sábado, 18 de outubro de 2014

Grande Otelo: 99 anos hoje

Grande Otelo faria 99 anos hoje. Ele foi imenso. Dia desses revi Macunaíma na televisão e não conseguia tirar os olhos dele. Sempre que Otelo me vem à cabeça, penso em Joana Fomm falando dele com muito carinho nas nossas conversas que resultaram no livro Minha História é Viver (Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial de SP). Há pouco, quando soube dos 99 dele, abri o livro e voltei a me deliciar com Joana falando dele. Em Macunaíma, ela interpreta a feiticeira que transforma Grande Otelo em Paulo José e o trecho abaixo eu tirei de um perfil dele (Otelo, o Grande, num diálogo simples e franco) que Joana escreveu no jornal Última Hora, em dezembro de 1969. Segue abaixo, exatamente como está no livro. 

Joana Fomm e Grande Otelo em Macunaíma
“Otelo fazia o papel de Macunaíma quando criança, andava com uma camisolinha de neném e uma chupeta na boca pra lá e pra cá. Ninguém notava, pois aquela figurinha já fazia parte do cenário. Quando o diretor lhe pedia para fazer uma careta, a figurinha se transformava e todo mundo em volta morria de rir.Agora chora, Otelo. E ele derramava lágrimas e mais lágrimas, deixando-nos emocionados. Uma vez lhe perguntei: olha, eu sei que a gente ri e chora, mesmo, quando é preciso. Concentra um pouco, pensa no personagem, procura na memória alguma coisa parecida e manda ver. Mas você... diz pra rir, ri; manda chorar, chora. Tudo num estalo, sem truque. Como é que você consegue isso? Meu querido colega me olhou espantado e respondeu: Mas Joana, eu estou fazendo isso há 50 anos. É a minha profissão. Eu vivo disso. O que você queria? Foi a primeira vez que me passou pela cabeça que, dependendo das necessidades, da intuição e talento, Stanislavski e companhia podiam ser nada. Foi aí que comecei a conhecer o Grande – com ele não tinha porém.”




sábado, 4 de outubro de 2014

Hugo Carvana: o homem que perseguia a alegria


Hábito de todo final de manhã/ começo de tarde de sábado, estava num café lendo jornal, perto da uma da tarde. Acabei de ler uma matéria sobre José Wilker no Globo, entro no twitter e estava lá: Hugo Carvana morre aos 77 anos. Tão zonzo fiquei que nem li a matéria, não sei se estava doente, de que que foi: não me interessa. Tudo cala diante da morte de um cara que eu admirava e que, para mim, era a alegria.

Em 1975
Tenho mania de guardar matérias das pessoas de quem eu gosto (e das que não, também) e vou direto ler algumas do Carvana. A mais antiga é de uma Ele e Ela junho 1975, título “Eu não sou malandro, sou otário”, fotos de Carvana com cigarro na mão e diante de um copo de chope. Tempos da novela Cuca Legal, ele já tinha dirigido Vai Trabalhar Vagabundo e completava 21 anos de carreira e “64 filmes nas costas”. Em outra matéria, sem data (provavelmente 2002), Carvana chegava a 78 filmes. “No princípio não foi mole, gente boa. Muita luta e eu tive que dar muito pinote. Comecei aos 17 anos como figurante no filme Trabalhou Bem, Genival. Fiz mesmo de curtição, e o Joel Barcelos me incentivava – “vai nessa que é uma boa”. E estou nessa até hoje, onde pretendo continuar. Não tenho porque largar o meu cinema”, disse ele pra Ele e Ela.

“Os cineastas brasileiros se dão muita importância” é o título de uma capa do Segundo Caderno do Globo, em 2007, quando Carvana ganhava mostra em sua homenagem no Rio, captava recursos para a finalização de A Casa da Mãe Joana e já anunciava o próximo, Não se Preocupe, Nada Vai Dar certo. Abaixo, alguns trechos dessa deliciosa entrevista assinada por Patricia Villalba.

“Por sorte, eu estava nos lugares certos nas horas certas. Começou tudo na chanchada, que me despertou o desejo de ser ator. Daí eu fui estudar teatro, fazer uma escola de teatro. Dei um pulo, fui fazer teatro mambembe, viajei pelo Brasil. Por acaso, eu conheci o Teatro de Arena, de São Paulo, que estava fazendo testes para uma temporada no Rio. Eu não sabia, mas era um teatro revolucionário, propunha uma mudança radical na postura teatral. Ali me fiz homem, foi um salto das brincadeiras, da molecagem, para entender mais o homem, suas contradições. Naqueles anos, estou falando de 1958, 59, outro grupo de jovens no Rio tinha vontade de fazer cinema. Esse grupo de jovens quando viu esse grupo de teatro ficou fascinado, se aproximaram. Foi meu terceiro movimento. O destino me chamou, e lá fui eu fazer o Cinema Novo”.

“Quando eu decidi dirigir, já tinha 20 anos de cinema. Quis o destino que a primeira história, de Vai Trabalhar Vagabundo, estivesse carregada de alegria. Depois, eu descobri que essa alegria veio da chanchada. Vai Trabalhar Vagabundo (1973) começa com o personagem saindo da cadeia. Fiz esse filme em plena ditadura Médici onde, ao contrário, as pessoas estavam na cadeia. Além da alegria, da brincadeira, que era a chanchada, o filme escondia esse desejo autoral – confesso que não consciente. Foi emblemático o “bom dia, professor!”. Eu seria falso se ficasse procurando a angústia, os amores incompreendidos. A fome passa longe dos meus filmes, apesar de o banquete não estar dentro deles também”.
“Ninguém sabe que eu trabalho como um louco para produzir meus filmes. Todo mundo quer é tomar um chope comigo”.

Outra capa do Segundo Caderno do Globo, em julho de 2011, quando lançava Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo, o oitavo filme como diretor, com Gregório Duvivier e Tarcísio Meira no elenco. Dois trechos da matéria de Luiz Fernando Vianna:
“Não sou politicamente correto e não tenho problema em dizer isso. Aos 74 anos e 55 de cinema, já estou diplomado. Não estou a fim de tratar de coisas boazinhas. O que me interessa é o mauzinho, o sacana, esses personagens que invertem a lógica – afirma ele, entre baforadas de charuto, em sua casa na Barra da Tijuca, longe da boemia – A vida boêmia é passado, são só flaschbacks.”

“O cineasta se interessa pelos malandros de pequeno vulto, anônimos, como o que está imaginando para um futuro filme: velho punguista que teve seu ofício de furtar dinheiro prejudicado pela invenção da calça jeans, que comprime as carteiras aos corpos.
- Essas figuras são como mamutes. Devem continuar existindo por aí. Sempre que puder, eu vou recuperá-las – promete Hugo Carvana”

Grande cara, esse Hugo Carvana.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

santíssima (família) trindade

Domingo vi no twitter uma foto (ao lado) que o Pedro Alexandre Sanches tirou da Raquel Trindade, 78 anos, no encontro de intelectuais que apoiam a candidatura Dilma. Olha a Raquel, pensei. E fiquei com aquela mulher incrível na cabeça. Eu a conheci há oito anos. Foi uma matéria para o primeiro número da FFW Mag!. Abaixo, a saga de uma família de raízes africanas que faz da paixão pela arte o motor de sua existência, os Trindade. E vai pro saudoso Ailton Pimentel, que também era negro, editava a revista e me chamou para escrever essa matéria que deixou belas lembranças.

                                     santíssima (família) trindade

Poesia, dança, música, artes plásticas e muitas outras formas de expressão compõem, de geração em geração, a saga de uma família de raízes africanas radicada em São Paulo, que faz da paixão pela arte o motor de sua existência.


Raquel entre os netos Manuel e Zinho. Foto Bob Wolfenson
Quando criança, o agora rapper MC Zinho Trindade ficava “zoado” com a quantidade de pessoas entrando e saindo de sua casa. Era um povo alegre que gostava de música, dança e muita festa, algo bem diferente da calmaria nas residências vizinhas. Foi assim que Zinho começou a tomar consciência de que nascera numa família de artistas – e a descobrir, aos poucos, um baú de preciosidades. “Sou negro, meus avós foram queimados pelo sol da África/ minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs”. É com orgulho que Solano Trindade, o bisavô de Zinho, deixou registrada em versos sua descendência. Poeta, pintor, teatrólogo, ator e folclorista, ele dedicou a maior parte de sua vida a batalhar pela cultura popular. Nascido em Recife, em 1908, foi um dos maiores animadores culturais de seu tempo, como provou a Frente Negra Pernambucana, fundada por ele em 1930, quando publicou seus primeiros poemas. A militância nunca mais parou e estendeu-se para outros estados nas temporadas em que morou em Belo Horizonte, em Minas, e em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

“Papai foi criado ouvindo histórias de mula-sem-cabeça e de saci e da literatura de cordel e assistindo nas ruas ao maracatu e as outras danças populares”, contra outra integrante do clã, Raquel Trindade. Artista plástica, coreógrafa e ialorixá de candomblé, ela herdou de Solano o amor pela cultura negra e pelas tradições populares e é quem mantém o trabalho de resgatar as danças, a religiosidade e os ritmos afro-brasileiros.

Solano Trindade
                                                     DE RECIFE PARA O MUNDO

Na memória de Raquel está bem vivo o dia em que ela e a mãe, Margarida, a irmã e uma amiga deixaram Recife, em plena Segunda Guerra Mundial, quando os navios estavam indo a pique, para encontrar Solano Trindade no Rio de Janeiro. A única pista que tinham era o bar Vermelhinho, famoso na década de 50 por ser ponto de encontro de artistas, políticos e intelectuais da época – e que ele frequentava todos os dias. Ao desembarcar, Margarida deixou as crianças no navio e foi até o bar, onde teve notícias do marido pelo ator Grande Otelo. Logo a família Trindade estava reunida outra vez, morando no subúrbio do Rio, principalmente num barraco improvisado na Gamboa e depois numa casa em Duque de Caxias.

A mãe era presbiteriana; o pai, comunista – e a casa, bem peculiar: “Num caixote de cebolas havia O Capital, de Karl Marx, ao lado da Bíblia”, relembra Raquel. Na casa dos Trindade funcionava a célula Tiradentes do Partido Comunista, sempre com muitos operários e camponeses. “Apesar de presbiteriana, minha mãe servia cafezinho para os comunistas, ensinava dança para eles. Era uma mulher muito inteligente, muito avançada”.
Solano foi preso pelo governo Dutra, e a temporada no cárcere “não diminiuiu em nada seu amor pela arte e pela vida”, conta Raquel. Sem nunca parar de escrever seus poemas, fundou vários grupos de teatro. Um dos principais foi o Teatro Popular Brasileiro, em 1950, que fazia uma leitura nova de danças como maracatu e bumba-meu-boi, com ricas e coloridas coreografias apresentadas por operários e gente do povo.

Raquel faz questão de chamar a atenção para a frase que era chave no trabalho de seu pai: “Pesquisar nas fontes de origem e devolver ao povo em forma de arte”. Em 1955, o grupo viajou para a Europa como atração de um Festival da Juventude, com artistas do mundo todo. A dançarina Raquel tinha então 19 anos e foi com o pai. No navio, conheceu o primeiro marido (depois dele, viriam mais sete), pai de Vitor de Trindade, hoje percussionista em atividade na Alemanha. Raquel tem mais duas filhas: Regina, a única da família que não se dedica às artes, e Dadá, que canta, dança, toca e escreve nos Estados Unidos.


                                                 RITMO E POESIA

Perto de completar 70 anos, Raquel mora no Embu, a cerca de uma hora do centro de São Paulo, numa casa bem simples, repleta de livros e quadros. Ao lado, funciona o Teatro Popular Solano Trindade, que ela fundou em 1975, um ano após a morte do pai. O que no princípio era um barracão está se transformando num prédio amplo, moderno, ainda não totalmente concluído. Durante a semana, o lugar abriga aulas e, no fim de semana, os ensaios do grupo de danças folclóricas, formado por 30 pessoas.

Os netos, Manuel e Zinho, filhos do percussionista Vitor, também são músicos. Zinho, 23 anos, optou pelos caminhos do hip hop. Seu estilo é o freestyle, em que a rima é feita na hora, e o primeiro CD, Zinho Trindade Resgatando as Raízes, vai misturar maracatu, coco e folclore com hip hop. Alguns poemas do bisavô Solano vão entrar na rima – e a atualidade dos versos impressiona o rapper: “Eram muito avançados para a época. Um deles, escrito nos anos 50, já fala nos manos. Tem outro chamado Salve, que é a saudação de hoje em linguagem de ruas. Tudo numa linguagem popular, numa valorização da periferia”. Manuel, 21 anos, começou nas pegadas do pai percussionista, se encantou pela bateria e também mistura ritmos folclóricos em seu trabalho. Ele e o pai preparam um show com os poemas de Solano Trindade, que Vitor vem musicando. No CD Airá Otá, que gravou em parceria com Caçapava em 2001, Vitor já incluiu três: Rio, A Velhinha do Angu e Zumbi.

Para vários críticos, Solano é o criador da poesia assumidamente negra no país. Em versos repletos de musicalidade e ritmo, ele cantava o amor, as mulheres, as cidades onde viveu e o cotidiano da família, mas também falava do negro e das más condições da vida do povo, entre outros temas sociais. “Ainda são versos muito atuais em sua defesa das tradições culturais e em sua luta por um mundo melhor”, diz Raquel. Hoje restrita a um público especializado, a poesia de Solano Trindade ganhou mais exposição nos anos 70, quando foram musicadas Mulher Barriguda e Tem Gente com Fome, gravados pelo grupo Secos e Molhados e por seu líder, Ney Matogrosso, respectivamente.


Tem Gente com Fome: Rev. Semana, 1954


                                                      CONTINUIDADE

A ligação da família Trindade com o Embu começou nos últimos anos da década de 50. A convite do escultor Assis, Solano foi conhecer a cidade e se instalou com seu grupo de 30 pessoas no barracão do amigo. Nos fins de semana, cantavam e dançavam pelas ruas do lugar e começaram a atrair um público cada vez maior. Em 1959, Solano e o grupo participaram de Gimba, peça de Gianfrancesco Guarnieri montada no TBC e estrelada por Maria Della Costa, que fazia o papel de uma mulata. Apaixonado por Embu, Solano instalou-se na cidade em 1961, e sua casa tornou-se um núcleo artístico. Em 1968, Assis e Solano fundaram a feira de artesanato que, com o tempo, se transformou numa espécie de cartão de visitas da cidade.

Separado de Margarida, Solano teve mais duas mulheres. Terapeuta ocupacional, Margarida continuou no Rio de Janeiro e trabalhou 25 anos com a legendária Nise da Silveira, no Museu do Insconsciente, ensinando aos doentes suas danças do Nordeste. Volta e meia vinha visitar a família no Embu. Quando Solano estava doente e em dificuldades financeiras, ela veio buscá-lo e o levou para uma clínica no Rio, onde ele faleceu.
“Minha forma de arte hoje é a pintura”, diz Raquel que, depois de um acidente no qual sofreu muitas queimaduras, descobriu as telas e as tintas. Praticamente na mesma época veio o candomblé. É ialorixá (“a mãe que zela pela energia da cabeça”) e faz palestras sobre sincretismo religioso.

Nos anos 70. Raquel foi carnavalesca. O primeiro desfile foi em 1976 para a paulistana Vai-Vai, sua escola de coração, que homenageou seu pai com o enredo Solano Trindade, Moleque do Recife. Vieram outros carnavais e uma passagem marcante pela Quilombo, escola de samba carioca. Ela fala com entusiasmo desses tempos. Mas o que a deixa mais animada é pressentir a continuação de seu trabalho de valorização da cultura popular por seus filhos e netos. Por isso, não se incomodou nem um pouco quando o neto Zinho enveredou pelos caminhos do hip hop: “É uma maneira de essa juventude se expressar. É arte, é evolução, é o futuro”, diz ela, com um brilho de orgulho nos olhos que já foram pretos e cada vez estão mais claros, uma característica das mulheres de sua família tão especial.
                                       
                                        Revista FFW Mag! nº 1 2006


Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...