terça-feira, 4 de maio de 2010

Fuzuê do fumacê

Foi na modorra de uma tarde de sábado, que sábado é sábado em qualquer lugar do mundo. Eram tempos de arrobas. Por trás de cada uma delas, alguém, e palavras substituindo formas físicas, olhos nos olhos, na cadência maluca de um começo de século. E nessa terra sem lei, não obedecendo regras de isolamento, as pessoas teimavam em se encontrar, que gente é mesmo bicho esquisito e inventa as mais diferentes maneiras de concordar com o poeta no é impossível ser feliz sozinho. É assim desde que o mundo é mundo, seu Raimundo, e quanto mais o homem complica, quanto mais globaliza, mais cidade do interior esse mundão fica.

Nem lembro se fazia sol naquele sábado ou se já começara a temporada de chuvas que animou aquele verão. Só lembro que era sábado, uma tarde de sábado e os manda-chuvas estavam em plena caça de criaturas que lançavam baforadas ao deus dará. Foi então que dois arrobas resolveram baforar as maisons e chatôs das autoridades do banir a fumaça, que a cada dia se assemelhavam mais a vampiros de outros tempos – nada a ver com os charmosos seres das trevas True Blood e Crepúsculo daqueles anos.

E sábado, toda tarde de sábado, lá estavam os arrobas malucos no ato frenético, logo batizado de fumacê. E mais arrobas foram chegando, que arroba adora um fuzuê. Vieram até paparazzi e os arrobas debochavam deles. Nada de caras, faces, quens, vejas, épocas e outras impressas, apenas o império das arrobas na fogueira das vaidades de sempre.

Toda tarde de sábado era de fumacê e os sinais, como se anunciados pelos sinos de Belém, chegavam a distantes recantos. Homens e mulheres arrobas se divertiam à mancheia, vestidos de bionças, de madonnas ou de nobres ingleses na tradicionalíssima caça à raposa. Era de chorar fumacês, era de chorar abolições, numa linguagem que, para os arrobas, nada tinha a ver com lágrimas, muito pelo contrário. Que nossa senhora da Queridolândia proteja os arrobas. Obrigado. Amém. Y bolotas.

sábado, 1 de maio de 2010

A famous italian director


Hoje me chamou da estante um livro incrível: Os Antipáticos. É da Oriana Fallaci, jornalista e escritora italiana que entrevistou as principais figuras do século 20. Ela morreu em 2006, aos 77 anos, e nesse livro reúne suas conversas com pessoas consideradas difíceis – Ingrid Bergman, Hitchcock, Jeanne Moreau, políticos, nobres, uma galeria. É uma aula da arte de entrevistar.

Um dos capítulos (A Famous Italian Director) é sobre Fellini. Eles se conheceram em Nova York, final dos anos 50, quando do lançamento de Noites de Cabíria e se tornaram “mais ou menos amigos”. A partir de agora é Oriana Fallaci quem conta:

“Às vezes ele aparecia no apartamento em Greenwich Village para pedir-me um café com leite – o café com leite, nunca entendi porque, aliviava as suas saudades da pátria e a ausência da esposa Giulietta Masina. Entrava muito deprimido, massageando o joelho, “quando estou triste sinto dor no joelho”, “Giulietta, quero Giulietta”

“Não tinha nada de Greta Garbo, não era o monumento que é hoje. Chamava-me Bolinha, fazia-se chamar Bolinho, em alguns casos até Bolão, abandonava-se à extravagâncias inocentes, como chorar no bar do Plaza Hotel, porque o crítico do New York Times falara mal dele, ou bancar o valente. De fato, freqüentava a loira de um gângster e este lhe telefonava diariamente no hotel para dizer-lhe “i Will kill you”. Fellini não sabia inglês e respondia “very well, very well”, alimentando assim a fama de valente. A fama durou até o dia em que lhe expliquei o que o gângster lhe dizia. Meia hora depois da explicação, Fellini estava a bordo de um avião na direção de Roma.”

Oriana conta que Fellini costumava perambular à noite por Wall Street, “olhar os bancos com jeito de ladrão” e despertou a desconfiança dos policiais. Sem documentos, foi trancafiado numa cela até às seis da manhã, a berrar a única frase de inglês que conhecia: “I am Federico Fellini, famous italian director”. Chamou a atenção de um policial ítalo-americano que vira “La Strada” e lhe pediu para assobiar a trilha do filme. Acabou solto, ouviu desculpas e os polici o levaram ao hotel. Fuguraça!

João Carlos Barroso: os primeiros passos de um ator coadjuvante

A primeira foto é de Homem, Besta e Virtude, peça de 1962 Leio na capa do site: "Morre João Carlos Barroso, de Roque Santeiro e Z...