terça-feira, 29 de setembro de 2015

Pepe, El Guia: raridades de Clarice Lispector

Em 1947, Clarice Lispector morava em Berna e foi com o marido para a Espanha. Nesta crônica, publicada em O Cruzeiro, no começo de 1950 quando passou um período no Brasil, ela escreve sobre a viagem a partir das lembranças de Pepe, o guia que os acompanhou em Córdoba. Foi publicada com o título de Um Homem Espanhol na primeira edição de A  Legião Estrangeira (1964),, numa parte de escritos curtos chamada Fundo da Gaveta. 

                                          Pepe, el Guia

Não era Pepe apenas, não era guia apenas. No calor do verão, o rosto entumescido por um álcool que mal se evaporava era substituído por outro, o homem parou numa ruela branca e sombria de Córdoba, olhou-nos e disse lento:

- Ustedes no tienen un guia. Ustedes tienen Pepe el Guia!

Paramos emocionados diante do que deveria ser uma coincidência singular. Qual? apenas uma coincidência. Pepe el Guia imobilizara-se com os olhos úmidos de emoção, de vinho, de calor e de desespero. Devia ser extraordinário e pesado ser – Pepe el Guia! Ainda parado, o rosto escorrendo suor, a infalível roupa escura da elegância – mais um momento e tornar-se-ia extraordinário não só ser Pepe el Guia como uma pessoa ser ela mesma, como ser espanhol entre tantas possibilidades, estar sob o alto céu azul de Córdoba quando também existe Londres, e Córdoba existir neste mundo: o milagre passou por nós em fraca brisa. Em torno, a cidade se estendia doce e quente, insuportavelmente doce, cheia de cegos indecisos e de mulheres mais indecisas ainda. Havia no entanto uma aspereza. Aonde estaria? talvez nos sonhos destemidos dos homens que sonolentavam às portas dos cafés, talvez nessa vontade de escapar que se adivinhava, como uma emboscada, na calmaria. Cidade perigosa, esta. E no meio da devastação do calor, no meio da estranheza, erguia-se o nosso homem, embriagado com sua própria altura: soy Pepe el Guia! repetiu de braços abertos. Como se este personagem fosse uma abstração preexistente, e um homem, um simples pepe, um simples guia, neste símbolo se tivesse encarnado. Diante de nossa mudez e de nosso respeito, confortou-nos: “pero ustedes tienen un amigo en Pepe el Guia”!

Mas por que dizê-lo com tristeza? Triste, valoroso, bêbado, a dominar melancolicamente castelos que só ele, e por um instante de graça, nós viamos nas casas baixas de Córdoba. Era um amigo, sim. Amizade de um momento, amizade paga, mas com todo o desespero da amizade: éramos amigos e, no entanto, que poderíamos dar um ao outro? Senão reconhecermo-nos.

Nós reconhecíamos nele Pepe el Guia, e ele em nós – aqueles que o reconheciam.

E que amigo sensível. Uma palavra descuidada ofendia-o, um gesto apenas esboçado de dúvida o feria – imediatamente recuava, dando espaço ao desembainhar da espada. Humildes e apressados, explicávamos a nossa pouca vontade de ofendê-lo, assegurávamos nossa confiança absoluta na sua sabedoria de vagas datas, onde histórias de mouros antigos se entrecruzavam com a de turistas ingleses, “amigos seus para sempre”. Dom Pepe examinava as desculpas antes de aceitá-las, hesitava longamente, ainda ameaçador. Nós aguardávamos ansiosos e na verdade bastante enojados. Afinal, num repente, reconciliava-se e prosseguia, ainda mais ardente na amizade fortificada.
Verdade é que de Córdoba soubemos pouco mais do que sabíamos, soubemos das noites cheirando a nardo e a jasmin, soubemos o que víamos e o que pressentíamos. Mas de Dom Pepe, sim, soubemos que não havia alma viva em Córdoba: Córdoba non: España! – que não o conhecesse e louvasse. España só? Não. Marrocos, Argel, Egito... Os estranhos comércios que este homem já fizera, trocando cavalos decerto alheios, comprando tâmaras e azeitonas – comércio da antiguidade, mais aventura que comércio, mais viagem que proveito, mais vida que dinheiro. E a família de Pepe? Não era somente a família que sua força havia criado e com que abundância, era também a família de seu irmão morto na guerra civil, era também a família de seu cunhado morto na Guerra Civil. Quem diz família diga três tribos que a sua generosa irresponsabilidade abrigava. E quem lê família que veja bando de mulheres curtas e doces abanando-se no pátio com os olhos entrefechados, que veja meninos e rapazes paralisados para o trabalho pela esperança de tourear, ou pela esperança: que veja as grandes comidas que são necessárias para alimentar tantos sonhos.

O que não impede que Dom Pepe por um triz não puxe a espada quando tentamos pagar um xerez especial que só Pepe el Guia conhece e oferece. Ofendido na sua raça, trêmulo no hábito secular da indignação – Ustedes me matan!

Pagamos o xerez, agradecemos-lhe a oportunidade de conhecer bebida tão rara que em qualquer botequim espanhol servem. Nosso amigo, ainda emocionado com o drama de uma amizade quase desfeita, em sinal de perdão e magnanimidade, diz que aceita mais dois “copitos” que, para a nossa confusão e vergonha, havíamos esquecido de lhe oferecer.

Revista O Cruzeiro, 18 de fevereiro de 1950



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