Começou por acaso: passou minissérie da Elis Regina na Globo, lembrei de uma foto dela, do título do disco de 1970 e postei no Facebook. A partir daí fui garimpando vários outros artistas no calor do verão, a maioria no começo dos anos 70. As fotos vêm de várias publicações, algumas disponíveis no online da Biblioteca Nacional e outras de recortes que coleciono. Abaixo as primeiras dez (12 artistas) e na ordem em que foram pro facebook. Aqui elas ficam juntinhas e é mais fácil de achar. E vai ter uma segunda parte? Provavelmente, sei lá se com dez.
Elis Regina no verão 1969. Foto: Walter Firmo.
Caetano Veloso no de 1972, recém chegado do exílo londrino
Gal Costa nas Dunas da Gal, começo dos anos 70. Essa tem uma história: postei no twitter há vários anos. E segundos após a surpresa: Gal, que era assídua no twitter de então, curtiu a foto.
Um trezoitão foi personagem de minha infância. Episódio difuso, enigmático, envergonhado, repleto de sombras: só fui saber mais dele quando cresci um pouco. Foi assim: era de meu pai e habitava as alturas, o topo de um guarda-roupas. Certo dia, alguém da família enfrentava as agruras do crescimento e recorreu a ele para acabar com os problemas que o afligiam. Quais? Nem sei, quer dizer, acabei descobrindo mais ou menos, mas isso não interessa aqui. O jovem desesperado não morreu, foi socorrido, a vida dele tomou outros (e religiosos) rumos e segue vivo após esses anos todos. Meu pai teve problemas por ser o dono da arma, mas tudo se resolveu.
A partir desse episódio, tomei horror de revólveres e afins. O trezoitão seguiu morando no fundo de alguma gaveta, eternamente descarregado e enferrujando. Lembro que diante de qualquer barulho no quintal quando estava em casa sozinha com os filhos, a mãe berrava: "Traz o revólver". Era simplesmente para assustar o pretenso ladrão. E isso - "traz o revólver" - virou meio um bordão nosso.
Quando adolescente, acompanhei certa vez um vizinho um ou dois anos mais velho para caçar aves, só que eu fazia barulho pra afastar a futura vítima (salvei várias perdizes) e nunca mais fui convidado. E houve depois o período forçado no quartel, treinamento de tiros com fuzil obrigatórios e eu odiava aquilo (os tiros e a vida militar). Geralmente era à noite e eu simplesmente dispensava o alvo e atirava pra cima pra ver o traçado da bala, muitas vezes cantando pra mim Imagine, o hino de John Lennon. Devo ter sido o pior dos atiradores da tropa e provavelmente o melhor apreciador daquelas linhas vermelhas, o vôo traçante das balas. O horror à armas de fogo segue firme, assim como o desprezo àqueles insanos que pretendem armar a população.
Algumas ficaram fora da seleção abaixo. Fotomontagem by B.
O título vem de Raul Seixas e isso aponta que ele, claro, merece abrir essa seleção de capas de discos com óculos escuros. Havia opções, mas adoro essa.
Bob Dylan também mereceria abrir aqui. Infidels é daquelas marcantes e o modelo usado por ele é chamado até hoje de "óculos Bob Dylan".
E Elton John? A imagem do homem de Rocket Man é muito associada aos óculos e ele os colecionava (ou coleciona?) os modelitos mais extravagantes., como o dessa coletânea oficial e dos primeiros anos de Elton.
E Lou Reed Walk on the wild side
E Marina Lima? Olha é das raras cantoras brasileiras a posar atrás de lentes escuras na capa de disco.
Marina das raras sim, deve ter muito mais, claro. Aqui Nara Leão com o Pão de Açúcar como moldura em um de seus últimos discos. Maravilhosa.
Aquele de Cartola tomando um cafezinho numa xícara verde com pires rosa e segurando um cigarro é antológico, mas escolhi outro bem simpático. E em preto e branco.
Também em preto e branco o negro gato Luiz Melodia na capa maravilhosa.
Quem não tem colírio usa óculos escuro, né Bob Marley.
Difícil escolher a melhor das capas com óculos escuros de Stevie Wonder. Essa de Music of My Mind é divina.
Na linha soul, essa capa de Isaac Hayes é enfiar os cinco dedos :)
E Aretha Franklin, fazendo charme e meio Audrey Hepburn em Bonequinha de luxo.
Diana Ross sob a lente anos 80 total.
E Patti Smith
Freddie Mercury solando e de regata branca no calor dos anos 80
Cazuza disse que tinha que estar aqui. Está de óculos escuros numa coletânea cafona, mas vou quebrar a regra capa para incluí-lo aqui na contracapa de Ideologia. Ele merece.
Brown, Carlinhos: cheio de charme.
Chico César em estado de poesia
Beatle não pode ficar de fora. Né, George Harrison.
John Lennon é meu Beatle preferido. Não aparece nessa capa, que é do disco da Yoko, que também não aparece. o sangue nos óculos diz tudo.
Mas só tem velharia? Só. Reclama não que aí vai uma Lady Gaga pro século 21 não ficar de fora.
Pra não dizer que a única século 21 é uma gringa, Anitta
E Caetano Veloso? Olha, dessa vez fica de fora. Ele até aparece de óculos na capa do disco de 1987, mas é de grau, não escuro e é preciso ter critérios pros escolhidos.
Essa seleção podia não acabar: capa com óculos escuros não falta. Aqui alguns: o seu preferido ficou de fora? Acontece :)
A canção é em homenagem ao mito da adolescência do autor.
Quem conta é o próprio Belchior, em depoimento a Ronaldo Bôscoli, publicado na
revista Manchete em 1978, quando ele lançava o disco Todos os Sentidos. Coração
Selvagem é faixa título do disco do que havia saído no ano anterior. Em 1999, ele a regravou no CD duplo Auto-Retrato, só com releituras de seus clássicos.
James Dean e Sal Mineo
"Hoje gravo na WEA, onde já realizei dois LPs,
Coração Selvagem, em homenagem a James Dean, de quem esqueci de dizer que sou
fã desde os tempos do nordeste. Coração Selvagem, canção dedicada ao mito de
minha adolescência. Compus a música no aniversário de sua morte; aliás, no
mesmo período, tempos depois, morria apunhalado Sal Mineo. James Dean era um
profundo desespero interior e ao mesmo tempo uma grande delicadeza. Possuía
também a estranha violência dos animais mortalmente feridos. De Dean só não
cultuei a volúpia pela velocidade. Até hoje não tenho carro. Sou um poeta com
os pés no chão... Cinema é uma arte que me fascina porque é total. Essa vontade
de um dia ser ator vai acabar me matando."
Primeiro dia do ano em
Parati, há três anos. Ele caminhava pelas ruas de calçamento irregular,
maravilhado com tanta beleza. Não era sua primeira vez na cidade, mas voltava
depois de muitos anos, mais de 30, e havia algo de descobrimento e memórias
naquela caminhada. O olhar detido em um casarão onde fora muito feliz na
primeira estada e, de repente, sente algo roçar em suas pernas. Era uma gata
malhada e ele amava os felinos, criava alguns. O olhar abandonou as lembranças
e passou a acarinhar a pequena, a conversar com ela, a falar dele, do ele que
era e do que fora. Alguns minutos ali e foram interrompidos por alguém que o
chamou. Seguir era preciso e ele se foi, sem olhar para trás, com a gata em
seus pensamentos. No próximo quarteirão, viu que a gata o seguia, elegante, pelas
ruas de pedras irregulares. Continuou caminhando e um tempo depois, sentado em
um banco da praça, voltou a sentir um roçar, uma espécie de afago em suas
pernas. Ela era, a gata tigrada. Seria um sinal? E ele era chegado a sinais.
Perto dali, e isso ele não
viu, havia outra gata, mais pra preta e com alguns amarelados na pelagem,
semelhante a seus olhos, que aproveitava a sombra de uma árvore para uma
soneca. Ela abriu os olhos a tempo de ver a gata, sua amiga das ruas, e o homem
em um papo firme e voltou a dormir. Nem percebeu que o homem decidira ali levar
com ele a gata e no dia seguinte os dois estariam em São Paulo, num apartamento
que já era habitado também por outros três gatos. Não demorou muito pra
surpresa: a gata tigrada, que agora se chamava Maysa, estava prenha, ou
grávida, como ele preferia dizer e menos de três meses depois teve cinco lindos
filhotes. Ele até pensou em arranjar lar pros gatinhos, mas decidiu que
ficariam juntos. Assim, Maysa tornou-se um caso raro: o de uma mãe felina
vivendo com seus filhotes e vendo-os crescer na companhia de outros da mesma
raça. Uma gatarada muito feliz e amada.
E a outra gata, a quase
preta? Sem lar, continuou perambulando pelas ruas de Parati, ganhando um afago
ali, um chute acolá. Um de seus lugares preferidos era um mercadinho e todo dia
marcava ponto ali. Aos poucos, começou a se estabelecer uma amizade entre ela e
o casal dono do mercado, que a alimentava, lhe deu o nome de Nina, a adotou, a
castrou e a tornou uma gata com lar, paparicada pelos clientes do mercado.
Três anos depois, primeiros
dias de 2019. Maysa, a gata tigrada segue feliz com seus filhos na cidade
grande. Nina, a caiçara, também não podia reclamar da vida em Parati: era
alimentada, acarinhada, o que ela não sabia era que esse viver quase tranquilo
estava com os dias contados. E tudo começou assim: acordou de uma soneca em
cima dos caixotes e resolveu dar uma andada pra espichar as pernas pelo
mercado. O passeio foi interrompido por um forte pisão em seu rabo e Nina nem
pensou duas vezes em lançar suas garras em direção aquele incômodo. Incomodada
e com o rabo dolorido voltou a dormir em cima de um caixote de papelão e até
sonhou. E nem percebeu quando uma lazarenta entrou no mercado, empunhando um
pedaço de pau, nem a primeira paulada que veio inclemente. A segunda paulada a
atingiu na cabeça, quando abria seus olhos amarelados, e tentava entender o que
estava ocorrendo. Nina morreu minutos depois, a crueldade humana continua.
É tudo ficção. Maysa existe
e está viva, linda e feliz com seus filhotes. Nina existiu também até encontrar a lazarenta.
Está lá o texto, letrinhas
miúdas, em duas páginas do encarte de Rosa
Amarela, o disco que Miúcha gravou para o Japão e foi lançado aqui em 1999.
Seria a apresentação do CD, que ela inventou de escrever numa máquina elétrica
e acabou saindo muito mais, cheio de revelações sobre ela, os cantos da infância, a primeira vez no Japão, sobre a Música
brasileira a cada linha. E que fica mais revelador ainda após a morte dela,
ontem, 27 de dezembro, aos 81 anos. A partir de agora é tudo de Miúcha, foi ela quem escreveu.
Gostei tanto desse disco que
está sendo difícil me desprender dele. Deve ser por isso que há mais de um mês
venho tentando inutilmente encontrar as palavras exatas para essa apresentação,
essa despedida, sei lá. É mais um filho que vai morar fora. Fiquei de mandar
esse texto até amanhã, acho que vou desistir e telefono para Paulo César
Pinheiro, amigo e poeta, na esperança de que ele assuma por mim essa tarefa que
eu mesma inventei. Mas ele está dormindo e eu volto à máquina elétrica -
acreditam? - batendo na porta fechada de qualquer inspiração. Afinal, um disco
não se explica, se escuta, se sente.
Mas certamente ele não
existiria sem a colaboração de vários pais, de um lado e de outro do oceano.
Surpreendentemente, foi uma gravadora japonesa, a Omagatoki, que me dando total
liberdade na escolha do repertório, abriu caminho para um disco tão brasileiro.
Para isso contei também com a sensibilidade de Kazuo Yoshida, meu produtor, com
quem acabei desenvolvendo uma perfeita sintonia telepática, um clima de
confiança e respeiro mútuos. Com Monica Ramos no elenco de apoio, ele convocou
músicos maravilhosos como Maurício Carrilho e Jota Moraes para escrever os
arranjos. Também reuniu, mais uma vez, o "Buffalo Trio" (Luiz Claudio
Ramos, Franklin da flauta e eu) em Santo
Amaro, parceria dos dois com Aldir Blanc. Gosto tanto desse choro que
apesar de já ter gravado em 1980, achei que agora poderíamos interpretá-lo
melhor, como lembrança de nossa primeira viagem ao Japão, em 1996, onde e
quando tudo começou.
No Sabbath, Tóquio, em setembro 1996
Nesse ponto do texto que não
sei se consigo escrever, aparece a figura de Keiko. Já tinham me convidado
algumas vezes para ir ao Japão, mas foi Keiko quem me levou pela primeira vez,
para uma temporada em seu "Sabbath", em Tóquio e em Kobe (no final, link para esse show). A gentileza
de Keiko, Taichi, sua família e equipe, somada ao imenso carinho que recebi do
público japonês, fizeram dessa viagem uma das melhores experiências dos últimos
anos. Não poderia imaginar que a essa altura da vida, num país aparentemente
tão diferente, eu ainda fosse fazer tantos amigos. Eles me ensinaram o
inesperado senso de humor dos japoneses, seu jeito de ser. Sua comida, sua
religião, sua arte. A língua, me desculpem, é difícil demais, mas continuo me
esforçando. Essa experiência toda foi tão poderosa, que em menos de seis meses
depois de minha estréia em Tóquio, o disco estava pronto no Brasil. Acho que
foi a melhor maneira que encontrei para agradecer tudo de bom que recebi.
P.S. Paulinho Pinheiro não
acorda e eu, que não conseguia escrever nada, continuo cheia de assunto,
batucando essa máquina elétrica - já acreditaram? - talvez para ganhar tempo,
para ficar viajando nessas lembranças todas que o disco traz. Não foi bem assim
que tudo começou. Lembro que me fiz bem séria, me compenetrei muito e comecei a
pensar em vários projetos, alguns bem interessantes. Mas, pairava uma sensação
de estar forçando a barra, de querer moldar alguma coisa diferente, um antiprojeto,
talvez. E tratei de ficar muito quieta, tentando sintonizar aquela atenção
desligada que nos faz perceber melhor as coisas mais sutis, e comecei a ouvir
algumas canções que já tinham vida própria dentro de mim, que eu já tinha cantado
muito, mas por algum motivo não tinha gravado.
Lembrei dos ensaios com Tom
Jobim, das tardes douradas na beira do piano, deixando surgir como pássaros, as
belíssimas canções de Custódio Mesquita, Bororó, Ary Barroso. De Ary gravei
agora Por Causa Desta Cabocla, que me
faz pensar em Rafael Rabello e no disco que planejávamos gravar e que nunca
aconteceu. Eram noites inteiras de ensaio, então. Noites estreladas, nos
cantando, Rafael tocando e os dois chorando copiosamente. Wai-wai. Essas
músicas, essas coisas todas ainda me fazem chorar, Rafa.
A
Mesma Rosa Amarela tem um caso antigo comigo. Não sei quando e
onde nos conhecemos, acho que ela sempre me encantou e eu sempre a cantei. Há
muitos anos, me apresentando em Olinda, tive a alegria de reconhecer Capiba,
seu autor, na plateia. Galante, me autografou carinhos em seus discos e
garantiu que ninguém interpretava A Mesma
Rosa Amarela como eu. Fiquei toda prosa e feliz e adorei gravar essa música
tão simples e tão terna, que permaneceu fresca e perfumada dentro de mim para
florescer agora e dar nome a esse disco.
Quem já conhece um pouco de
música brasileira vai notar que, com exceção de De Você Eu Gosto, do Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, cuja gravação
de Silvinha Telles num velho vinil do começo dos anos 60 guardo até hoje, não
gravei nenhum clássico do repertório da bossa-nova, que tem sido tão bem
difundido por seus próprios criadores. Procurei dar um abraço maior nessa
amplidão que é a nossa música popular, dos anos 30 até agora, com a recentíssima
Assentamento, de Chico Buarque,
dedicada ao Movimento dos Sem-Terra.
Entre as músicas já cantadas
e amadas, inclui também nesse disco João
e Maria (Sivuca - Chico), Choro
Bandido (Edu Lobo - Chico Buarque) e Só
o Tempo (Paulinho da Viola).
Pressentimento
(Elton Medeiros - Hermínio Bello de Carvalho) me faz lembrar de Babá, das
cantorias na rua Buri, meus irmãos e eu, ainda crianças, imitando as vozes das
pastoras de Ataulfo Alves. Valsa de Uma
Cidade me faz sonhar com um Rio de Janeiro mais tranquilo e feliz, leve
como uma música da Metro.Doce de Coco (Jacob
do Bandolim - Hermínio Bello de Carvalho)é paixão antiga, namoro recente. Paixão recente (e fulminante) foi minha
irmã Cristina quem captou antes: Cabrochinha,
de Mauricio Carrilho e Paulo César Pinheiro (está na hora de ligar de novo para
a casa dele, tomara que já tenha acordado e possa escrever um texto, esse
texto, enfim, o que eu prometi entregar até amanhã). Mas como eu ia dizendo, em
Cabrochinha sobra um humor muito
carioca na melodia, na letra e nos maravilhosos arranjos de sopros, vários
instrumentos diferentes, que um só músico, Paulo Sérgio Santos executa com
tanta precisão e esperteza. Agradeço a todos os músicos que deram o melhor de
si para fazer esta festa acontecer. Foi uma comemoração, e vai ver é por isso
que eu não estava conseguindo escrever, descrever nada. É impossível explicar
essa mágica que às vezes a música faz acontecer. Não tem explicação nem
controle, aparece quando quer e eu fico muito feliz em sentir sua presença e
saber que ela nos guiou.
Antonio Carlos Jobim dedicou
o primeiro disco que gravamos juntos a Radamés Gnatalli, outro grande maestro
brasileiro. E escreveu na contracapa do disco: "O Brazyl não conhece o
Brasil." Mauricio Tapajós e Aldir Blanc usaram essa frase como refrão e
inspiração para Querelas do Brasil,
que encerra esse nosso CD. O Brazyl não conhece o Brasil, Mas espero que o
Japão fique conhecendo um pouco melhor, E, recitando também meu Maestro
Soberano, gostaria de dizer:
Esse disco é dedicado a
Antonio Carlos Jobim, pelos incansáveis, vastos e imensos prestados à Música
Brasileira.
No encarte do disco Rosa Amarela, lançado aqui em 1999.
Aqui, Miúcha no show do Sabbath, Tóquio, em setembro de 1996
E aqui, Miúcha canta a "recentíssima Assentamento, de Chico Buarque, dedicada ao Movimento dos Sem-Terra"
Quando penso em amor aos
livros me vem logo esse texto de Clarice Lispector. Só o li muito depois que
ela o escreveu, mas é daqueles que permanece. Foi publicado num suplemento de
fim de ano do icônico Última Hora, o jornal de Samuel Wainer, em 18 de dezembro
de 1968 (faz 50 anos daqui a alguns dias). Nele, Clarice fala de suas primeiras
impressões literárias e cita um conto que escreveu depois: o absurdo Felicidade
Clandestina, que abre o livro homônimo e é a maior declaração de amor aos
livros que pode existir - e tem uma vilã, a menina filha de um dono de
livraria. Abaixo, o texto de Clarice Lispector, como publicado em Última Hora. Ah, ela não diz o nome do último livro que cita: é Felicidade (Bliss), livro de contos de Katharine Mansfield, traduzido por Érico Verissimo, que depois viria a se tornar um dos seus grandes amigos.
O primeiro livro de cada uma das minhas vidas
Clarice Lispector
Busco em minha memória e
tenho a sensação quase física nas mãos ao segurar aquela preciosidade: um livro
fininho que contava a história do patinho feio e da lâmpada de Aladim. O livro
custava um cruzeiro e cinquenta centavos; estou traduzindo direito? Dizíamos
mil e quinhentos. Eu lia e relia as histórias; criança não tem disso de só ler
uma vez: criança quase aprende de cor e, mesmo sabendo quase de cor, relê com
uma excitação de primeira vez.
A história do patinho que
era feio no meio dos outros bonitos, mas quando cresceu revelou-se o mistério:
ele não era pato e sim um belo cisne - essa história me fez meditar muito e
imediatamente identifiquei-me com o sofrimento do patinho feio, já que eu, no
meio das outras crianças, era diferente com minhas pernas compridas demais de
menina alta. Eu ficava esperando já com impaciência as primeiras demonstrações
de que na verdade eu era um cisne que em pequeno não tem a graça do patinho
seguro de si mesmo. E a história de Aladim como sua lâmpada soltava minha
imaginação para as lonjuras do impossível a que eu era crédula: o impossível
estava ao meu alcance. A idéia de um lâmpada que, esfregada, libertava o seu
gênio que dizia a Aladim, ou melhor, a mim: sou teu servo, pede o que quiseres
- isso me deixava em devaneio profundo. Quieta no meu canto, eu pensava se
algum dia um gênio me diria: pede o que quiseres. Mas revelava-se que sou daqueles
que têm de trabalhar duro para terem o que querem. Quando acontece.
Tive várias vidas. Em outra
de minhas vidas, o meu livro sagrado foi emprestado, porque era muito caro: "Reinações
de Narizinho", de Monteiro Lobato. Já contei em crônica o sacrifício de
humilhações e perseveranças pelo qual passei pois o livro grosso que me
prometia o mundo pertencia a uma menina cujo pai tinha uma livraria. A menina
gorda e feia tornara-se sádica e, ao descobrir o que valeria para mim ler
aquele livro, fez um jogo de "amanhã vem em casa que eu empresto".
Quando eu ia, literalmente com o coração batendo de alegria, ela me dizia: hoje
não posso emprestar, venha amanhã. Ela própria não lera sequer o livro, como
vim a descobrir, e este era virgem. Ah, como eu sonhava em tê-lo nas minhas mãos:
era um livro caro e grosso e maravilhoso. Depois de cerca de um mês de
"venha amanhã", o que eu, embora orgulhosa que era, recebia com
humildade para que a menina não me cortasse de vez a esperança, a mãe daquele
primeiro monstrinho de minha vida notou o que se passava e, um pouco
horrorizada com a própria filha, deu-lhe ordens para que naquele momento mesmo
me fosse emprestasse o livro. Suponho que empalideci ou corei de alegria ao
pegar aquele livro. Eu, que andava aos pulos e correndo, andei devagar,
segurando com as duas mãos o livro divino contra o peito magrinho de patinho
feio. (Não me tornei um belo cisne, nem era patinho feio propriamente: tudo era
imaginação minha). Não li o livro de uma vez: li aos poucos, algumas páginas de
cada vez, para não "gastar". Acho que foi o livro que me deu mais
alegria naquela vida.
O Lobo da Estepe, Herman Hesse
Em outra vida que tive, eu
era sócia de uma biblioteca de aluguel que ficava na Rua Rodrigo Silva. Sem
guia, eu escolhia os livros pelo nome. E eis que escolhi um dia um livro
chamado "O Lobo da Estepe", de Herman Hesse. O nome me agradou,
pensei tratar-se de um livro de aventuras tipo Jack London. O livro, que li cada
vez mais deslumbrada, era de aventura, mas de aventura interior. E eu, que já
escrevia pequenos contos desde os sete anos de idade, fui aos treze germinada por
Herman Hesse e comecei em segredo a escreve um longo conto imitando-o: a
aventura interior me fascinava. Eu havia entrado em contato com a grande
literatura.
Katherine Mansfield
Em outra vida que tive, aos
quinze anos, com o primeiro dinheiro ganho por trabalho meu, entrei altiva numa
livraria que me parecia ser o mundo encantado onde eu gostaria de morar.
Folheei quase todos os livros dos balcões, lia algumas linhas e passava para
outro. E de repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que
fiquei lendo presa ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! E
contendo um estremecimento de profunda emoção, comprei-o. Só depois vim a saber
que a autora não era anônima e era considerada um dos melhores escritores do
mundo: Katherine Mansfield.