terça-feira, 13 de março de 2018

Emilinha, Marlene, Ângela e Dalva: as rainhas do rádio no traço de Benício

Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba e Marlene por Benício

Em início de carreira no Rio, anos 50, Benício foi ilustrador na Rio Gráfica, editora de Roberto Marinho. Na revista Radiolândia, que durou de 1953 a 1962,  ilustrava novelas publicadas em capítulos, de autores como Mario Lago e Janete Clair. E deixou sua assinatura em quatro capas incríveis com as estrelas do rádio de então: Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba e Marlene.


Ângela Maria, Benício e o retrato
A primeira capa, com Ângela Maria, saiu em outubro de 1957 e ganhou uma apresentação da revista: "Pela primeira vez RADIOLÂNDIA publica, em sua capa, um desenho, aliás, um belo trabalho deste artista que é José Luis Benício, um dos principais responsáveis pela apresentação gráfica de nossa revista. Trata-se de um desenho "a gouache", muito feliz, dando-nos um belo rosto de Ângela Maria. (...)

O sucesso da capa foi imenso, e alguns números o traço de Benício voltou nas capas  com Dalva de Oliveira, Emilinha Borba e Marlene.



Aqui, o link pro site de Benício http://www.benicioilustrador.com.br/




"

domingo, 4 de março de 2018

Tônia Carrero foi presa após passeata em 1968



A foto histórica publicada pelo Jornal do Brasil em 14 de fevereiro de 1968

A foto é histórica e reúne um grupo poderoso de atrizes em protesto contra a censura em fevereiro de 1968. Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara e Norma Benguel. Dulcina de Moraes, ao lado de Eva Todor, está cortada da foto e Cacilda Becker também não aparece. Dulcina e Cacilda estão nas pontas da foto abaixo, de outro ângulo, publicada pela revista O Cruzeiro.

Revista O Cruzeiro

Tônia Carrero, que faleceu hoje, foi presa pelo exército após a manifestação. O grupo marchou até o Monumento dos Pracinhas e... Bom, abaixo o que o Jornal Correio da Manhã, que deu na capa a prisão de Tônia, escreveu:



A capa do Correio da Manhã
"A atriz Tônia Carrero foi presa ontem, à noite, quando a classe teatral em greve decidiu marchar até o Monumento dos Pracinhas, onde depositaria uma coroa de flores "para os heróis que tombaram em defesa da democracia e da liberdade de expressão".

"A passeata dos artistas saiu do Teatro Municipal, onde estavam acampados desde anteontem, seguida sempre por soldados da polícia militar. Todos cantando o Hino nacional chegaram até o Monumento dos Pracinhas, onde o oficial de dia, tenente Darcy, proibiu a homenagem por estar fora de horário, prendendo a atriz Tônia Carrero, que tentava dispersar pacificamente a passeata".


(...)

"Imediatamente, enquanto o grupo de artistas permanecia sentado fora da área militar (em torno do Monumento dos Pracinhas, o aspirante Raposo se comunicou com o comando da polícia militar, que ordenou a liberação de Tônia Carrero. Logo depois, os artistas seguiram ainda em passeata para o Teatro de Arena da Guanabara, onde se realizaria uma assembléia geral. (....)

Abaixo, como publicado no JB: "Exército prende e solta Tônia Carrero



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Carta revela as atividades e ocupações de Nise da Silveira em 1947


Folheto da Ocupação Nise da Silveira

Minha amiga conta que saiu chorando de emoção da Ocupação Nise da Silveira. Daí lembro dessa carta que Bluma Wainer escreveu, de Paris, para Clarice Lispector, em 1947.  Vou ao livro e não custo a encontrá-la. Nise tinha então  42 anos, Bluma e Clarice, na casa dos 30. Nise conta do "sucesso" da exposição com pinturas de seus pacientes. Abaixo o trecho da carta:


Clarice Lispector e Bluma, 1946
"Recebi carta da dra Nise da Silveira - v. não a conhece? É uma mulherzinha pequenina, médica de loucos - já falei nela a você, não é? Mandou contar o trabalho que realizou com os seus loucos "internos" - diz ela que tem "internos" e "externos". Organizou uma exposição de pinturas dos seus loucos e foi um sucesso. "Demonstraram que os artistas nada têm de uma casta de eleitos e que não se pode pretender traçar fronteiras entre os mundos dos loucos e o mundo dos normais" - diz ela. "Cerca de 300 quadros ficaram em exposição no Ministério da Educação durante um mês e espero que tenham sido bom remédio para muito pedantismo." Estou com ela. Pede-me livros sobre os séculos 17, 18 e 19 - livros sérios sobre as populações, desenvolvimento econômico e social das cidades europeias. Se você e Maury se lembrarem de alguma coisa sobre isso, mandem dizer. Ela diz que está toda entregue ao séc 17 e convida-me para viajar com ela nessa viagem. Ela é formidável - você gostaria muito dela."

Do livro Correspondências - Clarice Lispector 


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A história da gata Ema. Parte 1 – A Perereca que veio com o Natal


Sei lá como foi. Só sei que de repente eu, um bebê, estava na rua de uma cidade do interior paulista. Era Natal. Não lembro quase nada, se miei, se estava apavorada, quase nada, nadica. Recordo apenas do instante em que ela apareceu saltitante e começou a puxar papo, num coaxado que não demorei para decifrar. Ela coaxava amigável, eu miava receptiva e íamos nos entendendo como se velhas conhecidas fôssemos. Era uma simpatia de perereca e se chamava assim, Perereca mesmo. Foi logo elogiando meus olhos azuis, o pelo claro, disse que não me preocupasse que ela daria um jeito na minha existência. Eu não estava entendendo nada, mas hoje quando já se passou um ano, sei que aquela perereca era meu anjo da guarda, que eles existem sim e nem sempre têm asas.

 “Vou arrumar uma casa para abrigar você, e uma casa bonita, bem rica”, coaxou a querida com um brilho protetor nos olhos. Eu só ouvia atenta os conselhos que jorravam do seu coaxado: “Você só precisa fazer cara de coitadinha e exibir tristeza nesses olhos azuis encantadores. Ninguém pode perceber que você é uma princesa jogada na rua por uma conspiração de coxinhas desalmados”. Princesa eu? Bom, se a pereca dizia... E fomos caminhando devagar, coaxando e miando por ruas praticamente vazias e de repente ela parou e setenciou: “É aqui”. Era uma casa imensa e iluminada, víamos pela porta de vidro imensa.


(Dia desses conto o resto. Tem um cachorro chamado Gucci, que foi um fofo. Tem fada madrinha, tem viagem, uma casa, outra casa, tem até as redes sociais conspirando para a minha felicidade). 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Há 40 anos morria o homem que ridicularizou Hitler



Homenzinho engraçado que fazia rir e chorar ao mesmo tempo que construía críticas corrosivas, Charles Chaplin morreu há quarenta anos, no dia de Natal. Ele, que nasceu num subúrbio de Londres, tinha 88 anos. Lembro vagamente das matérias na televisão e guardei capa e matéria com cinco páginas da revista Fatos & Fotos; Fotos (na foto, com minha assinatura de então e a data). O abre da matéria faz um bom resumo:

"Tranquilamente, enquanto dormia,, Charles Spencer Chaplin morreu na madrugada de domingo passado, dia de Natal, na sua residência em Corsier-sur-Vevey, aos 88 anos de idade. Seu enterro, no dia seguinte, foi simples, com a presença somente da família e dos amigos íntimos. A polícia impediu a entrada de qualquer curioso ou representante da imprensa. A atmosfera não poderia ter sido mais pacífica, apesar dos cordões de isolamento estendidos ao redor do túmulo vigiado por guardas. O corpo de Carlitos recebera as últimas reverências na própria mansão de Manoir de Ban, de 20 quartos, onde vivera os últimos 25 anos."

Nesses anos todos já li muito sobre Charles Chaplin, mas nenhuma biografia respeitada, o que está nos planos pra 2018 - e assistir os filmes dele enquanto leio também. Abro livros de Billy Wilder e François Truffaut atras do que eles contam do gênio do cinema mundo.

Em E o Resto é Loucura, Billy Wilder atrás do que ele conta de Chaplin - há 14 referências no índice remissivo. Escolho essa:

"Sempre amei e admirei Charlie Chaplin da época do cinema mudo, e quando era adolescente em Viena assistia aos seus filmes inúmeras vezes. Eles me davam alegria como quase nenhum outro filme. Vi O Vagabundo seguramente uma vinte vezes. (...)  Mais tarde vi A Corrida do Ouro o mesmo número de vezes. Algo semelhante só me ocorreu posteriormente com pouquíssimos filmes. 
Para mim, Chaplin foi o maior mestre do cinema mudo. Infelizmente, acho que foi desmascarado como banal quando os filmes começaram a ter diálogos. Os diálogos dele eram tremendamente superficiais, ele não conhecia literatura e tinha, por isso, uma relação amadora com os textos falados: quando encontrava uma fala que pudesse exprimir o que o comovia, ficava como um jovem de dezoito anos que faz versos para a Nona de Beethoven."

Em Quem é Charles Chaplin, texto que escreveu em 1974 e está no livro Os Filmes de Minha Vida,  François Truffaut começa assim: "Charles Chaplin é o mais famoso cineasta do mundo, mas sua obra esteve prestes a transformar-se na mais misteriosa da história do cinema, À medida que os direitos de exibição de seus filmes se esgotavam, Chaplin proibia sua difusão, decepcionado, é importante observar, com os inúmeros relançamentos piratas e isso desde o início de sua carreira". As novas gerações, ele lembra, só conheciam os clássicos de Chaplin de ouvir falar, isso até 1970 quando "ele decidiu recolocar em circulação a quase totalidade de sua obra".

O diretor francês termina seu texto assim: "Sua obra divide-se claramente em duas partes: a) o vagabundo; b) o homem mais célebre do mundo. A primeira se pergunta: "será que existo?" A segunda esforça-se para responder: "quem sou eu?" Em sua totalidade, a obra de Charles Chaplin gira em torno do tema maior da criação artística: a identidade.

Mais uma de Truffaut: no livro de entrevistas com Hitchcok, numa das perguntas ele inclui "Na Inglaterra, há muitos intelectuais, muitos grandes poetas, muitos bons romancista, mas desde que o cinema nasceu há setenta anos, só se encontra dois cineastas cuja obra resiste à prova do tempo: Charles Chaplin e Alfred Htichcock". Para situar: as entrevistas para esse livro foram nos anos 60.





domingo, 24 de dezembro de 2017

Ava Gardner e a sorte de nascer na véspera de Natal



Ava Gardner estaria completando hoje 95 anos. Ela morreu com 67, em 1990 e contou sua vida numa delícia de biografia, lançada aqui pela LPM – Ava – Minha História. E no primeiro capítulo, Ava narra o que significa rivalizar com Jesus Cristo no dia do aniversário, um trauma para muita gente. Abaixo:

“Nasci na véspera de Natal do 1922 mem Grabtown, Carolina do Norte. Não em Brogden ou Smithfield como dizem os livros, mas na pobre e velha Grabtown. Sabe-se lá o porquê do nome: lá não havia nada para agarrar e quase nem havia cidade (Grab no original é agarrar). E vejam que sorte a minha de nascer em Capricórnio. Muitas vezes achei que era um mau sinal, mas isto não vem ao caso. Nunca foi meu estilo deixar que coisas pequenas como estrelas se metam no meu caminho.

Falando de sorte, o que me dizem de passar a infância com o meu aniversário e o Natal sendo comemorados quase juntos? Isto significa que eu teria gostado de não ser enganada com um presente em lugar de dois que eu sabia que merecia. E pior ainda: parecia que havia uma outra pessoa, um tal de Jesus Cristo, cujo aniversário muita gente confundia com o meu. Para mim era como uma ofensa pessoal. Passou muito tempo até eu perdoar o Senhor por isto.

(...)


Como criança, o que eu adorava no meu aniversário era a árvore de Natal com velas acesas e o fato de que todos os parentes vinham para a minha festa. Minhas irmãs mais velhas e seus maridos. Tias e tios. Uma porção de crianças. E mesmo quando éramos pobres demais para ganhar dois presentes, mamãe sempre insistiu em fazer dois bolos especiais só para mim. Um era de chocolate, o outro de coco branco. Minha mãe compreendia que podia ser muito triste ganhar apenas um presente de aniversário e de Natal.”

      Gracias pela lembrança, Cleiton 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Os natais de Jorge Amado no estrangeiro e os de sua infância em Ilhéus

O escritor Jorge Amado tinha 46 anos quando escreveu essas recordações para a Revista da Semana. Era 1958, o ano em que foi lançado Gabriela, Cravo e Canela. Aqui, ele lembra liricamente os natais passados no estrangeiro - França, Rússia, China, Tchecoeslováquia -, enquanto rememora os distantes natais de sua infância em Ilhéus, tempos de pastorinhas, bumba-meu-boi, presépios nas salas de visita. No final, link para Visita ao Presépio de Quinquina, conto natalino pouco conhecido dele que a revista O Cruzeiro publicou em 1939. Quinquina, 20 anos depois, vira personagem de Gabriela, o presépio também. "Quando reencontrarei o natal de minha infância?": abaixo é tudo Jorge Amado. 



                                                       Natal do viajante
                                         Jorge Amado

Quando reencontrarei o natal de minha infância? Não vinha Papai Noel, figura europeia desconhecida nas terras do sul da Bahia, mas deixávamos crianças nossos sapatos na porta do quarto e nele deviam ser depositados presentes. Não havia Papai Noel mas, em compensação, iniciavam-se os folguedos populares – ternos de pastorinhas, bumba-meu-boi, reizado – estendendo-se até as festas dos Reis em janeiro. E os presépios nas salas de visitas das casas de famílias eram visitados e admirados pelos olhos curiosos dos meninos. Não tinha o natal esse caráter de festa estritamente familiar, acontecendo no interior das casas onde os parentes se reúnem e confraternizam, a neve lá fora caindo em flocos, o frio rondando cidades e campos, o fogo aceso nas lareiras, como na Europa. Ao contrário, as ruas estavam cheias: a caapora, o boi e o vaqueiro, as belas pastorinhas dançavam e cantavam, todo mundo saía de casa, ia-se em romaria aos presépios, esperava-se a missa noturna.

Só homem feito eu iria viver o Natal europeu e adaptar-me a ele, incorporá-lo ao meu calendário. Esse Natal que meus filhos conhecem, tão diferente daquele que encheu minha infância, cuja lembrança carrego dentro de mim, eco de vozes perdidas, visão de cores tropicais, a beleza das pastoras, a poesia dos presépios.

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Paris é a cidade do conhecimento fácil, onde se multiplicam as relações, onde uma parte da população parece em férias permanentes, onde se encontram homens e mulheres dos mais diferentes países. Foi em Paris onde primeiro dei-me conta do significado do Natal europeu, dessa festa de família onde não cabem estranhos. Muitos são os meus amigos franceses, gente de condição diversa e – nem sei mesmo porquê – sempre esperei que pelo Natal afluíssem os convites. Via Paris vestindo-se para a festa, a multiplicação das árvores de Natal, as vitrinas alegres de presentes. Recordava o Natal de Ilhéus, tão diferente: naquela altura do ano estariam as pastorinhas preparando os vestidos, ensaiando as cantigas, as velhas tias armando os presépios.

Tanto nos convidavam em Paris e para tantas coisas... Só para o Natal ninguém nos convidou e no hotel dos estudantes, ao lado do Boulevard Saint- Michel, um grupo de brasileiros nos reunimos mais ou menos tristemente para recordar a Pátria e os parentes distantes.

Foram por acaso diferentes os outros natais passados na Europa? Não creio que houvesse diferença fundamental pois para mim era a noite quando desapareciam todos os amigos, cada qual em sua casa, com seus familiares, na ceia tradicional.

Com Guillen (sentado à direita de Jorge): China, 1952
Passei um natal no transiberiano, viajando para a China. Lá fora era a estepe gelada, o frio de quarenta graus abaixo de zero, aquela paisagem vazia de gente, onde de raro em raro surgia uma casa, a fumaça de uma lareira. Na interminável viagem perdíamos a conta dos dias. Íamos dois casais, o poeta cubano Nicolás Guillen e sua esposa eram nossos companheiros de viagem. Já no fim da tarde, o poeta descobriu ser noite de Natal. Foi um Natal de recordações de infância, eu a contar das festas da zona do cacau, ele a recordar o fim do ano em Cuba. Falávamos de comidas e de canções, lembrávamos pequenos detalhes, sentíamos de repente toda a imensa distância a nos separar de nossas pátrias do outro lado do mundo. Davomo-nos conta subitamente de como estávamos longe, montanhas e oceanos nos separavam de nosso chão, de nossos habitas, de nossa gente. A noite gelada da Sibéria nos cercava. Mas canções de Cuba e do Brasil encheram a cabina do trem.

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A bailarina Ulanova
Em Moscou um ciclo de festas nas ruas e nos clubes se desenrola no fim do ano. O Pai Nicolau ergue-se nas praças junto aos pinheiros carregados de lâmpadas multicolores e lantejoulas. Nos clubes de cultura, nos palácios de pioneiros, nas ruas sobre tablados, dançam moços e velhos. Recordo de ter ido num domingo de fim de ano ao Palácio das Colunas, no centro de Moscou, a uma festa onde eram distribuídos brinquedos para as crianças. Uma enorme árvores de Natal no centro da sala imensa. Os palhaços mais célebres do circo moscovita, Karandachi entre eles, os mais célebres bailarinos, Ulanova entre eles, artistas conhecidos, divertiam a criançada. Festa semelhante assisti em Leningrado numa casa de pioneiros.

Mas o Natal propriamente dito, a noite de Natal, essa era reservada para a família. Lembro-me de como minha intérprete nesse Natal soviético, solicitou-me que a dispensasse naquela noite e pediu-me que lhe emprestasse o automóvel para ela transportar para casa a árvore de Natal (vendiam-se numa praça pinheiros de todos os tamanhos). Também em Moscou, na noite de Natal, cada um está com a sua família, no recesso do seu lar.

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Passei em outros países, em distantes cidades, vários natais. Para mim significavam sempre saudade, lembrança da pátria, evocação de festas do nordeste, de líricas pastores, do bumba-meu-boi nas ruas das prquenas cidades.

De um Natal me recordo, o triste Natal do viajante. Estava na Europa e calculei meu tempo de modo que deveria chegar ao Brasil na véspera de Natal. Já me adaptara ao Natal como festa de família, entre os meus, na alegria dos parentes reunidos. Era um inverno especialmente duro, a noite chegava antes do tempo no meio da tarde, não havia visibilidade nos aeródromos e meus cálculos de viagem arruinaram-se. Dois, três dias, sem sair aviões. Eu estava em Praga. Na véspera de Natal mais uma vez estive quase o dia inteiro na expectativa de saída do avião. Mais uma vez ele falhou. Voltei para o hotel pela tarde. Um cartaz na portaria avisava que naquela noite o hotel não serviria jantar, os hóspedes que o desejassem deviam pedir com o tempo uma ceia fria para a noite. Foi o que fiz e dormi. Acordei pelas nove horas da noite. Vesti-me e saí. Não havia uma pessoas nas ruas cobertas de neve. Estavam todos em suas casas, festejando. No hotel mal iluminado, apenas um empregado. Andei sem rumo pela cidade. Não encontrava ninguém. Tudo fechado. Nem mesmo os vendedores de salsichas assadas, nem mesmo os bebedores de cerveja. O silencia e a neve. Uma tristeza sem fim me envolveu. As janelas iluminadas e lá dentro a festa, a alegria. Eu andava sem rumo e jamais senti tanto o significado do Natal.

                               Revista da Semana, 27 de dezembro de 1958

Abaixo o link para Visita ao Presépio de Quinquina, conto natalino pouco conhecido de Jorge Amado, que saiu na revista O Cruzeiro, em 1939, quando ele tinha 26 anos.




Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...