quarta-feira, 15 de abril de 2015

"Eu me humanizei": Clarice Lispector em julho de 1969




Entrevista de Clarice Lispector é pra se comemorar. No final de 2011, quinze delas foram reunidas em um livro da série Encontros da editora Azougue (no final, links para a primeira entrevista). Dia desses, num dos meus processos de escavação, encontrei essa abaixo, publicada no jornal Última Hora em julho de 1969, quando ela lançava Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, livro que começa com vírgula e acaba com dois pontos. É bem interessante.

Sempre em tom maior
Texto de Norma Pereira Rego


- Estou muito menos altiva, muito mais ao alcance das pessoas.
Essa foi a primeira resposta que me deu Clarice Lispector. Logo que entrei na sua sala de visitas vi um pequeno quadro com uma linda mulher. Era ela. Pintada por De Chirico, no tempo em que morava em Roma. Ela ainda tem os mesmos olhos amendoados de forma esquisita e a mesma boca forte. Só as maças do rosto já não são salientes porque o rosto está mais cheio. Tirei da bolsa dois livros para ela autografar.
- O primeiro livro e o último.
Foi o seu comentário. Era uma velha edição portuguesa de Perto do Coração Selvagem e outra novíssima lançada agora pela Sabiá: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres.
- Achei O Livro dos Prazeres muito mais fácil de ler do que qualquer um dos seus outros sete. Acha que isso tem algum fundamento?
- Tem. Eu me humanizei. O livro é um reflexo.
No livro Laços de Família há um conto que eu choro toda vez que leio. Chama-se Preciosidade. Clarice narra o momento em que uma adolescente áspera, fechada em si mesma, descobre que precisa começar a se suavizar.
- Se aquele seu personagem, aquela menina de quinze anos tivesse hoje quarenta, você acha que ela ainda continuaria se sentindo “feia e preciosa”?
- Não é se sentir, é saber que dentro da gente existe alguma coisa a salvaguardar com muito cuidado porque é muito frágil.

CRIANÇA E CRIADA

- O Livro dos Prazeres foi o último, não pretendo mais escrever.
- Por quê?
- Ora! Porque dói muito.
Ela começou a rabiscar com sete anos, aos quinze publicou seu primeiro romance. Nunca pensou em fazer poesia. Veio do Recife com doze anos de idade. No Rio casou-se com um diplomata e viveu em vários paises. Tem três filhos. Não admite seu estilo influenciado pelo de nenhum escritor.
- Você vê o Lawrence que eu ano não tem nada a ver com o que eu escrevo.
- Nem Katharine Mansfield?
- Não. Ela tem um estilo intimista e valoriza pequenos fatos do cotidiano, não creio que este seja o meu modo de escrever.
Todo escritor brasileiro surgido nos últimos 20 anos leu Clarice Lispector. Alguns foram marcados por ela, outros a copiam tranquilamente. Ela tem mesmo algo de fortemente pessoal em matéria de estilo e se parece com seus livros. É densa, sem sombra de humor, sempre sustentando o tom maior, assim como Lucio Cardoso que era seu amigo.
O bacana é que nunca escamoteou o fato de ser mulher ao fazer suas histórias.
- Claro, eui respeito demais a mulher para tentar escondê-la.
Vestir um vestido de fustão no verão, sair correndo para comprar um maiô novo, bisbilhotar o quarto da empregada são vivências femininas que ela não pensa em esquecer. Quer dizer, com Clarice ficou provado que criança e criada são temas ótimos, depende de quem os tocar.

DOIS PONTOS E VÍRGULA

- Já me disseram que esse não vai ser o meu último livro porque eu o terminei com dois pontos.
- E começou com virgula, não é?
- É, mas começar com vírgula não é gracinha não, eu peguei a mulher no meio da vida, no meio de um pensamento.
- Esse livro foi escrito há muito tempo?
- Não, de um ano para cá.
- Você mexe muito no passado?
- Para escrever, não: invento tudo.
- E no dia a dia?
- No dia a dia eu mexo muito com o passado.

Ela me pediu que a entrevista fosse curta, estava cansada. Lembro agora a última frase de um de seus romances: “De qualquer luta ou cansaço me levantarei forte e bela como um cavalo novo”. Isso foi uma profissão de fé. Clarice, seus leitores esperam mais livros.



A Primeira entrevista de Clarice - Parte 1

A Primeira entrevista de Clarice - Parte 2

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Tereza Terezinha e a força dos nomes

Sim, os nomes carregam uma força. É teoria minha, boba e sem peso como toda teoria, o que não deixa de ter um sabor. Gosto de ir traçando um perfil para os nomes de acordo com as pessoas (reais ou fictícias) que vou conhecendo. Ontem, matutava sobre Tereza, a partir da personagem da Fernanda Montenegro na novela Babilônia. Tereza é nome de mulher forte, decretei e fui listando algumas para fundamentar a afirmação. Daí me veio o diminuitivo: Terezinha é nome de mulher sofrida, volta e meia atropelada pela vida. Exemplos? A Terezinha da canção do Chico Buarque puxa a lista ao lado de uma amiga de adolescência que parecia ter uma nuvem carregada vagando por sobre ela, tantas as tragédias que ia vivendo em tão poucos anos. 

Lembrei dessa divagação em torno de Tereza Terezinha agora de manhã, ainda acordando e com aqueles restos de sonhos e pesadelos que costumam nos acompanhar no despertar para um novo dia. É que se chama Terezinha a mãe de Eduardo, o menino de 10 anos assassinado pela polícia, ontem, no Morro do Alemão. Ontem, fui dormir pensando nela, naquela declaração que jamais esqueceria o rosto do policial que acabou com a vida de seu filho, que foi atrás dele e teve uma arma apontada. Pensei na ficção para amainar a dureza da realidade e me veio Anna Magnani naquele clássico neo realista italiano, correndo desesperada e doida atrás dos tanques da repressão. Terezinha Maria de Jesus, meu coração está contigo, nesta sexta santa, dia em que, na minha meninice, as igrejas cobriam os santos com panos roxos. E eu ficava maravilhado e aterrorizado com aquilo. 

João Carlos Barroso: os primeiros passos de um ator coadjuvante

A primeira foto é de Homem, Besta e Virtude, peça de 1962 Leio na capa do site: "Morre João Carlos Barroso, de Roque Santeiro e Z...