sexta-feira, 31 de julho de 2015

Cleyde Yaconis e o terror policial no teatro: maio 1964

Capa Última Hora: Sexta-feira, 8 de maio de 1964
Dia desses encontrei essa capa do jornal Última hora, do começo de maio de 1964. É o registro da prisão de Cleyde Yaconis pelo DOPS e “submetida a severo interrogatório”. Em A Dama Discreta, livro que escrevi sobre ela, Cleyde falou da prisão. Vai em memória de Cleyde em homenagem aos pensamentos tortos que pedem a volta dos militares ao poder. 

“Uma noite, quando saía do espetáculo Vereda da Salvação, tinha cinco carros da polícia na porta do TBC me esperando. Eu saí com o Stênio (Garcia, então marido dela), estava com o meu carro e ele me levou até a porta do DOPS, lá perto da Estação da Luz. “Corre e avisa a Cacilda”, disse para ele. Meia hora depois que eu cheguei no DOPS, começou uma chuva de telefonemas de gente influente que a Cacilda tinha contatado. Parece que eles iam me mandar para não sei onde, mas daí vieram os telefonemas dizendo “não toquem nessa moça”. Em meia hora, a Cacilda pôs São Paulo em pé. Ela era danada, tirou muita gente da cadeia e escondia no apartamento dela, os padres dominicanos, Flavio Império, Guarnieri. Cacilda era intocável.

Não sei porque me prenderam. Parece que encontraram o meu nome e do Flávio Rangel na lista de uma reunião não sei de quem. Nunca tive uma atividade política, como tiveram vários conhecidos meus, de assaltar banco para pegar dinheiro. O que eu tinha feito era absolutamente legal, como assinar abaixo-assinados pró-Fidel Castro na época da Revolução Cubana, ou quando teve a renúncia do presidente Jânio Quadros para que seu vice, o João Goulart, assumisse. Eram todas atitudes democráticas. Todas as minhas atitudes eram de pessoa consciente mas democrática, nada a ver com ação de luta, guerrilha, nada disso. Mas parece que eles encontraram meu nome numa lista com o Flávio, que foi preso várias vezes.
Com Ruth de Souza, Stênio Garcia e Raul Cortez: Vereda da Salvação
Quando cheguei, eles me puseram na cela, a porta não era gradeada, era aquela porta de ferro com aberturinha. A porta abriu e eu vi uma pessoa falando assim “Cleyde, Cleyde você aqui”. Era o físico Mario Schemberg que estava preso lá. E eles tiveram que esvaziar uma cela porque só tinha eu de mulher. Todos os que estavam em duas celas foram colocados em uma só e eu fiquei na outra. Era maio, fazia frio e era cimento, uma laje de cimento. Só que a Cacilda me tirou logo. Foi uma situação pavorosa, mas eu não entrei em pânico, consegui ficar calma.

De autores de esquerda, eu só tinha feito Guarnieri. Jorge Andrade era um homem de esquerda sim, mas não comunista. Do partido comunista eram o Dias Gomes e o Guarnieri. Mas eu tinha uma atitude de esquerda, isso sim, como até hoje, um posicionamento de esquerda, não de direita, claro. Como hoje. Tenho uma atitude de esquerda e contra o abuso do poder, me revolto com a má distribuição de renda, com a fome no Brasil, com a corrupção...Então se tiver uma revolução hoje vão me prender também, porque a minha atitude continua sendo a mesma.”



terça-feira, 28 de julho de 2015

De onde vem sapatão, o termo?


De onde vem o termo sapata/sapatão para designar lésbica? Por anos corri atrás da história, falavam de Maria Sapatão, a marchinha de Carnaval do Chacrinha que fez sucesso no carnaval de 1981. Lendo O Explorador de Emoções Peregrinas, livro delicioso sobre Antonio Bivar escrito por Maria Lucia Dahl, topo com uma história deliciosa, provavalmente ocorrida no final dos nos 60. Eis a origem do termo sapatão, segundo Antonio Bivar. 

"Isabel Câmara me contava da ideia que tinha de fazer uma peça só com moças – usando no título um termo que já estava na boca do pessoal. Dentro do feminismo crescente, as sapatas eram uma nova tribo safista fazendo vista na sociedade. Moças destemidas, independentes, engraçadas, glamurosas, sibaritas, amazonas modernas com o pisar determinado. Daí que Isabel, poeta dessa tribo, nas férias em Petrópolis anotara ideias para uma peça que já tinha até título: Viva Sapatas. 

Foto do livro
Isabel estava animada! 

– Foi a Anecy Rocha, junto com a [Maria] Bethânia que inventaram o termo sapatão. 

Uma olhava pra outra e comentava sobre alguém: 

– Você viu o sapato que ela estava usando?! 

E a outra respondia, rindo: 

– Poxa! Que sapatão, hein! 

Daí começou essa onda de sapata... "

Fonte: Antonio Bivar - O Explorador de Emoções Peregrinas, de Maria Lucia Dahl (Coleção Aplauso)




domingo, 5 de julho de 2015

Quando os bares gays eram uma porta escura em algum lugar de Manhattan

Rooney Mara e Cate Blanchett no filme de Todd Haynes
Soube da existência de Carol, filme de Todd Haynes que passou no último festival de Cannes e ainda inédito aqui, e fui atrás do livro em que se baseia. É Carol (The Price of Salt), o segundo romance de Patricia Highsmith, publicado em 1952 sob o pseudônimo de Claire Morgan. “Trata-se claramente do primeiro livro de prestígio a abordar o lesbianismo com uma certa naturalidade, sob uma atmosfera de suspense que caracteriza todos os trabalhos da autora, mas também com direito a diálogos francos, um humor emotivo e personagens enternecedores”, está na contracapa da edição da L&PM Pocket. É daqueles livros pra se apaixonar, pelas personagens (a jovem Therese e Carol, a dona de casa trintona, suburbana e elegante), pela época em que se passa... Ao final, um pós-escrito que Patricia Highsmith escreveu em 1989, seis anos antes de morrer. É tão esclarecedor que vai abaixo o último parágrafo.


A edição L&PM
Sob pseudônimo
“Minha jovem protagonista, Therese, pode parecer uma violeta retraída no meu livro, mas aquela era a época em que os bares gays eram uma porta escura em algum lugar de Manhattan, e as pessoas que os frequentavam saltavam do metrô uma estação antes, ou uma depois, da estação certa, com medo de desconfiarem que eram homossexuais. O atrativo de The Price of Salt era o seu final feliz para as duas personagens principais, ou pelo menos haveria uma tentativa das duas compartilharem um futuro juntas. Antes desse livro, os homossexuais, masculinos e femininos, nos romances americanos, eram obrigados a pagar pelo seu desvio cortando os pulsos, se afogando em piscinas, ou mudando para a heterossexualidade (assim se afirmava) ou mergulhando – sozinhos, sofridos, rejeitados – em uma depressão dos infernos. Muitas cartas que me chegavam traziam mensagens do tipo, “O seu é o primeiro livro assim com um final feliz! Nós todos não nos suicidamos e muitos estão passando muito bem”. Outras diziam, “Obrigada por você ter escrito uma história assim. É um pouco como a minha própria história...”. E, “tenho dezoito anos e moro numa cidade pequena. Me sinto solitária, porque não posso falar com ninguém...”. Às vezes eu escrevia uma carta sugerindo que o missivista se mudasse para uma cidade maior onde teria a oportunidade de conhecer mais pessoas. Conforme me lembro, havia cartas tanto de homens como de mulheres, o que eu achava um bom auspício para meu livro. Isso acabou sendo verdade. As cartas pingaram durante anos, e mesmo agora chega uma carta, uma ou duas vezes por ano, de algum leitor. Nunca escrevi outro livro como este. Meu livro seguinte foi The Blunderer. Gosto de evitar rótulos. São as editoras americanas que gostam deles.” Patricia Highsmith em 24 de maio de 1989.

Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...