terça-feira, 19 de maio de 2009

Uma tarde com Drummond


É viajar no tempo e acompanhar Carlos Drummond de Andrade em 22 de janeiro de 1951, quando o poeta tinha 49 anos. E abaixo um poema que começa assim: "na curva perigosa dos cinquenta"


“Tarde de chuva fina no centro. Junto à livraria, observo minuciosamente as ruínas do tempo, que me sorriem. Para não sofrer com o espetáculo, preferia fechar os olhos. Eles, porém, inspecionam por conta própria, máquina fotográfica a funcionar independente de mim. Chove no passado, chove na memória. O tempo é o mais cruel dos escritores, e trabalha no barro.” (do livro O Observador no Escritório)

Quarto em Desordem
Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

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