sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A novela da fonte HP




Em janeiro do ano passado (http://viledesm.blogspot.com.br/2011/01/o-valor-real-das-coisas.html), contei aqui sobre o preço abusivo de uma mera “fonte de energia” pra alimentar meu notebook HP (morri com $ 270,00 e, felizmente, a bendita continua funcionando). Nesse mesmo período, comprei um desktop da mesma marca que funcionou mucho bem até poucos dias e, de repente, embestou de não mais ligar. Um telefonema pra HP me revelou a existência de duas (sim, duas numa cidade pequena feito São Paulo) assistências autorizadas. E lá fui eu, na da Vila Mariana onde, ueba, descobri que o problema não era com o computador, mas com a “fonte” que custava “$ 240,00, mas em falta e sem previsão de chegada”. Em Pinheiros, na segunda autorizada, nunca tinham visto o tal modelo da “fonte” e o cara da loja chegou a fotografar o objeto exótico, como se eu estivesse em poder de um modelo pirata.

Mas onde encontro essa bendita fonte? Nova ligação para a HP, meia hora para contar a história e, número do protocolo anotado, me avisam que o controle de qualidade vai me contatar em 48 horas. Bom, passaram 4 dias e nada de telefonema. Faz pouco liguei e a simpática atendente, Elizabete, me disse que estava esperando “uma resposta”. Como assim?, falei. Ela pediu um momento e logo voltou me perguntando se já tinha ido na HP store que tem em todo shopping. “Não, nem sabia que existia. Mas vem cá, porque nunca me falaram isso?”. Um pouco alterado disse pra moça que estava me sentindo desrespeitado como cliente da empresa dela e outras “amenidades” ao estilo cobras e lagartas. “O senhor está sendo desagradável”, ouvi. “Desagradável eu? E você que nunca me deu uma resposta. Nunca mais compro nada da HP e...” A moça do controle de qualidade da HP desliga na minha cara. Beleza.

Ah, a fonte. Então, entrei no site da HP Store que, desligado que sou, só soube hoje que existia, e “parece” ser essa  (existem vários modelos) que ilustra esse post, mas com uma informação informação adicional: “produto indisponível no momento”. Quer dizer, a novela da fonte continua continua e HP nunca mais. 

P.S: Bom, a novela fonte continua sim, mas como preciso muito de um arquivo no computador, descobri agora uma "similar" por $ 99,00 e com garantia de seis meses. Fazer o quê se não existe um produto original para comprar? Pelo menos existe uma economia de pelo menos $ 150,00 que "o valor das coisas" importa sim - e muito.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

De oráculo, índios e Bethânia

Todo dia é assim: De manhã, ainda no elevador, aciono “música aleatória” no ipod e atento à primeira como se oráculo fosse. Tem vezes que nada acontece, mas em muitas vêm canções pra se prestar atenção. Hoje foi assim. Não propriamente uma canção, mas um texto – Texto do índio, que eu nunca tinha ouvido com atenção. Que texto é esse? Bom, fez parte de Estranha Forma de Vida, show de Maria Bethânia de 1981, nunca lançado em disco. É o texto-carta de um chefe índigena americano que, há 150 anos atrás, “antevia toda a salada ecológica que o homem branco começava a preparar”, nas palavras de Fauzi Arap, o diretor do show.


Estranha Forma de Vida não é Drama nem Rosa dos Ventos, mas é show encantado. De nunca gravadas, Bethânia canta por exemplo Bastidores e muitas do Chico da Ópera do Malandro – Tango do Covil, O casamento dos Pequenos Burgueses, Terezinha, O Meu Guri, Geni e o Zepelin. Mais? Tem A Volta do Boêmio, Se Eu Quiser Falar com Deus. E textos? Além do antológico do índio tem um da Clarice Lispector: “Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente. 

Abaixo está o Texto do Índio inteiro. Começa com uma introdução e depois aquela voz vai recitando aquelas palavras e você se arrepiando. Mas não precisa ficar imaginando não. Estranha Forma de Vida está disponível na rede e dá para baixá-lo na íntegra,  gracias ao ótimo site Maria Bethânia Re (verso) que têm outros espetáculos históricos de Maria Bethânia, aqueles que pensava que nunca ia ouvir. 

Texto do Índio:
Em 1854, há mais de 120 anos atrás, o presidente dos Estados Unidos fez uma oferta aos índios para a compra de uma grande extensão de suas terras, oferecendo em troca a concessão de uma outra reserva. A resposta do chefe índio, recentemente difundida pelas nações unidas, é considerada um dos mais belos pronunciamentos já feitos em defesa do meio ambiente.

"Como se pode comprar ou vender o firmamento? Essa ideia é desconhecida para nós. Se não somos donos da frescura do ar e do fulgor das águas, como poderão ser comprados? Cada porção dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada brilhante mata de pinheiros, cada grão de areia nas praias, cada gota de orvalho nos escuros bosques, cada colina e até o som de cada inseto, tudo é sagrado ao passado e à memória do meu povo. Os mortos do homem branco esquecem o seu país de origem quando empreendem seus passeios entre as estrelas. Os nossos mortos, no entanto, não podem nunca esquecer essa bondosa terra, pois que ela é a mãe dos pele-vermelhas. Somos parte da terra, assim como ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs, os escarpados penhascos, os úmidos prados, a grande águia, o calor do corpo do cavalo, o homem, todos pertencemos a mesma família.


Por tudo isso, quando o grande chefe de Washington nos envia mensagem de que deseja comprar nossas terras, ele nos está pedindo demasiado. Também nos diz o grande chefe que nos reservará um lugar onde possamos viver confortavelmente entre o nosso povo. Ele se converteria em nosso pai e nós em seus filhos. Por isso consideraremos a oferta para comprar nossas terras, mas se lhes vendermos a terra devem ensinar a seus filhos que são sagradas. Os rios são nossos irmãos e também são seus. Portanto devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. Mas isso talvez seja porque o índio é um selvagem e não compreende nada. Que o barulho somente parece insultar nossos ouvidos. Depois de que serve a vida se o homem não pode escutar o grito solitário do noite bó? O ar...O ar tem um valor inestimável para um pele-vermelha já que todos compartilham do mesmo alento, a besta, a árvore, o homem: todos respiramos o mesmo ar. 

O homem branco parece não ter consciência do ar que respira, como um moribundo que agoniza durante dias insensível ao fétido odor. Eu vi milhares de búfalos apodrecendo nos prados, mortos a tiros pelo homem branco de um trem em marcha. Eu sou um selvagem e não posso compreender como uma máquina fumegante pode importar mais que um búfalo que nós matamos apenas para sobreviver. O que seria do homem sem os animais? Se todos fossem exterminados o homem também morreria de uma grande solidão espiritual. Porque tudo que suceder aos animais também sucederá ao homem. Tudo está entrelaçado. O homem não teceu a trama da vida, ele é somente um rio. Tudo que ele fizer com a trama ele fará a si mesmo. Tudo está entrelaçado. Tudo que correr à terra ocorrerá aos filhos da terra. Contaminem os seus leitos e uma noite perecerão afogados em seus próprios resíduos. Aonde está a floresta espessa de escuridão? Onde a grande águia nos apareceu termina a vida e começa a sobrevivência." (E Bethânia emenda o texto com Rosa dos Ventos).

E no vídeo abaixo, o show Estranha Forma de Vida Inteiro. Bethânia começa a dizer o texto mais pro final, a partir de 1:27:58


sábado, 7 de julho de 2012

O momento prazer e raiva de Marlene, a maior

Fuçar em lojas de CDs é um dos meus prazeres. Volto para casa sempre com novidades (novidade = tudo aquilo que eu desconheço), que ficam ali à espera da hora certa de deixarem de ser novidades (a hora certa é importante). Hoje, um CD que repousava há meses junto a outros e ainda lacrado me chamou. É de 1970, chama-se É a Maior!, gravação de um show da cantora Marlene. E Marlene, para mim, é meio mistério. Sei quem é, claro, mas sempre com aquela sensação de que a conheço (e ouvi) menos que deveria.


É a Maior! é assinado por Fauzi Arap e Herminio Bello de Carvalho, responsáveis por espetáculos históricos de Maria Bethânia, por exemplo, que é doida pelos dois. Desde Comigo me Desavim (1967), Fauzi já dirigiu alguns dos shows mais lindos de Bethânia, Rosa dos Ventos, inclusive. E Herminio é produtor/diretor de maravilhas feito Rosas de Ouro e aquele show de Elizeth Cardoso em 1968, com Zimbo Trio + Jacob do Bandolim + Época de Ouro. Basta citar esses dois, sempre no topo da lista dos shows que eu adoraria ter visto.

E como nada é por acaso, Bethânia não entrou aqui de graça. A estrututura de É a Maior! lembra os shows dela: textos conduzindo as canções no formato pot-pourris bem costurados juntando os sucessos dela e novidades. Marlene usa a palavra para uma espécie de acordo com os tempos modernos. “Há uma hora em minha vida em que eu resumo todas as grandezas e todas as tristezas que eu já presenciei. É na hora que eu canto. È na hora que me dão um pedaço de palco para eu ser Marlene”: o disco/show inicia nesse clima confessional.

Era 1970, a era das cantoras de rádio havia passado há muito, o auge dos festivais também e a tropicália estava nas bocas, Caetano e Gil no exílio em Londres. Marlene tinha 46 anos, olha a mudança dos tempos, praticamente a idade de Marisa Monte hoje. Dos novos de então, Caetano é presença marcante com Tropicália, Atrás do Trio Elétrico, Coração Vagabundo e Irene, que encerra o disco. E tem Jorge Ben (País Tropical), Marcos e Paulo Sergio Valle (Mustangue Cor de Sangue na sequência de Se é Pecado Sambar) e Milton Nascimento (Beco do Mota, parceria com Fernando Brant, em interpretação impressionante). E da geração mais antiga, Mario Lago, Wilson Batista, Assis Valente, Luiz Gonzaga

“Eu não vejo diferença nenhuma naquela gente que gritava Marlene e Emilinha e ainda ontem gritava por Chico e Caetano. Talvez as bocas que gritem hoje nos festivais sejam mais bem tratadas, mas isso também não era culpa da Emilinha nem minha”, ela desabafa, ovacionada, em momento sobre a expressão “macacas de auditório”. É o final que chega com o hit maior Lata D´Água emendado com Irene. O público delira. Momento de virada na carreira de Marlene, É a maior! nada tem de datado e retrata um importante momento de mudança na música popular brasileira. Quatro anos depois, Marlene fez outro show antológico dirigido por Herminio – Te Pego Pela Palavra.

Abaixo, o áudio com o momento final do show É a maior!. Depois, a abertura do show Te Pego Pela Palavra. E ao final, dois textos bem reveladores, que Marlene fala durante o espetáculo.




“A minha voz é pequena. Sempre disseram que a minha voz é pequena. Ouvi isso a vida inteira. Eu comecei no rádio aos 20 anos, brigando com Deus e todo mundo, brigando até comigo mesma. Eu misturava prazer e raiva quando me jogava no auditório para cantar. E foi com esse prazer e com essa raiva que eu cheguei até aqui. Eu começo e recomeço minha vida toda hora sem medo nenhum. Cantei muito em auditório de rádio, botei muita faixa nesse corpo. E hei de continuar cantando, seja na rua ou em qualquer lugar onde haja alguém que queira me escutar. E, porque não, hei de cantar em muito auditório ainda” (E aí, Marlene começa a cantar País Tropical)

“Às vezes eu não gostaria de ter a voz que tenho. Às vezes eu gostaria de ter uma voz despreocupada, uma voz calma. Às vezese eu não gostaria de me agitar. Às vezes eu não gostaria de quase ter de me esfregar na cara de todo mundo para me fazer perceber. Às vezes eu gostaria de simplesmente cantar” (E aí, Marlene canta Carinhoso)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A "diferente" Clarice Lispector faz doer os nervos

Autógrafo em O Lustre, da biblioteca de Benjamin Moser
Sabe quem é o autor mais citado no twitter? Sim, é Clarice Lispector. Diz levantamento recente do YouPix que ela é citada 3,5 mil vezes por dia. "Ah, mas muitas frases não são delas", tem gente que reclama. Também não faltam gaiatos para escrever uma sandice qualquer e assinar Clarice Lispector como se isso fosse muito, mas muito engraçado. Pra mim, se 10% das frases forem  verdadeiras já é o máximo. Gosto dessa faceta pop de Clarice que em vida esteve longe de ser campeã de vendas e precisou ralar em trabalhos para jornais e traduções para sobreviver. E ela ainda tinha a fama de “diferente”, desde os primórdios, como mostra essa matéria abaixo, de 17 de março de 1946, de Solena Benevides Viana, a mesma da entrevista do post anterior. Aqui, a jornalista escreve sobre o primeiro encontro com Clarice que estava no Rio para lançar seu segundo livro. E só pode ter sido nesse encontro que Clarice autografou O Lustre para Solena e esse exemplar faz parte da biblioteca brasileira de Benjamin Moser, autor da biografia Clarice,. Gentilmente, Benjamin, o enviou (foto acima). 

Abaixo, a matéria publicada na coluna Miscelania do Suplemento literário do jornal carioca Amanhã.
                                                                      



Ao saber que Clarice Lispector estava no Rio, de passagem, resolvi aproveitar a oportunidade e agradecer-lhe uma antiga gentileza. Confesso, também, que me movia uma certa curiosidade de conhecer pessoalmente a escritora que, durante algum tempo serviu de assunto à grande parte das “rodinhas” literárias da cidade e, principalmente, às dos novos.
   Não só o seu primeiro livro foi discutidíssimo, levantando a comentada questão sobre se a autora teria sofrido ou não influência de Joyce – contra o que há o argumento de que o seu livro já estava escrito quando travou conhecimento com a obra do grande autor inglês – como a própria Clarice Lispector passou a figurar na lista das pessoas “diferentes”.
  Telefonei-lhe, pois, e marcamos um encontro que não teve, em absoluto, caráter de entrevista. Foi apenas uma palestra cordial sem a preocupação de colher informações, que versou sobre assuntos os mais variados. Uma miscelânia, enfim.

Para começar, Clarice pode ser “diferente” mas não no sentido que lhe querem dar. Fisicamente é uma moça esbelta, alta, loura, de olhos claros, de maneiras simples e naturais. Não se mostra demasiado expansiva, nem muito retraída. Como se vê, portanto, até agora – nada de “diferente”. Confessou-me, com toda a sinceridade, estar naquele dia em ótima disposição de espírito, não obstante o calor – que era tremendo!!! – o que nem sempre se verificava. Mas, qual é aquele que se pode gabar de conservar inalterável o seu humor!

Estudou direito, interessada sobretudo em direito penal; todavia, entre outras coisas, depois de tomar parte num júri simulado desinteressou-se da aludida disciplina e passou a cogitar de outros afazeres. Exerceu atividades jornalísticas durante quatro anos, tendo trabalhado inclusive em “A Noite”. Em 1944, embarcou para Nápoles, onde residiu dois anos no Consulado por falta de habitações e, hoje em dia, a sua maior aspiração é... uma casa!

Na Itália, as perturbações da época interfiriram na sua vida. Passou cerca de um ano quase sem sair de Nápoles, limitando-se a fazer algumas viagens a Roma. Ultimamente conseguiu ir a Florença. Apesar dos naturais estragos causados pela guerra a maioria das obras de arte foi poupada. Várias galerias ainda estão fechadas, num trabalho de reforma e reorganização. Toda a Itália, aliás, se ergue aos poucos. E aos poucos renascerá o seu ânimo e a sua glória.
Quanto ao movimento literário italiano, dentro do âmbito restrito que lhe foi dado observar, o último conflito mundial nada introduziu de especialmente novo. As antigas tradições continuam a predominar, e o trabalho prossegue com esforço e esperança. A escultura e a pintura, segundo observou Clarice Lispector, estão sob a força de um grande impulso, tendo na vanguarda nomes como o de Leonor, Fazzini, Savelli, Guzzi, De Chirico.

As condições de vida na Itália a seu ver, são precárias, mas caminha-se para uma lenta reorganização. Os sofrimentos suportados incutiram nas criaturas uma nova coragem, permitindo-lhes encarar com ânimo forte situações desesperadoras. Certa vez, por exemplo, encontrou um rapaz iugoslavo aparentemente alegre, lançando mão de seus conhecimentos linguísticos para sustentar-se, enquanto aguardava oportunidade de embarcar com destino ao Brasil. Pouco depois foi surpreendido com a informação de que perdera toda a família na Iugoslávia. E acidentes desta natureza repetem-se diariamente.

Os gêneros alimentícios e artigos de primeira necessidade são vendidos por alto preço. O café, por exemplo, está a 2000 liras o quilo. Um negociante que se lembrou de vender camisas por 150 liras cada uma, acabou forçado a recorrer à intervenção da polícia. Lá também as atividades do câmbio negro são intensas.

Nesta altura da palestra, a escritora declarou-me – mais uma prova de que não é assim tão “diferente” – que pagou o seu tributo à decantada “saudade da pátria distante” e procurou mimitiga-la tomando... caldo de cana, bebida na qual antes, no nosso país, pouco pensava.
Portanto, diante do que acima ficou exposto, muitas pessoas devem estar conjecturando até agora: “uma criatura, assim tão humana, que sente saudades como toda gente e age com tamanha simplicidade, será mesmo “diferente”?

Sim, Clarice Lispector é “diferente”. É “diferente” na aplicação das suas energias, no amor ao trabalho, na sua produção literária. Sente necessidades de escrever, e quando dá início a uma obra a ela se consagra inteiramente. Não vacila em admitir a importância que atribui ao seu trabalho, o esforço dispensado à sua elaboração. E, por isso mesmo, embora respeite a opinião do público, regogizando-se quando nele encontra ressonância, coloca acima de tudo o mundo interior do escritor, o impulso criador que o animou e a liberação absoluta do  seu eu.

O seu estilo é único e escapa, muitas vezes, à percepção do leitor apressado. Não se pode ler um romance de Clarice Lispector como um simples passatempo, seguindo o enredo, salientando esta ou aquela imagem interessante. A sua intensidade exige do leitor o mesmo esforço de concentração com que foi escrito; faz doer os nervos. E assim Perto do Coração Selvagem surgiu inopinadamente na nossa literatura e nela permanece até hoje como um marco isolado.

Clarice Lispector acaba de publicar, pela editora Agir, O Lustre. Neste novo romance – fruto também de intenso labor – o ardor primitivo cedeu lugar à reflexão comedida, à psicologia sutil da análise dos sentimentos desordenados a uma poesia pessimista e vaga, que a cada passo se manifesta:
- Dez é como domingo. A gente pensa que domingo é o fim da semana passada, não é? mas já é o começo da outra. A gente pensa que dez é o fim de nove, não é? mas já é o príncipío de onze.
E ainda mais adiante, quando Virginia – a personagem principal – ao observar os bonecos de barro que modelara reflete:
“... mesmo bem acabados eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento. Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por eles mesmos, se isso fosse possível.
E as dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo”.

Na sua visão sombria, ou talvez fosse melhor dizer, na crueza da sua realidade, dentro da originalidade que o caracteriza, o livro assinala mais uma vitória para sua autora.
                          

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O após-guerra de Clarice Lispector



Há um tempo postei aqui uma entrevista que garimpei de Clarice Lispector quando estudante de direito, em 1941. Acabou publicada no livro Entrevistas / Clarice Lispector (editora Azougue) que reúne algumas entrevistas da escritora, que não era chegada a dar entrevistas. Garimpar Clarice me é sempre um prazer e dia desses deparei com outra entrevista bem rara dela. É do final de 1945, quando o após-guerra era recente, ela morava em Nápoles e estava elaborando "apenas vagamente" um novo livro (O Lustre, o segundo dela, foi publicado no ano seguinte, 1946). É do jornal carioca A Manhã. Fiz uma busca nos livros sobre Clarice Lispector e não encontrei nada sobre essa matéria. E nem a bela foto que ilustra a matéria. Bom, chega de falar, melhor ler e acompanhar o pensamento de Clarice Lispector no após-guerra para a opinativa jornalista Solena Benevides Viana. Abaixo, a entrevista toda.



                                              CLARICE LISPECTOR FALA DE NAPOLES

A situação literária no Velho Mundo – Interesse na Itália pelo romance social – Os poetas franceses da resistência – Uma nova liberdade

                                                                                           Solena Benevides Viana

O presidente dos Estados Unidos, em discurso recente, salientou mais uma vez aquilo que tantos estadistas já haviam afirmado e que está ao alcance de qualquer criatura de bom senso, isto é, que a vitória dos armas de nada valeu se não conseguirmos ganhar a paz. Esta última etapa, porém, se nos apresenta bem mais árdua do que a anterior. Enquanto no período de luta todos se congregaram em prol da causa comum, aplainando obstáculos e relegando para segundo plano, em benefício da coletividade as diferenças pessoais, na fase de reconstrução mundial e ajustamento político que atravessamos multiplicam-se as divergências agravadas pela precária situação econômica e material dos povos na sua totalidade, e os proclamados direitos do homem restringem-se ao papel, sufocados pelo incomensurável egoísmo da espécie humana em geral.

O fracasso da Conferência de Ministros das Relações Exteriores de Londres em assentar as bases dos tratados de paz da Europa, explicado pela falta de preparo prévio do conclave, trouxe novamente à ordem do dia a Itália vencida. Sendo os escritores os mais lídimos representantes do pensamento de um povo, considerei o momento oportuno para transcrever algumas impressões da romancista Clarice Lispector sobre o que pode observar no aludido país. São informações ligeiras e de caráter exclusivamente literário, mas que de algum modo contribuirão para iluminar um pouco as trevas que envolvem a Europa quanto ao panorama intelectual, neste momento de tão grande absorção política.

                                                                     A ESCRITORA

Antes de dar início ao interrogatório sobre as letras europeias desejei que a própria autora de “Perto do Coração Selvagem” esclarecesse se houve de fato real influência de Joyce na sua obra.  Mas, evitando uma pergunta direta que poderia ser mal interpretada, apesar de eu ser da opinião de que não há criação alguma absoluta, indaguei:

Algum autor, nacional ou estrangeiro, contribuiu de forma poderosa na sua formação?

- Não sei dizer, - declarou a interrogada – que autores influíram no que escrevi ou na minha formação. Possivelmente me influenciaram mais os motivos dos escritores, mesmo que eu nada soubesse deles, do que seus livros.

E adiantou:
- Cercando a questão mais de perto, eu poderia dizer de fora para dentro, concordando com pessoas que escreveram sobre meu trabalho, que eu tive influência de Proust e Joyce, o que tem como obstáculo material apenas o fato de eu não ter lido Proust e Joyce antes de escrever o primeiro livro. Como para mim não tem tido importância consciente a questão de influência, é-me difícil sair dos meus verdadeiros problemas e analisá-la.

                     “PRÊMIOS ALEGRAM E HONRAM MAS SÃO ALÉM DO TRABALHO”

A resposta da entrevistada ao primeiro quesito, levou-me a desejar saber se recebera algum prêmio que a encorajasse ou se alguém a incentivara no caminho das letras.
- O prêmio que recebi foi depois de publicar o primeiro livro (Prêmio Graça Aranha de 1943), o que me agradou, surpreendeu e deu-me vários tipos de sensações e reações que não se podem chamar de encorajamento. Prêmios alegram e honram mas são além do trabalho. Houve sim pessoas que me deram muito ânimo, sempre.

Insisti:


Na sua vida escolar, por exemplo, tinha acentuada predileção pelas letras?
- Tinha sim, mas como fora da vida escolar. Tinha “predileção pelas letras” no sentido de ler.

Apesar da observação inicial da Sra. Clarice Lispector, de que não tinha jeito para dar entrevistas, habituada como estivera a tomá-las durante muito tempo, antes de passar a assunto de maior amplitude, ainda no terreno pessoal, ponderei:


O seu livro implantou uma nova técnica em matéria de estilo e no que se refere à disposição do romance na literatura brasileira contemporânea, qual é a surpresa que nos reserva para o futuro?
- Elabora, apenas vagamente, um novo trabalho.

                                O MODERNO MOVIMENTO LITERÁRIO ITALIANO

Pedi então à escritora que me dissesse alguma coisa sobre o que tem observado na Itália, com relação ao movimento literário. Se notara algo que viesse a reforçar a opinião de alguns escritores patrícios de que o mundo de após-guerra nos reserva grandes surpresas no mundo das letras.
Eis a sua cautelosa resposta:

- Lamento não poder dar muitas informações sobre a situação literária na Itália e na Europa em geral, o que certamente mais interessa a qualquer leitor. Todo o ambiente durante esse meu ano de Itália tendo sido de guerra, e eu mesmo estando afastada dos meios literários, torna-se difícil dar-lhe noções mais precisas sobre o que acontece nesse setor. Depois de responder às suas perguntas conversei com várias pessoas autorizadas que concordaram com as minhas impressões.

E reafirmou:

- Não tendo estado em contato com escritores de um modo geral, o é difícil dada a perturbação do momento, chegar a uma conclusão. Editam-se aqui muito livros antigos, fazem-se inúmeras traduções da melhor qualidade. Quanto a um movimento literário italiano, parece-me que há um interesse especial pelo romance social; é do que se ocupam os mais jovens. Mesmo durante o fascismo havia essa tendência, velada, nos romances, o que a censura permitia por não compreender. Agora mesmo o romancista Ignazio Silone, que esteve fora da Itália durante anos e cujos livros eram desconhecidos pelos italianos por ordem fascista, está tendo sucesso e despertando simpatia sobretudo pela intenção boa, política e social. Em relação a uma surpresa literária no mundo de após-guerra, nada notei que me fizesse esperá-la; essa surpresa virá amanhã ou daqui a cem anos. È provável que venha amanhã, não sei.


                                                             A CRÍTICA EUROPÉIA

Tem ouvido falar de algum escritor novo que, no momento, esteja despertando a atenção da crítica europeia?
- A crítica europeia esteve tão regular e congestionada como a vida europeia. Mal acabou a guerra, e o último tiro de canhão infelizmente não pôs a funcionar todas as delícias da paz. Lêm-se muitos poetas franceses da resistência, que também são conhecidos no Brasil; as poesias deles estão espalhadas em revistas e jornais, creio por toda a Europa. Não falando dos novos, um novo que cada vez mais ganha em evidência e importância é o de Jean Paul Sartre, que tem escrito para o teatro e vai se ocupar do cinema também.



                                                O BRASIL E O APÓS-GUERRA LITERÁRIO

A meu ver a guerra não terminou, muito ao contrário, atingiu agora o seu clímax, que terá de ser resolvido não pela força das armas, mas pela conjugação de todos os recursos e reservas do espírito humano. Daí a ter proposto à Sra. Clarice Lispector a indagação:

O longo período de luta armada que finalizou terá influído decisivamente na literatura brasileira, abrindo-lhe novos horizontes?
- Naturalmente a guerra terá influência na literatura brasileira, como em todas. Revelaram-se várias realidades, criaram-se muitas novas. Desses dois fatos e da consciência deles podem nascer novos rumos. Que se tomou consciência da situação prova a atitude dos escritores do Brasil e o movimento da imprensa em geral.

                                                           O FUTURO NAS LETRAS

A referência da entrevistada ao “Interesse especial pelo romance social” veio demonstrar ser oportuna a minha curiosidade sobre se estava de acordo com a corrente que vaticina o ressurgimento do romantismo, e, neste caso, qual seria o destino da literatura social? Desapareceria? Tomaria novos rumos? Impor-se-ia demais?

Clarice Lispector aquiesceu em opinar a respeito.

- Não creio – disse ela – que a chamada literatura social desapareça, exatamente no instante em que a questão social está em vias de se resolver e de tomar algum rumo aberto. E naturalmente ela poderá coexistir com qualquer outra corrente literária. Não sei se ressurgirá o romantismo. É possível que venha uma literatura de intimidade porque numa realidade de mundo quase igual para todo o movimento, seja em direção ao recolhimento, que teria como sempre o valor de uma descoberta para o escritor. Quem sabe também o problema social entre nas pessoas com tal realidade que elas escrevem sobre ele como escrevem sobre o único tema possível durante algum tempo, e nascem bons livros. Quem sabe, o que mudará é a forma, e os temas não tenham importância por algum tempo. Quem sabe, afinal, tudo isso suceda e coexista e dê uma nova combinação e uma nova liberdade, uma liberdade que penetre no quarto onde as pessoas trabalham. O que dessa liberdade resultará não sei prever.


domingo, 20 de maio de 2012

The Smiths no vão do MASP



Na tarde outonal de domingo reina o afundar calçadas pelas cidades. As pessoas caminham devagar, não há pressa e a Paulista abandona seu destino de centro financeiro pra ser do povo. Ao afundar as calçadas da avenida, o acaso me leva a um encontro bem num dos cartões postais da cidade, o MASP. A tarde vai pelo meio e os expositores da feira de antiguidades tradicional de todo domingo ali já retiram suas mercadorias. Há um povo lá no fundo, ali no vão do MASP, uma garotada que veste preto, e um som discreto que não identifico. Vou me aproximando e de repente o susto: tem um cara ali pelos 20 anos cantando. Veste camisa azul, jeans surrados, sapato preto, usa topetes e óculos de armação preta. “É o Morrissey”, me pego dizendo pra mim mesmo. E não é que era?


Em volta, umas 100 pessoas, todas bem jovens, algumas vestem camisetas do Morrissey, outras de Joy Division, várias fotografam. É como se eu estivesse em Londres nos anos 80 numa apresentação surpresa do The Smiths (e eu nunca vi The Smiths ao vivo). A cada acorde de canção – só os hits – me pego tocado. Olha que não sou de bandas covers, muito pelo contrário. Talvez o quase cinza da tarde, o inusitado da coisa e tom de descompromisso tenham contribuído para essa espécie de Peggy Sue, a tal volta ao passado que ali vivia, embalado por Heaven Knows I´m Misearable Know, I´m Sorry, This Charming Man, Some Girls Are Bigger Than Others.



Atrás de informações, vou até uma garota com máquina fotográfica que veste a camiseta Morrissey mais linda do pedaço e ela me dá um cartãozinho da Panic The Smiths Cover. O show continua, alguns gritos de Viva Morrissey e aquelas canções, aquelas. Som meio precário e eles avisam que vão tocar até a bateria acabar. Lá pelas tantas, o Morrissey da hora, faz charme: “será que vocês conhecem essa?” e There is a Light That Never Goes Out surge iluminada como sempre. Decido ir embora assim que a canção acabar pra não quebrar o encanto. Não precisou. O show acabou com ela e parabéns pro Morrissey que faz aniversário na terça. Vim caminhando pra casa devagarinho, tocado como se tivesse saído de um show do Smiths. Então a banda cover é boa? Ah, sei lá. Pra mim, naquele momento era como se nem cover fosse. Dez mil vezes Panic The Smiths Cover que Wagner Moura interpretando Renato Russo ao lado dos caras que foram da Legião Urbana e com ingressos a 200 paus.

Abaixo, o link com o site do Panic The Smiths Cover. Tem vários vídeos, mas ainda não vi nenhum pra preservar o “ao vivo” de ainda há pouco.





quinta-feira, 17 de maio de 2012

A cinderela das discotecas


Houve uma vez um produtor alemão chamado Giorgio Moroder, mago dos sintetizadores e um dos inventores daquilo que viria a ser conhecido por música eletrônica. Foi ele quem, na metade dos anos 70, lançou Donna Summer. Com estardalhaço, Love to Love you Baby (e depois I Feel Love) tomou conta das rádio e das pistas de dança – ainda não se falava em discotecas. E provocou um escândalo semelhante a Je t´aime moi non plus, de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, anos antes. A ousadia eram os gemidos de prazer de Donna. Quantas vezes ela “gozava” durante a canção? Pronto, nascia a lenda. Claro que não faltou quem dissesse que era fogo passageiro, cantora de um hit só. 

Negra e linda, as capas dos discos de Donna Summer despertavam fantasias. Um dos mais louvados é Four Seasons que tem ela brincando com a imagem de Marilyn Monroe. Logo foi transformada em diva gay.

Longe do produtor midas ela surprendeu com o duplo Once Upon a Time (1977), a história da cinderela em tempos de discoteca e com todas as faixas assinadas por ela. Donna Summer virou o nome quente da música no final dos 70, superando Dionne Warwick, Diana Ross e companhia. Chegou a lançar três discos duplos em menos de dois anos. Vendeu milhões de discos, estrelou filmes e ganhou o Oscar de melhor canção para Moroder com Last Dance, tema de Até Que Enfim é Sexta-Feira. Morreu hoje, ainda nova, aos 63 anos, de câncer e enquanto preparava um disco novo. 



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