sábado, 5 de novembro de 2016

O encontro de Rita Lee, Bill & Hilary Clinton, FHC & Ruth e Sonia Braga

Saiu o livro da filósofa que começou a me dar toques quando ainda era eu um quase adolescente bobinho de tudo. Filósofa sim, Rita Lee é minha filósofa. Sedento, mergulhei nas 269 páginas e me deliciei com as histórias de Rita, num tom sincero, confessional e debochado. No início estranhei, esperava algo no estilo memorialista da Patti Smith, juntando vida e literatura. O livro de Rita é estilo papo reto, uma conversa dela com o leitor. Adoro quando ela não dá nome às criaturas que a sacanearam (uma empresária do Tutti Frutti vira “governanta” - não nomear é sinal de puro desprezo). São histórias deliciosas e muitas também pesadas que, como disse a Búlgara a vida é assim... dura. Essa abaixo junta Bill Clinton & Hilary, FHC & Ruth, Rita & Roberto, Sonia Braga. Li várias matérias sobre o livro e nenhuma falava desse encontro no Alvorada. Tá aqui
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Casa Branca. 1995

Quando o casal Bill & Hilary Clinton veio dar umas bandas por aqui, o casal Fernando Henrique & Ruth organizou um jantar no Alvorada, convidaram poucos plebeus, entre eles, Sonia Braga e o casal Lee & Carvalho. Protocolos, lugar certo nas mesas, clima simpático, comida bacana etc. Num dado momento, Sonia e eu resolvemos ir ao toalete fofocar. Ela fumou um Marlboro e eu um baseadinho. Fumar cannabis em banheiros presidenciais é meio clichê, mas foi irresistível usar o lugar mais seguro do país para sair da lei. Enquanto Sonia retocava o batom, entre gargalhadas, me contou ter a impressão de que Bill estava flertando com ela. Talvez tivesse abusado do vinho, mas, segundo a própria, olhares sedutores se cruzaram mais de uma vez. Antes de sairmos do banheiro presidencial, eu ainda roubei o lenço de papel onde Sonia carimbou o bocão tirando o excesso de batom. Que eu saiba, no Alvorada, não tem um Oval Office, pois não?

(Rita Lee – Uma Autobiografia, pg 254)

sábado, 6 de agosto de 2016

A História das Canções: Chega de Saudade, por Vinicius de Moraes

É simplesmente a canção que detonou a bossa nova e depois dela nada foi como antes na música brasileira. Aqui, quem conta o parto em parceria com Tom Jobim é Vinicius de Moraes em uma coluna - imagina o título? Bossa Nova, claro -  que ele assinou por pouco tempo no jornal Diário Carioca, ali por 1965. É uma maravilha acompanhá-lo a compor os versos famosos ("acho que em toda minha vida de letrista nunca levei uma surra assim"). Na foto abaixo, os parceiros em 1959, três anos depois do nascimento de Chega de Saudade. E depois da foto, tudo foi escrito por Vinicius de Moraes.

Fotos de Paulo Namorado - Revista O Cruzeiro, 1959

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Nesse mesmo ano de 1956, Tom, depois de preparada a partitura da minha peça Orfeu da Conceição,  resolveu descansar em Poço Fundo, lá pelos lados de Itaipava onde seu pai tem um sítio. Quatro sambas (os nossos primeiros), haviam saído dessa safra, todos para o Orfeu: Se Todos Fossem Iguais a Você, Lamento no Morro, Mulher, Sempre Mulher e Um Nome de Mulher. Minha valsa Eurídice seria usada como o tema da mulher amada. Tudo andava sobre rodinhas e eu, uma vez escolhido o diretor e os atores, achei-me no direito de ter uma angina de garganta, que me bateu na cama.

Foi no meio dessa angina que Tom, de volta da montanha, chegou à minha casa na rua Henrique Drummond, sentou-se ao meu lado, e depois de um papo manso, pegou meu violão e pôs-se a tocar um sambinha que logo me alertou o ouvido.
- Você gosta? – perguntou-me ele ao terminar.
- Faz de novo.

Tom repetiu-o umas dez vezes. Era uma graça total, com um tecido melancólico e plangente; e bastante “chorinho lento” no seu espírito. Eu fiquei de saída com a melodia no ouvido, e vivia a cantarolá-la dentro de casa, à espera de uma deixa para a poesia. Aquilo sim, me parecia uma música realmente nova, original: inteiramente diversa de tudo que viera antes dela, mas tão brasileira quanto qualquer choro de Pixinguinha ou samba de Cartola. Um samba todo em voltas, onde cada compasso era uma queixa de amor, cada nota uma saudade de alguém longe.

Mas a letra não vinha. De vez em quando eu me sentava à minha mesa, diante da janela que dava para o Contry (hoje a casa foi, é claro, transformada em mais um prédio de apartamentos...) e tentava. Mas o negócio não vinha. Acho que em toda minha vida de letrista nunca levei uma surra assim. Fiz dez, vinte tentativas. Houve uma ocasião em que dei o samba como pronto, à exceção dos dois versos finais da 1ª parte, que eu sabia quais eram, mas que não havia maneira de encaixarem na música, numa relação de sílaba com sílaba. Eu já estava ficando furioso, pois Tom embora não me telefonasse reclamando nada, estava esperando pelo resultado.

Uma manhã, depois da praia, subitamente a resolução chegou. Fiquei tão contente que cheguei a dar um berro de alegria, para grande susto de minhas duas filhinhas. Cantei e recantei o samba, prestando atenção a cada detalhe, a cor das palavras em correspondência à da música, à acentuação das tônicas, aos problemas de respiração dentro dos versos, a tudo. Queria depois dos sambas do Orfeu apresentar ao meu parceiro uma letra digna de sua nova música: pois eu realmente a sentia nova, caminhando numa direção a que não saberia dar nome ainda, mas cujo nome já estava implícito na criação. Era realmente a bossa nova que nascia, a pedir apenas, na sua interpretação, a divisão que João Gilberto descobriria logo depois.


Entitulei-o Chega de Saudade recorrendo a um dos seus versos. Telefonei para Tom e dei um pulo a seu apartamento. O jovem maestro sentou-se ao piano e eu cantei-lhe o samba duas ou três vezes, sem que ele dissesse nada. Depois, vi-o pegar o papel, colocá-lo sobre o piano e cantá-lo ele próprio. E em breve chamar sua mulher em tom vibrante:
- Teresa!  



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sábado, 18 de junho de 2016

A mulher mais importante da música brasileira completa 74 anos

Era o primeiro dia de fevereiro de 1965 e o fotógrafo Joel Maia, do Última Hora, foi fotografar a novata chegada da Bahia. Ela substituiria Nara Leão em Opinião, o show que arrebatava multidões naqueles primeiros meses pós-ditadura. 

Eu sou Maria Bethânia, a matéria assinada por Jonas Vieira, saiu na quinta, dia 11, com duas fotos (abaixo) e o subtítulo "Era meia-esquerda do time de Santo Amaro da Purificação. No Arquivo Público do Estado de São Paulo, existem mais sete fotos deste encontro dela com o fotógrafo, antes da estreia. Abaixo as fotos e entre elas, a matéria. Tudo em homenagem aos 74 anos de Maria Bethânia. Ela me mostrou outros mundos, apresentou Clarice, Pessoa... Ela merece.
PS: Postei quando Bethânia festejou 70 anos e hoje, no dia dos 74 dela, atualizei a idade.




 Meu nome é Maria Bethânia Viana Teles Veloso. Tenho esse nome de latifundiária baiana, mas sou baiana só. Com 18 anos, não consigo sair do ginásio por causa da matemática. Sou filha de um bom sujeito, funcionário do Correio, eu e mais oito irmãos... oito ou nove... Agora sou cantora, mas até os 12 anos eu era meia-esquerda do time de Santo Amaro da Purificação, onde nasci.
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Meu pessoal é alguém

Olhando-se para Maria Bethânia, 1 metro e 65 de altura, 49 quilos, uma voz forte e rouca, ninguém é capaz de identificá-la com uma cantora, muito menos a ponto de substituir um cartaz como Nara Leão, exibindo-se para uma plateia exigente como a carioca. Ela explica tudo isso, calmamente, com um sorriso alegre de menina-moça, que pouco se impressiona como cartaz:
“Não tenho pretensões a coisa alguma. Na Bahia tenho o que quero. Meu grupo, minha música, meu pessoal e uma certa pessoa... Não quero ir ao exterior, não penso em morar no Rio, assim que terminar meu compromisso aqui, volto correndo. Estão querendo que eu grave um LP (para a Equipe). Voltarei, mas só para gravar um LP.”
E essa pessoa, esse alguém, Maria Bethânia? Quem é? Gente muito importante. Ela ri: “pois veja como são as coisas, deixo o Rio correndo para rever um carioca, na Bahia. Não é engraçado?  Mas não é compromisso, hein! Vê lá o que vai escrever.”



Noel, sempre Noel


Maria Bethânia elogia Nara, que cantou para o seu grupo, em Salvador, quando por lá passou certa vez. Mas faz questão de dizer do encanto que lhe traz a música de Noel Rosa:
“Gosto da música moderna, que se torna cada vez mais apurada. Lá na Bahia, estamos tentando fazer música cada vez mais moderna. Mas nas horas de retraimento, Noel, Caymmi, Ataulfo e Monsueto tomam o meu tempo. Eles me fazem sentir bem”, acrescenta Maria Bethânia, que já gravou a trilha do filme Moleques de Rua, é cartaz da TV baiana e fica toda sensibilizada porque foi convidada a participar de OPINIÃO: “É uma grande chance que eu não poderia perder. O show é uma maravilha e na minha terra não se fala em outra coisa.”



Espanto


Maria Bethânia diverte-se com as poses que os fotógrafos lhe pedem. Comentando o assédio das câmeras e objetivas, depois que chegou ao Rio, diz que nada a diverte tanto quanto um fotógrafo: “Eles me pedem cada uma. Imagine que ontem um deles queria me fotografar entrando no teatro com um ar de espanto. Eu fiz.”

  
Tem opinião

Ninguém ao primeiro relance pode dar valor a Maria Bethânia que, no entanto, agora, tem Opinião para prová-lo.



sábado, 30 de abril de 2016

De espantalhos em muitos tons de cinza

Datada de 18 de abril de 1989 - sim, 25 anos, meus deuses -, a carta amarelada retorna volta e meia às minhas mãos e olhos. Foi escrita por um amigo da cidade onde nasci, uma daquelas pessoas fundamentais em minha vida. Ele morreu faz muito tempo e essa carta é a lembrança que guardo e também um quadro, um dos espantalhos em muitos tons de cinza que costumava pintar. Entre notícias de amigos em comum, ele falava da situação política daquele final de década e de um homem sombrio que segue aí, firme, a atormentar governos progressistas. É meio o ovo da serpente. Eis o trecho:

“Esta semana resolvi incitar um pessoal para fazer umas pichações contra a UDR. Deu certo, os muros da cidade amanheceram pixados. Agora eu e outros camaradas, vamos fazer uns panfletos de fabricação caseira com dizeres do tipo:

“Ruralista garanta sua terra
empreste sua mulher pro Caiado”



Aqui as mulheres têm ataques , enlouquecem quando veem o Caiado. E os maridos só ficam olhando conformados. Afinal, é o Caiado. Um fiasco, gritam, se escabelam. Lembram até as histerias dos anos 60.”

P.S: Uma estilista, moça fashion, deu entrevista pra folha se revelando doida de amores por Moro e Cunha. E foi ela que me levou a essa carta, à juvenilia de Caiado.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Linha M: O mundo de Patti Smith numa bandeja de ilusões

Patti Smith e Fred Sonic Smith
"Não existiam cafés onde eu cresci, mas havia nos meus livros, e eles floresceram nos meus sonhos".

É Patti Smith logo no começo de Linha M, que tem uma frase insistente: "Não é tão fácil escrever sobre nada". E esse "nada" talvez venha da ausência de uma história explícita, como era o encantado Só Garotos. Aqui, Patti oferece seu "mundo numa bandeja de ilusões".

De café em café, o cotidiano, as séries policiais que adora, os livros e o passado vezemquando: o pai, a mãe, a infância, os anos felizes com Fred Sonic Smith (o marido que morreu). "Será que o leitor me conhece? Será que o leitor deseja isso?". Quem deseja vai se deliciar.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Os amigos Harper Lee e Truman Capote: O futuro imaginado não chegou

Truman Capote e Harper Lee em 1966
Só em janeiro li O Sol é Para Todos, um daqueles livros para se apaixonar e esquecer jamais. Harper Lee, a autora, morreu há uma semana, dia 19 de fevereiro. Cega, surda e debilitada, estava há vários anos num asilo de sua cidade natal, Monroeville (Alabama). Truman Capote também era de lá, foram amigos de infância e ele é um dos personagens de O Sol é Para Todos.

Em 1976, Paulo Francis entrevistou Capote para a revista Status: “Capote fala como bicha de anedota. Tem 1,55 m de altura e é balofo. Bebe sem parar.” No final da entrevista, Capote, que tinha 51 anos, imagina o fim de sua vida, bem velho. E Harper Lee estava junto, os dois morreriam rindo. A realidade fez que tudo fosse muito diferente (ele morreu perto de completar 60 anos, em 1984). Abaixo, fala Capote.

“Quando eu estiver bem velho, eu e minha amiga Harper Lee vamos montar casa numa cidadezinha do Sul. Não dou o nome, porque, se não, no dia seguinte Jackie Onassis estará lá, nos importunando, ou, mais horrível, Sammy Davis Jr. se oferecendo como servente.
Harper e eu vamos pescar, comer e beber bem e contar às crianças do que escaparam ficando lá, quietinhas, não se metendo nesse mundo idiota. E, fatalmente, ao nos ouvirem, as crianças, comprarão passagens de trem para Nova York, ou o que restar da cidade, depois que Gerald Ford, Jimmy Cartet, Reagan ou outros energúmenos, terminarem de destruí-la. E nós riremos muito. Morreremos rindo.”

E aqui, a voz de Harper Lee em O Sol é Para Todos.

“Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isto pode acontecer.”

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Um conto natalino pouco conhecido de Jorge Amado


Graciliano Ramos e Mario de Andrade
Erico Verissimo
Fiquei maluco quando topei com uma edição de Natal da revista O Cruzeiro de 1939. Lá estavam contos de Graciliano Ramos, Mario de Andrade, Jorge Amado e Erico Verissimo. Atribulações de Papai Noel e Briga das Pastoras, os de Graciliano e Mario, frequentaram livros. Os de Jorge e Erico, duas joias, não e pareciam confinados lá à espera de leitores. Noite de Natal em Porto Alegre, o de Erico, foi publicado no domingo anterior ao Natal na Zero Hora, jornal de Porto Alegre (Aqui o link https://t.co/sOdPFCvvYS). Visita ao Presépio de Quinquina, o de Jorge Amado, é bem pouco conhecido. Enviei pra Josélia Aguiar que escreve uma biografia do autor baiano e ela confirmou isso. Jorge tinha 27 anos e fugindo da perseguição do Estado Novo de Getúlio Vargas refugiou-se em Estancia (Sergipe), que é o cenário do conto. E Quinquina, vinte anos depois, vira personagem de Gabriela – o presépio também. O Natal já passou, mas os presépios ainda não foram desmontados e ainda há tempo de visitar Estancia e o Presépio da Quinquina. Abaixo o conto. 



             Visita ao Presépio da Quinquina
                                                               
                                       Jorge Amado



Ora, quem sabe se um dia os fados não vos levarão a entrar num trenzinho da Leste Brasileira que, com um atraso médio de nove horas, vos deixará em Salgado, vila perdida de Sergipe? E quem sabe se esses fados não continuarão a brincar com o vosso destino fazendo com que aí embarqueis num auto ou num ônibus em direção à cidade de Estancia? Se assim for, abençoarei os fados, porque terão sido bons fados. Estância será para vós uma bela surpresa e se não estais com o coração de todo murcho amareis com certeza esta cidade lírica e jovial, cercados pelos rios e penetrada por um bosque. Vos sentireis românticos e poetas andando nas ruas largas de Estancia, olhando os velhos casarões de balcões floridos e vendo a boa gente que atravessa as ruas num passo sem pressa. Vossos olhos contemplarão velhas centenárias que sabem histórias de outros tempos, histórias de um sabor inesquecível, e verão também o maravilhoso espetáculo da noite de Estancia, bela sobre todas, noite na qual sobram as estrelas e o luar. Vereis a lua mais inspiradora e as mais brilhantes estrelas. Muita coisa mais vereis também se descerdes ao cais, onde as palmeiras e as canoas olham o mar distante e o rio próximo.

Mas se os fados de tão bons forem a fada da bondade e vos levaram a Estancia no Natal, então, ó viajante, cruzai a rua Capitão Salomão, penetrai no Parque Triste e, ao primeiro estanciano que encontrardes, perguntai onde fica a casa da minha prima Quinquina. Ele vos indicará com a gentileza que caracteriza o filho desta cidade. Marchai então para lá e marchai sem receio. Não é preciso sequer que digais o vosso nome. Na porta encontrareis uma das irmãs e basta anunciar que quereis ver o presépio. Antes com certeza vos farão entrar na sala de jantar onde pedirão que, entre diversos licores, decidais daquele que querereis beber. Será sem dúvida uma escolha difícil porque sobre a mesa encontrareis licor de jenipapo, talvez com mais de três anos de engarrafado, licor de mangoba que é tão fino como o mais fino licor francês, licor de banana que contém vitamina e muitos outros mais. Porém se quereis um bom conselho provai primeiro o licor de abacaxi. Ele é feito por Géo e duvido que sobre a face da terra, alguém saiba fazer um licor de abacaxi como a minha prima Géo. Ao meu ver é uma das glórias da família esse licor de abacaxi. Provai, porque depois provareis de todos os demais e, se não sois totalmente cretino, dareis estalos com a língua, estalos que porão rosadas de alegria as faces de Géo. Com certeza encontrareis doces e bolos também e vos aconselho que aceiteis porque por isso não só comereis de um prato gostoso como deixareis radiante de felicidade a minha prima Quinquina que faz os doces. E assim, de estômago satisfeito, elas vos levarão, humildes e se desculpando, a ver o presépio.

Antes era a sala de visitas. Essa sala de visitas que se abre exclusivamente nas grandes ocasiões, quando a visita é de muita importância. Agora ela desapareceu, o presépio domina tudo. Reparai bem que o presépio é uma multidão mas não é uma confusão. Ao primeiro momento pode vos parecer que as figuras recortadas do Tico-tico e pregadas sobre papelão estejam misturadas com os burros e os bois de barro que são vendidos nas feiras do nordeste. Que as estampas religiosas (Santa Rosa de Lima, que é a santa dos olhos e da luz, e São Benedito, que é preto) estejam profanamente próximos dessas estampas recortadas de revista mundana e que são homens e mulheres elegantes, todos nas ruas de areia e conchas que levam à manjedoura. Mas não há tal mistura se atentardes bem no presépio. Observareis que vários são os planos dessa cidade em miniatura que minha prima Quinquina constrói todos os anos na sua sala de visita. E os santos estão num plano mais alto, os burrinhos e os bois num plano mais baixo como num terceiro estão os homens e mulheres e o pastor com seu rebanho de carneiros brancos. São muitas as ruas também, rua calçada de areia que veio de Mangue Seco e nas quais as conchas brancas e cor de rosa semelham calhaós enormes. São as ruas de Bethlem, onde nasceu o Cristo. Vós não sabeis bem como eram as ruas de Bethlem, eu não o sei tão pouco. Só um velho historiador, desses que passam a vida sobre antigos papéis, poderia dizer como eram de fato as ruas da cidade que assistiu ao nascimento do Menino. Mas um historiador velho, dobrado sobre os documentos, é um homem que já perdeu toda a poesia da vida e a sua descrição seria seca e triste, desinteressante e por tudo isso falta de verdade. Porém minha prima Quinquina sabe perfeitamente como eram as ruas de Bethlem. Sabe que eram pobres porque foi principalmente para os pobres que o Cristo veio. Sabe que eram em vários planos, enladeiradas e cheias de calhaós porque a vida de Cristo não foi suave e ele amava as ladeiras e as montanhas. Sabe que havia cisternas porque o Cristo amava também a água, símbolo de toda a pureza. Sabe que os rebanhos andavam nas ruas porque sabe que o Cristo era toda bondade e amava igualmente aos animais. Sabe que havia uma confusão de gente, santos e pecadores, mendigos e elegantes, crianças e mulheres, porque Cristo amou a todos, sem distinção. Os demais perderam a visão da cidade de Bethlem, não sabem das suas ruas nem da gente que nelas estava, porque perderam a visão do Cristo ou a quiseram adaptar a si. Mas minha prima Quinquina sabe que o Cristo foi bom e foi bom para todos, sem distinção de classes e mesmo sem distinção sobre a virtude e o pecado. Sabe que o Cristo foi humano também e ela não esqueceu essa lição de humanidade. Ela não leu os teólogos, os tomistas, os neo-tomistas e guardou a visão perfeita do Cristo: a suma bondade, a suma humanidade. Por isso é essa multidão que parece confusão no meio das lâmpadas pequenas que iluminam a cidade e a manjedoura. Por isso vão bois de mistura com crianças, burros ao lado das mulheres e homens pecadores ao lado dos santos. E se caíssem uns livros ilustrados na mão da minha prima, ela não teria receio de por Voltaire, Nero, Robespierre, Marat e Calígula, todos os que foram e são na Terra inimigos do Cristo, porque sabe que o Menino os receberia com o mesmo olhar sereno, e como esses inimigos são muito diversos entre si, ele sorriria para aqueles que só combatem a caricatura que dele fizeram os homens e abrandaria com o olhar os que odeiam a sua verdadeira figura. E seu olhar suavizaria uns e outros corações.

Descansai os olhos na manjedoura onde o Menino dorme, cercado pela Virgem, por São José, os Reis e os animais. Não deveis vos importar se há desproporção entre as figuras, se o Menino é maior que todos porque em verdade o era e isso também minha prima Quinquina adivinhou porque na sua pobreza e na sua bondade ela sabe tudo que se refere ao Cristo, sobre todos bom e sobre todos pobre.

Viajantes cansados dos Natais das grandes cidades com presentes caros e champagne: ide a Estancia e no Parque Triste encontrareis o presépio de Quinquina. Bebereis licor, comereis bolo de aipim, conversareis com as velhas. E na sala de visitas encontrareis, pobre e nu, cercado, no entanto, de Reis, santos, homens, mulheres e animais, Cristo, o verdadeiro, o que perdoou Madalena, lavou os pés dos mendigos e pescou com os pescadores nas águas do Jordão.

                                             O Cruzeiro, 23 de dezembro de 1939



Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...