sexta-feira, 28 de junho de 2019

Caricaturas anos 60 de astros da música brasileira





O Quem é você de Maria Bethânia, 1968
Duas páginas semanais assinadas por José Cândido de Carvalho (1914-1989), jornalista e escritor autor de O Coronel e o Lobisomem. Assim era a seção Quem é Você, da revista O Cruzeiro. Começou em meados de 1967 e durou até praticamente o fim do ano seguinte, 80 edições da revista. São perfis de atores, cantores, escritores, políticos: enfim, os mais destacados daqueles tempos. Os perfis são excelentes, mas o que vai ser destacado aqui são as charges que os acompanhavam. A página dupla ((layout ao lado) abria com uma foto do entrevistado, depois uma charge dele e fotos pequenas das pessoas citadas na conversa. A maioria das charges são assinadas por Appe (1920-2006), que era o ilustrador de O Cruzeiro e algumas não são assinadas.

Aqui a primeira parte, só com os astros da música brasileira em 1967/68. Dos veteranos Vicente Celestino e Pixinguinha aos "novatos" Chico Buarque, Nara Leão e Maria Bethânia, incluindo Tom Jobim e  Elizeth Cardoso. Há um "Quem é Você" com Edu Lobo, mas sem charge, por isso ficou de fora. E o único "gringo" é o francês Pierre Barrouh, incluído aqui.
E na ordem em quem saíram na seção Quem é Você. No próximo post, só os atores. 


Chico Buarque, 1967

Nara Leão, 1967
Elis Regina, 1967

Vicente Celestino, 1967
Pixinguinha, 1967

Tom Jobim, 1967



Juca Chaves, 1968

Maria Bethânia, 1968

Baden Powell, 1968

Pierre Barrouh, 1968

Rosinha de Valença, 1968

Elizeth Cardoso, 1968





quarta-feira, 5 de junho de 2019

Queda da Bastilha gay, Stonewall mudou tudo há 50 anos


Foto: Grey VilletThe LIFE Picture Collection Getty Images

Havia os Panteras Negras e o black is beatiful. Daí chegaram os Panteras Cor-de-Rosa, que gritando "gay é bom", enfrentaram os policiais em um levante que mudou tudo. Foi há 50 anos e o movimento pelos direitos gays começou aí.

"O Dia da Reviravolta aconteceu, na Greenwich Village de Manhattan, quando 400 gays invadiram as ruas durante várias noites seguidas em sinal de protesto contra as batidas no Stonewall Inn, um bar homossexual na Christopher Street.": Assim, a revista Time resumia os acontecimentos em 1979, em matéria publicada aqui pela Manchete, quando Stonewall completava dez anos.


Para entender Stonewall, há uma trilha: The Stonewall Project, disco que Renato Russo gravou em 1994, e que tinha renda revertida para os projetos sociais de Betinho. O disco trazia no encarte informações e contatos de ONGS que trabalhavam com os direitos de crianças, mulheres e das minorias sexuais propriamente ditas.
Existem filmes sobre e muita literatura. Um dos meus relatos preferidos é de Edmund White, no livro City Boy - Minha Vida em Nova York, que saiu aqui em 2012, pela editora Benvirá. É quase um resumo da detalhada descrição do evento que ele fez no final romance O Lindo Quarto Está Vazio (1988), lançado no Brasil pela editora Mandarim oito anos depois.
Abaixo o relato de White. São quatro páginas do livro e retirei apenas alguns detalhes mais pessoais.

                                      STONEWALL POR EDMUND WHITE

"Numa boate de dança nos Hamptons, eu me lembro, os homens dançavam em linha, fazendo o hully-gully, mas sempre com ao menos uma mulher na linha.


O funeral de Judy Garland
Depois tudo mudou com o levante de Stonewall, por volta do fim de junho de 1969. E não foram todos aqueles rapazes brancos de camiseta dos Hamptons e dos Pines que mudaram as coisas, mas os negros e travestis porto-riquenhos que iam para o Village de metrô (os suburbanos da linha A) e ficavam agitados por causa do calor extremo e imaginavam que as perseguições policiais dos anos anteriores tinham finalmente arrefecido. Os novos ataques os deixaram zangados e sentindo-se traídos. Estavam nervosos também porque Judy Garland tinha morrido de overdose e estava sendo velada na capela Riverside Memorial. 



No fim da rua Christopher, apenas dois quarteirões adiante, erguia-se o vulto imponente da prisão feminina de Jefferson Market (hoje demolida para dar lugar a um parque). Na época, mulheres brigonas ficavam paradas na calçada em frente e gritavam para as namoradas: "Eu te amo, baby. Se você der para aquela vaca preta da Shareefa, eu te corto, tá ouvindo, baby? Corto pra valer". Dentro da Stonewall a pista de danças tinha sido tomada pelas palhaçadas de pernas compridas e olhos ardentes dos membros do STAR (Street Transvestie Action Revolutionaires [Ação Revolucionária dos Travestis de Rua]). Lésbicas furiosas, drag queens ainda mais furiosas, luto excessivo, calor de matar, tensões raciais, os exemplos de desobediência civil dados pelo movimento das mulheres, pelos manifestantes contra a guerra, pelos Black Panthers - todos os elementos estavam presentes, e só era preciso uma única faísca para acender a fogueira.

A Stonewall não era uma discoteca de fato. Tinha uma jukebox, das boas, e duas salas grandes, compridas, onde se podia dançar. Os bares ficavam abertos até as 4 da manhã em Nova York; os gays voltavam do trabalho, comiam, iam para a cama com o despertador regulado para a meia-noite e ficavam na rua até as 4. Claro que não havia sites da internet, mas também não havia encontros por telefone, nem salinhas nos fundos, e até então nada de caminhões nem cais abertos ao sexo.

Havia muita pegação na rua e muita pegação nos bares. Tínhamos de ter boas linhas de pegação. Éramos todos magros de anfetaminas; meu médico de regime estava sempre me receitando "speed", e às 6 da manhã eu ainda estava acordado, lendo as Páginas Amarelas com grande e compulsiva fascinação. Tínhamos cabelo comprido e sujo, costeletas sem aparar, calças justas, botas pretas engraçadas com zíper do lado, camisas de caubói de jeans com botões perolados de pressão. Usávamos boca de sino. Todos fumávamos o tempo todo (eu chegava a três maços por dia). Não tínhamos grande musculatura nem muita atitude. Nossos ombros eram tão estreitos quanto nossos quadris. Não parecíamos vigorosos, mas éramos saudáveis - isso foi doze anos antes de se ouvir falar de aids pela primeira vez, e tudo o que havia era gonorréia. Isso nós tínhamos muito, talvez uma vez por mês, já que ninguém, a não ser homens casados paranoicos, usava camisinha. Eu saí com meu médico de gonorréia, que passava todo o seu tempo livre copiando os girassóis de Van Gogh.

(....)

Então, houve a blitz, o choro foi ouvido pelo mundo inteiro, a queda da nossa Bastilha gay. Em 28 de junho de 1969, o bar foi invadido, e pela primeira vez os gays resistiram. O Departamento de Álcool, Tabaco e Armas de Fogo promoveu a invasão, porque descobriu que as garras de bebidas do bar eram contrabandeadas e que a delegacia de polícia local estava associada aos proprietários mafiosos. Quando clientes e funcionários estavam removidos do bar e empurrados para um camburão, a multidão furiosa que tinha se reunido diante do bar começou a vaiar. Então algumas queens dentro do camburão reagiram - e algumas escaparam. A multidão ficou energizada pela violência.

Todo mundo ficou tão puto com aquela blitz policial específica porque, assim que a Feira Mundial terminou, os policiais pareciam ter se esquecido de nós, e uma porção de bares novos foi aberta. Havia blitz, mas só uma vez por mês e geralmente no começo da noite, para não estragar as horas mais sérias de pegação, dança, flerte e bebida. Tínhamos um prefeito novo e bonito, John Lindsay. Mas ele só parecia melhor. Estava em constante conflito com os sindicatos, com os manifestantes contra a guerra, com os estudantes radicais que invadiram a Universidade de Columbia - e com a comunidade gay.


Edmund White. Foto: Andrew Fladeboe publicada no The Guardian
Antes do levante de Stonewall, não havia de fato uma comunidade gay, apenas alguns sujeitos caçando na avenida Greenwich e na rua Christopher. Mas quando a polícia invadiu o Stonewall e os gays temeram que seus bares fossem fechados outra vez, as portas do inferno se abriram. Eu estava lá, por acaso, e me lembro de pensar que ia ser a primeira revolução engraçada. Nós nos chamávamos de Panteras Cor-de-Rosa, íamos atrás dos policiais, aparecíamos atrás deles na rua Gay e na rua Christopher, e levantávamos as pernas numa fila de coristas. Gritávamos "gay is good" [gay é bom] imitando o lema "black is beautiful" [negro é lindo].

Até esse momento, todos nós achávamos que homossexualidade era um termo médico. De repente, vimos que podíamos ser uma minoria - com direitos, uma cultura, um projeto. O dia 28 de junho de 1969 é uma grande data na história gay.

(...)


Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...