sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Cor e Destino


Meu 2009 foi regido por Caio Fernando Abreu. A leitura de Para sempre Teu Caio F, da Paula Dip – meu livro coração do ano - foi abrindo porteiras e os “acasos” se sucedendo numa série de Pequenas Epifanias que tanto me fizeram feliz.
Aqui vai um texto dele quase inédito. Foi publicado na revista HV, em setembro de 1987, nunca saiu em livro e quero que mais pessoas tenham acesso a ele. Ficaria imenso demais aqui e editei, mas quem quiser degustá-lo inteiro é só pedir.
Feliz Natal, Feliz Natal. Merecemos, como ele um dia escreveu.


Cor e Destino

Dei para pensar nas pessoas – não só nas pessoas, mas também nas situações, nas emoções – como tendo cores.

Acordar de manhã bem cedo, sair para a rua antes que as lojas se abram, com poucas pessoas e certa névoa no ar, para mim é indiscutivelmente branco.
São alaranjadas certas noites de energia solta no ar, na mesa de um bar ou assistindo a algum show.

São verde bem clarinho certas tardes, principalmente as de inverno, quando há sol e, de repente, as coisas meio que param, infinitamente calmas.

Há também momentos marrons: tentei trocar a fita corretiva desta máquina elétrica, coisa que nunca consigo fazer direito, embora consulte sempre as instruções.

Esperar horas numa fila de banco, tentar atravessar a Nove de Julho, em SP, para mim é completamente marrom.

Quando surge alguma irritação, então vira marrom riscado de vermelho.

Mas vermelho total só quando pinta ódio, vontade de gritar e bater. Filme de Stallone e Schwarzenegger é vermelho – nada a ver com a ideologia.

Tem também vozes, caras, pessoas. Suzanne Veja cantando Tom’s Diner é azul bem clarinho, azul-aquarela, meio transparente, quase branco.

Já Vida Bandida, com Lobão, pende mais para o bordô.

E Billie Holliday será sempre roxo, às vezes mais carregado, com a voz mais rouca das últimas gravações, às vezes absolutamente violeta.

A cara do Jânio Quadros varia do cinza-chumbo ao negro, mas a de Xuxa é enjoativamente rosa-choque, daquele que Jayne Mansfield adorava.

Destino também tem cores – não sei até que ponto você escolhe ou as coisas se armam e, quando se dá conta, a cor já está aí, definitiva.

Sarney, por exemplo, acho que escolheu ou foi vítima de um destino marrom. Pelo menos a sensação que ele me dá é a mesma de tentar atravessar aquele corredor de ônibus da 9 de Julho.

Aliás, políticos são quase sempre marrons.

Elba Ramalho – quer apostar? – é puro amarelo: amarelo-grito, amarelo-estridente.

Augusto de Campos me parece mais um destino azul-marinho, todo sóbrio.

Caetano Veloso, azul-claro, às vezes vermelho.
Lygia Fagundes Telles: puro bege.

Fico pensando em Ana, que já morreu. Ela tinha um destino não de uma, mas de todas as cores.

Quem me dera o meu, o seu, o nosso fossem assim também. Que marrom não há de ser, nem cinza-chumbo.

Eu daqui, vadiamente, sento e escrevo estes delírios.
Você daí, tão vadio quanto eu, pára e lê – deve haver alguma cor nisso. Espero que bem clarinha.

domingo, 30 de agosto de 2009

Notícias de uma planta

No começo de março, contei aqui a história de uma planta que, num domingo ensolarado e quente, foi tirada do convívio dos seus em um parque paulistano e veio morar comigo. Cinco meses depois, com o inverno em seus derradeiros suspiros e os pássaros já anunciando a chegada da primavera, volto a ela. Sim, está viva e feliz, não se preocupe. A nova é que deu frutos. Bom, melhor ir aos poucos.

Lá pelo fim de abril voltei ao tal parque e fui ver como estavam as parentas da planta. Que desolação, restava pouco sinal de vida naquela família verde e vermelha. Apenas uns três galinhos resistiam e nem pensei muito em trazê-los todos pra casa, tadinhos. Pois um deles se tornou a planta mais viçosa do meu jardim, sitiado em cima de uma mesa de madeira bem grande, pensada pra mesa de centro. Sem que demorasse muito, ela, que devia ter vocação pra modelo, foi se espichando (a foto tem alguns meses, ela tá o dobro) e em suas laterais gerando outras que volta e meia transporto pra novos vasos. O resultado é uma invasão dessa folhagem rajada de verde e vermelho colorindo minha casa.

E qual é o nome dela? Bom, somos velhos conhecidos, mas nunca soube. Hoje, lendo uma crônica de um escritor que eu adoro, o Caio Fernando Abreu, descobri pistas. O pai dele dizia que era tinhorão e ele preferia chamá-las de tigrina. Procurei tinhorão no google e realmente é bem parecida. Se não for, é uma variação. Mas pra mim, vai ser eternamente tigrinas, que “são ótimas, bem dispostas, saudáveis e parecem muito felizes”, na descrição do Caio. E minha família de tigrinas vindas de um certo parque é exatamente assim.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Nas pegadas

Gosto de seguir pessoas muito antes do Twitter. É bom explicar isso – e logo. Esse seguir tem a ver com encontrar gente que você admira e observá-las de longe, seguir seus passos por uns momentos. Dois escritores renderam momentos inesquecíveis.

O primeiro foi Mario Quintana que era figurinha fácil pelas ruas de Porto Alegre. Muitas vezes caminhei quadras e mais quadras atrás daquele velhinho incrivel, feliz por compartilhar do mesmo tempo e espaço com ele.

A outra é Lygia Fagundes Telles. Sempre tive vontade de tietá-la, mas até hoje faltou coragem, apesar de encontrá-la na rua algumas vezes. A inesquecível foi num sábado à tarde na Oscar Freire. Quase na esquina da Consolação, a avistei na metade do quarteirão. Lygia caminhava devagar, linda como sempre, e com uma sacola de livraria na mão. De repente um vendedor de balões passou por ela que se voltou e se deteve alguns minutos para observar os balões coloridos. Eu atravessei a rua e fiquei só olhando a cena, depois a segui um pouquinho.

E tem um seguimento internacional bem interessante, um astro de Hollywood, uau. Estava em Madri, na Gran Via, a Paulista de lá, com um amigo e de repente ele cochicha: Richard Gere. Olhei e disse que ele tava doido, pra perceber segundos depois que era mesmo o astro, vestindo jeans e camiseta branca e caminhando com um cara mais jovem que parecia ser seu segurança. Começamos a segui-los, mas um quarteirao depois eles devem ter percebido, olharam pra nós com cara de poucos amigos, sairam da avenida enorme e começaram a andar pelas ruas paralelas e menores.

Existem outros, mas esses três bastam pra exemplificar meu estilo following de observar.

domingo, 23 de agosto de 2009

Tudo Sobre Você

Primeiro veio a palavra, quando dezembro engatinhava e eu não esperava nada, nada. Achava que tinha tudo. Moleque, moleque de tudo.
Logo veio a voz, mas continuavam reinando firme as palavras, enquanto o ano agonizava.
Então entraram em cena sete ondas e uma só pra mim, repleta de todo amor que houver nessa vida.
Havia trabalho a ser feito, portas semi-abertas me aguardavam.
Veio a batucada, as palavras continuavam, vez em quando a voz, as portas quase se fecharam, mas restou uma fresta me aguardando, um dia, quem sabe, um dia.
Na dança do tempo era a vez de maio e nos últimos suspiros do mês das luzes oblíquas chegou a imagem – e de uma claridade absoluta.
As portas tinham se aberto. Agora era passar por elas, esquecer os medos, e aproveitar o que me aguardava.
Junto com o frio, veio o riso, continuaram os empates, a redescoberta do quão bom pode ser compartilhar.
Palavra, voz, imagem: como pode ser tão bom. Que os deuses sejam mesmo deuses. E eles tendem a ser. Axé!


sexta-feira, 17 de julho de 2009

Nas pegadas de Tânger

Gosto de imaginar uma cidade e ficar pirando nela. Sempre uma das tantas que meus pés nunca pisaram. Penso agora em Tânger, encravada entre o paraíso e o estreito de Gibraltar, que já me encanta pelo nome misterioso. O próximo passo é acionar o google mental, apenas o mental. Pronto: a referência um é Bob Dylan, em If You See Her Say Hello, um amor que acabou e alguém deve estar em “Tangier”. É de cortar o coração. Renato Russo regravou lindamente essa, apenas trocando o “her” do título por “him”.

Próxima parada: Paul Bowles, um escritor pra se apaixonar – comigo isso aconteceu. Na autobiografia Tantos Caminhos, ele conta como descobriu a cidade nos anos 40. Um de seus livros mais famosos, O Céu Que Nos Protege mostra os descaminhos de um atormentado casal pelo deserto. Bertolucci o filmou lindamente com participação luxuosa de Bowles. Eu vejo, vejo de novo, vejo mais uma vez e fico cada vez mais enlouquecido com a história e com Tânger, onde Paul Bowles morreu com quase 88 anos, em 1999.

Pra mim, o céu que nos protege, que título mais lindo, só pode ser o de Tânger. Agora, abandono o google da memória e vou pro virtual atrás de imagens da cidade que me encanta, com os versos de Dylan nos ouvidos “... she might be in Tangier”... “i know every scene by heart”.


sábado, 11 de julho de 2009

Quase amigo


Um amigo bem jovem assistiu Pode Ser Que Seja Só o Leiteiro Lá Fora e se encantou com o verbo de Caio Fernando Abreu. Ele ficou meio assim quando falei que conheci o cara, era meu vizinho, me abraçava quando cruzavamos na rua e eu gostava de observa-lo de longe a escolher cenouras no supermercado. Quase amigos fomos.


Faz doze anos que Caio F. morreu e continua firme nas mentes e corações juvenis. É só olhar o roteiro do jornal: dificilmente não tem peça baseada em seus escritos.


Na PUC de Porto Alegre dos anos 80, andávamos com um livro do Caio debaixo do braço. Quando mudei pra São Paulo, resolvi ligar. Ele foi gentil, agradeceu eu gostar dos seus livros e perguntou “como essa cidade tá te tratando?”. Voltei a ligar várias vezes e sempre ouvia a mesma pergunta.


Um dia, dei de cara com Caio na Augusta e me apresentei. Ele riu, me deu um abraço forte, conversamos, uma cena bem Caio F: dois forasteiros se encontram ao acaso na metrópole que os acolheu.


Um pouco antes de morrer, Caio veio a SP lançar Ovelhas Negras, na livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Fui, ganhei um autógrafo lindo, um abraço. Mais tarde, o vi com amigos numa mesa do Viena e fiquei alguns minutos a observá-lo à distância, como quando o via escolhendo cenouras no supermercado.


Lembro do Caio direto ao cruzar por alguns lugares muito ele: a Paulista tarde da noite, a Augusta lado centro ao anoitecer, o relógio no alto do conjunto nacional, o prédio da Hadock Lobo onde ele morou. E confesso: tenho uma certa inveja do meu jovem amigo que começa a descobrir o universo de Caio F.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Anjos e demônios de Lou Reed

Berlin, de Lou Red, deve ser um dos discos mais tristes já gravados – não por acaso encerra com uma canção chamada Sad Song. É de 1973, foi um fracasso de vendas, o tempo o transformou em obra prima e há muito frequenta minha galeria de favoritos. Volta e meia, aquelas canções sobre amor, perda e dor retornam a me inquietar. E quase sempre é como se as ouvisse pela primeira vez.
E não é que nessa noite quieta e fria elas estavam à minha espera de um jeito diferente. Ao acaso, assisti na tevê Berlin, um documentário que Julian Schnabel dirigiu a partir de shows que Lou Reed fez em Nova York, em 2006, com as canções do disco.

E o que fez Schnabel? Simplesmente filmou tudo sem a menor afetação e ilustrou aquelas canções maravilhosas com imagens que beiram o onírico. Quem assistiu O Escafândro e a Borboleta sabe que o diretor não é de brincar em serviço. Anjos, a atriz francesa Emanuelle Seigner transformada em Caroline e o melhor: Lou Reed ali, tomado por aquelas canções, exalando sinceridade a cada sílaba. E como atração extra, Anthony nos backings. Bem no finalzinho, Anthony, que é protegido de Lou Reed, solta aquela voz de anjo na clássica Candy Says, e seu corpo parece tremer a cada acorde. É de arrepiar. Ao final, Lou Reed olha pra ele com aquele cara de não tô acreditando (abaixo, o vídeo). Berlin, o filme, é obra-prima. E agora vi que existe em DVD – não descanso enquanto não comprar.

terça-feira, 9 de junho de 2009

O fim da espera

Tem certos discos que aguardo com ansiedade, com ansiedade juvenil. Foi assim com Pelo Sabor do Gesto, da Zélia Duncan. E não me faltavam motivos. Pra começar, faz um bom tempo que ela é uma das cantautoras mais interessantes. A moça é ousada, cerca seus discos de um cuidado especial e não grava por gravar. E mais: é tão doida por música quanto eu e parece manter a coisa da fã. Duvida? Ela deu um tempo na carreira solo pra ajudar a reviver Os Mutantes. E foi resgatar Simone pra uma parceria muito interessante.

E mal podia esperar pelo CD novo porque sabia que tinha duas versões de músicas da trilha encanto total do filme francês Canções de Amor (trailer no fim do post). Mais: ela foi atrás de Telhados de Paris, tão bela quanto antiga do Nei Lisboa, que é ídolo no sul e bem pouco conhecido no resto do país. Zélia sempre se declara maluca por Rita Lee e caprichou na escolha de Ambição, escondida na trilha de uma novela dos anos 80. A própria Rita regravou no início dos 90 mudando alguns versos. Zélia preferiu a versão original.

Bom, a espera pelo acabou hoje e meio que matei o horário do almoço pra comprá-lo. Ouço agora de novo e de novo. Simplesmente ouço e me encanto, pelo sabor do gesto.

sábado, 6 de junho de 2009

Meus clones

Sabe com quem você se parece? Já ouvi muito isso e nem sempre é com a mesma pessoa. A lista é quase grande. Começa com Jack Lemmon. Esse é quase unanimidade. Um cantor chegou a interromper uma entrevista pra me falar isso e ainda acrescentou com uma piscadinha“e olha que Lemmon é meu ator preferido”. Eu ri. E teve uma atriz também que me olhava muito num restaurante. Amigos em comum nos apresentaram e ela disse que tava impressionada com minha semelhança com o ator norte-americano. Já coloquei essa foto aí do lado no MSN e ninguém disse que não era eu.

Os outros três mais citados são relacionados à música. Um é o Nelson Motta, até motivo de piadas entre os amigos. Uma bêbada simpática, sempre batendo ponto, num bar aqui do lado de casa, toda vez que me vê berra: “e aí, Nelson Motta”.
O outro é menos conhecido, o percussionista Marcos Suzano. Certa vez, frente a frente com ele, fiquei impressionado: a mesma boca cortada a faca, o nariz e até o cabelo (agora ele tá careca, mas continua minha cara). E muita gente já veio até mim achando que era o cara.
O terceiro é um superstar... inglês: Mr. Elton John, que, aliás, foi um dos meus primeiros ídolos. Certa vez, num parque, uma garota deixou o namorado de lado e veio até mim: “já te disseram que você é a cara do Elton John?”. Eu ri meio amarelo. E isso já se repetiu em elevadores, no cinema... O que eu queria mesmo saber é que semelhança existe entre Jack Lemmon, Nelson Motta, Marcos Suzano e Elton John? Bom, de repente misturando todos resulta eu, né.

sábado, 30 de maio de 2009

Meus três eu


Quando se fala em pessoas com várias personalidades, costuma-se citar o filme As Três Máscaras de Eva, com a Joanne Woodward. Minha referência é outra. A Lara/Diana/Marcia que Glória Menezes viveu na novela Irmãos Coragem. Parece que Janete Clair se inspirou no tal filme, inclusive.

Bom, tudo isso pra contar que também sou três. Nem me venha com “cuidado com a esquizofrenia”: é nada disso. O Vilmar é o mais conhecido. Mas também existem o Vitor e o Horácio. O Vitor tem até sobrenome, e-mail. Ele costuma escrever pra jornais reclamando e inclusive já foi publicado. Também ataca em outros e mais descontraídos momentos que também vou manter em suspense. É bem mais extrovertido e atirado.

Horácio é o mais maluco, pois existe para apenas uma pessoa, uma amiga querida. Tabalhamos numa redação há trocentos anos e brincávamos de trocar os nomes, como se o pessoal de um escritório fosse. Ela era Marlene, eu, Horácio e não lembro dos nomes dos outros colegas. Bom, mas nossos codinomes ficaram e a gente só se chama assim. Ela mora em Nova York e escreve pro Horácio, não pro Vilmar, que entende tudo e se diverte com isso. Ah, Horácio e Vitor também convivem bem entre si. Já Vilmar e Vitor... bom, eles são farinha do mesmo saco.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sons que me soam

Sons que de repente chegam e se fazem notar. Gosto dos que realizam isso discretamente. Odeio os estridentes, feito buzinas e em praticamente todos os casos. E me irritam os provocados, como alguém batucando com os dedos na cadeira ou na mesa sem motivo algum, só por não ter nada melhor que fazer.

Agora, existem aqueles que me capturam, me fazem pensar e até sonhar. O tic-tac do relógio de parede da cozinha na madrugada é um deles. Bom demais ir andando pela casa, melhor ainda no escuro, e sentir aquele sonido suave rompendo o silêncio. É o martelar do tempo, implacável mas com certa discrição.

Outro é um certo farfalhar que minha gata faz ao comer. Seus dentes triturando os grãos de ração produzem um barulhinho suave que muitas vezes se mistura a um charmoso ronronado, principalmente quando estou por perto a observar. É irresistível: sento ali perto e observo até ela saciar o apetite. Volta e meia ela me devolve um olhar misto de felicidade por eu estar ali com um por que você está com essa cara tão interessada.

O terceiro é o sacolejar de um penduricalho de pedras azuis pendurado na janela da sala. Esse nem sempre é agradável e depende muito da intensidade do vento. Se ele é forte, pode até irritar. Mas quando o vento vem suave produz uma sonoridade discreta e insistente, como se um leve sino de antiga igreja fosse. Existem sons que de repente chegam e se fazem notar.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Documentários musicais para 2040

Tem muita gente comentando Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei. E vem aí Loki, obra-prima sobre Arnaldo Baptista. Ambos falam de ídolos do começo dos 70 numa onda de documentários musicais nacionais. Fiquei pensando o que as novas gerações podem esperar e imaginei produções que possam atiçar as massas daqui a uns 30 e poucos anos, Eis a safra de documentários para 2040.

Tem pelos menos três inevitáveis. Sempre Fui Anjo vai misturar pagode, mulheres, sexo, polícia, suborno e revelar toda a verdade sobre Belo, ídolo das massas no comecinho do século.

Meus Tempos de Garota promete chocar. Nele, Thammy, a filha da Rainha do Bumbum nos anos 80, escancara uma história que o tempo se encarregou de enterrar: a preparação e os abusos que sofreu para se transformar num símbolo sexual.

Inspirado no clássico Laranja Mecânica, Lavagem Cerebral aborda um dos enigmas do rock nacional: o fim dos Raimundos. Depois de uma longa ausência, Rodolfo explica tin-tin por tin-tin sua conversão e a lobotomia sofrida a mando de roqueiros rivais.

A safra de documentários nacionais 2040 promete ser imperdível. Ainda bem que existem grandes possibilidades de eu estar mortinho até lá.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Uma tarde com Drummond


É viajar no tempo e acompanhar Carlos Drummond de Andrade em 22 de janeiro de 1951, quando o poeta tinha 49 anos. E abaixo um poema que começa assim: "na curva perigosa dos cinquenta"


“Tarde de chuva fina no centro. Junto à livraria, observo minuciosamente as ruínas do tempo, que me sorriem. Para não sofrer com o espetáculo, preferia fechar os olhos. Eles, porém, inspecionam por conta própria, máquina fotográfica a funcionar independente de mim. Chove no passado, chove na memória. O tempo é o mais cruel dos escritores, e trabalha no barro.” (do livro O Observador no Escritório)

Quarto em Desordem
Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

Salve salve Mélissa

Delícia “descobrir” uma nova cantora e em tempos de you tube a coisa fica bem mais fácil. Foi assim no sábado, quando encontrei uma matéria com Mélissa Laveaux no El País. A moçoila é canadense, filha de imigrantes haitianos, radicada em Paris e esbanja estilo. Pra quem tem alguns anos na estrada pop dá pra perceber rastros de Tracy Chapman, Macy Gray e Lauryn Hill – isso pra não ir muito longe.

É só ouvir Needle in the Hay pra se encantar com Mélissa, que com uma voz cortante se apropria da canção de Elliot Smith, um dos nomes mais interessantes do folk anos 90.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

A mulher que berra

Maria, o nome é lindo. Mas basta alguém chamá-la assim pra começarem gritos absurdos que muitas vezes duram um tempão. É a louca de plantão aqui do meu bairro. Aparenta andar ali pelos quarenta e poucos (será?), vive pelas ruas da vizinhança, tem uma cara forte, nariz pequeno, cabelos pretos encaracolados e aquele ar de quem há muito vive em outra sintonia. Faz muitos anos que a conheço e até a cumprimento de vez em quando. Ela nunca me respondeu, apenas com os olhos, vivos, espertos.

Ela não tem hora pra entrar erupção e não é raro acordar de madrugada com seus gritos. E olha que moro num sexto andar, fundos, bem afastado da rua. Às vezes vou a janela e a vejo caminhando pelo meio da rua deserta, enrolada num cobertor a bradar seu desespero aos quatro ventos. Grita tanto e há tantos anos que suas cordas vocais sofrem o calejo de tanto esforço. Não se entende o que ela berra, fica apenas aquele som terrível que parece vindo das entranhas e que é acionado sempre que alguém diz a palavra terrível: Maria.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

De um lugar Perdido

Tenho um CD chamado De un Lugar Perdido do madrilhenho Antonio Vega. Foi recomendação do Pedro Almodovar, via um site, faz alguns anos. Comprei pela internet e logo aquelas canções bem melancólicas foram me capturando. Li sobre Vega na internet e mal conhecia seu rosto que o encarte do CD ocultava por meio de sombras. Acabo de ler num jornal espanhol que Vega morreu nesse 12 de maio, aos 51 anos e vinha doente faz algum tempo. Ese Chico Triste y Solitario é o título da matéria do El Mundo.

Antonio Vega era da geração de Cazuza e Renato Russo e no final de 1978 formou a Nacha Pop, inspirada por Ramones e Siouxie & The Banshees. A banda durou dez anos e ele partiu para a carreira solo. Teve sua fase de mergulho nas drogas, caiu em
depressão quando a mulher morreu em 2004...
“No creo en más infierno que tu ausencia. Paraíso sin ti, yo lo rechazo. Que ningún juez, declare mi inocencia”, diz a dolorosamente bela A Trabajos Forzados.

Pálido, fraco, doente, enfrentava a saúde frágil no palco e suas apresentações costumavam provocar arrepios nos fãs. Era um cara bonito, talentoso e triste. O CD que tenho parece mesmo ter vindo De un Lugar Perdido.

Abaixo, o link para Estaciones, que abre o CD e é a minha preferida.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Foi mal aí

"São cem, São mil, São cem mil. Um milhão. Do mal, do bem. Lá vem um”.

É Perdeu, que abre o ótimo Zii e Ziê de Caetano Veloso. Versos feito esse, que escancaram sem explicitar, impressionam tanto quanto “os 30 milhões de meninos abandonados do Brasil, com seus peitos crescendo, seus paus crescendo e seus primeiros mênstruos”, de Outros Românticos do disco Estrangeiro (1989) Os tais apocalipses mais totais, cada vez mais perto.

Sexta, depois das onze, um amigo saia da faculdade, no paulistano Moema, trocava música no i-pod e, distraído como ele só, nem percebeu dois caras se aproximarem e meterem a mão na mochila e no i-pod. Apavorado, teve presença de espírito e disparou: "mano, você tá louco... aqui é diadema... não é playba de moema não caralho... você tá louco?". E sabe o que ele ouviu? "Diadema, cara? foi mal... vai lá... foi mal aí". E olha que é o terceiro quase assalto que ele sofre, mesmo com o passaporte Diadema.

“Ai, dói no peito aparição assim”: Perdeu é trilha do meu outono.

sábado, 9 de maio de 2009

A vida é sonho e fantasia

Ritual sagrado: ler jornal no meu café preferido, no final da manhã de sábado, diante de um expresso, água com gás e cigarro. É incrível como ali certas matérias (deixo as notícias do dia-a-dia de lado) assumem outros ares e são capazes de influenciar o meu dia. Hoje foi assim.

Primeiro, uma entrevista com uma atriz quarentona que tem uma cara serena e sempre despertou minha curiosidade, mesmo sem ser das mais conhecidas –pouco sabia dela. Começa falando da mãe, que começou a perder a memória quando ela tinha uns 20 anos. “A vida é sonho e fantasia”, lhe ensinou a mulher intensa, interessante e não exatamente um exemplo de maternidade. Depois, a atriz fala das duas filhas, de como são diferentes, de como se preocupa em fazê-las sentir amada, de como conheceu o marido artista plástico, de como se sente com 23 tendo 46... banalidades assim, bem a vida como ela é, ou costuma ser pra alguns.


Nas páginas de literatura, topo com Carol Ann Duffy, poeta escocesa de 53 anos, a primeira mulher a ganhar um título inglês carregado de tradição. “Mãe solteira e lésbica assumida”, tá escrito com destaque. Vou direto a um verso dela: “Em algum lugar do outro lado desta vasta noite e da distância que existe entre nós dois, eu penso em ti”. Pronto, bastaram essas palavras pra me interessar devorar a matéria imensa e viver alguns minutos de puro delírio descobrindo alguém de quem nunca ouvi falar e saber um pouquinho de suas paixões desenfreadas e inquietações. Foi como se naquele café me tivessem apresentado duas novas e interessantes pessoas. E todo sábado costuma ser assim. É só escolher o jornal certo.


É bom contar que ao pagar a conta, conversei com a garçonete simpática. Ela me contou dos maltratos diários e das pressões que recebe do patrão apenas por estar grávida e breve sair em licença maternidade, que sai de lá todos os dias chorando e outras barras nada leves. Os temas que me tocaram no papel estavam ali diante de mim. Ela trabalha até julho, depois vou ter de trocar de café, me recuso a frequentar um lugar onde os patrões maltratam uma mulher grávida.

terça-feira, 5 de maio de 2009

No hype do hype

Odeio ficar de fora de um bom hype pop. Como assim? Isso mesmo: um hype pop é fundamental e um bom exemplo é Susan Boyle e primeira vez daquele vídeo. Ok, poucos dias depois eu não aguento mais nem ouvir falar dela, algo relacionado a uma hypefobia que deve habitar em mim.

Sim, não existe nada imperdível nessa vida, mas alguns filmes, livros, discos, vídeos a tornam mais interessante. Sei lá porque havia perdido o filme Crepúsculo, uma história de vampiros e hype adolescente total, baseado num best-seller. Enfim, chegou o dia de eu entrar na zona Twilight, me diverti bastante, o clima kitsch não me incomodou e descobri uma coisa: hype adolescente não tem idade e os mais velhos que embarcam vão com uma vantagem extra: a bagagem de uma vida de cultura pop.

Depois de um tempo as novidades escasseiam e tudo remete a algo que você já viu. Com Crepúsculo, história moderna de vampiros, me aconteceu isso, ali estavam elementos de Os Garotos Perdidos, O Vampiro Lestat. Noviça Rebelde e de vários filmes de Tim Burton – até poderia se chamar Os Vampiros se Divertem e cenas como o jogo de baseball e a visita da lindinha mocinha humana à casa dos vampiros são de rolar de rir.

Ah, e tem os atores. A lindinha Kristen Stewart já foi filha da Jodie Foster (O Quarto do Panico) e a namoradinha do carinha de Na Natureza Selvagem – e foi aí que me apaixonei por ela. É um daqueles rostos que poderia ser uma mistura das jovens Demi Moore, Julia Roberts, Winona Ryder. Sim, elas já tiveram 20 anos. E o mocinho Robert Pattinson? Tem um quê de canastrão, os lábios mais vermelhos que a mocinha, um olhar de peixe morto. À primeira vista pensei no vesgo charmoso Christopher Lambert de Subway, um cult dos anos 80. Mas era rebate falso e logo me veio um produto nacional – eta Brasilzão -, o Carlos Alberto Ricelli garotão – a voz sussurada é mais um ponto de semelhança entre os dois. Bom, acho que não vou ler o livro agora, mas já estou à espera da sequência The Twilight Saga: New Moon e dessa vez juro que assisto nos primeiros dias. Hype pop fica ainda melhor quando consumido assim que sai do forno.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sem essa de gata mimada


Quem me conhece ou já conversou cinco minutos comigo sabe: existe uma maravilha chamada Ava em minha vida. É uma montanha de pelos, pretos por todo lado e brancos apenas nas quatro patinhas, bigode e peito. São 11 anos de intenso convívio, uma relação perfeita, com raríssimas rusgas. Aquela cara sempre séria onde reinam dois olhos de um verde profundo, está sempre ali e atenta a tudo que acontece comigo e se estou triste, a atenção é redobrada. E de vez em quando até brincamos de piscar.

Dizem que os animais não têm inteligência. Dizem, né, dizem tanta coisa. Eu questiono o que seja inteligência e pra que ela serve. Ava e eu não falamos a mesma língua. Ela entende meu “humanês” perfeitamente, não o fala talvez por timidez ou pra não me intimidar e até desenvolveu um “miadês” pra se comunicar comigo. É todo um alfabeto de diferenciados miados, cada um com seu significado, alguns se assemelham a pios, outros são longos, repetitivos, insistentes, quase lamentos.
Quando bate a fome, utiliza praticamente uma sinfonia miaus pra que a leve até seu prato, localizado estrategicamente na área de serviço. É um dos caprichos da preta. Ali, entre um e outro grão de ração, me olha feliz e solta os mais doces e incríveis ronronados – e ronronados, quem é propridade de um gato sabe, é sonido que representa prazer total não que eles transmitem asma, como muito ignorante costuma propagar. Quando estou mais paciente, fico ali vendo Ava se banquetar e atento aos ronronados, misturando ao som da ração sendo triturada por aqueles dentes afiados.
Ah, Ava veio das ruas, está longe de fazer o tipo gatinha dócil, tem temperamento forte e indomável e seu nome é homenagem a Ava Gardner, a diva de Hollywood que Jean Cocteau elogiou como “o animal mais lindo do mundo”. Monsieur Cocteau estava certo, e muitas vezes me divirto a imaginar o que ele diria se conhecesse essa montanha de pelos que mora aqui em casa.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Ali na esquina do sonho com a razão

Um hotel de beira de estrada. Não de uma cidade pequena, de uma média mas daquelas que você nunca pisou, apesar de localizada a 100 km de onde mora. Um domingo. Um domingo comum, mas não um domingo banal. Um alguém. Um alguém especial, bem mais que especial, um alguém adorável que te desperta a vontade de ser a melhor das criaturas do mundo – e é a melhor das criaturas do mundo. ´

Um domingo. Um hotel de beira de estrada. Um alguém. A vida pode ser tão simples e tranquila e as vezes ela é. Existe um heliponto no hotel de linhas modernistas. Mas há os encantos escondidos do posto ao lado, meio descampado, que abriga um restaurante para quem está de passada. Ali, uma taça de café com leite, com coxinha ou pão com queijo ou lanche de lingüiça quando a tarde parece ansiosa em ceder espaço pra escuridão da noite.

O olho no olho, a cumplicidade, o nem precisar falar muito para ser entendido, o caminhar lado a lado bem devagar, sem pressa, sem nenhuma pressa, o cigarro compartilhado, el pincipito novato que pede cuidados. Falar besteiras, deixar a censura de lado, imaginar-se fazendo coisas absurdas num espetáculo do José Celso Martinez Correa, rir, cagar de rir e de coisas que pra outras pessoas seriam consideradas nojeiras. Descobrir as delícias do sono, mergulhar num mundo bem ali na esquina do sonho com a razão. Um domingo, um hotel de beira de estrada. Um alguém. Pedir mais o quê? Outro domingo, qualquer lugar, o mesmo alguém.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Os 90 anos da gata valente de pele de tigre

“As amarguras não são amargas quando quem canta é Chavela Vargas”. Quem fala é o espanhol Joaquin Sabina, também mestre em “levezas” da vida. Nesta sexta, 17 de abril, a mexicana Chavela Vargas completa 90 anos e sua voz carrega o peso dos anos de uma existência rica e maluca daquelas ovelhas negras que nunca hesitaram em transformar limões em limonadas. Dela se diz que tomou toda a tequila do México e que teve tantos amores (um dos mais conhecidos é Frida Kahlo) como desamores. E quando jovem fumava cigarro de palha e levava uma pistola no cinturão.

Sua biografia Y Si Quieres Saber Mi Passado fala de sua vida, sua morte e ressurreição. No final dos anos 70, enfrentou problemas de saúde devido ao alcoolismo e outros excessos e se retirou por quase dez anos. “Sai do inferno e o fiz cantando”, disse. E um dos responsáveis pela volta foi Pedro Almodovar que desde garoto era seu fã. Ele já disse que as canções de Chavela o encorajaram a abandonar sua cidadezinha e partir em busca de seus sonhos. Chavela canta em De Saltos Altos, A Flor do Meu Segredo e Carne Trêmula. Outra participação incrível no cinema é em Frida.

Chavela voltou recentemente para sua cidade natal, San Joaquín de Flores, na Costa Rica. O motivo? “Para estar perto do mar e para que as sereias venham me visitar”, disse

Abaixo, o começo de Por el Bulevar de los Sueños Rotos, que Joaquin Sabina compôs para ela:
En el bulevar de los sueños rotos
vive una dama de poncho rojo,
pelo de plata y carne morena.
Mestiza ardiente de lengua libre,
gata valiente de piel de tigre
con voz de rayo de luna llena.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Tim Maia e eu, eu e Tim Maia

Aquele vozeirão, melancolia e alegria misturando-se nas canções não sei se nas doses exatas, mas com precisão quase sempre. Tim Maia era o cara. E tive a honra de estar com ele, uma única vez pra nunca esquecer. Foi em abril de 1995, três anos antes de sua morte. Trabalhava numa revista e a gravadora ofereceu uma entrevista. Ele lançava disco novo, aquele do esfriamento global, e vinha a São Paulo. “Oba, entrevista com Tim. Quando?”. Quase caí pra trás quando me disseram que seria às 8:30 da manhã. Não, ela não estava brincando era mesmo nesse horário. Bom, ironia das ironias, eu teria de madrugar para entrevistar o homem.

Cheguei em cima da hora ao apart hotel onde ele estava hospedado, certo de que tomaria um chá de sofá ou que tudo não teria passado de brincadeira. Que nada, ele já me esperava e em minutos estava em seu apartamento – a mulher dele e a assessora da gravadora nos acompanhavam. Uma simpatia Tim Maia e a entrevista corria deliciosa. De repente, ele interrompeu pra comentar sobre um cachorro confinado numa varanda do prédio em frente, prisioneiro naquela miséria de metros quadrados. Falamos disso alguns minutos. E quando a entrevista acabou, veio a assessora: “mas onde estava aquele cachorro que vocês tanto falavam?”. Tive que dizer pra ela que não havia cachorro nenhum, mas se Tim Maia queria vê-lo quem seria eu pra questionar.

Foi um papo delicioso e ao final ele desceu pra ser fotografado no jardim. Já era perto do meio-dia. O homem alegre, cheio de histórias, que parecia se divertir com suas tiradas e sempre atento ao que lhe falava não estava mais ali. Tim continuava amável, mas uma certa melancolia parecia tomar conta. Foi aí que entendi porque a entrevista tão cedo: à medida que a tarde avançava vinha um certo desconforto. Desse encontro, guardo um autógrafo na capa do CD – com uma letra enorme como o próprio Tim Maia. Tenho o maior orgulho desse dia.

quarta-feira, 11 de março de 2009

História de uma planta

Nasci em um parque e lá vivi feliz alguns dias agarradinha aos meus. Foram apenas alguns dias, não sei precisar quantos, até que num certo domingo ensolarado e quente, quente demais, apareceram uns dedos sedentos e me extraíram do seio famíliar. Foi apavorante, tremeliquei toda e tive medo pelo que me esperava. Fui parar em uma sacola de lona, junto a alguns objetos – garrafa de água, óculos escuro, caderneta de anotações, caneta – e duas semelhantes a mim, também raptadas. Não sabia onde estava e minhas folhinhas balançaram dentro de algo em movimento durante alguns minutos.

Só fui libertada dentro de um espaço que me pareceu agradável – depois vim a saber que era um apartamento. Aquelas mãos que me haviam raptado, cuidadosamente me fixaram numa terra nova. Tremi de prazer, foi meu primeiro contato direto com a terra. Agora eu não era mais um bebê, estava pronta a me tornar uma planta adulta e espalhar minha espécie pro mundo. Em uma semana fiquei assim e tô bem feliz em meu novo lar. Pertinho de mim, uma das manas que saiu do parque cresce feliz. Foi bom ter vivido alguns dias ao ar livre, mas não sinto a menor saudade.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Eu Não Estava Lá

Não existe nada imperdível. É meio um mantra meu e acredito mesmo nisso. Show, peça, filme: nada, nada é imperdível, nada que se deixa de ver faz a menor diferença na vida. Não sou de lamentar o leite derramado, mas gosto de pensar em coisas que eu não vi porque não teria como e adoraria ter visto. O quê? Shows por exemplo. O mitico é um da Elizeth Cardoso com Jacob do Bandolim e Zimbo Trio, no João Caetano, em 1968. Ok, eu já havia nascido e até poderia ter estado lá, mas era criança demais pra entender o que deve ter rolado naquele palco e me deixa arrepiado ao ouvir a gravação tantos anos depois. Ao final, os aplausos pro bis emocionam até múmia. Se lá tivesse, teria vertido milagrimas.

O segundo é de alguns anos depois, John Lennon no Madison Square Garden de Nova York, em 30 de agosto de 1972. Também poderia ter estado lá, apesar da menoridade. Era o auge das inquietações de John que se apresentava com sua amada Yoko – ao contrário de muitos nada tenho contra ela e até acho que fez muito bem à cabeça perturbada do ex-Beatle. Voltando ao show: já me imaginei milvezes berrando quando John ataca de Mother, o acerto de contas com a mãe morta. Ou quando começa Woman Is The Nigger of The World, Imagine, Give Peace a Chance.

Poderia ficar nesses dois, mas daria os 30 segundos finais da minha vida para ter visto um espetáculo da Maria Bethânia no início dos anos 70, aqueles bem teatrais. Qual? Drama 3º Ato ou Rosa dos Ventos. Acho que esse ultimo, que leva o subtítulo de um show encantado e reza a lenda que algo baixava no palco. Ah, lembrei de mais um: Gal Fatal, no Teresa Raquel. Gal Costa na flor da juventude, pernas de fora, tocando violão e ensandecendo os hippies. E o show que reunia Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque e Miúcha? Bom, por esse acho que daria o minuto final da minha vida, ou até dois. Mas eu não estava lá. Paciência.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Hit Parade

Quase adolescente, costumava fazer minha parada de sucessos em sangaba. Ouvia rádio o dia inteiro e não dava paz ao dial na caça às músicas que eu mais gostava. Em folhas de caderno anotava os nomes e um traço ao lado a cada vez que eu a ouvia. No final da semana contabilizava e definia as minhas campeãs. Era uma coisa meio séria, mas com direito a pequenas fraudes para que minhas queridinhas ficassem no topo da lista. E quais eram minhas queridinhas? O tempo se encarregou de levá-las, mas três me vem sem dificuldade: Skyline Pigeon, Music and Me e My Eyes Adored You. Sim, eram praticamente todas em inglês e a maioria da trilha das novelas, bem de acordo com a época.

As coisas mudam sim, mas para permanecerem praticamente como eram. Continuo ouvindo música quase o dia todo, principalmente no computador, mas no rádio também e em qualquer aparelho. Não preciso mais escrever a relação delas, nem contabilizar, basta acionar as “25 mais tocadas” do i-tunes e vem imediatamente a lista precisa e sem fraudes. E quais são elas às vésperas do carnaval 2009?

Em quinto lugar, Ma Memoire Sale, tema do filme Canções de Amor. Na sequência, 10 Contados, com a Céu, tema do início de alguma coisa meses atrás marca um momento importante. Em terceiro, Doce Solidão, Marcelo Camelo, essa é mania atual e aquele assovio na introdução que me acompanha direto. Me Gusta Cuando Callas, poema de Neruda na voz veludo de Alejandro Sanz é a vice, por motivos exclusivamente ligados ao coração. Tem apenas cinco execuções menos que a campeoníssima Janta, Marcelo Camelo e Malu Magalhães, que é tão linda, mas tão linda que tem o poder de me transportar de volta à adolescência. É, nada muda tanto assim.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A morte do casarão no sábado gris

Havia um casarão antigo, amarelado, na esquina da alameda Santos com Hadock Lobo. Nada tinha de lindo, mas atiçava minha imaginação e me transportava para outros tempos e lugares, especialmente quando ali passava à noite. Atraído pelas sombras, muitas vezes parei para observá-lo e inventar mil histórias. Havia um quê de abandono, de descuido e a presença de vida era denunciada apenas por algumas luzes acesas. Quem moraria ali? Nunca vi ninguém.

Hoje, um sábado gris que em nada lembrava o verão de fevereiro, esse que era um dos últimos casarões da região, começou a ser demolido. Quando por ali passei, no final da manhã, não havia mais o teto e as paredes amarelas pareciam agonizar diante da garoa fina, aquela que caracterizava São Paulo em outras décadas. Era como se o casarão morresse num clima semelhante àquele de quando foi construído.

Não parei, não fiz questão de olhar muito, semelhante ao que faço quando topo com mortos e atropelados pelas ruas da cidade. Fiquei triste e ponto. Quero lembrar do casarão amarelo da Santos com a Hadock como ele era. Podia até ser feio, mas dava de dez na modernice lata fria do vizinho Renaissance, que em nada atiça minha imaginação. Sei lá o que devem construir lá, certamente um prédio, o que sei é que vou achá-lo pavoroso. Ah, vou sim e vai ser o meu protesto pelo casarão amarelado que morreu no sábado gris.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Decifrar a borra


Descobri a cafeomancia nesse fim de semana. Cafeo o quê? Então, uma tradição nos paises árabes, é a arte de adivinhar o futuro através da borra do café que fica nas paredes da xícara depois de bebê-lo. Quem me iniciou foi uma amiga querida, que aprendeu a prática com uma egípcia. É saborear o café, emborcar a xícara, esperar alguns minutos e começar a decifrar as imagens: árvore, coroa de rei, pássaros, animais, pessoas... Surge um mundo doidinho pra ser decifrado ali bem diante do nosso nariz. Em caso de dúvida, a foto acima ajuda a esclarecer. É só tomar alguns cuidados: pra borra ficar espessa e totalmente legível, tem que evitar o acúcar. Com adoçante funciona, mas se o café for bebido puro é o ideal. É diversão e precisão na certa.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Em sangue e máximas

"De tudo o que se escreve, aprecio somente aquilo que alguém escreve com seu próprio sangue. Aquele que escreve em sangue e máximas não quer ser lido, mas aprendido de cor". É do Nietzsche e tem tudo a ver com um livro que me caiu nas mãos e não me sai da cabeça: O Lado Fatal, da Lya Luft. São poemas que ela escreveu logo após a morte de Helio Pellegrino. Terrivelmente belos, dolorosos, de uma sinceridade estarrecedora. Eis um deles:

O meu amado tinha indagações enormes:
andava de um lado para outro em minha frente:
não se conformava com os conformados, os corruptos,
os medíocres e os vendidos deste mundo.
Não se conformava com a miséria, a dominação, o desvalimento.
Não se conformava também quando não o entendiam.
Passava as mãos pelo cabelo grisalho
e ardia como um jovem de dezoito anos na sua ira:
"Tenho vocação é de terrorista."

(Eu escutava, com medo de que ele saltasse da varanda
levado pelo vendaval de seu furor de justo.)

Depois, ele fechava as portas de vidro sobre a noite quente,
me pegava pela mão, dizia:
"Vamos dormir."


E então era todo mel e ternura.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Alegre Menina

Um moço que voa a trouxe pra mim numa madrugada dessas. Já a conhecia, até tive o primeiro disco que sumiu sei lá como e sempre me chamou a atenção aquela voz de criança, de criança sapeca, que lembra Elza Soares, mas sem excessos. Tem uma pureza em Mart’nália, um cantar despreocupado, um à vontade na vida sem exatamente se preocupar em estar à vontade, um jeitão de quem faz revolução sem ligar a mínima pra isso. E tô dizendo tudo isso por quê? Ah, porque “ela é minha mais entre as dez mais” e desde aquela madrugada reina debochada aqui em casa. Foi trilha de fim de ano e vai atravessar 2009 juntinho, ah vai.

Mart’nália grava pela Biscoito Fino, não é fácil encontrar seus CDs e soube que alguém já reclamou disso com Martinho da Vila (rarara), que deve ter adorado. Hoje achei dois CDs da bela e tô aqui fissurado por Madrugada, que tem até música na abertura da novela das sete. E falando em novela, Mart’nália reinava em Paraíso Tropical, volta e meia fazia show no luxuoso bar do Hotel - os dois gays da novela sempre estavam na platéia babando –, cantando a bandeirosa Cabide, que Ana Carolina fez pra ela. Bandeirosa Cabide? Mas qual música naquela voz abençoada não vira bandeirosa? Adoro quando ela canta Alguém me Avisou, sai da letra no verso “sempre fui obediente” pra emendar um rápido “mentira” e voltar com “mas não pude resistir”. E tem a nova e deliciosa Tava por aí, um samba rock que me capturou de cara com versos como esses: “a vida continua nua e crua e muito boa. O vento é o leque da pessoa que andava à toa”.

No CD novo não faltam regravações deliciosas, como Sai Dessa, do repertório de Elis Regina e Alegre Menina, a que revelou Djavan. Essa é Mart’nália uma lufada de vento fresco nas cantoras comportadinhas (queridinhas, ouçam Mart’nália) que poluem a MPB dita moderna. Mart’nália tem a força e audácia do Ney Matogrosso. E viva Mart’nália!!!

Tranquila e simples

“Man, que tua noite de réveillon seja tranqüila e simples, como 2009 e a vida toda precisam ser”. Recebi essa mensagem de um amigo querido. É justo assim: tranqüila e simples que vai continuar sendo. Hoje desci pra comprar comida japonesa, tava com ganas de sushi, mas tudo mudou num segundo ao passar pelo PF aqui do lado de casa: que sushi que nada, minha gana era de costela. Enchi uma quentinha delas e vim rindo sozinho pra casa me banquetear, completamente entregue a delícia do acaso.
Não sei quanto o mundo é bão, mas ele fica melhor quando sei que existe alguém que adora Bom Dia Vietnã porque o personagem do Robin Williams dedica sua vida a alegrar o dia-a-dia de outras pessoas. E se emociona com Dia Branco (Eu te prometo o sol... se o sol sair/ ou a chuva.. se a chuva cair) porque a canção fala de coisas reais, possíveis, nada de falsas ilusões. Tranquila e simples: quero assim e vai ser.

Gracias a eles

Em livros, filmes, músicas, blogs, peças e coisas mais essa gente toda fez meu 2008 bem mais legal. Gracias a eles! A ordem é da memória, com uma pequena ajuda da agenda.

R.E.M., Arnaldo Baptista, Murakami, Ney Matogrosso, Vetusta Morla, Paulo José, Wong Kar Wai, Damien Rice, Aline Lacerda, Baulenas, Vitor Ramil, Jorge Drexler, Julieta Venegas, Louis Garrell, Beto Guedes, Kieslowski, Fernanda Takai, Cleyde Yaconis, Vanessa Redgrave, Meryl Streep, Julie Delpy, Hugo Carvana, Woody Allen, Julio Medem, Louise Cardoso, Joana Fomm, Eddie Vedder, Emile Hirsch, Domingos Oliveira, Adriana Calcanhotto, Maria Bethânia, Laís Bodansky, Bruna Lombardi, Pedro Almodóvar, Caetano Veloso, Ingmar Bergman, Heath Ledger, Leandra Leal, Denise Fraga, Wagner Moura, Letícia Sabatella, Dorival Caymmi, Mathieu Almaric, Neil Young, Patti Smith, Clarice Lispector, Miguel Bosé, Penélope Cruz, Patricia Pìllar, Cesaria Évora, Marisa Monte, Walter Salles, Win Wenders, Laurie Anderson, Patricia Pahl, Rafael Barioni, Antoniela Canto, Pâmio, Obama, Audrey Tautou, Alejandro Sanz, Neruda, Cazuza, Nando Reis, Helena Elis, Mart’nália, Chico Buarque e Fele.

Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...