segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Uma visita a Mangueira de Cartola nos anos 40

Que tal um passeio pela Mangueira do começo dos anos 40, com Cartola mostrando como tudo funcionava? E o melhor, há um grito de carnaval à espera, com os compositores, as pastorinhas. Cartola, 33 anos, recebe o americano Aaron Copland, ciceroneado por Villa-Lobos. Não, nada de máquina de tempo. Quem conduz tudo é uma matéria incrível da Diretrizes, lendário jornal/revista de Samuel Wainer, publicada em novembro de 1941. Eram tempos onde se escrevia dança com s, coroa era gíria nova e "cai" era grafado com e, assim: "cae", tudo a ver com os tempos redes sociais. É uma beleza de matéria e traz a letra de um samba de Cartola em homenagem a Getúlio Vargas que não deve ter sido gravado - dei uma busca rápida e não achei referências. Boa leitura. A partir de agora é tudo da Diretrizes. Tudinho.

                                            Mister Copland caiu no samba

Cartola, cercado pelos companheiros, conta ao repórter as esperanças da escola de Mangueira no próximo carnaval. Villa-Lobos e Aaron Copland homenageiam um compositor: Cartola. Villa-Lobos está satisfeito com a recepção que foi proporcionada ao colega americano
O FAMOSO MÚSICO NORTE AMERICANO ASSISTIU AO GRITO DO CARNAVAL NA MANGUEIRA – O TELEGRAMA DE VILLA LOBOS – O POEMA DE ZÉ COM-FOME – CARTOLA E A ALA DOS COMPOSITORES – O CANTO SURPREENDE AO AUTOR DE “SALON MEXICO

Reportagem de Francisco de Assis Barbosa


Bate o tamborim. Ronca a cuíca. O surdo faz pum-pum, marcando a cadência. As vozes estridentes das pastorinhas saltam da única casa iluminada no morro. Misturam-se ao barulho das cuícas, dos tamborins, do surdo.

Meu primeiro amor
Não me olhes assim
Eu já te disse adeus
E os olhos teus

Não cansam de fitar os meus


A mangueira está em festa. À porta do barraco, muita gente ficou espiando o grito de carnaval da escola de samba Estação Primeira. O samba é quente e melancólico.

Fiz mal em te dar o meu amor
Você não merece e não sabe dar
                                              valor
Pensavas que ias me trair
Os prantos que eu derramava
Eram sempre a sorrir...

As vozes morenas cortam a noite.

Os prantos que eu derramavaEram sempre a sorrir...

Cartola e outros rapazes da ala dos compositores da escola de samba Estação Primeira desceram para receber Villa-Lobos, que anunciara a sua visita com um telegrama. Logo depois chegavam os automóveis da comitiva do maestro brasileiro que convidara Aaron Copland e a reportagem de DIRETRIZES para uma audição no morro da Mangueira.


Cartola explicou: 

- Damos hoje o nosso grito de carnaval. A turma ainda não esquentou. Desculpe alguma coisa.
A música do morro parece encantar os ouvidos de Copland.

Os prantos que eu derramava

eram sempre a sorrir...



O CANTO SURPREENDE COPLAND

Genevieve é uma endiabrada fotógrafa
americana. Nem o ritmo excitante do
tamborim conseguiu afastá-la um minuto
sequer da máquina
A princípio, o barulho é infernal. Não se percebe uma palavra do canto estridente. Os tamborins batem com força. São quinze tamborins batendo na pequena sala enfeitada com papel crepom.

Os olhos azuis de Aaron Copland não perdem um só movimento das danças. Os passos são miúdos. E os bailarinos quase não movem os braços largados.
- Há um contraste entre a música e a dança – observa o músico norte americano. A melodia é forte e vibrante, ao passo que a dança é relaxada e lenta.

Na escola, a presença de Villa-Lobos e de Copland não faz diferença. Villa-Lobos chama o rapaz da cuíca.

- Eu não sei tocar direito...
- Não faz mal.
O instrumento delicia Copland. O americano quer saber tudo. Villa-Lobos conta-lhe que o samba na Mangueira é o mais puro, o mais autêntico.
- Interessante, diz Copland. A mim não me surpreendeu a música mas o canto. Esse mesmo tipo de ritmo eu já havia notado em todos os compositores brasileiros.

O repórter intervem:

- Em todos?
- Sim, em todos – responde Copland. Em todos que eu ouvi. Villa-Lobos, Gnatalli, Ovalle, Vianna, Cosme, Guarnieri, Mignone, Fernandes...

O QUE É UMA ESCOLA DE SAMBA
Deixo Copland e Villa-Lobos conversando na sala com Samuel Wainer. Num bar improvisado, encontro Cartola que me informa a organização da escola de dança.
- Somos uma sociedade. Cada sócio paga dois mil réis de mensalidade. A joia custa três mil réis. A escola funciona no tempo de carnaval. Em novembro, começam os ensaios. Hoje, como é o grito, as pastoras não são convidadas a comparecer. Mas de sábado em diante, a coisa é outra. Entram no regime da disciplina.

Pergunto sobre o número de sócios e Cartola me responde:

- Já tivemos duzentos. Hoje não chegamos a cento e vinte.

Dá uma explicação simples do fenômeno:

- Não vê que muita gente tem se mudado da Mangueira. Com essa história de se falar que a favela vai abaixo, o pessoal vai procurar outro pouso para morar. E assim o samba vai morrendo.

Faço que não entendo e a linguagem de Cartola então se torna mais clara e convincente:

- Acabando o morro, o samba também se acaba. E a gente, meu velho, aí vai ter que procurar outro divertimento.

O SAMBA DE ZÉ COM-FOME
Zé Com-Fome, poeta do morro, escreveu um samba bonito em louvor da Mangueira:

Mangueira
Foste tu sempre a primeira.
Quem se muda pra Mangueira,
É verdade,
Leva a vida cheia de felicidade.
Quem se muda de Mangueira
Tem saudade
Voltará ou mais cedo ou mais tarde.


No entanto, Zé Com-Fome se mudou. Mora no Meyer e nunca mais voltou a Mangueira. Peço a Cartola informações sobre a ala dos compositores da escola de samba. É quando o Crioulo (Adriano Gomes da Silva), um preto simpático com poletó de pijama azul, entra na conversa.
- Essa ala é um grupo de rapazes que gostam de fazer as suas bobagenzinhas, as suas coisinhas. Cartola é o nosso mestre.

De fato, a voz unânime é que Agenor de Oliveira, o Cartola, é o maior poeta e bailarino da Mangueira.

- A ala dos compositores, dizem-me, se reúne às 5ªs feiras. É quando nós discutimos os nossos pagodezinhos.
É engraçado ouvi-los falar assim das próprias composições, bobagenizinhas, pagodezinhos...

MAIS IMPRESSÕES DE COPLAND
Tenho que voltar a Copland, que está sentado a ouvir atentamente a melodia patriótica de um poeta chamado Geraldo Diniz.

Ó meu Brasil,
É você sempre altaneiro.
Orgulha-me em ser brasileiro.
Sinto imenso prazer.
És varonil
E tens tudo de riqueza
Quem deu foi a Natureza
Só por você merecer.


Mas Aaron Copland não quer se incomodar com a letra. Está com atenção fincada nos pandeiros e nos tamborins.
- Os negros da América do Norte cantam diferente. É muitíssimo curioso.
Dois cantores se aproximam em homenagem a Copland e a Villa-Lobos.

És varonil

E tens tudo de riqueza
Quem deu foi a Natureza
Só por você merecer, 
Ó meu Brasil...

Quando a música termina, Aaron Copland diz com espontaneidade:
- Eu me esqueci de que isso poderia acabar...

Uma visão a lápis do samba

UM JAZZ PRIMITIVO
O músico norte americano quer saber tudo. Desce comigo ao salão de danças, ao lado da escola. A orquestra toca uma caricatura de Fox-blues. Os pares são muitos e enchem toda a sala. Copland olha, com a sua curiosidade sempre alerta.
Aproxima-se do jazz. Observa longamente os músicos tocando. O homem do piston, o do trombone, o da bateria. Olha, depois, os pares rodopiando com lentidão.
O calor cresceu ali.
Aaron Copland está sério e atento. O ar é pesado e o barulho da orquestra e dos pés se arrastando não deixa conversar. Copland esperou a música acabar e foi saindo devagar.

Comenta, à porta, risonho:

- É um jazz bastante primitivo, não acha?
E logo depois faz-me notar o seguinte:
- Eles dançam com muita distinção. Não há nada de sensual. Os negros norte americanos são selvagens quando dançam o Fox. Os do Brasil são mansos e respeitosos.

HOMENAGEM AOS POETAS
De novo na escola de samba. Há na parede um retrato a mais. É o de Villa-Lobos, a quem a diretoria presta uma homenagem simpática. As pastorinhas estão cantando agora um samba de Carlos Moreira, outro grande poeta da Mangueira, cujo retrato também figura na sala.

Recordar Castro Alves
Olavo Bilac, Gonçalves Dias,
E outros imortais
Que glorificam nossas poesias
Quando eles escreveram
Matizando amores
Poemas cantaram
Mas talvez nunca pensaram
Ouvir os seu nomes
No samba algum dia.


Essa música se chama “Homenagem aos Poetas”. Cartola me conta que outros quadros não foram colocados hoje, na sala de ensaios.

- Retratos de quem?

- De Castro Alves, Gonçalves Dias, Humberto de Campos, Catulo da Paixão Cearense, Olavo Bilac...



AARON COPLAND CAI NO SAMBA
As pastorinhas vão e veem mexendo as ancas. Os cavalheiros dançam também, com os pés agilíssimos. E entre eles está Paulo da Portella, o famoso sambista. Dança que é uma beleza. Faz umas visagens que outros não conseguem fazer.
O samba confraterniza, vem um faz sinal a Aaron Copland e o autor de “Salon Mexico” não foge ao convite. Dança também.
Copland está gostando da música. Cantarola quando o batuque termina. E eu pergunto a ele se escreverá música com motivos brasileiros, como fez com os temas colhidos no México.
- Ainda não sei. Estive três meses seguidos no México. A minha rápida permanência no Brasil não me permite responder-lhe afirmativamente. Só mesmo nos Estados Unidos, com mais vagar, é que poderei sentir e compreender melhor esses ritmos, que são aliás interessantíssimos. E por isso mesmo um verdadeiro desafio para o musicista.

UM SAMBA DE CARTOLA
Villa-Lobos chama-me ao bar:
- Olhe, o Cartola está aí com um samba notável que você precisa ouvir.

- Pois não.
- É em homenagem ao presidente Getlio Vargas, adianta o poeta, que não deixa fugir a oportunidade e se põe a cantar:

Brasil, Brasil,
No progresso que vais
Muito breve serás
A potência universal

Brasil, Brasil
Minha pátria altaneira
És para mim a primeira
E não vejo outra igual.
Brasil, Brasil
Enviado por Deus
Veio um dos filhos teus
E do mal te salvou


Brasil, Brasil
Em tuas páginas de história
Teus filhos gravaram
Mais dez anos de glória.
O teu chefe é um talento
Não descansa um momento
Quer te ver progredir
Coração magnânimo
Enche-nos de ânimo
Para a luta prosseguir.
Delirando orgulhoso
Com seus feitos famosos
Quero alto gritar
Gravem em vossas memórias
Dez anos de glória.


Cuicas, pandeiros e tamborins. O samba chega ao auge. Mister Copland, quase impassível, assiste, até o momento em que o samba também o arrasta para roda

ORGIA É MATO NA MANGUEIRA
Pedro Palheta não é poeta:
- Não tenho coro não senhor. Só se quiser tirar das minhas costas...
E conta ao repórter:
- Escute, meu compadre, já dobrei os quarenta. Hoje sou uma coroa mas a memória ainda trabalha.
Fico sabendo que o rapaz novo se chama estrela. Coroa, como o leitor decerto percebeu, é quem vai ficando maduro.

Cartola me fala das suas músicas:

- “Divina Dama”, “Fita meus Olhos”, “Não faz amor” e muitas outras. Tenho os meus negócios com o Chico Alves que sempre me pagou direitinho e coloca o meu nome nas músicas. “Divina Dama” foi assim. Lá está: música de Agenor de Oliveira. “Não faz amor” foi gravado pela Carmen Miranda, no tempo em que ela estava começando. Não era a Carmen Miranda falada, mas uma pilantra muito errada, aliás.

Crioulo chega perto de mim e diz:

- O senhor quer saber de uma coisa. Aqui, em Mangueira, orgia é mato. Nasce e cresce sozinha. E olhe, meu companheiro, mato é coisa que não falta por aqui.

FINAL DA NOITE
Aaron Copland não fuma e não bebe. Toma água mineiral com sua cara muito parecida com a de Manuel Bandeira:
- Todos me dizem a mesma coisa. Deve ser verdade. E é uma grande honra para mim...
Villa-Lobos desce o morro e esclarece a Copland que o samba carnavalesco não tem o mesmo sabor e a mesma originalidade dos sambas das escolas de samba.
Aaron Copland não esconde a satisfação que teve em descobrir algo novo:
- Não há dúvida, estou gostando muito do samba.
Villa-Lobos leva Copland para o hotel no seu vastíssimo Dodge de sete lugares. Lá em cima do morro, as pastorinhas continuam a cantar:

Mangueira,
Foste tu sempre a primeira.
Quem se muda pra Mangueira,
É verdade,
Leva a vida cheia de felicidade.
Quem se muda de Mangueira
Tem saudade
Voltará ou mais cedo ou mais tarde.


Aaron Copland, no automóvel, fala-nos da semelhança que encontrou entre a música brasileira e a cubana:
- Os ritmos são muito parecidos e eu estou convencido de existir uma relação entre uma e outra música. O canto porém é diferente. A melodia brasileira é mais forte, mais vibrante, mais selvagem.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Havia uma árvore no meio da calçada kabbalah


Na semana passada
Havia a árvore acima, coitada dela, plantada no meio da calçada da alameda Itu, bem em frente à Kabbalah Centre do Brasil. Isso foi semana passada e registrei aqui

A boa notícia é que desistiram da idéia, ouviram o bom senso e deixaram a calçada livre para pedestres, como deve ser. Bom, livre é meio exagero com tantos vasos e bancos no meio do caminho, mas sem a pobre árvore aprisionada irregularmente no meio da calçada já fica melhor.

Hoje







segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Mabel, um retrato íntimo da mana de Caetano e Bethânia

Dona Canô e Mabel em cena do documentário
Vários são os documentários sobre Caetano Veloso e Maria Bethânia, que devem ser os mais retratados da música brasileira. Devo ter visto todos e também li muito sobre os dois. Semana passada assisti Mabel, documentário de Margarida Mamede, que estreou no Canal Brasil, e entrei em contato com revelações inéditas (pra mim) sobre aquela família. Poetisa e educadora, Mabel é a terceira dos Velloso e chegou depois de Nicinha (adotada) e Clara. A família esperava um menino e a vinda de Maria Isabel foi uma “decepção”. Para falar de Mabel, surgem no vídeo os manos famosos e mais Clara, Rodrigo, Roberto e Irene – Nicinha já havia morrido nas filmagens – e também filhos, netos, amigos (Gilberto Gil, entre eles) e ex-alunos. Mabel lembra fisicamente a mãe que aparece em algumas cenas bem caseiras – dona Canô morreu no natal de 2012, enquanto o documentário era realizado. Em uma das sequências, Mabel mostra a sala de santos da mãe.

“A gente cresceu vendo minha mãe cantar e meu pai assoviar e dizer poemas”, diz Mabel. O pai José, que assoviava os dobrados das bandas de música, ninava os filhos andando de um lado para outro de um “corredor imenso”, recitando poemas – não apenas de amor, mas os que lhe vinham à cabeça. Mabel exibe com carinho um caderno com poemas copiados pelo pai, a quem era muito ligada. Oito anos mais velha que Caetano e doze que Bethânia, Mabel revela muito da família antes da chegada dos irmãos . O sobrado em frente, do seo Edgar, o telhado de Adal, a vó paterna que parecia enorme, a vó materna “muito magra, miúda, mas muito ligada”, a tia Ju, irmã do pai e madrinha, que ajudava o pai telegrafista a sustentar os filhos, a “tia de posses” que era casada com o padrinho de Clara, a prima Lindaura primeira a prestar atenção no que ela escrevia.

Uma das histórias mais deliciosas é o berço que o avô mandou fazer para presentear Clara, a primogenita de Seo Zezinho e dona Canô. Esse berço passou para Mabel, para Rodrigo (apenas 11 meses mais novo que a irmã), para Roberto, Irene, Caetano e Bethânia. “A heriditariedade bonita que era dormir no berço de Clara”, diz Mabel. Clara, a mais velha tinha cabelos lisos e louros e Mabel, como todas as meninas de Santo Amaro, era morena e de cabelos encaracolados. Nas rua, todos elogiavam Clara e a menor se sentia rejeitada. Mabel conta essas histórias de um jeito bem dramático e o irmão Rodrigo, com o maior bom humor, lembra o apelido familiar da mana: Carmelita Tragédia.

“Quando eu era menino, Mabel era minha irmã favorita. Olhava para ela com identificação, admiração, inteligente, interessada em assuntos da mente”, diz Caetano que a eternizou na memoralística Genipapo Absoluto: “promessa, poesia, Mabel”. A irmã e Toninho Mesquita namoravam no corredor, falavam muito de poesia, literatura e o garoto Caetano gostava de ficar perto. “Minha irmã, minha comadre, mãe de leite”, diz Maria Bethânia.

As poesias de Mabel (“a felicidade não é hereditária”) vão costurando histórias saborosas. E mais pro final, entra em cena a professora, que por 40 anos ensinou em colégios de Santo Amaro da Purificação e Salvador. Em uma cena comovente que parece saída dos documentários de Eduardo Coutinho, a ex-aluna Amélia Passos, recita um poema imenso que aprendeu com a professora. Sem truques de montagem, baseado apenas em depoimentos, o documentário Mabel revela com sensibilidade e poesia o “bairro da saudade” (passado), de uma mulher encantadora, que completou 80 anos em fevereiro.

O documentário Mabel está sendo exibido pelo Canal Brasil e também está disponível no youtube.



E aqui, Genipapo Absoluto, a canção de Caetano em que Mabel é citada

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Bogart e Bacall em 5 atos e por ela

Casal lendário dos anos dourados de Hollywood, Humphrey Bogart e Lauren Bacall viveram 12 anos juntos, até a morte dele, em 1957, depois de longa enfermidade. Quando se conheceram, Bogart tinha 44 anos e era um astro. A modelo Lauren, 19, iniciava no cinema ao lado dele em Uma Aventura na Martinica, onde tudo começou. Abaixo, o romance dos dois, em cinco atos, e nas palavras de Lauren na autobiografia Bacall Fenomenal, lançada em 1978. Lauren Bacall morreu na terça, 12 de agosto, aos 89 anos.

Casablanca


Numa manhã de sábado de 1942 Mamãe e Rosalie me levaram ao Cinema Capitólio para assistir a um filme intitulado Casablanca. Todas gostamos muito do filme e Rosalie ficou louca por Humphrey Bogart. Achei-o muito bem no papel – mas louca por ele? Absolutamente não. Rosalie julgava-o sexy; eu o julgava maluco. Mamãe gostou dele, embora não tanto quanto de Chester Morris, que ela realmente achava sexy, ou de Ricardo Cortez, que ocupava o segundo lugar de sua preferência. Eu não conseguia entender a opinião de Rosalie. Bogart nem mesmo se assemelhava a Leslie Howard. De forma alguma. Vejam só como eu pensava naquela época.

Apresentação
Certo dia, antes do final do ano (1943), Howard Hawks me chamou à Warner Brothers. (...) Ele adquirira os direitos de filmagem de um livro de Hemingway, no qual eu nunca ouvira falar, intitulado To Have and Have Not (Uma Aventura na Martinica). Na ocasião Bogart estava trabalhando num filme chamado Passage to Marseille (Passagem Para Marselha). “- Vamos dar um pulo até o set e ver como estão as coisas” – sugeriu Howard. (...) O palco de som para a filmagem de Passage to Marseille era enorme e vazio. Howard conduziu-me a um local onde o cenário fora montado e os técnicos experimentavam a iluminação da cena seguinte. Michèle Morgan estava sentada num banco, no cenário. Howard mandou-me esperar ali, dizendo que voltaria logo. E voltou – em companhia de Bogart. Apresentou-nos. Não houve raios ou trovões. Apenas “olá, como vai?”. Bogart era mais franzino do que eu imaginara – um metro e setenta e pouco de altura – e usava as roupas do filme: calças largas, camisa de algodão, um lenço no pescoço. Nada de importante foi dito – demoramos pouco no set – mas ele me pareceu um homem amável.



Primeiro beijo
Uma Aventura na Martinica
Não sei como aconteceu, pois foi quase imperceptível. Estávamos filmando (Uma Aventura na Martinica) há quase três semanas; no final do dia eu ainda tinha que fazer mais uma tomada e estava sentada à penteadeira do camarim, penteando o cabelo, quando Bogie entrou pra se despedir. Parou atrás de mim. Brincávamos, como de costume. Então ele se inclinou repentinamente, colocou a mão embaixo do meu queixo e me beijou. Foi um gesto impulsivo, pois ele era um tanto tímido. Não era uma tática de conquistador atrevido. Em seguida tirou do bolso uma caixa de fósforos e pediu-me que escrevesse meu telefone nas costas. Escrevi. Não sei exatamente porque o fiz; creio que fazia parte de nosso jogo. Bogie era por demais meticuloso em termos de vida pessoal; tinha fama de não se envolver com mulheres, quer no trabalho ou fora dele. Não era do tipo Don Juan, e além disso era casado com uma mulher famosa por beber demais e criar arruaças. Uma “durona”, capaz de agredir as rivais imaginárias com um cinzeiro, um abajur, ou qualquer outro objeto que estivesse a seu alcance.
(...)
Ao terminar o trabalho no dia em que dei meu telefone a Bogie voltei para casa, seguindo a rotina: após comer alguma coisa li o texto que deveria filmar no dia seguinte e fui para a cama. Por volta das onze o telefone tocou. Era Bogie. Tomara alguns drinques, ainda não voltara para casa e desejava saber como eu estava. Chamou-me de Slim e eu o tratei de Steve, como no filme. Fizemos algumas piadas e afinal ele se despediu, dizendo que me encontraria no estúdio, na manhã seguinte. Isso foi tudo – mas o fato é que nosso relacionamento mudou a partir daquele momento. Ele me levou várias vezes para almoçar no Lakeside Golf Club. Passamos a conversar no meu camarim – ou no dele – com a porta aberta, descobrindo coisas a respeito um do outro. Quando ele jogava xadrez com alguém no set – era um ótimo jogador – eu assistia, postando-me perto dele. A aproximação física se tornou cada vez mais importante. Mesmo assim continuamos a levar as coisas na base da pilhéria.

Vida normal
Na época, éramos um casal feliz, com fama e fortuna. Jamais conheci alguém que pudesse ameaçar nosso casamento. Quando eu, por acaso, flertava inofensivamente, estava apenas fazendo o que sempre fizera quando mais jovem. Tornávamo-nos um casal cada vez mais popular; espalhou-se a notícia de que o lar dos Bogart era muito divertido. Todos queriam ser convidados para nossas festas de Natal, e no ano em que Steve nasceu inaugurei mais uma tradição: nossa festa de aniversário de casamento. Era um divertimento total: o tempo estava sempre quente, as mulheres muito bonitas, as plantas sempre florindo. (...)


O Fim
Naquele período tínhamos duas enfermeiras. Quando a dor piorava, o médico receitava algo; não sei bem o que era – morfina? Áquela altura Bogie estava tão magro que cada injeção lhe deixava uma marca; as regiões limpas se tornavam cada vez menores. Uma tarde, ele saiu da cama e moveu a cadeira de rodas até a espriguiçadeira, vestindo apenas a parte superior do pijama. Sua vontade de viver era tão forte que ela conseguia obrigar o corpo a fazer coisas de que já não era capaz. Bogie era apenas pele e osso; não sei como pôde levantar-se – vê-lo fazer tamanho esforço foi algo terrível, de partir o coração.


(...)

É realmente extraordinário que Bogie jamais me tenha dito algo em termos de “Se algo acontecer comigo... Quando... Eu sei que...” Continuamos a nos comportar como se a moléstia não passasse de uma gripe forte. Bogie estabeleceu o ritmo e sua atitude me obrigava a acompanhá-lo. Certa vez, ele me disse: “Se você estiver bem, eu também estou; quando você se perturba, eu também fico perturbado”. Portanto, só me restava ficar bem.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O atentado urbano do Kabbalah Centre

árvore no meio da calçada da Itu
“Kabbalah é uma sabedoria milenar que revela como o Universo e a vida funcionam. No sentido literal, a palavra aramaica Kabbalah significa “receber”, logo, trata-se da ciência que ensina como alcançar plenitude na vida”, diz o site do Kabbalah Centre.  Mas quem passa na frente do Kabbalah, na alameda Itu entre a Consolação e Melo Alves, vê o universo e a vida funcionando de forma estranha. Além dos vasos, floreiras e bancos que povoam a estreita calçada do Kabbalah, agora resolveram plantar uma árvore no meio da calçada, com proteção e tudo. Repito: plantaram uma árvore no meio da calçada, o que torna transitar por ali uma experiência quase labiríntica. Bom, de repente, é “uma árvore milenar”, mas mesmo assim: plantar árvore na calçada é feio, não pode.
os vasos, floreiras e bancos
Para “alcançar plenitude na vida”, penso eu, deve-se respeitar o patrimônio pública. E calçadas são públicas, para que pessoas circulem da melhor maneira possível e não para abrigar vasos, floreiras e bancos. Esse atentado urbano cometido pelo Kabbalah Centre vai contra a sabedoria milenar que eles propagam. Alô, prefeitura, o Kabbalah Centre se apossa a cada dia dos poucos metros de calçada pública. Pode isso?
Fachada do Kabbalah Center

Aqui, o site do Kabbalah Centre SP
http://www.kabbalahcentre.com.br/

Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...