quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Aonde está a floresta espessa de escuridão?: Texto de um chefe indígena americano na metade do século 19


Amazônia em chamas e não me sai da cabeça este texto, que me veio via Maria Bethânia, sempre ela. Era parte do show Estranha Forma de Vida, de 1981. 

É o texto-carta de um chefe índigena americano que, há mais de 150 anos, “antevia toda a salada ecológica que o homem branco começava a preparar”, nas palavras de Fauzi Arap, que dirigiu o show de Bethânia. 

Abaixo o "texto-carta" do chefe indígena americano.



TEXTO DO ÍNDIO

Em 1854, há mais de 120 anos atrás, o presidente dos Estados Unidos fez uma oferta aos índios para a compra de uma grande extensão de suas terras, oferecendo em troca a concessão de uma outra reserva. A resposta do chefe índio, recentemente difundida pelas nações unidas, é considerada um dos mais belos pronunciamentos já feitos em defesa do meio ambiente.

"Como se pode comprar ou vender o firmamento? Essa ideia é desconhecida para nós. Se não somos donos da frescura do ar e do fulgor das águas, como poderão ser comprados? Cada porção dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada brilhante mata de pinheiros, cada grão de areia nas praias, cada gota de orvalho nos escuros bosques, cada colina e até o som de cada inseto, tudo é sagrado ao passado e à memória do meu povo. Os mortos do homem branco esquecem o seu país de origem quando empreendem seus passeios entre as estrelas. Os nossos mortos, no entanto, não podem nunca esquecer essa bondosa terra, pois que ela é a mãe dos pele-vermelhas. Somos parte da terra, assim como ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs, os escarpados penhascos, os úmidos prados, a grande águia, o calor do corpo do cavalo, o homem, todos pertencemos a mesma família.

Por tudo isso, quando o grande chefe de Washington nos envia mensagem de que deseja comprar nossas terras, ele nos está pedindo demasiado. Também nos diz o grande chefe que nos reservará um lugar onde possamos viver confortavelmente entre o nosso povo. Ele se converteria em nosso pai e nós em seus filhos. Por isso consideraremos a oferta para comprar nossas terras, mas se lhes vendermos a terra devem ensinar a seus filhos que são sagradas. Os rios são nossos irmãos e também são seus. Portanto devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. Mas isso talvez seja porque o índio é um selvagem e não compreende nada. Que o barulho somente parece insultar nossos ouvidos. Depois de que serve a vida se o homem não pode escutar o grito solitário do noite bó? O ar...O ar tem um valor inestimável para um pele-vermelha já que todos compartilham do mesmo alento, a besta, a árvore, o homem: todos respiramos o mesmo ar. 

O homem branco parece não ter consciência do ar que respira, como um moribundo que agoniza durante dias insensível ao fétido odor. Eu vi milhares de búfalos apodrecendo nos prados, mortos a tiros pelo homem branco de um trem em marcha. Eu sou um selvagem e não posso compreender como uma máquina fumegante pode importar mais que um búfalo que nós matamos apenas para sobreviver. O que seria do homem sem os animais? Se todos fossem exterminados o homem também morreria de uma grande solidão espiritual. Porque tudo que suceder aos animais também sucederá ao homem. Tudo está entrelaçado. O homem não teceu a trama da vida, ele é somente um rio. Tudo que ele fizer com a trama ele fará a si mesmo. Tudo está entrelaçado. Tudo que correr à terra ocorrerá aos filhos da terra. Contaminem os seus leitos e uma noite perecerão afogados em seus próprios resíduos. Aonde está a floresta espessa de escuridão? Onde a grande águia nos apareceu termina a vida e começa a sobrevivência." (E Bethânia emenda o texto com Rosa dos Ventos).

O SHOW

Há alguns anos o show Estranha Forma de Vida estava no Youtube, fui procurar agora e não encontrei - só esse trecho:


terça-feira, 13 de agosto de 2019

João Carlos Barroso: os primeiros passos de um ator coadjuvante


A primeira foto é de Homem, Besta e Virtude, peça de 1962

Leio na capa do site: "Morre João Carlos Barroso, de Roque Santeiro e Zorra Total".
 A matéria baseia-se em publicação das sobrinhas dele na internet e começa assim: "O veterano ator João Carlos Barros morreu ontem, aos 69 anos". Veterano? 69 anos? Conta que ele começou aos 11 anos num filme argentino. Que filme? Não revela.

João Carlos Barroso faz parte de minhas lembranças de menino noveleiro, sempre como coadjuvante, o amigo de alguém. Parto para uma busca rápida de seus primeiros passos na carreira. O filme argentino é de 1961, chama-se Pedro e Paulo. Como uma coisa leva a outra, no ano seguinte estava no palco em Homem, Besta e Virtude, de Pirandello, produção do Teatro dos Sete, o célebre grupo de Fernanda Montenegro, Sergio Brito e Ítalo Rossi, que estrelavam a peça, dirigida por Gianni Rato. Por "sua espontaneidade" no papel do pequeno Nonô, o menino ganhou elogios da crítica, prêmio de revelação teatral infantil de 1962 e matéria de jornal (ao lado). Vieram teleteatros: Teatro dos sete, Grande Teatro Tupi e Grande Teatro Infantil, dirigido por Fabio Sabag. Em 1965, aos 15 anos, estava em Rua da Matriz, na Globo, fazendo o filho da família, claro. No ano seguinte, na Excelsior, na "primeira telenovela juvenil", dizia o anúncio de jornal: A Ilha do Tesouro (à direita).

Estúpido Cupido
A transição do ator infantil não costuma ser fácil. A de João Carlos parece não ter fugido à regra. Nos arquivos digitais, o nome dele só volta a aparecer no começo dos anos 70, quando tinha uns 20 anos (nasceu em 28 de fevereiro de 1950) e no teatro - Tudo no Jardim, de Albee, com Maria Della Costa, em 1971 e Peru, vaudeville de Feydeau, um sucesso em 1972. Deve ter sido essa que o levou a TV como filho de Zeca Diabo (Lima Duarte) em O Bem Amado. E a partir daí, atua em várias das novelas mais conhecidas da Globo dos anos 70: Os Ossos do Barão, Pecado Capital, Estúpido Cupido, Locomotivas, O Pulo do Gato, Pecado Rasgado, Marrom Glacê, Chega Mais...



No final dos 70, como praticamente todos os atores da época estrelou uma pornochanchada: Nos Tempos da Vaselina, ao lado de Aldine Muller. Sim, era uma sátira "picante" a Nos Tempos da Brilhantina (Grease), o sucesso de então de John Travolta e Olivia Newton John. A busca poderia continuar, mas eu estava atrás mesmo dos primeiros passos do ator João Carlos Barroso, o rosto conhecido de minha meninice.







Abaixo, a primeira peça e o cartaz do primeiro filme de João Carlos Barroso, ainda menino
Revista Manchete, 1962



domingo, 4 de agosto de 2019

A tal "safra" de mulheres da MPB 1979

Denise Emmer, Angela Ro Ro, Fátima Guedes, Joana, Olivia Byington, Zizi Possi, Thereza Tinoco, Faffy
Era 1979 e uma "safra" de cantoras e compositoras novatas tomou de assalto a música brasileira. A mulherada fazia tanto barulho que gerou o especial Mulher 80, exibido na Globo, em 19 de outubro e que o tempo se encarregou de tornar clássico. Mulher 80 destacava cantoras consagradas, com raras novatas. A revista Manchete foi atrás e na edição de 24 de novembro dedicou 5 páginas à "safra" das que começavam a despontar.


A Hora e Vez das Mulheres era o título da reportagem que as mostrava quebrando tabus do mercado de disco, como "mulher não vende disco" e "mulher não compra disco de mulher". A revista contabilizava 22 nomes e deu destaque com breves perfis a 11: Denise Emmer, Olivia Byington, Elba Ramalho, Diana Pequeno, Joana, Thereza Tinoco, Zizi Possi, Marina Correa Lima, Fátima Guedes, Ângela Ro Ro e Faffy, na ordem em que são citadas.

Na página final, oito delas de mãos dadas em referência à clássica abertura do especial Mulher 80 (só Joana aparece no especial da Globo), Ro Ro faz participação especial com Marina) Abaixo a matéria inteira da Manchete, assinada por Lucia Leme e com fotos de Isabel Garcia. Ah, não foi capa da Manchete - era Alcione Mazzeo.





terça-feira, 30 de julho de 2019

Há 70 anos: Camus assiste Ruth de Souza com o Teatro Experimental do Negro

Com os colegas do TEN, Ruth de Souza conversa com Albert Camus: 26 de julho de 1949, Teatro Ginástico, Rio


Quando morre um artista que eu admiro, costumo mergulhar na trajetória dele, lendo tudo que posso a respeito. É o meu jeito de dizer adeus e agradecer. Com Ruth de Souza foi assim, procurei em revistas antigas, li várias entrevistas e três livros com ela de protagonista (no final). É impressionante a lista de "celebridades" com quem Ruth conviveu, afinal sua carreira artística começou na metade da década de 40. Albert Camus foi um que me chamou atenção e, como uma coisa leva a outra fui atrás.

Ruth o conheceu em 1949, durante a viagem do francês ao Brasil e América Latina. No livro Estrela Negra (Coleção Aplauso), ela conta que guardava uma dedicatória dele: "À minha filha Ruth-Cesônia, de seu pai ocasional com toda a gratitude e agradecimento" (Nota: Cesônia era a personagem de Ruth na peça). No Rio, Camus foi assistir a uma apresentação especial do Teatro Experimental do Negro (TEN), grupo pioneiro onde Ruth era estrela, no Teatro Ginástico. 

Às pressas e sem dinheiro, Abdias Nascimento (o fundadador do TEN) decidiu montar um ato de Calígula, peça de Camus, para apresentar ao autor. Foi uma só apresentação e o espetáculo não foi fotografado. E junto com Calígula, Camus também assistiu o segundo ato de Aruanda, de Joaquim Ribeiro, uma das primeiras peças a abordar o universo místico do negro brasileiro. Fui atrás de uma foto de Ruth e Camus e encontrei a que está lá em cima, do arquivo de Abdias Nascimento, na Quilombo, revista que ele editou em 1950 e publicada em 2011 na Memorabília da Ilustríssima (Folha).

No livro Diario de Viagem (editora Record), Camus conta da apresentação, sua impressão de Calígula e faz um resumo interessante de Aruanda. Foi há 70 anos, 26 de julho de 1949, ele está de cama, com febre, resultado de uma gripe.

Ruth em Aruanda
"Noite. Alguém vem me buscar. Eu havia esquecido que o grupo negro deveria me mostrar hoje à noite um ato de Calígula. O teatro está reservado, não se pode fazer outra coisa. Agasalho-me como se fosse para o polo Norte e vou de táxi.

Estranho ver esses romanos negros. E depois, o que me parecia um jogo cruel e vivo tornou-se um arrulhar lento e terno, vagamente sensual. Em seguida, desempenham para mim uma peça brasileira curta (nota: é o segundo ato de Aruanda), que me agrada muito e cujo assunto transcrevo:

"Um homem, frequentador assíduo de macumbas, é visitado pelo espírito do amor. Atira-se então sobre sua mulher, que se deixa por ele enlevar e apaixona-se por esse espírito. Com o mesmo canta, provoca a vinda do espírito tantas vezes quanto possível, o que dá ensejo, no palco, a bacanais animadas. Finalmente o marido compreende que ela não está apaixonada por ele, e sim pelo Deus, e mata a mulher. No entanto, ela morre feliz, pois está convencida de que irá se encontrar com o Deus que ama."

Ruth de Souza em livros


Estrela Negra, de Maria Ângela de Jesus - Biografia para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial SP. Link: http://aplauso.imprensaoficial.com.br/livro-interna.php?iEdicaoID=42

Álbum de Retratos, por Haroldo Costa. Como explicita o título, uma série de belas fotos, em ordem cronológica

Bastidores, de Simon Khoury. Entrevista longa de Ruth.


sábado, 27 de julho de 2019

Dois livros encantadores sobre gatos

Patricia Highsmith e William Burroughs. Arte by B.

"Tudo me leva a crer que em breve terei um gatinho", ouço de minha amiga Marcia. Ela escreve no Instagram, como comentário a uma foto de Nina, a gata aqui de casa. "Pra se decidir, se ainda não leu, aí vão dois livros", respondo. E são esses os dois livros maravilha que indiquei: Os Gatos, da Patricia Highsmith e O Gato Por Dentro, de William Burroughs. Ambos saíram na série pocket da LPM e são facilmente encontráveis em qualquer banca de revista - e por preços convidativos. Leitura rápida. Quer dizer, leitura rápida a primeira. Já voltei a eles muitas vezes. Gateiros vão se deliciar e quem ainda não os descobriu, pode encontrar um mundo novo.

Quem já se encantou por eles sabe que Highsmith (O Talentoso Ripley, Carol) e Burroughs (Almoço Nu, Junky) não eram o que se pode chamar de escritores convencionais, pessoas "certinhas" - e quem o é?

Os Gatos, o livro de Patricia Highsmith tem três histórias (e que histórias) protagonizadas por felinos, três poemas (e que poemas) e acaba com um ensaio (Sobre Gatos e Estilos de Vida) simples, divertido e elucidativo. Dois trechinhos e um poema.


"Se me pedissem para completar a frase: "Eu gosto de gatos porque...", duvido que ganhasse algum prêmio, mas sei o que gosto neles e por quê. Gosto de gatos porque eles são elegantes e silenciosos, e têm efeito decorativo: uns leõezinhos razoavelmente dóceis andando pela casa."

"Os gatos escondem um senso de travessura por trás da expressão serena. Já vi ambos os meus gatos procurarem o colo de um visitante que é alérgico, ou que detesta gatos abertamente."

O filhote
Tudo no mundo
foi feito para eu brincar:
Gafanhotos, pés de cadeiras, petit-pois,
Sombras, bolas de poeira e meu próprio rabo.
Há tantos cantinhos, portas entreabertas,
E forros de coisas para olhar,
Tantos lugares para ir, que fico doido
De não poder estar em todos eles ao mesmo tempo.
E então me canso.

O Gato Por Dentro, o de William Burroughs, é muito bem resumido no comentário da Harper´s Bazaar estampado na capa: "Um livro sobre o convívio com gatos pôs Burroughs em contato com seu próprio eu." É isso mesmo. E tudo em textos curtos e encantadores de tão intimistas e confessionais. Trechinhos:

"Nos últimos anos, tornei-me um dedicado amante de gatos, e agor reconheço a criatura claramente como um espírito felino, um Familiar."

"O gato não oferece serviços. Ele se oferece. Claro que ele quer carinho e abrigo. O amor não é de graça. Como todas as criaturas puras, os gatos são pragmáticos."

"Há quinze anos sonhei que tinha pego um gato branco com linha e anzol. Por algum motivo, estava prestes a rejeitar a criatura e jogá-la de volta, mas ela começou a se esfregar contra mim e a miar de um jeito comovente."

"Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e algo ainda imaginável, que pode resultar de uma união que não acontece há milhões de anos."



sexta-feira, 28 de junho de 2019

Caricaturas anos 60 de astros da música brasileira





O Quem é você de Maria Bethânia, 1968
Duas páginas semanais assinadas por José Cândido de Carvalho (1914-1989), jornalista e escritor autor de O Coronel e o Lobisomem. Assim era a seção Quem é Você, da revista O Cruzeiro. Começou em meados de 1967 e durou até praticamente o fim do ano seguinte, 80 edições da revista. São perfis de atores, cantores, escritores, políticos: enfim, os mais destacados daqueles tempos. Os perfis são excelentes, mas o que vai ser destacado aqui são as charges que os acompanhavam. A página dupla ((layout ao lado) abria com uma foto do entrevistado, depois uma charge dele e fotos pequenas das pessoas citadas na conversa. A maioria das charges são assinadas por Appe (1920-2006), que era o ilustrador de O Cruzeiro e algumas não são assinadas.

Aqui a primeira parte, só com os astros da música brasileira em 1967/68. Dos veteranos Vicente Celestino e Pixinguinha aos "novatos" Chico Buarque, Nara Leão e Maria Bethânia, incluindo Tom Jobim e  Elizeth Cardoso. Há um "Quem é Você" com Edu Lobo, mas sem charge, por isso ficou de fora. E o único "gringo" é o francês Pierre Barrouh, incluído aqui.
E na ordem em quem saíram na seção Quem é Você. No próximo post, só os atores. 


Chico Buarque, 1967

Nara Leão, 1967
Elis Regina, 1967

Vicente Celestino, 1967
Pixinguinha, 1967

Tom Jobim, 1967



Juca Chaves, 1968

Maria Bethânia, 1968

Baden Powell, 1968

Pierre Barrouh, 1968

Rosinha de Valença, 1968

Elizeth Cardoso, 1968





quarta-feira, 5 de junho de 2019

Queda da Bastilha gay, Stonewall mudou tudo há 50 anos


Foto: Grey VilletThe LIFE Picture Collection Getty Images

Havia os Panteras Negras e o black is beatiful. Daí chegaram os Panteras Cor-de-Rosa, que gritando "gay é bom", enfrentaram os policiais em um levante que mudou tudo. Foi há 50 anos e o movimento pelos direitos gays começou aí.

"O Dia da Reviravolta aconteceu, na Greenwich Village de Manhattan, quando 400 gays invadiram as ruas durante várias noites seguidas em sinal de protesto contra as batidas no Stonewall Inn, um bar homossexual na Christopher Street.": Assim, a revista Time resumia os acontecimentos em 1979, em matéria publicada aqui pela Manchete, quando Stonewall completava dez anos.


Para entender Stonewall, há uma trilha: The Stonewall Project, disco que Renato Russo gravou em 1994, e que tinha renda revertida para os projetos sociais de Betinho. O disco trazia no encarte informações e contatos de ONGS que trabalhavam com os direitos de crianças, mulheres e das minorias sexuais propriamente ditas.
Existem filmes sobre e muita literatura. Um dos meus relatos preferidos é de Edmund White, no livro City Boy - Minha Vida em Nova York, que saiu aqui em 2012, pela editora Benvirá. É quase um resumo da detalhada descrição do evento que ele fez no final romance O Lindo Quarto Está Vazio (1988), lançado no Brasil pela editora Mandarim oito anos depois.
Abaixo o relato de White. São quatro páginas do livro e retirei apenas alguns detalhes mais pessoais.

                                      STONEWALL POR EDMUND WHITE

"Numa boate de dança nos Hamptons, eu me lembro, os homens dançavam em linha, fazendo o hully-gully, mas sempre com ao menos uma mulher na linha.


O funeral de Judy Garland
Depois tudo mudou com o levante de Stonewall, por volta do fim de junho de 1969. E não foram todos aqueles rapazes brancos de camiseta dos Hamptons e dos Pines que mudaram as coisas, mas os negros e travestis porto-riquenhos que iam para o Village de metrô (os suburbanos da linha A) e ficavam agitados por causa do calor extremo e imaginavam que as perseguições policiais dos anos anteriores tinham finalmente arrefecido. Os novos ataques os deixaram zangados e sentindo-se traídos. Estavam nervosos também porque Judy Garland tinha morrido de overdose e estava sendo velada na capela Riverside Memorial. 



No fim da rua Christopher, apenas dois quarteirões adiante, erguia-se o vulto imponente da prisão feminina de Jefferson Market (hoje demolida para dar lugar a um parque). Na época, mulheres brigonas ficavam paradas na calçada em frente e gritavam para as namoradas: "Eu te amo, baby. Se você der para aquela vaca preta da Shareefa, eu te corto, tá ouvindo, baby? Corto pra valer". Dentro da Stonewall a pista de danças tinha sido tomada pelas palhaçadas de pernas compridas e olhos ardentes dos membros do STAR (Street Transvestie Action Revolutionaires [Ação Revolucionária dos Travestis de Rua]). Lésbicas furiosas, drag queens ainda mais furiosas, luto excessivo, calor de matar, tensões raciais, os exemplos de desobediência civil dados pelo movimento das mulheres, pelos manifestantes contra a guerra, pelos Black Panthers - todos os elementos estavam presentes, e só era preciso uma única faísca para acender a fogueira.

A Stonewall não era uma discoteca de fato. Tinha uma jukebox, das boas, e duas salas grandes, compridas, onde se podia dançar. Os bares ficavam abertos até as 4 da manhã em Nova York; os gays voltavam do trabalho, comiam, iam para a cama com o despertador regulado para a meia-noite e ficavam na rua até as 4. Claro que não havia sites da internet, mas também não havia encontros por telefone, nem salinhas nos fundos, e até então nada de caminhões nem cais abertos ao sexo.

Havia muita pegação na rua e muita pegação nos bares. Tínhamos de ter boas linhas de pegação. Éramos todos magros de anfetaminas; meu médico de regime estava sempre me receitando "speed", e às 6 da manhã eu ainda estava acordado, lendo as Páginas Amarelas com grande e compulsiva fascinação. Tínhamos cabelo comprido e sujo, costeletas sem aparar, calças justas, botas pretas engraçadas com zíper do lado, camisas de caubói de jeans com botões perolados de pressão. Usávamos boca de sino. Todos fumávamos o tempo todo (eu chegava a três maços por dia). Não tínhamos grande musculatura nem muita atitude. Nossos ombros eram tão estreitos quanto nossos quadris. Não parecíamos vigorosos, mas éramos saudáveis - isso foi doze anos antes de se ouvir falar de aids pela primeira vez, e tudo o que havia era gonorréia. Isso nós tínhamos muito, talvez uma vez por mês, já que ninguém, a não ser homens casados paranoicos, usava camisinha. Eu saí com meu médico de gonorréia, que passava todo o seu tempo livre copiando os girassóis de Van Gogh.

(....)

Então, houve a blitz, o choro foi ouvido pelo mundo inteiro, a queda da nossa Bastilha gay. Em 28 de junho de 1969, o bar foi invadido, e pela primeira vez os gays resistiram. O Departamento de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo promoveu a invasão, porque descobriu que as garras de bebidas do bar eram contrabandeadas e que a delegacia de polícia local estava associada aos proprietários mafiosos. Quando clientes e funcionários estavam removidos do bar e empurrados para um camburão, a multidão furiosa que tinha se reunido diante do bar começou a vaiar. Então algumas queens dentro do camburão reagiram - e algumas escaparam. A multidão ficou energizada pela violência.

Todo mundo ficou tão puto com aquela blitz policial específica porque, assim que a Feira Mundial terminou, os policiais pareciam ter se esquecido de nós, e uma porção de bares novos foi aberta. Havia blitz, mas só uma vez por mês e geralmente no começo da noite, para não estragar as horas mais sérias de pegação, dança, flerte e bebida. Tínhamos um prefeito novo e bonito, John Lindsay. Mas ele só parecia melhor. Estava em constante conflito com os sindicatos, com os manifestantes contra a guerra, com os estudantes radicais que invadiram a Universidade de Columbia - e com a comunidade gay.


Edmund White. Foto: Andrew Fladeboe publicada no The Guardian
Antes do levante de Stonewall, não havia de fato uma comunidade gay, apenas alguns sujeitos caçando na avenida Greenwich e na rua Christopher. Mas quando a polícia invadiu o Stonewall e os gays temeram que seus bares fossem fechados outra vez, as portas do inferno se abriram. Eu estava lá, por acaso, e me lembro de pensar que ia ser a primeira revolução engraçada. Nós nos chamávamos de Panteras Cor-de-Rosa, íamos atrás dos policiais, aparecíamos atrás deles na rua Gay e na rua Christopher, e levantávamos as pernas numa fila de coristas. Gritávamos "gay is good" [gay é bom] imitando o lema "black is beautiful" [negro é lindo].

Até esse momento, todos nós achávamos que homossexualidade era um termo médico. De repente, vimos que podíamos ser uma minoria - com direitos, uma cultura, um projeto. O dia 28 de junho de 1969 é uma grande data na história gay.

(...)


Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...