terça-feira, 27 de outubro de 2015

Simone de Beauvoir por Cleyde Yaconis


Simone de Beavouir está de volta - santo Enem - e lembrei de A Cerimônia do Adeus, peça do finalzinho dos anos 80, em que Cleyde Yaconis a interpretava. Foi a primeira vez que vi a grande atriz em cena. Abri Dama Discreta, livro sobre Cleyde que tive a honra de escrever, e a parte em que ela fala de Simone é tāo deliciosa, mas tāo deliciosa, que vou copiar aqui, ouvindo a voz de Cleyde, as pausas...

Cleyde Yaconis, Antonio Abujamra, Marcos Frota
"A Cerimônia do Adeus, que fiz em 1989, foi a melhor peça do Mauro Rasi e um encontro prazeroso com uma mulher extraordinária, a Simone de Beauvoir. O papel era pequeno, como texto, como aparição. Era uma personagem fantástica. O Marcos Frota fazia o menino de 16 anos apaixonado por aquela mulher fascinante.

Eu fiz toda a pesquisa de Simone de Beauvoir, chorei de rir porque era extraordinária aquela mulher. A minha entrada em cena chamava atençāo. Eu entrava andando reto, marcial e tirei isso de umas fitas a que assisti com horas de imagens dela. Era uma entrevista e ela estava sempre com as mãos cerradas, não abria as mãos uma única vez, e acabei incorporando essa característica dela na peça. Peguei a Simone de Beauvoir na fase dos 40 anos, porque se um adolescente se apaixona daquele jeito tem que ser uma mulher de 40. Outras pessoas fazem a peça e pegam a Simone com 60. Não é possível. Um menino lindo se apaixona por uma mulher experiente, que é depois dos 30.


O Sartre viajava de carro e de trem, ela ia a pé, andava dez, vinte quilômetros e dormia na estrada. Quando ela se apaixonou por um americano, pegava o avião em Paris e ia para Nova York só para se encontrar com ele e voltava. Era independente, livre, mulher, audaciosa. Então foi um prazer, mesmo num papel pequeno, transmitir o que era essa mulher do Sartre, que era preguiçoso, mole, moleirão. E ela dinâmica e fantástica. Depois eu achei muito engraçado, porque ela nunca morou com o Sartre, eles moravam separados. Com o último amante, a última paixão, ela caiu em contradição. O último, ela levou para morar com ela. Ela já com 60, e o amado, jovem."

Aqui dá pra ler Dama Discreta (Coleção Aplauso) inteiro e sem custos

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Pepe, El Guia: raridades de Clarice Lispector

Em 1947, Clarice Lispector morava em Berna e foi com o marido para a Espanha. Nesta crônica, publicada em O Cruzeiro, no começo de 1950 quando passou um período no Brasil, ela escreve sobre a viagem a partir das lembranças de Pepe, o guia que os acompanhou em Córdoba. Foi publicada com o título de Um Homem Espanhol na primeira edição de A  Legião Estrangeira (1964),, numa parte de escritos curtos chamada Fundo da Gaveta. 

                                          Pepe, el Guia

Não era Pepe apenas, não era guia apenas. No calor do verão, o rosto entumescido por um álcool que mal se evaporava era substituído por outro, o homem parou numa ruela branca e sombria de Córdoba, olhou-nos e disse lento:

- Ustedes no tienen un guia. Ustedes tienen Pepe el Guia!

Paramos emocionados diante do que deveria ser uma coincidência singular. Qual? apenas uma coincidência. Pepe el Guia imobilizara-se com os olhos úmidos de emoção, de vinho, de calor e de desespero. Devia ser extraordinário e pesado ser – Pepe el Guia! Ainda parado, o rosto escorrendo suor, a infalível roupa escura da elegância – mais um momento e tornar-se-ia extraordinário não só ser Pepe el Guia como uma pessoa ser ela mesma, como ser espanhol entre tantas possibilidades, estar sob o alto céu azul de Córdoba quando também existe Londres, e Córdoba existir neste mundo: o milagre passou por nós em fraca brisa. Em torno, a cidade se estendia doce e quente, insuportavelmente doce, cheia de cegos indecisos e de mulheres mais indecisas ainda. Havia no entanto uma aspereza. Aonde estaria? talvez nos sonhos destemidos dos homens que sonolentavam às portas dos cafés, talvez nessa vontade de escapar que se adivinhava, como uma emboscada, na calmaria. Cidade perigosa, esta. E no meio da devastação do calor, no meio da estranheza, erguia-se o nosso homem, embriagado com sua própria altura: soy Pepe el Guia! repetiu de braços abertos. Como se este personagem fosse uma abstração preexistente, e um homem, um simples pepe, um simples guia, neste símbolo se tivesse encarnado. Diante de nossa mudez e de nosso respeito, confortou-nos: “pero ustedes tienen un amigo en Pepe el Guia”!

Mas por que dizê-lo com tristeza? Triste, valoroso, bêbado, a dominar melancolicamente castelos que só ele, e por um instante de graça, nós viamos nas casas baixas de Córdoba. Era um amigo, sim. Amizade de um momento, amizade paga, mas com todo o desespero da amizade: éramos amigos e, no entanto, que poderíamos dar um ao outro? Senão reconhecermo-nos.

Nós reconhecíamos nele Pepe el Guia, e ele em nós – aqueles que o reconheciam.

E que amigo sensível. Uma palavra descuidada ofendia-o, um gesto apenas esboçado de dúvida o feria – imediatamente recuava, dando espaço ao desembainhar da espada. Humildes e apressados, explicávamos a nossa pouca vontade de ofendê-lo, assegurávamos nossa confiança absoluta na sua sabedoria de vagas datas, onde histórias de mouros antigos se entrecruzavam com a de turistas ingleses, “amigos seus para sempre”. Dom Pepe examinava as desculpas antes de aceitá-las, hesitava longamente, ainda ameaçador. Nós aguardávamos ansiosos e na verdade bastante enojados. Afinal, num repente, reconciliava-se e prosseguia, ainda mais ardente na amizade fortificada.
Verdade é que de Córdoba soubemos pouco mais do que sabíamos, soubemos das noites cheirando a nardo e a jasmin, soubemos o que víamos e o que pressentíamos. Mas de Dom Pepe, sim, soubemos que não havia alma viva em Córdoba: Córdoba non: España! – que não o conhecesse e louvasse. España só? Não. Marrocos, Argel, Egito... Os estranhos comércios que este homem já fizera, trocando cavalos decerto alheios, comprando tâmaras e azeitonas – comércio da antiguidade, mais aventura que comércio, mais viagem que proveito, mais vida que dinheiro. E a família de Pepe? Não era somente a família que sua força havia criado e com que abundância, era também a família de seu irmão morto na guerra civil, era também a família de seu cunhado morto na Guerra Civil. Quem diz família diga três tribos que a sua generosa irresponsabilidade abrigava. E quem lê família que veja bando de mulheres curtas e doces abanando-se no pátio com os olhos entrefechados, que veja meninos e rapazes paralisados para o trabalho pela esperança de tourear, ou pela esperança: que veja as grandes comidas que são necessárias para alimentar tantos sonhos.

O que não impede que Dom Pepe por um triz não puxe a espada quando tentamos pagar um xerez especial que só Pepe el Guia conhece e oferece. Ofendido na sua raça, trêmulo no hábito secular da indignação – Ustedes me matan!

Pagamos o xerez, agradecemos-lhe a oportunidade de conhecer bebida tão rara que em qualquer botequim espanhol servem. Nosso amigo, ainda emocionado com o drama de uma amizade quase desfeita, em sinal de perdão e magnanimidade, diz que aceita mais dois “copitos” que, para a nossa confusão e vergonha, havíamos esquecido de lhe oferecer.

Revista O Cruzeiro, 18 de fevereiro de 1950



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cleyde Yaconis e o terror policial no teatro: maio 1964

Capa Última Hora: Sexta-feira, 8 de maio de 1964
Dia desses encontrei essa capa do jornal Última hora, do começo de maio de 1964. É o registro da prisão de Cleyde Yaconis pelo DOPS e “submetida a severo interrogatório”. Em A Dama Discreta, livro que escrevi sobre ela, Cleyde falou da prisão. Vai em memória de Cleyde em homenagem aos pensamentos tortos que pedem a volta dos militares ao poder. 

“Uma noite, quando saía do espetáculo Vereda da Salvação, tinha cinco carros da polícia na porta do TBC me esperando. Eu saí com o Stênio (Garcia, então marido dela), estava com o meu carro e ele me levou até a porta do DOPS, lá perto da Estação da Luz. “Corre e avisa a Cacilda”, disse para ele. Meia hora depois que eu cheguei no DOPS, começou uma chuva de telefonemas de gente influente que a Cacilda tinha contatado. Parece que eles iam me mandar para não sei onde, mas daí vieram os telefonemas dizendo “não toquem nessa moça”. Em meia hora, a Cacilda pôs São Paulo em pé. Ela era danada, tirou muita gente da cadeia e escondia no apartamento dela, os padres dominicanos, Flavio Império, Guarnieri. Cacilda era intocável.

Não sei porque me prenderam. Parece que encontraram o meu nome e do Flávio Rangel na lista de uma reunião não sei de quem. Nunca tive uma atividade política, como tiveram vários conhecidos meus, de assaltar banco para pegar dinheiro. O que eu tinha feito era absolutamente legal, como assinar abaixo-assinados pró-Fidel Castro na época da Revolução Cubana, ou quando teve a renúncia do presidente Jânio Quadros para que seu vice, o João Goulart, assumisse. Eram todas atitudes democráticas. Todas as minhas atitudes eram de pessoa consciente mas democrática, nada a ver com ação de luta, guerrilha, nada disso. Mas parece que eles encontraram meu nome numa lista com o Flávio, que foi preso várias vezes.
Com Ruth de Souza, Stênio Garcia e Raul Cortez: Vereda da Salvação
Quando cheguei, eles me puseram na cela, a porta não era gradeada, era aquela porta de ferro com aberturinha. A porta abriu e eu vi uma pessoa falando assim “Cleyde, Cleyde você aqui”. Era o físico Mario Schemberg que estava preso lá. E eles tiveram que esvaziar uma cela porque só tinha eu de mulher. Todos os que estavam em duas celas foram colocados em uma só e eu fiquei na outra. Era maio, fazia frio e era cimento, uma laje de cimento. Só que a Cacilda me tirou logo. Foi uma situação pavorosa, mas eu não entrei em pânico, consegui ficar calma.

De autores de esquerda, eu só tinha feito Guarnieri. Jorge Andrade era um homem de esquerda sim, mas não comunista. Do partido comunista eram o Dias Gomes e o Guarnieri. Mas eu tinha uma atitude de esquerda, isso sim, como até hoje, um posicionamento de esquerda, não de direita, claro. Como hoje. Tenho uma atitude de esquerda e contra o abuso do poder, me revolto com a má distribuição de renda, com a fome no Brasil, com a corrupção...Então se tiver uma revolução hoje vão me prender também, porque a minha atitude continua sendo a mesma.”



terça-feira, 28 de julho de 2015

De onde vem sapatão, o termo?


De onde vem o termo sapata/sapatão para designar lésbica? Por anos corri atrás da história, falavam de Maria Sapatão, a marchinha de Carnaval do Chacrinha que fez sucesso no carnaval de 1981. Lendo O Explorador de Emoções Peregrinas, livro delicioso sobre Antonio Bivar escrito por Maria Lucia Dahl, topo com uma história deliciosa, provavalmente ocorrida no final dos nos 60. Eis a origem do termo sapatão, segundo Antonio Bivar. 

"Isabel Câmara me contava da ideia que tinha de fazer uma peça só com moças – usando no título um termo que já estava na boca do pessoal. Dentro do feminismo crescente, as sapatas eram uma nova tribo safista fazendo vista na sociedade. Moças destemidas, independentes, engraçadas, glamurosas, sibaritas, amazonas modernas com o pisar determinado. Daí que Isabel, poeta dessa tribo, nas férias em Petrópolis anotara ideias para uma peça que já tinha até título: Viva Sapatas. 

Foto do livro
Isabel estava animada! 

– Foi a Anecy Rocha, junto com a [Maria] Bethânia que inventaram o termo sapatão. 

Uma olhava pra outra e comentava sobre alguém: 

– Você viu o sapato que ela estava usando?! 

E a outra respondia, rindo: 

– Poxa! Que sapatão, hein! 

Daí começou essa onda de sapata... "

Fonte: Antonio Bivar - O Explorador de Emoções Peregrinas, de Maria Lucia Dahl (Coleção Aplauso)




domingo, 5 de julho de 2015

Quando os bares gays eram uma porta escura em algum lugar de Manhattan

Rooney Mara e Cate Blanchett no filme de Todd Haynes
Soube da existência de Carol, filme de Todd Haynes que passou no último festival de Cannes e ainda inédito aqui, e fui atrás do livro em que se baseia. É Carol (The Price of Salt), o segundo romance de Patricia Highsmith, publicado em 1952 sob o pseudônimo de Claire Morgan. “Trata-se claramente do primeiro livro de prestígio a abordar o lesbianismo com uma certa naturalidade, sob uma atmosfera de suspense que caracteriza todos os trabalhos da autora, mas também com direito a diálogos francos, um humor emotivo e personagens enternecedores”, está na contracapa da edição da L&PM Pocket. É daqueles livros pra se apaixonar, pelas personagens (a jovem Therese e Carol, a dona de casa trintona, suburbana e elegante), pela época em que se passa... Ao final, um pós-escrito que Patricia Highsmith escreveu em 1989, seis anos antes de morrer. É tão esclarecedor que vai abaixo o último parágrafo.


A edição L&PM
Sob pseudônimo
“Minha jovem protagonista, Therese, pode parecer uma violeta retraída no meu livro, mas aquela era a época em que os bares gays eram uma porta escura em algum lugar de Manhattan, e as pessoas que os frequentavam saltavam do metrô uma estação antes, ou uma depois, da estação certa, com medo de desconfiarem que eram homossexuais. O atrativo de The Price of Salt era o seu final feliz para as duas personagens principais, ou pelo menos haveria uma tentativa das duas compartilharem um futuro juntas. Antes desse livro, os homossexuais, masculinos e femininos, nos romances americanos, eram obrigados a pagar pelo seu desvio cortando os pulsos, se afogando em piscinas, ou mudando para a heterossexualidade (assim se afirmava) ou mergulhando – sozinhos, sofridos, rejeitados – em uma depressão dos infernos. Muitas cartas que me chegavam traziam mensagens do tipo, “O seu é o primeiro livro assim com um final feliz! Nós todos não nos suicidamos e muitos estão passando muito bem”. Outras diziam, “Obrigada por você ter escrito uma história assim. É um pouco como a minha própria história...”. E, “tenho dezoito anos e moro numa cidade pequena. Me sinto solitária, porque não posso falar com ninguém...”. Às vezes eu escrevia uma carta sugerindo que o missivista se mudasse para uma cidade maior onde teria a oportunidade de conhecer mais pessoas. Conforme me lembro, havia cartas tanto de homens como de mulheres, o que eu achava um bom auspício para meu livro. Isso acabou sendo verdade. As cartas pingaram durante anos, e mesmo agora chega uma carta, uma ou duas vezes por ano, de algum leitor. Nunca escrevi outro livro como este. Meu livro seguinte foi The Blunderer. Gosto de evitar rótulos. São as editoras americanas que gostam deles.” Patricia Highsmith em 24 de maio de 1989.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Dona crase ganha as redes

Dona crase anda toda boba. Caetano Veloso, via redes sociais, a trouxe ao topo. Dia desses, encontrei esses aforismas sobre a crase escritos por Ferreira Gullar em 1955 (ele tinha 25 anos). Achei curioso, salvei e aqui estão.


Aforismas sobre a crase

Ferreira Gullar

A crase não foi feita para humilhar ninguém.

Maria, mãe do Divino Cordeiro, craseava mal. O Divino Cordeiro, mesmo, não era o que se pode chamar um “bamba da crase”.

Quem semeia crases colhe alexandrinos.

As crases e as insígnias têm a mesma origem.

A boa crase vale ouro.

São Francisco de Assis não ensinou crase aos pássaros. E Zaratustra, que tudo aprendeu com os animais do bosque, veio tomar lições numa Universidade, em Bale.

Crase não enche barriga. Mas quem craseia bem, dorme melhor.

Deus dá crases a quem não tem frases.

O estudo da crase é a metafísica dos tímidos.

Os ditadores não sabem que, em expressões como à bala ou a bala, é indiferente crasear ou não.

A Crase pura é uma deformação perigosa, que rouba à crase sua função social.


Tudo o que pedimos é que nos deixem crasear em paz.

A crase, em si, não é má.


segunda-feira, 15 de junho de 2015

A história das canções: Amélia

Quem conta é Alcatra, ou melhor, Ataulfo Alves (1909 -1969), na revista A Cigarra, em junho de 1945. Ele compôs Amélia em parceria com Mario Lago, no início dos anos 40. 

                      Como nasceu “Amélia”



Sempre me perguntam: - “Como é, seu Alcatra, que você e o Mário Lago fizeram “Amélia”? (Alcatra é o meu apelido no meio musical, muito erradamente, derivado de “Alcatrão”, devido à minha cor).
Por isto, resolvi contar a verdadeira e simples história dessa nossa música. Regressara eu de uma viagem à minha cidade natal, uma bela e sossegada terrinha de Minas Gerais, quando Araci de Almeida me disse:


- “Alcatra, você quer saber de uma coisa? Eu sugeri ao Wilson Batista para fazer um samba baseado na vida de Amélia e ele até agora não fez. Quer fazer?

- Amélia? Que Amélia?

- Aquela que era mulher de verdade...



E contou-me a tristíssima história daquela heróica mulher que trabalhava sem queixa, sem descanso, e sofria ao lado do companheiro. Gostei da ideia e ao lado do Mário Lago, um dos maiores letristas e também pianista de talento, começou a produção. Pronto, veio o período agudo, o da gravação. Não sei porque, ninguém queria a música. Achavam que ela era bonita, que os versos eram interessantes, mas não era carnavalesca. Decidi, eu mesmo, gravá-la. Se fez sucesso, os senhores podem responder melhor. Seu nascimento e seus aparecimento quase foram tão difíceis quanto a história da mulher que sabia ser mulher de verdade.

Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...