sábado, 31 de julho de 2010

Primeiro Amor Eterno e Último


Revista exerce um fascínio em mim, mas um fascínio - e se for antiga então... Meu café de quase todo sábado no final da manhã tem algumas Cruzeiro e Manchete que despertam meu instinto furto, mas só em pensamento. Uma delas me é especialmente apetitosa: Uma Claudia do início dos 60 com matéria sobre o “primeiro amor”. Bom, não é apenas uma reportagem é quase um tratado sobre o tema, escrita em primeira pessoa, num tom deliciosamente confidencial – o título é aquele lá de cima: Primeiro Amor Eterno e Último. Será? Será? E olha só quem foi chamado pra opinar: Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Jorge Amado e Stanislaw Ponte Preta – sim, os tempos eram outros.


Descobri essa Claudia há uns dois anos e, feito um santo, resisti bravamente à tentação de surrupiá-la, copiei trechos dos depoimentos no meu caderno de anotações, fiz tudo certinho. Depois, ela sumiu das prateleiras do café, durante bons meses. Faz pouco, retornou e hoje tomei uma atitude: eu não poderia mais continuar sem aquela relíquia. Não, nem pense em acionar o disque denúncia que o caso não é de furto, nem de um simples roubo. Simplesmente pedi pra xerocar aquelas cinco páginas e ouvi um “não pode” da garota do café. Insisti insisti, argumentei argumentei e já estava a ponto de implorar qdo uma outra atendente veio em meu socorro: “pode levar”. Quase gritei de felicidade, mas me contive e, segurando aquele tesouro com extremo cuidado, fui atrás de uma copiadora. As cinco páginas encantadoras estão aqui comigo, acabei de ler tudo e bem devagar e a matéria é mesmo uma delícia. A revista está lá no café, pronta para ser apreciada por outros olhos curiosos e a moça simpática que satisfez meu desejo ganhou bombons e talvez nem tenha a idéia de quanto fez o meu sábado mais feliz.


Eis um trecho da matéria assinada por Thomaz Souto Correa que, descobri agora, estava na Claudia fazia pouco mais de um ano. Era o começo da carreira do homem que tem história como revisteiro:

“Gente que, da vida, cria uma outra vida, opina sobre o primeiro amor. Nelson Rodrigues, por exemplo, parou um instante na redação do jornal em que trabalha, tirou uma baforada do cigarro, e foi taxativo: “Só existe o primeiro amor. Primeiro, único e último”. E tem mais: “Quando o amor acaba, é porque não era amor”. Jorge Amado botou papel na máquina para acentuar, acima de tudo, “o fato em si do primeiro amor, a emoção nova e maior de todas”. Clarice Lispector foi a única a não considerar o primeiro amor como amor mesmo. “Primeiro amor”, disse ela, é o ensaio do amor que se vai ter um dia. Uma promessa. Raramente pode ser amor mesmo, é apenas uma pequena amostra”. Enfim, Stanislaw Ponte Preta, citando Sergio Porto, estirado numa poltrona. Primeiro Amor? Stanislaw sorriu: “São todos, pois só há um amor no duro. É amor mesmo”. E amor mesmo, o que é? “Amor mesmo é um sentimento único e indivisível que o amante sai por aí dividindo indevidamente”. Quatro opiniões sobre o primeiro, quatro afirmações sobre o próprio, uma conclusão quase unânime sobre o último. Amor mesmo é aquele que permanece. Assim, talvez o primeiro seja o último.”

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