segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida


19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias.

Esse perfil escrito por Antônio Maria (1921-1964) retrata Aracy ali pelos 40 anos (ela se foi em 1988). As conversas com os amigos, os bares:  É uma preciosidade e foi publicado na revista Manchete em 1953. Vai aqui como um carinho em Aracy de Almeida. 

Aracy por Antônio Maria

Filha de pastor protestante, sabe de cor alguns trechos da Bíblia. Numa mesa de bar, em pausa de conversa, quando menos se espera, lá vem a tirada: "Vendo, então, Jacob, que havia mantimento, no Egito, disse a seus filhos - "Por que estais olhando uns para os outros?". E reforça para que não duvidem da citação: "Isto é do livro de Gênessis, capítulo 42". Em menina, quando lhe pediram para cantar na igreja, fez apenas esta pergunta: "e dinheirinho, como é?". Gosta imensamente de três coisas: pintura, tango argentino e cinema. Seu pintor preferido é Clóvis Graciano, cujos quadros estão em todas paredes de sua casa, em São Francisco Xavier. Morre de amores por quatro ou cinco amigos e, ao seu lado, sente o maior desprezo pelo resto da humanidade. Se entra num bar e os surpreende com a namorada, a moça pode ser um anjo saído do Sacré Coeur, Aracy fecha a cara e antes do boa noite ou de como vai, grita da porta: "Temos conversado. Enquanto você estiver com essas vigaristas, não fale comigo". Em São Paulo, numa época de ternura com Mauricio Barroso, encontrou-o, certa vez, num bar com uma moça da sociedade. Meio sem jeito, temendo os ciúmes de Aracy, Mauricio disse somente "Alô, Aracy"... naquela hora, num grito do coração, celebrizou esta frase: "Não sou mulher de Alô!". Quando gosta do próximo, é de uma generosidade nunca vista. Este cronista, se não soubesse evitar seus rasgos de prodigalidade, seria dono, hoje, de todos os quadros de sua casa, máquinas de escrever e dezenas de isqueiros. Guarda, porém, algumas de suas fotografias, com dedicatórias assim: "Ao meu poeta, com o bem querer da infeliz Aracy de Almeida". Num chaveiro de ouro, presente de aniversário, mandou gravar: "Maria, se eu morresse amanhã, deixaria esta lembrança para você". Não é bonita, sabe disso e não luta contra isso. Não usa, no rosto, baton, rouge, qualquer coisa que não seja água e sabão. Ultimamente corta o cabelo de um jeito que a torna muito parecida com Castro Alves. Seus vestidos são simples, mas muito de boa qualidade. Orgulha-se da beleza do seu busto, e quando surge qualquer dúvida, não faz a menor questão de exibi-lo, esteja onde estiver. Entende, tanto quanto um cínico, de achaques e doenças. Está a par de todos os remédios e repete fórmulas inteirinhas, com os nomes intrincados das drogas e as dosagens decimais de cada um. Gasta por mês dois mil cruzeiros num exame médico rigorosíssimo. À noite, anuncia na mesa do bar: "A titia, hoje abriu a máquina e fez uma revisão geral. Não está vazando, nem queimando óleo". Bebe uísque puro, com gelo. Depois do segundo, fica muito terna e diz umas coisas de sua alma, que surpreendem pela doçura. Só anda de automóvel, mas não pensa em comprar o seu carro. Serve-se do táxi do Inglês (de São Francisco Xavier), a quem paga de 500 a 600 cruzeiros por dia. É uma verdadeira fábrica de gíria e não conversa meia hora, sem dizer matusquela, mincho, argolo, vivaldina (em relação a ela mesma - pessoa esperta, viva), alancatréa, de araque, etc. É uma esplêndida cozinheira, sendo de sua especialidade um feijão que ela chama de porôto, três maneiras de preparar galinha e umas empadas de camarão, cuja massa é um segredo de morte. Aos domingos, depois do futebol, vou a sua casa, onde me esperam: um banho quente, um jantar, uma cama com um ventilador ligado em cima e uma vitrola tocando tangos. Quando telefonam, ou chega gente, diz que não estou e fica falando "meu Maria, coitado, precisa descansar, porque ele é doido e trabalha muito". Em casa, usa os trajes mais estranhos e engraçados. É comum a gente encontrá-la com um calção e uma camisa sem manga do companheiro, um boné na cabeça, sapatos de tênis.

Atualmente, Aracy está em São Paulo. Deixou o rádio carioca e, sem dar entrevistas (é contra qualquer fantasia publicitária, gostando de valer pelo que é) foi ser exclusiva da Rádio Record. Confessa que está cansada de cantar, embora esteja cantando melhor do que nunca. Faz de cada música um caso pessoal e entrega-se às canções do seu repertório como quem se dá a um destino. Não sabe chorar e não se lembra de quando chorou pela última vez. Mas, a quota de amargura que traz no coração, extravasa nos versos tristes de Noel: "quem é que já sofreu mais do que eu? Quem é que já me viu chorar? Sofrer foi o prazer que Deus me deu"... e vai por aí, sem saber para onde, ao frio da noite, na espera de cada sol, quando o sono chega, dá-lhe a mão e a leva para casa.


quarta-feira, 19 de julho de 2023

Quem quer brincar de boneca? Texto de Vange Leonel

O filme Barbie está por todo lado. E de tanto ouvir falar em boneca, me lembrei de um texto de Vange Leonel sobre elas e fui até grrrls - Garotas Iradas (2001), livro com crônicas e inéditos dela. Estava lá me esperando e é melhor ainda que nas minhas lembranças. A origem das bonecas e a maneira como elas aparecem na vida e obra de algumas lésbicas, a partir de quatro exemplos: as bonecas da escritora Djuna Barnes, o bonequinho do piloto de lanchas "Joe" Castairs, as bonecas sádicas do filme Barbarella e a canção Feiticeira, no primeiro disco de Maria Bethânia. É uma bela viagem ao mundo das bonecas em texto longo (cinco páginas do livro) e saboroso. É tudo de Vange Leonel a partir daqui: 






Quem quer brincar de boneca?

Vange Leonel 

Há alguns anos comecei a perceber em mim um interesse especial por bonecas. Não, meus queridos e queridas leitoras, não fui acometida de uma crise regressiva e nem estou perdidamente apaixonada pela Xuxa! Mas lembro bem que há uns 15 anos, mais ou menos, compus com minha banda de hard-rock, o Nau, uma curta canção bem punk onde cantava “odeio boneca, não quero boneca”. A música, mais que afirmar meu desgosto por essas miniaturas de gente, inanimadas, pretendia ser pequeno manifesto “grrrl” para romper com a figura da mulherzinha fofinha, gentil e feminina que gosta de bonecas e é criada para povoar este nosso planetinha. 

Mas o que pensei na época ser ódio transformou-se numa relação de amor. Não que eu tenha saído por aí comprando e colecionando bonecas: continuo não tendo bonecas e, definitivamente, não gosto de brincar com elas. Se bem me lembro, a única boneca de que gostava era uma bem pequenininha e moreninha que minha mãe guardava no alto de um armário, bem fechado. Por que minha mãe a escondia de mim, eu não sei. Só sei que a boneca no armário transformou-se, a certa altura, numa verdadeira obsessão – Freud explica. 

Muitos anos depois, já em 1994 ou 1995, dei uma entrevista à Sui Generis onde falei abertamente sobre a minha homossexualidade saindo do armário (para o público, pois sempre fui transparente na minha vida particular). Nesta entrevista, resolvi também tirar do armário minha velha conhecida boneca e a revista publicou um texto meu que faz parte de um livro ainda inédito. O texto, chamado Minha Boneca era assim: 

Quando eu era criança não costumava brincar de boneca. Eu corria atrás de uma bola e gostava de jogar vários jogos, mas nunca tive carinho especial por um bebê de plástico ou uma filhinha de pano.

Bizarro é o destino. O tempo passou, eu cresci e fui cada vez mais sentindo saudade da boneca que nunca tive. Agora que sou grande e não gosto de ficar sozinha em minha cama escolhi você para ser minha bonequinha.
Em você eu faço carinho enquanto você me faz companhia. Eu te penteio, eu te visto e dispo todinha e você diz pra mim segredos lindos que só eu consigo ouvir. E ainda por cima – só nós sabemos – a gente é super feliz.


Pois foi assim que saí do armário junto com a minha boneca. Depois desse dia meu interesse pelas relações das mulheres em geral – e as lésbicas, em particular – com suas bonecas aumenta a cada dia. 

O que pretendo investigar aqui, rapidamente é a maneira como as bonecas aparecem na vida e na obra de algumas lésbicas, a partir de quatro exemplos: Djuna Barnes, o bonequinho da piloto de lanchas “Joe” Castairs, as bonecas sádicas da heroína Barbarella e a canção “Feiticeira”, gravada no primeiro disco de Maria Bethânia. Mas antes de me estender sobre estes quatro exemplos, vamos saber um pouco sobre a origem das bonecas. 

As primeiras bonecas de que se tem notícia foram encontradas durante escavações no Egito, em tumbas de crianças, e datam, aproximadamente, de dois ou três mil anos antes de Cristo. Alguns experts afirmam que, antes de virar brinquedo de criança, as bonecas eram usadas para fins religiosos. Aquela pequena figura com cara de gente deve ter exercido um fascínio tão grande nas crianças que o objeto, de religioso, passou a ser de uso específico das menininhas, com grande coração e imaginação infinita. O mais curioso é que esta transição de objeto religioso para foco específico da atenção e do carinho das crianças parece ter acontecido no mundo todo e em várias culturas. Desde a Índia até a Europa, do Japão até a Síria, entre os Incas e os índios americanos, pode-se encontrar todo tipo de boneca, sempre querida pelas crianças e sempre envolvida em simbologias e rituais religiosos.

Que fascínio é esse que a boneca exerce nas meninas e que se espalhou pelos quatro cantos do planeta?


A escritora é Djuna Barnes, que em 1936 publicou sua obra-prima Nightwood, inspirada na sua relação conturbada com a escultura Thelma Wood. Djuna e Thelma viveram juntas por quase dez anos e a cada festa de ano-novo elas davam, uma para a outra, uma boneca. Numa noite, após uma briga, Thelma jogou no chão uma das bonecas de porcelana que as duas colecionavam. A boneca se despedaçou e parece que o amor delas também. A força simbólica do ato precipitou a separação definitiva do casal. Não poderia ser de outra maneira já que, em Nightwood, é inegável a força mítica da boneca na relação amorosa das duas. Em certo trecho, Djuna afirma que “quando uma mulher dá (uma boneca) para outra mulher, ela é a vida que elas não podem ter, é a filha sagrada e profana”. Ou quando conta um dia que chegou em casa e viu a amante, bêbada, “parada no meio da sala, em roupas de menino, balançando num pé e noutro, segurando a boneca que ela nos deu – ‘nossa filha’ – alto sobre sua cabeça, como se ela fosse abatê-la”. Não é preciso nem falar, a boneca é jogada ao chão e se quebra, como aconteceu na vida real entre Djuna e Thelma. Mais adiante no livro Djuna Barnes compara o terceiro sexo às bonecas, afirmando que os dois têm algo em comum: “a boneca porque parece viver, mas não tem vida e o terceiro sexo porque tem vida mas se parece com a boneca”. 

Djuna Barnes, portanto, confere à boneca um lugar especial, fazendo com que ela substitua o filho que não pode ter e comparando a boneca à sua namorada andrógina, ressaltando a plasticidade que é própria tanto da boneca como do terceiro sexo. 


Já o piloto de lancha de corridas Marion “Joe” Castairs preferia um bonequinho. Castairs era  contemporânea de Djuna Barnes e na década de 1930 comprou uma ilha no Caribe, onde se estabeleceu até o fim de sua vida. Vestia-se de homem, fabricava e pilotava lanchas de corrida e chegou a namorar a atriz Tallulah Bankhead e a sobrinha de Wilde, Dolly. Castairs não desgrudava de Wadley, um boneco de couro, presente de sua namorada Ruth. Durante uma briga – veja a coincidência com o caso de Djuna – Ruth danificou Wadley e a partir desta data Castairs nunca mais deixou nenhuma namorada ou amante se aproximar de seu boneco. Depois disso, Wadley tornou-se o verdadeiro objeto de amor de Castairs: era seu alter ego, a ele dedicava festas e fazia extensos ensaios fotográficos mostrando Wadley sob todos os ângulos possíveis, em atividades que nem Barbie sonharia. As namoras de Castairs – todas – sentiam ciúmes de Wadley. Mas o tempo passou, Castairs envelheceu e seu boneco Wadley também: seu coro escureceu, a cabeça caiu e o boneco, sessenta anos depois, estava todo remendado de band-aid. Já à beira da morte, um amigo disse a Castairs “você nunca precisou de ninguém” ao que respondeu: “só de Wadley”. Fiel à sua paixão, ela morreu com seu boneco nos braços e assim foi cremada. 

O boneco de Castairs então, não era um substituto para o filho que não podia e não queria ter – como no caso de Djuna – mas uma projeção sua, um alter-ego, a sua própria imagem em miniatura. Para mascarar sua profunda solidão Joe Castairs criou um ser à sua imagem e semelhança, a quem dedicava cuidados e buscava proteção: Castairs cuidava do boneco que cuidava de Castairs. 


Mas nem todas bonecas são tranquilas e confortadoras. Se essas craiaturas inanimadas protegiam e eram protegidas por donas como Barnes e Castairs, o mesmo não podemos dizer das bonequinhas sádicas do filme Barbarella. O filme, estrelado por Jane Fonda, é uma ficção científica kitsh da década de 1960. O encontro da heroína com as pequenas vilãs acontece quando Barbarella pousa sua nave num planeta estranho e encontra lindas bonequinhas com quem trava uma conversa amigável, achando tratar-se de doces e ingênuas criaturas. Para sua surpresa, as bonecas a amarram numa estaca e a atacam, mordendo Barbarella com seus pequenos dentes de metal. A cena, sádica, tem fortes conotações eróticas: Barbarella não consegue disfarçar a dor e o prazer que sente a cada mordida. Esta cena permaneceu como o único resquício lésbico de Barbarella, já que o diretor do filme, Roger Vadim, resolveu excluir da versão oficial as cenas de lesbianismo explícito entre Jane Fonda e Anita Pallenberg, que fazia a imperatriz do mal. 

Mas voltando às bonecas: Barbarella é enganada por seus instintos pois acreditava que todas as bonecas eram, por natureza, boazinhas. De certa maneira, o encontro da heroína com as bonecas sádicas marca a iniciação de Barbarella no mundo lésbico, um mundo onde as bonecas – e as mulheres – não são como se espera que elas sejam. Assim, as bonecas de Barbarella revelariam um outro traço da dinâmica lésbicas-e-suas-bonecas, um aspecto mais sádico no qual a boneca esquisita e “anormal” representa a profunda recusa de uma mulher a pertencer ao mundo da “normalidade”. As bonequinhas sádicas, então, são para aquelas que se recusam ser categorizadas como “boazinhas”, “doces”, “prontas para o lar” e “prontas para o prazer do homem”. 

No entanto, mesmo quando a relação das lésbicas com suas bonecas parecem beirar o sadismo, a afeição e a paixão por suas queridas nunca deixa de existir. Uma amiga minha – lésbica – conta que, quando pequena, gostava de jogar bola com sua boneca Lili. Não que Lili fosse centro-avante: minha amiga fazia a própria Lili de bola e chutava a boneca para lá e para cá. Pode parecer cruel, mas minha amiga diz que não era maldade, mas uma coisa lúdica – e que Lili adorava ser a bola! 


Partindo do lúdico para o lírico, chegamos finalmente numa das mais belas músicas do cancioneiro popular brasileiro, gravada por Maria Bethânia em seu primeiro disco. A música, Feiticeira, de autor desconhecido, conta a história de uma garotinha e sua boneca – Engraçadinha – a quem dorme agarrada todas as noites. Uma madrugada, ao invés da dona ninar Engraçadinha, é a boneca quem faz a menina pegar no sono. A tragédia se dá quando, impossibilitada pelo sono de cuidar de sua bonequinha, a menina acorda com uma surpresa. No último verso, sabemos o destino reservado às duas: 

Despertando deste sono, 
procurando Para tê-la em abraços
Oh! que dor no coração ao vê-la no chão
Separada em mil pedaços. 

Engraçadinha, depois de ninar quem sempre a ninou, fica desprotegida, cai no chão e se quebra. Novamente aqui a questão do cuidar-se e do cuidar do outro se apresenta como algo inexoravelmente ligado às bonecas. O cuidado é maternal quando se trata da boneca de Djuna Barnes e é obsessivo quando falamos de Joe Castairs e seu Wadley. A falta de cuidado das bonequinhas sádicas alerta Barbarella para um mundo diferente e a distração descuidada da menina da canção “Feiticeira” provoca a morte da boneca Engraçadinha. 

Se o mundo masculino – finalmente avalizado pelo pensamento darwiniano – sempre enalteceu a competição, valorizando aqueles que fizeram algo, alcançaram um posto ou conseguiram feitos importantes, o imaginário feminino parece dar uma importância maior ao cuidado – ou à falta dele. Por isso as bonecas, que cuidam de nós assim como nós cuidamos delas, sempre tiveram um lugar especial nos corações e na vida das meninas do mundo inteiro – e isso vale até mesmo para a mais macha das garotas. Portanto, agarre sua bonequinha (mesmo se ela for de carne e osso) e seja muito, mas muito feliz.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

A Tropicália lá no inicio em ensaio de moda

 


É uma maravilha esse ensaio de moda da Rhodia com o tema Tropicália, quando ela ainda estava viva - abril de 1968 "tropicalismo" na matéria. As fotos são de José Daloia e cenários de Cyro Del Nero. Redator/es não creditados

"O tropicalismo é nosso. ou Yes, nós temos bananas."

São 17 páginas da Jóia, revista feminina da Bloch editores, a mesma da Manchete. Abre com um manifesto e com muitas imagens e textos/citações ótimas, vai contando a história do movimento, que tem em Gilberto Gil e Caetano Veloso seus líderes. Gil está entre os que posam com as modelos da Rhodia (Mila Moreira é uma delas).Caetano não, mas aparece no índice da revista no famoso apartamento paulistano da Avenida São Luis ("o mais famoso hippie da atualidade brasileira), chamando a matéria

Os que já tinham partido (Carmem Miranda), os astros do passado e os que chegavam: estão todos no ensaio


Quem abre e pilota a "transmissão radiofônica" é Jorge Veiga, que Caetano Veloso homenageia em GilGal do álbum Meu Coco. Carmem Miranda festeja na parede e a bicicleta de Jorge tem bandeirolas do Brasil


E abram alas para Vicente Celestino e o célebre Coração Materno. 
"Agora sim, chegamos à espinafração total": a frase de Oswald de Andrade ("sem cuja colaboração não existiria tropicalismo tão tropicalista assim") abre alas pro elenco de O Rei da Vela do Teatro Oficina - Renato Borghi, Etty Fraser e Otavio Augusto - no cenário da peça.


No bilhar, o cantor João Dias e na parede o retrato de Francisco Alves, o Chico Viola, morto em 1952. Na página ao lado, César Ladeira, "o locutor oficial da Revolução de 32", na cadeira do barbeiro. Na parede do salão, a Santa Ceia e modelos desnudas.


E chega José Lewgoy, o homem mau das comédias da Atlântida, em cenário 
bilhetes de loteria e jogo do Bicho . Na página ao lado, "é moleza de bordo, contrabando do cais": Moreira da Silva, o Kid Morangueira com duas manequins na Rua João Durães, indica a placa


"Me chamo Pixinguinha e moro na rua do mesmo nome, número 23".De terno branco, dois veteranos da música brasileira: Pixinguinha (outro homenageado por Caetano em Gil Gal) e Carlos Galhardo numa serenata às manequins. O retrato de Getúlio Vargas está na parde de Pixinguinha e um anúncio de Circo na de Galhardo. "No apartamento azul do nosso coração a rosa de Istambul em versos do Japão": versos de Cortina de Veludo, sucesso de Carlos Galhardo.



"Tropicalistas de Ipanema, uni-vos" E olha quem chega: Gilberto Gil! E ele comanda a Banda de Ipanema.
Na página ao lado, Estatutos da gafieira: "é prroibido abusar da umbigada, para não prejudicar hoje o bom crioulo de amanhã. Os versos são da canção de Billy Blanco, que Jorge Veiga também gravou. O "destaque" diante do microfone com a manequins é Zeffa, da Escola de Samba Vai-Vai


Tem sertanejo? Tem, sim senhor. E raiz. A dupla Alvarenga e Ranchinho caindo de charme. Na página ao lado, 
o samba de Nelson Cavaquinho (chique chique todo de branco) em cenário religiões de matrizes africanas. "Saravá,"minha" pai"



Já pro final do ensaio, a presença de dois atores: Edmundo Lopes incorpora Getúlio Vargas discursando. O retrato de Getúlio, que já aparecia na página de Pixinguinha,  está aqui no centro do cenário. 
Ao lado, Elisio de Albuquerque, o vilão dom Rafael da novela O Direito de Nascer (1964) representando o Brasil agrícola.


E a "transmissão radiofônica" ensaio de moda termina no ritmo do futebol com o goleiro Caxambu ao lado das manequins: "Alô, alô Caxambu! O locutor que vos fala informa que aqui o sol está a pino desde às sete horas da manhã! A-ten-ção Bra-sil!! Os magiares adentram o tapete verde, envergando suas vistosas jaquetas rubro-anis!"



Aqui, os agradecimentos e créditos do ensaio




terça-feira, 31 de maio de 2022

Selma Egrei vive "muda" em filme com argumento de Benedito Ruy Barbosa

 


A "muda" é um dos destaques da novela Pantanal. E uma muda (e surda) é mulher do protagonista do filme O Dia em Que o Santo Pecou (1976), que tem argumento e roteiro de Benedito Ruy Barbosa, também assistente de direção (Claudio Cunha é o diretor). Outra "coincidência": é interpretada por Selma Egrei, a Mariana, avó de Jove na novela.

O filme é repleto de elementos do universo Benedito. O ambiente rural - aqui, comunidade litorânea e caiçaras, em vez dos peões da TV. A surda e muda personagem de Selma tem mais pontos em contato com Juma. Vive com João Baleia (Mauricio do Valle) em uma tapera bem semelhante a da novela. Não vira onça, se comunica por grunhidos e  tem fama de feiticeira pela crendice popular.

O santo do título é São Sebastião, o padroeiro da cidade, que é acusado por um crime, julgado e condenado. Na história, ecos da escravidão e elementos que lembram o Dias Gomes de O Pagador de Promessas.


O Dia em Que O Santo Pecou está inteiro no Youtube, a cópia é de baixa qualidade, mas vale vê-lo. E tem ótimas atuações de Selma Egrei ali pelos vinte e poucos anos, Maurício do Valle e Dionisio Azevedo (o delegado).


sábado, 11 de dezembro de 2021

Jorge Amado fala de Lina Wertmuller e Tieta, o filme que ela quase dirigiu

O encontro de Jorge Amado e Lina Wertmuller em 1981, foto da revista Manchete

Desde a morte de Lina Wertmuller, a imagem dela com Jorge Amado e Tieta, o filme dela abortado, não me sai da cabeça. Agora fui ao Navegação de Cabotagem, de Jorge Amado - "Apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei". E Jorge escreve sobre no capítulo "Montreux 1988. A Máfia".

Aqui, um trecho:

"Lina Wertmuller chegou à Pedra do Sal pela mão de Bini*, Zélia e eu a recebemos de braços abertos. Ela trazia pronto o roteiro adaptado de meu romance, pela primeira vez Lina ia filmar história alheia, até então somente rodara argumento seu. Mostrou-me o manuscrito, colocou-o sobre a estante: "Quero que leias e me digas". Lina ia partir em viagem, o sertão da Bahia, o estado de Sergipe, as cidades de Aracaju e de Estância, à praia de Mangue Seco, ia ver os locais, tratar com a gente, "encher-se de Brasil", assim me disse e acreditei. Agradeci e recusei o convite para acompanhá-la no teco-teco alugado por Bini para sobrevoar campos, praias e povoados à baixa altura. Quanto ao roteiro, adiei a leitura para a volta de Lina, sei quanto é falsa e deformada a visão que os intelectuais europeus fazem do Brasil, conhecem de ouvir dizer, em geral de ouvir dizer ideológico, maniqueísta.

De retorno dias depois, ao entrar na sala, Lina me perguntou?
- Leste o cenário?

Disse que não o havia lido, estava onde ela o pusera, na estante. Respirou aliviada: "Ainda bem que não o leste, não tem o que se aproveite, o Brasil não é nada do que escrevi". Nada do que ela havia ouvido e imaginado, do que pusera em sua história, era diferente; por vezes o oposto. Ali mesmo rasgou as páginas do roteiro: "Vou escrever outro, agora sei, irás gostar", me disse. Assim aconteceu, o novo cenário recriava o Brasil com os olhos e o talento de Lina. Pena a falência do Banco Ambrosiano, liquidou o projeto às Vésperas de se iniciarem as filmagens de Tieta."

*Alfredo Bini, "meu velho cúmplice de cinema e farsa"


segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Um garoto visita Clarice Lispector em Anos de Chumbo

Há um conto, o sexto dos oito de Anos de Chumbo, chamado "Para Clarice Lispector, com Candura" - com candura, palavra linda - e nele o protagonista é um poeta, doido pela escritora, que deixa seus manuscritos na portaria dela e depois é recebido. É Chico Buarque contando sua visita a Clarice quando foi entrevistado por ela? É e não é, é também, é literatura. O poeta da ficção é universitário, tem 19 anos, Chico tinha 24, já era famoso (e Clarice tinha 47 anos). O personagem é universitário, filho de uma pintora e professora de artes (Maria Jansen) que dá lições pra Clarice, o Chico de então estudava teoria musical com Vilma Graça, conta Clarice no abre da entrevista. 

Não quero adiantar a trama, bem inventiva, e que chega até os dias de hoje. O que interessa aqui é a entrevista de Clarice com Chico Buarque, publicada na Manchete em 14 de setembro de 1968. Já saiu em livros, mas nunca vi com a reprodução da página e isso de ver como saiu, pra mim, é fundamental. E tem fotografia do Chico de então. 

 Ah, é de quando Clarice escrevia Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, o livro que começa com vírgula e acaba com dois pontos e é praticamente personagem do conto - e uma das perguntas que Chico responde também: "O que é amor?" 

Um trechinho da introdução de Clarice na entrevista: "Ele não é de modo algum um garoto, mas se existisse no reino animal um bicho, pensativo e belo e sempre jovem que se chamasse Garoto, Francisco Buarque de Holanda seria da raça montanhesa dos garotos"

domingo, 31 de outubro de 2021

Uma canção do Chico para cada conto do livro de Chico

O plano era ler um por dia pra durarem mais os oito contos de Anos de Chumbo, o livro de Chico Buarque. Acabei lendo todos em umas três deitadas, E enquanto lia pensava em uma música de Chico para cada conto. É mais por sensações do que pelas histórias neles (às vezes também pelas histórias). Eis a lista.

1. Meu Tio - O Casamento dos Pequenos Burgueses

2. O Passaporte - Cantando no Toró (pelo "grande artista", quem lê entende)

3. Cida - Minha História

4. Os Primos de Campos - Maninha

5. Copacabana - Anos Dourados

6. Para Clarice Lispector, com Candura - Ludo Real

7. O Sítio - Bancarrota Blues

8. Anos de Chumbo - Hino de Duran


segunda-feira, 3 de maio de 2021

Clementina por Hermínio: Quase uma biografia

 

                                                                MPB

Fotos: Frederico Mendes, revista Cruzeiro, 1971

Logo após a morte de Clementina de Jesus, em 19 de julho de 1987, Hermínio Bello de Carvalho distribuiu um manifesto pra imprensa. Aqui, como foi publicado na revista Amiga (e com chamada de capa: "O desabafo de um poeta na morte de Clementina de Jesus) no começo de agosto daquele ano. Hermínio fala da desconsideração com que ela foi tratada no fim da vida por rádios e gravadoras. O texto apareceu dia desses e vale como uma biografia de Clementina de Jesus. Abaixo:

      

Morte de Clementina de Jesus provoca o desabafo de seu descobridor

Por Hermínio Bello de Carvalho


"Nega velha não é palhaça não, meu filho" O desabafo pelo telefone foi um soco no estômago. O que, afinal, teria magoado assim desse jeito uma pessoa que desconhecia ira, mágoa, inveja? Sem atinar com a causa, insisti muito e só aí ela me contou que a chamaram para gravar um novo disco. Durante três meses, apoiada numa bengala e sofrendo as consequências de uma trombose que a fazia arrastar-se com sacrifício pela tão decantada vida de artista, lá ia Mãe Quelé cumprir uma perigrinação inútil para saber quando sairia a gravação que ela não pedira para fazer. Que voltasse "na semana que vem", e toda semana ela voltava e recebia a mesma hipócrita recomendação. "Eu não pedi para fazer disco nenhum, meu filho. Por que é que eles estão brincando assim com a nega véia?" A resposta que tinha engatilhada na ponta da língua era por demais cruel, e não seria eu que iria amargurar ainda mais aquela negra de alma negra, aquele ser em tudo semelhante a um baobá, árvore africana de largo tronco e cuja folhagem rendilha sombras estranhas, expurgatórias talvez do banzo que sofrem os negros, banzo que há algum tempo eu vi espelhado nos olhos da grande Mãe Brasileira, quando fui visitá-la na companhia de nosso amigo, o fotógrafo Walter Firmo. Não conhecia a casa onde agora morava, muito diferente daquela da rua Itaú onde vivia com Albino Pé Grande: um quartinho que se ligava a uma sala estreita semigeminada a alguma coisa que se assemelhava a um banheiro-cozinha. A de hoje é fruto da solidariedade de alguns artistas plásticos (Cildo Meireles, Ana Letícia, Henfil, Glauco Rodrigues, Nássara, Serpa Coutinho, Ziraldo, Chico Caruso, Urian, Caymmi, Germano Blum e tantos outros que agora não me ocorrem, que, convidados por mim, fizeram uma série de retratos e cartuns de Mãe Quelé. Era 1980, e ela estava comemorando presumíveis 80 anos - mais ainda sem um teto que fosse seu.Levei a ideia ao Banerj: que comprasse a edição de um álbum editado pela Funarte e comprasse diretamente um imóvel em nome da Casa dos Artistas (nada mais justo) em usufruto de Clementina. O que foi feito.

A página da Amiga
Volta e meia amigos meus vinham me revelar o que há muito já sabia. A preço de banana, vendiam os shows de Clementina e a faziam rodar pelas madrugadas de São Paulo, onde se apresentava nos lugares mais mulambentos. E não raras vezes saía do Rio de ônibus, porque as leis selvagens do mercado são insensíveis quando se deparam com uma presa fácil e generosa igual a Quelé. Profissional, jamais alegou cansaço para fazer seu trabalho.


Aos seus ganhos agregava uma pensão magérrima do INPS, obtida por outro filho querido que não me autoriza a divulgar seu nome, guardado com muito carinho na gratidão de Clementina. Ele ganhou um festival com Paulinho da Viola e Elton Medeiros e reverteu os dois prêmios no pagamento de contribuições que permitiu a Mãe Quelé usufruir de uma aposentadoria que, embora magra e incompatível com sua importância, para alguma coisa lhe servia.

Mais recentemente, fui procurado pelo Marcus Villaça, presidente da LBA. A exemplo do que a instituição fizera com Henriete Morineau, entendia que Clementina era merecedora de igual apoio. Apenas ressaltei: que essa ajuda financeira ensejasse também um trabalho cultural. Sugeri que uma equipe de jovens pesquisadores fosse contratada para levantar a incompleta biografia de Clementina. Tive o cuidado, tão logo a conheci, de gravar seu depoimento, levantar de forma ametodológica (já que não sou um pesquisador) um pouco de sua grande vida. Mas era um trabalho que exigia um fôlego que a mim faltava. Um posterior depoimento ao Museu da Imagem e do Som complementou em parte o trabalho que fiz. Mas se fazia necessário levar Quelé até Valença, resgatar sua história, saber sua verdadeira idade, fazer uma pesquisa de campo detalhada. Esse trabalho, e Villaça assinou convênio com a Funarte, ganharia seu natural escoamento: um livro de cunho didático-cultural que a LBA editaria, para ensinar o Brasil aos brasileiros, como sempre recomendou Mario de Andrade.

João da Baiana, Pixinguinha, Donga e Clementina de Jesus

O acervo discográfico de Clementina é pequeno diante do seu universo, que é absolutamente incomensurável. Jongos, corimas, lundus, cantos de reisado e de folias, batucadas, partido-alto, rezas - tudo que aprendera com a mãe, que por sua vez herdara cantorias que vinham passando de geração em geração, o que me permitiu recompor uma acervo que fatalmente se perderia se parte dele não tivesse sido registrada fonograficamente. A Miton Miranda, ex-diretor da Odeon, deve-se o convite para registro dos LPs do Rosa de Ouro (1965), do primeiro LP individual de Clementina (também editado na França pela Pathé Marconi) e dos outros que produzi: o Fala Mangueira, ela e Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça e Odete Amaral; o Gente da Antiga, Quelé ao lado de Pixinguinha e João da Baiana; o Mudando de Conversa, gravado ao vivo com Ciro Monteiro e Nora Ney, e alguns mais que deveriam estar em catálogo. Participações especiais fez inúmeras em discos de outros artistas, como Milton Nascimento. Existe ainda um LP gravado para o Museu da Imagem e do Som de grande valor histórico. A má qualidade técnica do disco poderia, agora, ser atenuada pelos modernos sistemas da indústria fonográfica - essa que tão prosaica quanto descriteriosamente utiliza o slogan "disco é cultura". É uma impostura que dá margem à próspera fabricação de mitos descartáveis, ensejando a boa parte das gravadoras nacionais e multinacionais desovarem um lixo que em tudo desserve a nossa cultura, desamparada também por um Código de Telecomunicações que beneficia o culto ao inútil e desampara uma produção cultural ainda perseguida por artistas dignos que não se vergaram às conveniências mercadológicas de gravadoras que, como relatei no início deste artigo, humilharam Clementina no final de sua vida. É claro que toda essa impostura é mascarada quando a desgraça cai sobre um mito igual a Quelé ou tantos outros artistas que recentemente abasteceram o noticiário da imprensa. Entidades pseudamente representantes dos artistas logo se apressam a custear funerais, enviar coroas e até eventualmente pagar custos hospitalares, se a contrapartida promocional for interessante.

Dessa novela já sei o enredo. Lembro aos desmemoriados que Pixinguinha morreu na pobreza, com um baú entulhado de obras geniais condenadas ao ineditismo. Em seus últimos dez anos de vida só entrou nos estúdios graças a essa obsessão que até hoje me acompanha e a doce cumplicidade que felizmente ainda encontrei em pessoas sensíveis à genialidade do Santo. Meu trabalho na área cultural não é mais amplo exatamente por força de um sistema mafioso que trata o disco didático-cultural com absoluto desprezo, obstruindo quase todos os caminhos alternativos que tento percorrer. A própria televisão que faço já esteve sob patrulhamento estético, claro sinônimo de censura. Clementina é um exemplo vivo dessa ótica vesga e preconceituosa, que a tratava apenas como a preta velha alforriada pelos brancos bondosos que a encarceram numa senzala menos desconfortável. Não contarei aqui os absurdos que ouvi de pessoas incapacitadas até para a guarda de uma mictório público, mas que militam na área cultural em postos graduados.

Tudo que teria a dizer sobre Clementina de Jesus já despejei no recital que em 7/dez/64 a revelou para o público no show Rosa de Ouro, que em 1965 a consagrou, e nos discos que para ela produzi. Resumindo: ela é meu melhor poema, meu melhor livro, minha melhor letra de música. Tudo que fiz na vida tem significado inferior a sua descoberta. A milionésima parte que sempre desejei ser de Mario de Andrade acho que consegui no dia em que a conheci na Taberna da Glória, em 1963.

Clementina de Jesus é símbolo dessa cultura multifacetada em etnias e credos, baobá que a todos nos protege com a estranha divindade que a fez resistir ao processo liquidificador que insiste em atomizar figuras que, iguais a ela, nos ensinaram o significado de, além da pátria, sermos sobretudo uma nação.

Acho que o reconhecimento dos seus méritos por toda comunidade artística responsável do Brasil é também um atestado mais do que eloquente de sua arte transcendental. Para mim ela se iguala em importância a Villa-Lobos, Carlos Drummond de Andrade, Oscar Niemeyer, Mario de Andrade, Portinari. O crítico Ary Vasconcellos tem sobre ela um pensamento que reproduzo, e que me parece simplesmente definitivo:

"A descoberta de Clementina de Jesus teve para a música brasileira uma importância que presumo corresponder, na antropologia, à do achado de um elo perdido. Estávamos em meados da década de sessenta, já bem distante de nossas raízes africanas. A escola de canto que prevalecia era a europeia, principalmente a italiana: nossos cantores e cantoras apresentavam-se com a voz polida, seja por estudos técnicos, que os transformavam em autênticos tenores (líricos ou dramáticos), barítonos, sopranos, etc..., seja por uma colocação mais espontânea, mas sempre refinada, civilizada. Predominava sempre a voz, senão forte e imponente, pelo menos bonita, isto

Revista Amiga, 05 de agosto de 1987

 


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Enfim, imagens raríssimas de Cacilda Becker na TV

Cacida, Homero Kossac, Mauro Mendonça, Fabio Junior

É praticamente sinônimo da profissão atriz o nome de Cacilda Becker. E nome ligado ao teatro, são pouquíssimas as imagens de Cacilda - a principal é Floradas na Serra, filme de 1954. Pois bem: a TV Bandeirantes "descobriu" em seus acervos 60 horas de gravações da atriz e ontem, na esteira do centenário de Cacilda, em 6 de abril, exibiu - infelizmente sem muito alarde - Breve Encontro, no Arte 1, canal pago do grupo Bandeirantes. 

Breve Encontro foi uma das edições do Teleteatro, programa que Cacilda comandava na emissora, gravado e exibido entre março e setembro de 1968 e que acabou com ela dispensada da emissora (e por carta) por interferência da censura. A implicância não era com os textos - clássicos da dramaturgia - mas com Cacilda, com a atuação política dela. Os programas eram para "maiores de 18 anos" e exibidos pelas onze da noite. "Mas o que se pode esperar de uma censura que proíbe Casa de Bonecas, de Ibsen, alegando que a mesma tratava de pederastia, tomando como base o título?", disse ela em matéria publicada pela Folha em 14 de setembro de 1968.

Nessa época, o videotape havia chegado há poucos anos, as novelas ainda investiam em textos estrangeiros adaptados. Logo começaria a virada rumo á modernização com Beto Rockfeller, na TV Tupi, que estreou em novembro de 1968. A Globo só investiria em tramas mais atuais no ano seguinte, com Véu de Noiva, de Janete Clair, que em junho de 1969 substitui a "capa e espada" Rosa Rebelde, também de Janete. E falando em novelas, Cacilda só participou de Ciúme (1966), das qual só existem raríssimas fotos. 

Breve Encontro é adaptação de Still Life, peça de Noel Coward sobre dois amantes ali perto dos 40 anos, ambos casados, com o peso e a culpa daquela relação, que teve pelo menos duas adaptações famosa no cinema. A primeira foi Desencanto (Brief Encounter), pelo então jovem David Lean em 1945, com Celia Johnson e Trevor Howard. Mais de 40 anos depois, em 1984, a história foi revivida em A Difícil Arte de Amar (Falling in Love), de Ulu Grosbard, com Meryl Streep e Robert De Niro. Há também o telefilme, Ligações Proibidas (Brief Encounter), de 1974, estrelado por Sophia Loren e Richard Burton. 

É uma bela (e moderna, atual) atuação de Cacilda, então com 47 anos (a personagem tem 38), e foi um prazer assistí-la por uma hora e meia. No elenco, Homero Kossac (o amante), Mauro Mendonça (o marido), Elizabeth Hartman (a amiga faladeira) e Fabio Junior, que tinha então 14 anos, em uma cena apenas, como filho de Cacilda. 

Cacilda Becker em Breve Encontro

A Bandeirantes está digitalizando o "acervo" de Cacilda e promete exibir as 60 horas de gravação. O Teleteatro de Cacilda Becker na Bandeirantes era dirigido por Walter George Durst (1922-1997), que assinou a adaptação de Gabriela com Sonia Braga, por exemplo. Na equipe também Ody Fraga (1927-1987), que se transformaria num dos diretores mais interessantes e criativos das pornochanchadas da Boca do Lixo. 

No livro Fúria Santa, a excelente bio de Cacilda escrita por Luis André do Prado e publicada em 2002, há uma relação das peças gravadas pelo programa e com avaliações de Durst. E com a observação: "os originais permanecem preservados no acervo da emissora". Só faltava dizer que à espera de restauração, o que só ocorreu agora. Abaixo a lista: 

A Grande Mentira (**); 39 Degraus (*), A República dos Cinco (Cacilda não atua); A Vaidosa (***), A Despedida de Solteiro (Cacilda não atua); Inês de Castro (***), Breve Encontro (***); Casa de Bonecas (**); Anastácia (-); Sempre Carmem (**), Vitória Amarga (**); Nunca é Tarde (-).             Avaliação: * = Fraco; ** = Bom; *** = Ótimo

domingo, 3 de janeiro de 2021

Como Ano passado eu morri se apossou de Emicida

 

Do filme AmarElo

Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro: os versos de Belchior reviveram desde que Emicida os sampleou na faixa título de AmarElo, lançado em 2019. Mas o que levou Emicida a atentar pros versos de Sujeito de Sorte, a quarta faixa do lado A de Alucinação, disco de Belchior de 1976? Matéria hoje em O Globo sugere a canção pra hino 2021, mas não revela como aqueles versos finais se apossaram de Emicida.

Verônica Valentino na Casa de Criadores
No filmaço AmarElo, ele conta. Era 2017, ele foi a um desfile da Casa de Criadores, evento paulistano destinado a lançar novos estilistas, e ficou impressionado com uma performance no desfile de Gustavo Carvalho. "Ele pegou uma menina trans cantando pra caralho. ela veio andando na passarela sozinha cantando essa letra. Parava e olhava pra todo mundo e repetia isso." Era Verônica Valentino quem cantava "pra caralho". A performance bateu de um tal jeito em Emicida que ele foi pra casa, começou a escutar Belchior e pensando: "Como que eu nunca percebi isso?".

Era o embrião para que o sampler com os versos Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro embalassem a gravação de Amarelo, que ele divide com Majur e Pabllo Vittar.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Véspera e dia de Natal de 1958 por Carolina Maria de Jesus


 24 de dezembro

Hoje estou com sorte. Tem muitos papéis na rua. (...) As 5 horas comecei vestir-me para eu ir no Centro Espírita Divino Mestre receber os donativos natalinos. Preparei os filhos e saí. (...) Eu ouvi vozes:
- Estão dando cartões!
Corri para ver. Vi os favelados rodeando um carro. E o povo correndo para ganhar cartões. No carro estava apenas o motorista. E o povo pedia:
- Dá um para mim. Dá um para mim!
O motorista dizia:
- Vocês sujam o carro!
Perguntei-lhe:
- O que é que o senhor está distribuindo?
- Eu vim aqui para trazer um homem. Nem sei o que este povo está pedindo.
- É que na época de Natal, quando vem um automóvel aqui, eles pensam que vieram dar presentes.
- Nunca mais hei de vir aqui no Natal - disse o motorista nos olhando com repugnância.
Havia tantas pessoas ao redor do automóvel que não pude anotar a placa.

...No Centro Espírita a fila já estava enorme quando nós chegamos. (...) Os 10 filhos de uma nortista estavam pedindo pão. A Dona Maria Preta deu 15 cruzeiros para ela. Ela foi comprar pão.
O Senhor Pinheiro, digníssimo presidente do Centro Espírita, saiu para conversar com os indigentes. (...) Passou um senhor, parou e nos olhou. E disse perceptível:

- Será que este povo é deste mundo?
Eu achei graça e respondi:
- Nós somos feios e mal vestidos, mas somos deste mundo.

Passei a olhar naquele povo para ver se apresentava aspecto humano ou aspecto de fantasma. O homem seguiu sorrindo. E eu fiquei analisando. Quando penetramos para receber os premios, o meu era número 90. Eu e os demais ganhamos presentes e generos:  roupa, chá mate, batatas, arroz e feijão. O Senhor Pinheiro convidou-me para eu ir ao Centro.

Era 9 e meia quando nós chegamos no ponto do bonde e fomos ver um presepio que fizeram na garagem que está vaga. Havia uma placa onde se lia: Entrada gratis. Mas no presépio tinha uma bandeja com cédulas de 1 a 100. Quando saí elogiei o presepio. Unica coisa que eu posso fazer.
Quando cheguei na favela encontrei a porta aberta. O luar está maravilhoso.

25 de dezembro

O João entrou dizendo que estava com dor de barriga. Percebi que foi por ele ter comido melancia deturpada. Hoje jogaram um caminhão de melancia perto do rio.

Não sei porque é que esses comerciantes inconscientes vem jogar seus produtos deteriorados aqui perto da favela, para as crianças ver e comer

Na minha opinião os atacadistas de São Paulo estão se divertindo com o povo igual os Cesar quando torturava os cristãos. Só que o Cesar da atualidade supera o Cesar do passado. Os outros era perseguido pela fé. E nós, pela fome!
Naquela época, os que não queriam morrer deixavam de amar a Cristo.
Mas nós não podemos deixar de comer.

          Do livro Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada, de Carolina Maria de Jesus


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Torturas de Natal por Caio Fernando Abreu

 

Natal de 1956: Os irmãos Cláudio e Caio (o mais alto) 

                                               Torturas de Natal

Cada vez que olho esta fotografia tenho uma espécie de susto, e penso obviedades do tipo: "Meu Deus, o tempo existe!". Tirada no Natal de 1956, ela tem – cruzes! – 34 anos.

Todo Natal, era sagrado, minha mãe emperiquitava a mim e a meu irmão Cláudio com modelinhos de linho branco e odiosas meias soquete, com elásticos eternamente frouxos, que acabavam escorregando patéticos pelas canelas finas – e chamava o fotógrafo. Não era nada simples chamar um fotógrafo naquele tempo, ainda mais o "Seo Fininho".

"Seo Fininho" era magro como um aspargo, branco como a polpa das peras que começavam a amadurecer no quintal. Além disso, tinha a alma delicada e era o único fotógrafo de Santiago do Boqueirão. Tão requisitado que, dizem, às vezes era chamado até para fazer fotos na Argentina, do outro lado do rio Uruguai. Por isso mesmo, era preciso chamá-lo às três da tarde para que aparecesse lá pelas cinco ou seis. Durante todo esse tempo, interminável para Gremlins de sete, oito anos de idade como nós – eu e Cláudio ficávamos enfatiotados e absolutamente proibidos de tocar nos brinquedos colocados ao pé da árvore. Era horrível. Sim, porque no 25 de dezembro à tarde simplesmente toda a molecada estava deitando e rolando pelas ruas da cidade com os brinquedos ganhos na véspera. E nós ali, presos naquelas armaduras de linho branco, com golas abotoadas até o pescoço.

Embora – ou por isso mesmo – tivesse apenas sete ou oito anos de idade, eu já era capaz de ódios profundos. O suor escorria por baixo do paletó (a gente dizia trajo), as meias escorregavam canelas abaixo e o ódio pelo pobre "Seo Fininho" fervia n'alma, assim mesmo com apóstrofe. Só que, fazer malcriação, nem pensar: éramos filhos de Dona Nair, a primeira das dez mais elegantes da cidade, do seu Zaél, orador oficial do Clube União Santiaguense e, como se não bastasse, netos do ex-prefeito Manuel Abreu e de Dona Zaira, diretora do Grupo Escolar Apolinário Alegre, leitora voraz de Machado de Assis. Ou seja, para nossa desgraça, tínhamos que ser finíssimos, exemplo de educação, elegância e bom-comportamento para toda a cidade. Não entendo como, mas ninguém suspeitava de nossa bandidagem, capaz de loucuras como soltar uma galinha do mezanino no Cine Imperial, em pleno suspense do seriado na matinê de domingo. O mocinho amarrado nos trilhos do trem e aquele cá-cá-cá de penas voando em todas as direções, enquanto nosso primo Beto gritava "Fogo! Fogo!'.

Nesse Natal – e olhando a foto, percebo que a árvore não era dessas de plástico de hoje, mas de pinheiro autêntico –, quando "Seo Fininho" chegou, nem eu nem Cláudio aguentávamos mais esperar. Hirtos, obedecendo às ordens de "olha o passarinho! agora, sem se mexer! não pisca, guri!” o jeito que encontrei de expressar o mau- humor foi arregalar os olhos. Meu irmão deixou cair os ombros de tanto rir. Tarde demais: "Seo Fininho" já tinha nos gravado para a posteridade.

Fico olhando os brinquedos a nossos pés. Engraçado, não lembro de quase nada, à exceção do carrinho de madeira com que transportei muita terra, fazendo cidades de areia no fundo do quintal e bonecos de barro que rachavam irremediavelmente quando colocados ao sol para secar. Na verdade, eu nem ligava muito para brinquedos. Já andava escrevendo algumas histórias, lendo Érico Veríssimo escondido, e tenho certeza que lembrava ainda do acontecido impressionante de dois anos antes. Foi no dia em que Getúlio Vargas suicidou-se, e eu perguntei a vovó, que chorava sem parar: "Vovó, o que é mesmo um presidente?" Ela respondeu: "É assim como uma espécie de pai de todo mundo”.  Até hoje, fiquei com isso na cabeça. A sensação de traição, naturalmente, tem sido medonha nos últimos 36 anos...

Mas, por trás das desilusões políticas, ficaram as fotos dos Natais, o presépio com casinha de papel, os galhos verdadeiros dos pinheiros, a certeza de que, naquela tarde, havia sol lá fora, e uma pergunta inquietante: o que será que a vida fez com o pobre do "Seo Fininho"?
                                                             
                                            Revista AZ – dezembro de 1990

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Três natais por Lucio Cardoso

A Noite - Rio, 23 de dezembro de 1952

O NATAL DE CADA UM

Acabo de vir do Recife, e lá, como aqui, encontro expostos nas casas de comércio, nas ruas e nas fisionomias dos transeuntes, os primórdios do Natal. Evidentemente trata-se de um Natal particular para cada um, e o Norte, com seus aspectos característicos, participa um pouco de vários natais diferentes: é o típico, da cidade com seus anúncios de Papai Noel recortado em cartão e colado na "marquise" das grandes casas comerciais, com árvores cobertas de neve de algodão e frutas estrangeiras, é claro, a preços astronômicos - é o Natal do próprio Recife, um pouco aglomerado para as bancas do Mercado, com frutas do próprio Norte, isto é, cajus, mangas, abacaxis e graviolas, com suas sandálias de couro, seus cantadores de feiras e, mais do que isto, nas estradas cobertas de pó e iluminadas por uma luz incerta de candieiro a querosene, os mamelungos e os reisados, as pastorinhas, e mil outros pequenos costumes que emprestam tanta vida ao folclore nordestino. Tudo isto, misturado, faz um pouco os primórdios do Natal que se aproxima - e cumpre dizer que me pareceu o mais natural, e mais autêntico, aquele em que as pastorinhas se dividem numa hipotética batalha do vermelho e do azul (eu sou azul) e cantam e dançam de um modo tão ingênuo, rodeando um anjo cor de rosa, e todas com estrelas de prata que chacoalham nas mãos. Este Natal é sem dúvida o mais belo, pois não há nele o vil interesse de comércio, nem Mercúrio se mistura aos festejos do Menino-Deus - mas cumpre lembrar que é também o Natal de uma gente triste e angustiada, que se encolhe à beira de estradas poeirentas, há muito não visitadas pelas chuvas, e que levantam um canto triste, dolorido, em homenagem a uma entidade divina que há muito parece tê-los esquecidos, e que eles teimam em lembrar, à sombra dos seus mocambos miseráveis, e onde cresce o Brasil mais triste e mais anônimo que já vi em minha vida..
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Isto evidentemente me faz lembrar o Natal de minha terra, que é num outro quadrado do mapa, em Minas Gerais. Meu Deus do céu, como o Brasil é grande. Também os Natais se misturam em Minas, e com as fachadas adornadas comercialmente, há um cheiro bom de jambo e de presépio, que compõe o Natal do menino que todos nós fomos.

Lembro-me bem: durante dias e dias preparávamos o presépio, com suas enormes serras de papelão cobertas de carvão, areia e malacacheta, e que cintilavam tão bem ao sol, imitando a vasta cordilheira azul da Piedade... E havia antes os passeios pela serra, à procura de musgo e plantas que adornassem de cores vivas a homenagem - coroas de frades e brincos da rainha - ah, como tudo isto se acha presente à minha memória, com suas areias escolhidas no fundo do rio, o arroz plantado dias e dias antes, e que agora cresce verde e fino sobre velhas latas de goiabada, e jambos, e mangas, e barbas de boi pendurados em todos os cantos, com a grande estrela anunciadora brilhando num lance mais agudo da serra, muito ao longe, os reis magos que se aproximam, que se aproximam, e que demorarão até fevereiro para se colocarem, definitivamente, à entrada da gruta onde as imagens celestes contemplam o divino menino que acaba de nascer...
Este era o meu Natal, e havia ainda maçãs e nozes, e os doces da grande noite, enquanto, desde cedo, conduzidos por mãos ansiosas, os sapatos descansavam atrás das portas, à espera do grande milagre, da mais bela das farsas, a que faria amanhecê-los cobertos de presentes, como se realmente o mundo fosse uma seara de milagres, e as estrelas caminhassem, e os reis chegassem de longe, e a poesia, finalmente, fosse possível num mundo sem maldade.
Mas isto são coisas de antigamente, que já não existem mais.
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Existe ainda um outro Natal, e este é o nosso, o Natal dos tempos que correm, o Natal no Rio. Pouca coisa da tradição, muito pouca de poesia, nem pastorinhas nem reisados, nem presépios, nem milagres. O Natal que vivemos é duro, feito de aço, um natal da era atômica. As casas comerciais gritam e se iluminam, as vitrinas transbordam de presentes e objetos raros. Mas há uma tristeza nos olhares e esta gente que compra apressada, quase furtivamente, traz uma melancolia expressa no olhar, e procura, e reprocura, nas vitrinas e nos balcões, não à cata do melhor, mais do mais barato, do pior. É a triste gente de hoje que vive em luta contra o quotidiano sem horizontes, tendo o abono como limite, a esperança, um pouco massacrada, como alimento de todos os dias, e um desejo de chegar depressa, de acabar qualquer coisa e de passar, como imagina que os outros passem, um Natal sem alegria e sem tradição.
É um Natal sem caráter, o Natal do carioca. Também, coitado, criaram para ele o mais cético dos apelidos: Barnabé. Consola-nos saber que é hoje o mais autênticos dos Natais dos brasileiros, pois a verdade é que nos convertemos numa vasta República de Barnabés. Seria esta a definição ideal de barnabé: um homem sem tradição, um homem sem Natal. Não há para ele senão o postulado da pressa e da discussão sobre o aumento - e consola-se sem dúvida, durante o seu sono, em recordar que houve Natal antigamente, e que decerto não mudou, como sugeriu o escritor, mas que rosnou* para longe, para muito distante, onde os homens são menos utilitaristas desta estranha* e vaga que se chama infância, e sem a qual a vida nada é mais senão um jogo atroz de carências e mortes repisadas.

* palavras meio que adivinhadas e praticamente inelegíveis)

Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...