terça-feira, 30 de julho de 2019

Há 70 anos: Camus assiste Ruth de Souza com o Teatro Experimental do Negro

Com os colegas do TEN, Ruth de Souza conversa com Albert Camus: 26 de julho de 1949, Teatro Ginástico, Rio


Quando morre um artista que eu admiro, costumo mergulhar na trajetória dele, lendo tudo que posso a respeito. É o meu jeito de dizer adeus e agradecer. Com Ruth de Souza foi assim, procurei em revistas antigas, li várias entrevistas e três livros com ela de protagonista (no final). É impressionante a lista de "celebridades" com quem Ruth conviveu, afinal sua carreira artística começou na metade da década de 40. Albert Camus foi um que me chamou atenção e, como uma coisa leva a outra fui atrás.

Ruth o conheceu em 1949, durante a viagem do francês ao Brasil e América Latina. No livro Estrela Negra (Coleção Aplauso), ela conta que guardava uma dedicatória dele: "À minha filha Ruth-Cesônia, de seu pai ocasional com toda a gratitude e agradecimento" (Nota: Cesônia era a personagem de Ruth na peça). No Rio, Camus foi assistir a uma apresentação especial do Teatro Experimental do Negro (TEN), grupo pioneiro onde Ruth era estrela, no Teatro Ginástico. 

Às pressas e sem dinheiro, Abdias Nascimento (o fundadador do TEN) decidiu montar um ato de Calígula, peça de Camus, para apresentar ao autor. Foi uma só apresentação e o espetáculo não foi fotografado. E junto com Calígula, Camus também assistiu o segundo ato de Aruanda, de Joaquim Ribeiro, uma das primeiras peças a abordar o universo místico do negro brasileiro. Fui atrás de uma foto de Ruth e Camus e encontrei a que está lá em cima, do arquivo de Abdias Nascimento, na Quilombo, revista que ele editou em 1950 e publicada em 2011 na Memorabília da Ilustríssima (Folha).

No livro Diario de Viagem (editora Record), Camus conta da apresentação, sua impressão de Calígula e faz um resumo interessante de Aruanda. Foi há 70 anos, 26 de julho de 1949, ele está de cama, com febre, resultado de uma gripe.

Ruth em Aruanda
"Noite. Alguém vem me buscar. Eu havia esquecido que o grupo negro deveria me mostrar hoje à noite um ato de Calígula. O teatro está reservado, não se pode fazer outra coisa. Agasalho-me como se fosse para o polo Norte e vou de táxi.

Estranho ver esses romanos negros. E depois, o que me parecia um jogo cruel e vivo tornou-se um arrulhar lento e terno, vagamente sensual. Em seguida, desempenham para mim uma peça brasileira curta (nota: é o segundo ato de Aruanda), que me agrada muito e cujo assunto transcrevo:

"Um homem, frequentador assíduo de macumbas, é visitado pelo espírito do amor. Atira-se então sobre sua mulher, que se deixa por ele enlevar e apaixona-se por esse espírito. Com o mesmo canta, provoca a vinda do espírito tantas vezes quanto possível, o que dá ensejo, no palco, a bacanais animadas. Finalmente o marido compreende que ela não está apaixonada por ele, e sim pelo Deus, e mata a mulher. No entanto, ela morre feliz, pois está convencida de que irá se encontrar com o Deus que ama."

Ruth de Souza em livros


Estrela Negra, de Maria Ângela de Jesus - Biografia para a Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial SP. Link: http://aplauso.imprensaoficial.com.br/livro-interna.php?iEdicaoID=42

Álbum de Retratos, por Haroldo Costa. Como explicita o título, uma série de belas fotos, em ordem cronológica

Bastidores, de Simon Khoury. Entrevista longa de Ruth.


sábado, 27 de julho de 2019

Dois livros encantadores sobre gatos

Patricia Highsmith e William Burroughs. Arte by B.

"Tudo me leva a crer que em breve terei um gatinho", ouço de minha amiga Marcia. Ela escreve no Instagram, como comentário a uma foto de Nina, a gata aqui de casa. "Pra se decidir, se ainda não leu, aí vão dois livros", respondo. E são esses os dois livros maravilha que indiquei: Os Gatos, da Patricia Highsmith e O Gato Por Dentro, de William Burroughs. Ambos saíram na série pocket da LPM e são facilmente encontráveis em qualquer banca de revista - e por preços convidativos. Leitura rápida. Quer dizer, leitura rápida a primeira. Já voltei a eles muitas vezes. Gateiros vão se deliciar e quem ainda não os descobriu, pode encontrar um mundo novo.

Quem já se encantou por eles sabe que Highsmith (O Talentoso Ripley, Carol) e Burroughs (Almoço Nu, Junky) não eram o que se pode chamar de escritores convencionais, pessoas "certinhas" - e quem o é?

Os Gatos, o livro de Patricia Highsmith tem três histórias (e que histórias) protagonizadas por felinos, três poemas (e que poemas) e acaba com um ensaio (Sobre Gatos e Estilos de Vida) simples, divertido e elucidativo. Dois trechinhos e um poema.


"Se me pedissem para completar a frase: "Eu gosto de gatos porque...", duvido que ganhasse algum prêmio, mas sei o que gosto neles e por quê. Gosto de gatos porque eles são elegantes e silenciosos, e têm efeito decorativo: uns leõezinhos razoavelmente dóceis andando pela casa."

"Os gatos escondem um senso de travessura por trás da expressão serena. Já vi ambos os meus gatos procurarem o colo de um visitante que é alérgico, ou que detesta gatos abertamente."

O filhote
Tudo no mundo
foi feito para eu brincar:
Gafanhotos, pés de cadeiras, petit-pois,
Sombras, bolas de poeira e meu próprio rabo.
Há tantos cantinhos, portas entreabertas,
E forros de coisas para olhar,
Tantos lugares para ir, que fico doido
De não poder estar em todos eles ao mesmo tempo.
E então me canso.

O Gato Por Dentro, o de William Burroughs, é muito bem resumido no comentário da Harper´s Bazaar estampado na capa: "Um livro sobre o convívio com gatos pôs Burroughs em contato com seu próprio eu." É isso mesmo. E tudo em textos curtos e encantadores de tão intimistas e confessionais. Trechinhos:

"Nos últimos anos, tornei-me um dedicado amante de gatos, e agor reconheço a criatura claramente como um espírito felino, um Familiar."

"O gato não oferece serviços. Ele se oferece. Claro que ele quer carinho e abrigo. O amor não é de graça. Como todas as criaturas puras, os gatos são pragmáticos."

"Há quinze anos sonhei que tinha pego um gato branco com linha e anzol. Por algum motivo, estava prestes a rejeitar a criatura e jogá-la de volta, mas ela começou a se esfregar contra mim e a miar de um jeito comovente."

"Muito mais tarde eu descobriria que fui escalado para o papel do Guardião, para criar e alimentar uma criatura que é parte gato, parte humana e algo ainda imaginável, que pode resultar de uma união que não acontece há milhões de anos."



Clarice Lispector: Meu Natal

Clarice Lispector com o marido e filhos no Natal de 1956, EUA. Do livro Fotobiografia Esta crônica natalina encerra a coluna de C...