre, à espera. Setecentos lugares e mais 300 sentados no chão. Fila na bilheteria desde três horas da tarde. Uma noite em cada temporada ela não cobra entrada: basta trazer um presente qualquer. Aparece de tudo: desde chicletes a caixas de uísque de 20 anos. E livros, discos, bonecas, bibelôs, cachorro, gato, coelho, porquinho-da-índia, perfume, doces, joias, tudo quanto é espécie de bebida, de Pitu a Moet Chandon. Leva três dias para abrir aquilo tudo, quase 2 mil presentes. Já lhe deram até um carro – um bugre. Nunca apareceu uma só coisa ofensiva, mesmo por brincadeira de mau gosto.
Nove e meia, já – o espetáculo vai começar atrasado. Não tem importância, tudo no Brasil é assim mesmo – ela me dá um exemplar de seu programa com uma afetuosa dedicatória. Despeço-me, prometendo voltar para rever o show. Verei agora com outros olhos – olhos que puderam ver de perto a cantora admirável, e conhecer a fosforecente personalidade com que ela sabe ser Maria Bethânia. Com H, e acento circunflexo.

                 Jornal do Brasil, Caderno B, segunda-feira, 12 de agosto de 1974




quinta-feira, 30 de maio de 2013

A História das Canções: A Tua Presença Morena


Daquelas que já resistiram à passagem do tempo, A Tua Presença Morena foi composta por Caetano Veloso há mais de 40 anos e segue bela. Bela e acolhedora. Quem seria essa “presença morena” tão forte que domina a canção? Pensei nisso muitas vezes e hoje, ao ler uma matéria com Maria Bethânia e Nana Caymmi, veio a resposta.

A Tua Presença, 1971
Qualquer Coisa, 1975
A canção foi gravada pela primeira vez por Bethânia e dá título a um disco dela (A Tua Presença) lançado em 1971. Na capa um enigmático perfil (mais cabelos que rosto) em preto e branco e o repertório com Jesus Cristo (Roberto e Erasmo), antigos sambas canções, como Se Eu Morresse Amanhã (Antonio Maria) e Folha Morta (Ary Barroso) e uma em inglês (a nostálgica What´s New, provavelmente a única que ela gravou nessa língua). E no terreno das raridades está também a Bethânia compositora – Mano Caetano, assinada com Jorge Ben, que participa da gravação). E a primeira faixa do lado B é A Tua Presença Morena, mandada por Caetano do exílio londrino, junto com Janelas Abertas Nº2. Caetano gravou A Tua Presença quatro anos depois em Qualquer Coisa lançado em 1975, junto com Jóia.


Bom, mas qual é a história de A Tua Presença Morena? Na tal matéria do Globo, Nana diz que sua favorita dela é A Tua presença. Para surpresa da amiga, Bethânia conta: “Sabe que Caetano fez essa canção para Nossa Senhora? Essa presença é Nossa Senhora. Lindo, né? Ele fez o “Hino a Nossa Senhora da Purificação”, e em seguida fez essa”.

Abaixo o link para a ótima matéria de Leonardo Lichote em O Globo e vídeos com as gravações originais de Maria Bethânia e Caetano Veloso - o de Caetano é com imagens de Viva México, de Sergei Eisenstein. O terceiro vídeo traz Caetano ao vivo, em 2008, homenageando o aniversário de Bethânia com a canção. 






segunda-feira, 13 de maio de 2013

A História das Canções: Pérola Negra


É hino da música brasileira, dá nome ao disco de estreia de Luiz Melodia lançado em 1973 e foi gravada dois anos antes por Gal Costa  em Fatal. Foi composta em 1969, quando Melodia era um garotão de 18 anos do Morro do Estácio, e inicialmente chamou-se My Black. Mudou de nome por sugestão de Wally Salomão, que foi quem o apresentou a Gal que, em 1971, foi a primeira a gravar Luiz Melodia.

E foi feita pra quem? Bom, só descobri dia desses, numa matéria excelente de Leandro Souto Maior (O Dia) sobre os 40 anos de Pérola Negra, o disco.  “Fiz inspirado por uma menina com quem eu saía quando tinha uns 18 anos. Mas eu era o segundo cara. Quando o namorado dela chegava, eu tinha que sair correndo pelos fundos”, contou Melodia.

Abaixo, o link para a matéria de O DIa, em que Melodia fala de todas as músicas de Pérola Negra, o disco. E depois, o vídeo com a gravação original de Pérola Negra.






Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...