Você abre o jornal e em meia
capa da Ilustrada estão Jerry Hall e Georgia Jagger, a ex e a filha de Mick
Jagger, lindas e loiras posando para a Le Lis Blanc. Daí você pensa, mas vem
cá, essa griffe não é aquela que, li no fim de semana, está envolvida com
trabalho escravo? É, é sim. Bem indecente isso, né.
Googleio e vem uma notícia
de ontem (“Jerry Hall, o retorno da top dos 70´s") no site da Lilian Pacce: “As
duas posaram para Max Abadian em NY e também estão juntas na campanha de
primavera-verão 2013/14 da Le Lis Blanc”. Referência a “trabalho escravo”?
Nada. E uma vírgula após o nome da marca e um texto assim
“griffe acusada de envolvimento com trabalho escravo” só aqueceria, né. Acorda, Alice!
A próxima no Google (Jerry
Hall Georgia Jagger Le Lis Blanc) é da Elle Brasil, que vai estampar as duas na
capa da edição de agosto: “Em total sintonia, mãe e filha posaram para as
lentes do fotógrafo Max Abadian, em Nova York, usando looks by Le Lis Blanc”.
Ah, tem mais: a capa “mostra Georgia e sua inconfundível boca vermelha vestindo
top metalizado Bo.Bô”. E aí? Bom, a Bo.Bô é outra griffe envolvida com trabalho
escravo. Quer dizer: a ex de Mick Jagger e a filha estão emprestando sua imagem
(altos cachês, claro) para griffes envolvidas com trabalho escravo no Brasil (Matéria
publicada sábado por O Globo explica o caso). Será que elas sabem? Bom, não são
novatas inexperientes atrás de uma graninha extra e devem ter agentes e
advogados que investigam as empresas com que vão trabalhar.
A campanha da Le Lis Blanc
também é destaque no site da Harper´s Bazar nacional. “Os cliques da mãe e filha estão rolando noHotel
Surf Lodge, nos Hamptons, Estados Unidos, mesma região onde Cara
Delevingne posa para a Bo.Bô”. Olha
aí: Cara Delevingne, “queridinha dos fashionistas” também empresta sua imagem
para griffe envolvida com trabalho escravo.
“O que Georgia Jagger, Jerry
Hall e Cara Delevingne têm em comum?”, pergunta o Glamurama em 5 de junho. Oba,
furo, alguém relacionou as gatas com trabalho escravo. Bem capaz. Nada disso, o
site (há dois meses) apenas registrava a agitação fashionista com as campanhas do grupo Restoque,
dono da Le Lis Blanc e Bo.Bô, nos Hamptons. Quer dizer: um simples anúncio fashion leva a uma
história esquisita, indecente. Tá tudo dominado e há algo de podre no mundo
fashion.
Abaixo, os links para a
matéria de O Globo sobre o assunto e para todos os sites aqui citados.
Estavam os dois velhos ali,
numa passeata na Paulista, hoje à tarde. No mesmo espaço, separados fisicamente
por alguns metros. Mas só fisicamente. Em volta, uma multidão, bandeiras e mais
bandeiras, causas e mais casas sociais. E entre os dois, um abismo, o da
história desse País. O velho do MST me chamou atenção pela animação, pelo jeito
de marchar como se sambasse desajeitado mas cheio de charme. Vi de longe,
passou por mim e corri para fotografá-lo entre os companheiros do movimento – atrás
estava um casal jovem, a moça sem uma perna. Havia um fogo no cu ali – é bom
explicar, pra mim fogo no cu é alegria de viver. O homem velho desfilava feliz
com sua bandeira vermelha de uma causa demonizada há anos pelos meios de
comunicação. Exagero meu? Então repare no modo com que os apresentadores dos
jornais nacionais da vida pronunciam a palavra MST como se palavrão cabeludo fosse.
Acompanhei com o olhar o velho do MST até ele sumir no meio do povo e segui
caminhando no sentido contrário da marcha. Logo surgiu o outro, o velho
ditadura. Ele andava sozinho com aquele cartaz de sandices. Ninguém dava a
menor para ele – tá alguns risinhos de repulsa – era como se não existisse,
numa solidão absurda no meio de um povo que treme só de ouvir falar a tal
ditadura que ele enaltece. No velho ditadura não havia fogo no cu, só uma certa
tristeza, um ressentimento, um cinismo, um estar de mal com o viver nítido
mesmo com os óculos escuros. Era como se como o cartaz ele lamentasse a ditadura não ter acabado com o velho MST. Voltei para fotografá-lo de longe e de frente e
quando se sentiu diante da câmara, o velho ditadura deu uma paradinha pra posar
pra foto. Patético. Estavam os dois ali na avenida, a poucos metros, e tão
distantes. O de mal com a vida do velho ditadura vou esquecer logo, mas a postura de vida do velho MST fica comigo. Tem que ficar.
Hilda: Biarritz, 1957. Foto do Cadernos de literatura do IMS
“Organizei um livro em forma
de entrevistas, pretensiosas. Conto dos entrevistados, enquanto conto de mim”:
é assim que Rita Ruschel auto-apresenta seu Meus Tesouros de Juventude. Editado
em 1983, volta e meia o retiro da estante e releio uma
das “entrevistas, pretensiosas”. Tem Elis Regina, Tom Jobim, Toquinho, Lima
Barreto, o pai dela Alberto Ruschel e muitos outros que, como diz o título, ela
conheceu quando jovem. Hoje, fui direto a Hilda Hilst: “Eu a conheço desde
pequena. Conheço é força de expressão. Foi o tipo inesquecível da minha
infância”. São onze páginas que se lê com a sensação de estar andando com as
duas mulheres pelo sítio de Hilda em Campinas, quando a escritora tinha 50 anos: “Estávamos caminhando pelo
jardim, indo em direção à figueira centenária. (...) Sentamos embaixo da
árvore, na mesa e nos bancos de pedra. Começava a ventar, jeito de tempestade”.
Marlon Brando e Irwin Shaw: Paris, 1957. Foto site Irwin Shaw
A vontade é de copiar o
perfil inteiro. Ainda mais depois que o googleio revelou que não está na rede.
Nada. Vou é copiar um parágrafo extenso, que reúne Hilda, Marlon Brando, Dean
Martin, Hotel Ritz, Paris. É como se fosse uma das tramas do Meia Noite em
Paris, do Woody Allen. Acontece em 1957, quando Hilda viajou pela Europa, de
junho a dezembro. E Brando esteve por lá nesse ano filmando Os Deuses Vencidos
(The Young Lions), baseado em livro de Irwin Shaw (olha os dois na foto ao
lado, em 1957) em que interpretou um oficial nazista. Abaixo, o relato de Rita Ruschel.
“Numa noite daquelas antigas,
eu escutei Hilda e a minha mãe conversando meio de surdina. Fecharam a porta da
sala e eu, do meu quarto, pude entreouvir uma referência a Marlon Brando. Elas
estavam falando do meu ídolo cinematográfico, o gênio das telas. Como se
tratava de uma pessoa muito importante para mim, deixei por isso mesmo, guardei
as coisas assim dentro de mim. Quando fui entrevistá-la vinte anos mais tarde
cheia de dedos, resolvi esclarecer a minha fantasia. Foi assim. Hilda estava em
Paris namorando Dean Martin, rapidamente. Jantaram com Tony Curtis e ela
escapou para o Hotel Ritz. Sabia que naquela noite chegava Marlon Brando.
Debaixo de uns martinis seguiu para lá. Trajando na ocasião um vestido longo
bordado e uma tiara na cabeça, enfeitando de brilhantes o seu cabelo louro. O
gerente avisou que Monsieur Brando não poderia recebê-la. Ele sairia muito cedo
para filmar na manhã seguinte. Como ela passou alguns francos por baixo do
balcão, o francês, gentilmente, indicou o caminho. Bateu na porta do
apartamento, insistiu e ninguém abriu. Achou estranho. Nisso um ator francês
saiu do apartamento em atitude suspeita, avisando que o ator não estava
hospedado lá. Depois que ele foi embora, Hilda insistiu até que Marlon Brando abrisse.
Estava de foulard e chambre de seda. Ela, desapontada, achou que ele era muito
baixinho, não sabe se por estar de salto muito alto ou se pelos martinis que
tinha tomado. Ao cumprimentá-lo a tiara escapou de sua cabeça e ela foi
obrigada a ajeitá-la, sem graça. Como não foi convidada a entrar, na soleira da
porta, foi avisando que tinha vindo do Brasil apenas para entrevistá-lo. Ele
estranhou o adiantado da hora, mas ela foi convincente. À queima-roupa
perguntou “O que você acha de Franz Kafka?” Ele, estarrecido com o nível,
respondeu “Quero que se lixe o Kafka e a família dele inteira!” Hilda desancada
teve que recompor a tiara mais uma vez. Engatou uma primeira e prosseguiu “Senhor
Brando eu vim de longe para saber isso, os jornalistas só lhe fazem perguntas
banais.” Ele, vendo aonde ela queria chegar, disse que daria uma entrevista
bastante extensa noutra noite, porque realmente teria que estar de pé muito
cedo no dia seguinte. “We´ll keep on touch”.
Estava na Paulista quando ela começou a ser fechada pela
polícia para evitar que manifestantes tivessem acesso a ela. Isso mesmo: a polícia
fechou a avenida para evitar o acesso dos manifestantes e isso não é piada, não
tem graça nenhuma e é triste, muito triste. Vi o começo do cerco. Saí do metrô na Consolação antes
das oito da noite e desci a avenida, que tinha trânsito nos dois
lados, para acompanhar a manifestação, ver o que estava acontecendo. Andei umas
duas quadras, parecia que a manifestação estava distante e resolvi voltar pra Paulista. Encontro
o acesso à Paulista e Consolação pela Rebouças fechado pela polícia. Na esquina
da Paulista com a Consolação, uma barreira com montes de policiais. Na
pracinha, carros da polícia meio que camuflados.
Não havia trânsito de carros naquele quarteirão, apenas
pessoas circulando com jeito de quem volta do trabalho. E nem sinal de
"manifestantes". Vejo policiais revistando jovens, qualquer cara
jovem era suspeita. De repente, mais policiais fecham o acesso à Paulista pela Bela
Cintra. O número de carros da polícia aumenta muito e até um furgão gigante da
Tropa desfila fazendo barulho. Nada de "manifestantes", repito. Volto
andando pra Consolação, já sem carros e com muitas pessoas saindo do trabalho, nos pontos de ônibus, muitas apavoradas. Um policial diz a uma senhora em desespero pra ela ir pela
Paulista e descer pela Peixoto Gomide que "eles ainda não chegaram
lá" e que dava para circular. Entendi que o "eles" eram os
manifestantes. Ou seria a polícia?
Desço o primeiro quarteirão da Consolação. E
de repente, começo a ouvir o som de bombas que parecem estar sendo detonadas na
altura do cemitério. Além do barulho, volta e meia, clarões. Em volta, gente
assustada, uns garotos skatistas, o cheiro das bombas e de repente começa uma
correria. Volto pra Paulista, mas é impossível dobrar a esquina. Carros, uns
dez, em alta velocidade, cruzam a avenida no sentido Angélica. E uma tropa de choque com seus escudos marcha
assustadoramente. É impossível virar a Paulista. O cerco estava se completando
e logo bombas na esquina do Riviera, muitas bombas, som assustador. Logo
bombas do outro lado da rua também.
Fico em frente ao Belas Artes e logo uma
bomba explode no meio da rua, bem no ponto de ônibus. Pessoas correm apavoradas sem
saber para onde. O som das bombas agora é intenso na entrada da Paulista e não
vejo "manifestantes", não ali, só se estivessem dispersados. Paro
numa marquise, ao lado de um senhor mais velho, uns garotos com mãos pra cima.
De repente, três policiais pela calçada "circulando, circulando",
mandam. "Pra onde, está tudo cercado", eu digo. O policial me diz pra
descer em direção à estação de metrô, que a ação agora seria pra cima, na
Paulista. Dito e feito, consigo entrar no metrô, cheio de gente no saguão,
usado praticamente como abrigo anti-bombas. E lá fora, bombas, bombas pra todo
lado, aquele som assustador. Uns 15 minutos depois, a coisa parece ter acalmado
e vou em direção a Paulista, tomada por policiais, mas com circulação
permitida. E sim, agora tem muita gente por lá nas calçadas, jovens quase
todos.
Quase na esquina da Consolação, repórteres entrevistam um
policial que está vestido feito Robocop. São quantos os que entrevistam? Uns 20.
E o povo que passa, grita: "entrevista quem tava lá",
"entrevista eu", "fascistas". Sigo pela Paulista e após a Bela
Cintra o povo ocupa a rua vazia de carros com gritos de "sem violência". Ao
longe, o som das bombas, que logo chegam até ali. Correria. Gente tossindo e
berrando "filhos da puta". Mais bomba. Acompanho os que fogem das
bombas pela Hadock Lobo, lado Jardins, são dezenas. Os olhos ardem. O som das
bombas continua. O som de quantas bombas ouvi? Mais de 50? Pode ser. Talvez mais.
Alguns minutos depois, já em casa, o barulho das bombas
na Paulista continua. E até umas onze da noite, o massacre segue, com a polícia (e seus cachorros e cavalos) "caçando" manifestantes. Dá uma
vergonha de ter visto aquilo tudo e saber que aqueles policiais foram
comandados, mandados a rua para bater. Disso não tenho a menor dúvida. E tudo pra quê? Pra defender do povo a gloriosa avenida Paulista, como se uma donzela imaculada ela fosse.
Um
de volta ao passado rápido: Aqui, uma visita ao camarim do Teatro Casa Grande,
Rio de Janeiro, em 1974, durante a temporada de Cena Muda, um dos shows antológicos
de Maria Bethânia. O guia não poderia ser melhor: Fernando Sabino, então com 50 anos. Ao estilo
das entrevistas de Clarice Lispector (amiga de Sabino) com personalidades, ele traça
um delicioso perfil de Bethânia, com coisas que eu não sabia – e olha que já li
trocentas mil matérias com ela. A mana de Caetano tinha 28 anos, já era famosa, claro, mas
muito mais por seus concorridos shows e não pela vendagem de discos. Era
considerada cantora de elite. Uma
das “novidades” daqui: uma noite por temporada ela fazia um show sem cobrar ingressos
e para entrar bastava levar um presente. E Maria Bethânia levava três dias para
abrir a montanha de mimos. Bom, vamos direto ao texto do Fernando Sabino. E pra completar esse de volta ao passado rápido, lá no final uma canção de A Cena Muda: Exemplo, de Lupicinio Rodrigues.
Fernando
Sabino: Diálogo com Bethânia em furta-cor
Como
será ela, afinal? Tanto que já ouvi falar. Tantas vezes que já ouvi seus
discos. Carcará. Manhã, do Caetano. Apito da Fábrica, de Noel. Rosa dos Ventos,
aquele lindo show do Teatro da Praia. E este agora, A Cena Muda a que já
assisti. Pois então? Baiana, irmã do Caetano, Santo Amaro da Purificação,
candomblé. Escrever sobre alguém como Maria Betânia – ou Bethânia? Terá H no
seu nome.
Neste
estado de espírito vou para o Teatro Casa Grande. Ela disse ao telefone que eu
chegasse às oito, antes vai haver um ensaio e o espetáculo começa às nove e
meia. Entrasse pela porta dos fundos, o porteiro se chama Antonio Carlos.
Chego
às sete e meia e ela já está se preparando no seu camarim:
-
Não ensaiamos ainda, porque o pessoal não chegou.
O
pessoal são os sete músicos que a acompanham, e os iluminadores. Ela mesma
produz o espetáculo. A direção é de Fauzi Arap, como sempre, que entende seu
ofício e entende Bethânia. Há três pessoas com ela , que têm de sair para me
dar lugar no minúsculo camarim: a irmã e dois amigos.
Uma
mulher-pássaro diante do espelho, cabelos presos, roupão amarelo. No palco, ela
se transfigura, cresce de tamanho – ou os outros diminuem, sei lá. Fico a
olhá-la, fascinado, enquanto ela passa meticulosamente uma camada de base no
rosto. O nariz adunco, os olhos agora voltados para mim, brilhantes como os de
um menino olhando por cima do muro o quintal do vizinho:
-
Quer um uísque?
Uísque
sem gelo, por causa da garganta, talvez. Nunca fez impostação de voz, só um
pouco de exercício de respiração. E o cigarro não lhe afeta as cordas vocais,
como a mim, que de tanto fumar ando rouco como uma gralha velha. Em
compensação, bato à máquina melhor do que ela, que escreve com um dedo só.
-
Escreve o quê? Poesia?
-
Não: meus sonhos. Escrevo todos os meus sonhos.
-
Para o seu analista?
-
Não, para mim mesmo. Já parei a análise, não preciso mais.
- De
que você mais gosta na vida?
- De
brincar. Sou gêmeos. E você?
-
Sendo dois, um brinca com o outro, não é? Sou balança. Você usa mamadeira?
-
Adoro. Não há nada melhor pra angústia. Outro dia, um amigo meu, homem sério,
compenetrado, foi me visitar, e estava na fossa. Então dei uma mamadeira pra
ele. Ele não queria, mas acabou aceitando. Ficou bom logo.
-
Com quê? Uísque?
- Não,
mingau: de aveia, maizena, essas coisas. Ou água mesmo. Bebo água o tempo todo.
Várias
garrafas de mineral sobre a penteadeira. Mas continuamos no uísque.
-
Tem rede na sua casa?
A
casa está em reforma – o decorador é o Argolo. Vai ter uma porção de redes. É
uma casa chinesa na Estrada das Canoas, lá em São Conrado. Mas não é de sentar
no chão não: tem móveis. Tudo baixinho, mas tem. E as paredes não são de papel:
são de vidro.
- Só
que acabo transformando tudo numa fazenda baiana.
Tem
bicho também: cachorro, gato, tartaruga.
- O
cachorro é o Sabu. Aquele ator indiano, de turbante, lembra? Sabu comeu a
tartaruga. E o gato comeu um rato que tinha comido veneno, acabou morrendo
também. Tem passarinho, mas só solto. Gaiola me dá aflição.
Tem
um piano, mas ela não toca, apesar de ter estudado oito anos. Toca violão – dá
pra se acompanhar. Vitrola e gravador, é lógico. Principalmente música americana:
Bessie Smith, Nina Simone. E Billie Holiday:
- Sou
pirada, tenho tudo dela.
Lê o
mais que pode: tudo de Clarice, várias vezes, uma glória:
-
Ela vem sempre aqui, conversar comigo, que criatura adorável. Todo show meu tem
um texto dela. Menos este, que não tem texto nenhum, só música, pois é A Cena
Muda. O que ela tem escrito sobre Brasília é fabuloso. Brasília, aquele
fracasso triunfal. Aquele horror que dá na gente, help! Help! Help! Entao entra
um garçom e pergunta: quer um cafezinho?
Passamos
a falar da nossa admiração por Clarice Lispector. A conversa se ilumina de
dourado. Ela me olha pelo espelho?
-
Você já leu um livro chamado O Coração é um Caçador Solitário?
De
Carson McCullers: o amor do casal de surdos-mudos. E A Balada do Café Triste,
história de um anão.
- Já
li também. E Katherine Mansfield...
Agora
ela diz que vai me contar uma coisa. Faz um ar matreiro, para de se maquilar,
me olha no fundo da sua adolescência:
- Eu
tinha 13 anos e eles não queriam que eu lesse seu livro, houve uma espécie de
conselho de família. Caetano é que ficou de decidir, como irmão mais velho, ele
queria que eu lesse, então eu li.
É a
minha vaidade acariciada como um gato angorá. Tento parecer natural:
-
Que é que você achou?
-
Curti. Principalmente por ser proibido. Mas não havia nada de mais.
Enquanto
conversamos, entra e sai gente, ela cumprimenta afetuosamente um e outro. É o
pessoal do show que está chegando. Tem um sentado no chão a meu lado, outro de
pé junto à porta.
-
Minha melhor qualidade? Acho que é não saber mentir. So digo a verdade.
- “Não
tenho nenhum prazer em conhecê-lo”
Ela
ri:
-
Isso também não. Mas não levo desaforo para casa. O maior defeito, os meus
amigos acham... Sou impulsiva, sabe? Intolerante às vezes, eles dizem. Não
gosto de ser mandada.
- Inaptidão
para a vida militar.
-
Isso mesmo. Só faço o que eu quero.
Mas
é organizada, boa administradora de si mesmo, tem lá a sua própria disciplina.
Dependura sua roupa, não deixa toalha no chão depois do banho, não apaga
cigarro na xícara de café. Vou perguntando, ela vai respondendo. Não deixa
pasta de dentes destampada e tem horror de tubo espremido pelo meio. Resultado
de educação rigorosa, em família de economia estrita. E colégio de freiras: é
de formação católica, como todo brasileiro. Mas o catolicismo tem um Deus
distante do mundo, sentado num trono – prefere coisas mais simples, direta, ligada
à própria natureza: Candomblé. Na penteadeira o retrato da sua querida Menininha
de Gantois. É filha de Iansã – me explica o sentido de cada colar ao seu
pescoço: Oxossi, Ogum. Vai à Bahia sempre que pode, mas gosta de morar no Rio.
Baiano é ótimo: aquela preguiça, aquele mormaço, um ritmo próprio na maneira de
ser e pensar. Saiu de lá aos 17 anos trazida pela Nara, para o Opinião. E tome Carcará – não queriam que cantasse outra coisa. Ela queria Noel.
Fora do palco, que é a sua razão de viver, gosta é de fazer talhas em madeira.
Tem aqueles instrumentos todos – formões, martelos, e o outro, não se lembra o
nome, eu também não, é preciso que alguém à porta do camarim venha em nosso
auxílio: goiva. E de pintar com purpurina. Gosta de tudo que brilha: pailleté,
lamé, cetim.
- De
que cor você é?
-
Não sei... Acho que furta-cor. Aquela que muda conforme a luz.
-
Cor de pena de pavão.
- É
isso aí. Nos bosques de Viena tinha muitos.
-
Que é que você foi fazer lá?
-
Fui cantar.
-
Nos bosques de Viena?
- Em
Viena mesmo. Em vários lugares da Europa. Mas eu gosto é daqui mesmo. Aqui é
que eu sei viver.
-
Você vive com o corpo inteiro.
-
Podes crer. Moro sozinha, mas meus pais vêm sempre, meus irmãos, meus amigos...
Lá
fora a plateia repleta como sempre, à espera. Setecentos lugares e mais 300
sentados no chão. Fila na bilheteria desde três horas da tarde. Uma noite em
cada temporada ela não cobra entrada: basta trazer um presente qualquer.
Aparece de tudo: desde chicletes a caixas de uísque de 20 anos. E livros,
discos, bonecas, bibelôs, cachorro, gato, coelho, porquinho-da-índia, perfume,
doces, joias, tudo quanto é espécie de bebida, de Pitu a Moet Chandon. Leva
três dias para abrir aquilo tudo, quase 2 mil presentes. Já lhe deram até um
carro – um bugre. Nunca apareceu uma só coisa ofensiva, mesmo por brincadeira
de mau gosto.
Nove
e meia, já – o espetáculo vai começar atrasado. Não tem importância, tudo no
Brasil é assim mesmo – ela me dá um exemplar de seu programa com uma afetuosa
dedicatória. Despeço-me, prometendo voltar para rever o show. Verei agora com
outros olhos – olhos que puderam ver de perto a cantora admirável, e conhecer a
fosforecente personalidade com que ela sabe ser Maria Bethânia. Com H, e acento
circunflexo.
Jornal do Brasil, Caderno B,
segunda-feira, 12 de agosto de 1974
Daquelas que
já resistiram à passagem do tempo, A Tua Presença Morena foi composta por
Caetano Veloso há mais de 40 anos e segue bela. Bela e acolhedora. Quem seria
essa “presença morena” tão forte que domina a canção? Pensei nisso muitas vezes
e hoje, ao ler uma matéria com Maria Bethânia e Nana Caymmi, veio a resposta.
A Tua Presença, 1971
Qualquer Coisa, 1975
A canção foi
gravada pela primeira vez por Bethânia e dá título a um disco dela (A Tua Presença) lançado em
1971. Na capa um enigmático perfil (mais cabelos que rosto) em preto e branco e
o repertório com Jesus Cristo (Roberto e Erasmo), antigos sambas canções, como
Se Eu Morresse Amanhã (Antonio Maria) e Folha Morta (Ary Barroso) e uma em
inglês (a nostálgica What´s New, provavelmente a única que ela gravou nessa
língua). E no terreno das raridades está também a Bethânia compositora – Mano Caetano,
assinada com Jorge Ben, que participa da gravação). E a primeira faixa do lado
B é A Tua Presença Morena, mandada por Caetano do exílio londrino, junto com
Janelas Abertas Nº2. Caetano gravou A Tua Presença quatro anos depois em
Qualquer Coisa lançado em 1975, junto com Jóia.
Bom, mas qual
é a história de A Tua Presença Morena? Na tal matéria do Globo, Nana diz que
sua favorita dela é A Tua presença. Para surpresa da amiga, Bethânia conta: “Sabe
que Caetano fez essa canção para Nossa Senhora? Essa presença é Nossa Senhora.
Lindo, né? Ele fez o “Hino a Nossa Senhora da Purificação”, e em seguida fez
essa”.
Abaixo o link
para a ótima matéria de Leonardo Lichote em O Globo e vídeos com as gravações originais de Maria
Bethânia e Caetano Veloso - o de Caetano é com imagens de Viva México, de Sergei Eisenstein. O terceiro vídeo traz Caetano ao vivo, em 2008, homenageando o aniversário de Bethânia com a canção.
É hino da música brasileira, dá nome ao disco de estreia de Luiz Melodia lançado em 1973 e foi gravada dois anos antes por Gal Costa em Fatal. Foi composta em 1969, quando Melodia
era um garotão de 18 anos do Morro do Estácio, e inicialmente chamou-se My
Black. Mudou de nome por sugestão de Wally Salomão, que foi quem o apresentou a Gal que, em 1971, foi a primeira a gravar Luiz Melodia.
E foi feita pra quem? Bom, só descobri dia desses, numa
matéria excelente de Leandro Souto Maior (O Dia) sobre os 40 anos de Pérola Negra,
o disco. “Fiz inspirado por uma menina com quem eu saía quando tinha
uns 18 anos. Mas eu era o segundo cara. Quando o namorado dela chegava, eu
tinha que sair correndo pelos fundos”, contou Melodia.
Abaixo, o link para a
matéria de O DIa, em que Melodia fala de todas as músicas de Pérola Negra, o disco. E depois, o vídeo com a gravação original de Pérola Negra.