domingo, 30 de dezembro de 2012

O No chileno e a eleição Collor X Lula: conexões

Rede Povo, campanha PT 1989
No, plebiscito Chile 1988

É o plebiscito de 1988 que tirou Pinochet do poder o tema do chileno No, em cartaz nos cinemas. É muito bom e assisti o tempo todo com a eleição presidencial de 1989 na cabeça. Assim como no filme, a disputa entre Collor e Lula era praticamente um plebiscito por mudanças no País. E, como no No chileno, a campanha eleitoral do PT era moderna, ousada. Havia uma “Rede do Povo”, que mostrava “o que a outra não quer mostrar” e a participação intensa dos artistas.

Em A Mulher do Barbosa, livro sobre a Louise Cardoso que escrevi para a Coleção Aplauso (Imprensa Oficial SP), ela fala sobre a campanha: “Em 1989, segundo ano do TV Pirata, praticamente todo o elenco fez a campanha do Lula, menos Claudia Raia e Regina Casé, que apoiavam Collor e Brizola, respectivamente. A campanha virou um sucesso e Lula começou a subir nas pesquisas. Num dos filmetes, Guilherme Karam aparecia nadando e morrendo na praia, como se fosse Collor; noutro eu estava no supermercado com a Cristina Pereira dentro do carrinho. Tudo bem engraçado e criativo, como os quadros do programa. Mas havia quem não gostasse nadinha daquele engajamento e começamos a receber telefonemas anônimos lá no estúdio – num deles nos chamavam de ninho de serpentes lésbicas”.

Essa cena poderia fazer parte de No. Teve de tudo nessa campanha do histórico “Lula-lá brilha uma estrela”: na última semana o depoimento sobre a filha “ilegítima” de Lula, o debate manipulado, o sequestro de Abílio Diniz... (aqui, um histórico da eleição 89:  http://noticias.uol.com.br/especiais/eleicoes-1989/ultnot/2009/12/17/ult9005u14.jhtm   

Ao contrário da vitoriosa campanha No do plebiscito chileno, Lula ainda não chegaria a presidência e o resto todo mundo sabe.

Mais conexões No e Brasil: nas últimas cenas do filme, aparece a campanha de lançamento da novela Bella y Audaces e uma personagem se apresenta: Kiki Blanche, cinco filhos, cabeleireira, ex-vedete. Sim, era a versão chilena da novela da Globo Locomotivas (1977). 

Link com a participação dos artistas na campanha do PT



A Rede Povo no horário eleitoral do PT



Abertura de Bellas y Audaces, 1988


Abertura de Locomotivas (1977)




sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A jovem Thelma Reston

Thelma Reston em 1964


Thelma em Aquele Beijo
Há alguns anos me encantei com O Jovem Lennon, livro do espanhol Jordi Sierra, sobre a vida de John antes de virar um Beatle. E desde então tenho a mania de pensar em como as pessoas eram quando jovens. Ontem morreu Thelma Reston, aos 73 anos e eu gostava muito dela. A primeira imagem é a da “gorda”, a mãe da família de Os Sete Gatinhos. Faz poucos meses me deliciava com a verve espirituosa dela em Aquele Beijo, a novela de Miguel Falabella, que sempre a escalava. – Dona Gôndola, a mãe de Ademilde em A Lua me Disse, foi outro grande momento de Thelma.

Mas como era Thelma Reston quando jovem? Gracias a maravilha internet encontrei rapidinho. E nos anos 60, Thelma arrasava nos palcos cariocas em O Prodígio do Mundo Ocidental (Synge), Espectros (Ibsen), A Falecida (Nelson Rodrigues) e A Ratoeira (Agatha Christie), pra citar algumas. No jornal Correio da Manhã, de 17 de janeiro de 1964, encontro a matéria Quatro Jovens a Caminho do Estrelato. Duas mulheres (Thelma e Maria Gladys) e dois homens (João Paulo Adour e Érico Freitas). Os caras da matéria meio que sumiram, mas as duas gatas arrasaram desde então e, olha a “coincidência”: Gladys também é presença constante nas novelas de Falabella.

Abaixo alguns trechos de Thelma Reston, aos 25 anos, falando na citada matéria:

“Não tenho problema de tempo. Ainda estou numa fase de luta. Acho que no Brasil, infelizmente, a atriz ainda não pode encarar seu trabalho como uma profissão. Não há condição para se viver exclusivamente de teatro, tem-se que apelar para a televisão, o cinema, a dublagem, etc.”

“O teatro significa tudo para mim. Cada indivíduo procura se realizar em alguma coisa. Eu procuro esta realização no teatro, no cinema, ou em qualquer outra modalidade da arte de representar. Gostaria também de me dedicar à fotografia, que também me fascina muito. Como não é segredo para ninguém, a carreira artística significa muitos sacrifícios. É preciso muita luta e trabalho. Não se pode parar nunca. É uma constante evolução que só pode parar com a morte. Tem que seguir o ritmo”.

“Sempre tive uma propensão para levar tombos em cena: quando fazia A Ratoeira, no Teatro do Rio, caí três vezes; em Victor ou As Crianças no Poder, no Maison de France, o solado do sapato soltou e tive que passar o ato inteiro procurando me equilibrar em cena. Quando estreei no profissionalismo, na companhia de Rubens Correia e Ivan Albuquerque, na peça O Prodígio do Mundo Ocidental, aconteceu o pior: a saia despencou, e até hoje não sei como consegui continuar representando”.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O mais zen dos baianos



O post anterior - Mania de Gilberto Gil – tinha alguns trechos de uma entrevista minha com o cara, em 1994. Algumas pessoas me pediram pra ler inteira. Está aqui, copiadinha total, aproveitando as comemorações dos 70 anos de Gil. E as fotos são de Klaus Mitteldorf

  
Prepare-se, pois você vai ouvir falar muito de Gilberto Gil nesse ano. Ele lança disco acústico, disco inédito, faz show na Europa com Caetano Veloso e com Os Doces Bárbaros e turnês pelo Brasil. Não resta dúvida que 94 é um ano “totalmente sim”, demasiadamente sim” na carreira do baiano. AUDIO NEWS foi atrás de Gil, acompanhando-o durante dois dias, quando ele ensaiou e gravou o especial acústico para a MTV. Duas semanas depois, conversou com exclusividade.

Bem disposto e com uma banana na mão – ao estilo tropicália – Gilberto Gil apareceu nos estúdios da Frame, em Cotia, arredores de São Paulo, onde gravou o Acústico. Gil, com a banana descascada na mão, vai direto ao estúdio conferir os cenários e o som. Depois parte para a exclusiva sessão de fotos que ilustra esta reportagem. Em volta, algumas crianças – que apareceram misteriosamente – circulam pelos estúdios da Frame, com caneta e papel na mão. Fazem menção de que vão partir para a caça de autógrafos, mas desistem e desaparecem. Enquanto a sessão fotográfica não começa, Gil conversa com as pessoas que vai encontrando. Com o figurinista Cao, comenta a repercussão do show de reencontro dos Doces Bárbaros, que tinha acontecido dois dias antes na quadra da Mangueira. “Foi belíssimo”, diz Gil.

Como um modelo, se entrega as fotos, inventa poses e demonstra total intimidade com a lente. Veste sapatilha preta, jeans e camiseta do grupo ecológico Onda Azul. Aliás, antes de chegar à Frame, ele visitou o Partido Verde paulistano. As fotos estão prontas e Gilberto Gil é carregado pelo pessoal da MTV para gravar o Reggae MTV. Cercado pela garotada que produz o programa, escolhe os clips que vai apressentar. “É um programa seu, onde você é o VJ”, ouve atento as instruções do jovem diretor. Sentado em cima de uns caixotes, o cinquentão baiano estreia como VJ. Nos intervalos, o figurinista Cao se transforma em camareiro e, de toalha na mão, enxuga o rosto suado do astro.

Hora de ensaiar o acústico. Gil e músicos começam a complicada sessão de afinar instrumentos, cheios de problemas técnicos para resolver. “Falta grave no estúdio”, reclama um Gil irritado, entre muitos goles de água de côco. Ao violão, dedilha pela quarta vez Três Caravelas até ser interrompido por uma forte microfonia. Mas duas horas depois, os problemas técnicos estão resolvidos, o som limpíssimo e tudo está pronto para a gravação do dia seguinte.


Todo de vermelho e com tamancos pretos (tudo by Cao), Gilberto Gil entra animado no estúdio cheio de convidados: “Eu já nasci unplugged, a minha geração é unplugged e agora vem todo mundo perguntar porque eu decidi gravar acústico”, apressa-se em desmentir a novidade da apresentação. Afinal,  desde que Eric Clapton bateu recordes de vendagens com seu Unplugged, virou moda desplugar os instrumentos da tomada. Na gravação, a empolgação é total, o público reage entusiasmadíssimo, surpreendendo-se com certos momentos, como na versão forró que torna Expresso 222 uma festa ainda maior. O prazer de tocar de Gil e músicos é evidente. A gravação acaba e algumas músicas precisam ser repetidas. “Não se fazem mais discos ao vivo como antigamente”, brinca com a plateia. Este “bis programado” inclui até o que ele chama de “uma versão punk” da inocente Sítio do Pica Pau Amarelo. Exibido pela MTV, o acústico de Gil deu origem a um home video e um disco que serão lançados no começo de abril. No Brasil, o disco vai se chamar Gil Unplugged e no exterior, Gil Acústico. Com o programa da MTV acontece o contrário: aqui foi batizado de Acústico e lá fora de Unplugged. Por que essa confusão? Mistérios de registros de marcas entre MTV e a gravadora Warner.

ZEN – Místico e obscurantista, como ele mesmo se define, Gilberto Gil está cada vez mais zen. “Minha mulher diz que eu sou quase zen. Dia desses encontrei Dori Caymmi, que mora em Los Angeles e ele falou que que ouviu muita gente se referindo a mim como um cara zen, o Caetano vive me chamando de zen. Essa palavra tem sido associada a mim, mas quem dera se eu fosse”. Mais zen impossível. Diz o I Ching e Gil fica atento, pois é admirador do oráculo considerado o mais antigo livro chinês. O observador mais atento vai encontrar hexagramas do I Ching nas capas dos discos Luar, Um Banda Um, Extra e Diadorim Noite Neon. Ele conta que antes de começar o projeto comemorativo (excursão e disco) Tropicália, jogou o I Ching e recebeu o hexagrama 35, que assim recomenda: um governante esclarecido e um servo obediente, eis os requisitos para um grande progresso. Gil reconheceu ali sua porção “servo obediente” e entregou-se ao que chama de “doce liderança” do amigo Caetano. “Ele é mais racional, mais iluminista. Lidera o processo e eu vou a reboque. Ao longo de todo relacionamento, tem sido assim”.

TALISMÃ – Autor de mais de 400 composições, Gil compara sua produção “a parentes distantes que você não pode visitar com frequencia” e a cada novo show recupera algumas delas. Para o acústico, convocou duas filhas pródigas A Paz e A Novidade, gravadas por Zizi Possi e Paralamas do Sucesso, respectivamente. Também recuperou Beira Mar, faixa de Louvação (66), o primeiro disco, e Chiquinho Azevedo, homenagem ao músico, seu companheiro de prisão por posse de drogas em Florianópolis durante a conturbada excursão com Os Dosces Bárbaros, em 1976. “Eu preciso voltar a cantar tanta coisa”, diz e, meio saudosista, cantarola algumas que nunca gravou, como Copo Vazio (“uma música boa, nova, com letra forte”), gravada há décadas por Chico Buarque e Morte é Rainha, por Macalé. Qual a sua música preferida, Gil? “Várias, mas Palco é meu Talismã”. No acústico, a canção-talismã ganha o que ele define de “uma versão rebelada à melodia”, onde faz improvisos vocais à maneira dos cantores negros de soul e gospel. Na nova e acústica versão de Super Homem, A Canção, ele reconhece algumas ainfluências de Sarah Vaughan: “Abri um daqueles “bocão” como ela e a Nana Caymmi costumam fazer, mas que eu só posso fazer de brincadeira”.

Entusiasmadíssimo com o projeto Unplugged, Gil estava mixando o disco (e escolhendo as 15 músicas definitivas) quando o entrevistei. “Está muito bem gravado, tecnicamente perfeito. Para projetos desse tipo, os erros são mínimos. Ainda mais quando soube que o Eric Clapton gravou certas músicas quase 30 vezes para o seu unplugged”, comenta. Você já imaginou um encontro de Clapton, Jorge Ben e Gil, todos tocando violão numa sessão totalmente unplugged? Pois ele conta que isso aconteceu nos anos 70, no Rio, na casa do produtor André Midani e na presença de Chris Wood (ex-Traffic)). “Não tem segredo, quem toca guitarra, toca violão”, diz Gil.

O show de reencontro dos Doces Bárbaros (“Nós quatro com as vozes mais carregadas pelo tempo, só não chorei porque tive que me segurar”) na quadra da Mangueira deixou boas recordações e deve render novos frutos, inclusive uma ainda não acertada excursão nacional. Quem disse que baiano é lento? O Gil 94 está mais trabalhador que nunca e tem agenda internacional lotada para esse ano. Em junho, ele e Caetano estreiam em Nova York um show solo que depois segue temporada pela Europa. Julho, em Londres, acontece nova apresentação dos Doces Bárbaros, com repertório ampliado. Antes disso, faz turnê pelo Brasil para divulgar o álbum acústico e começa a compor músicas novas para um disco novo que vai ser lançado no final do ano. “Tenho um título provisório, mas prefiro não dizer qual. Por enquanto existe apenas alguns esboços de canções e ideias”. A intenção, ele conta, é explorar a interface entre ciência e arte, cultura, religião e filosofia. (Nota: É o disco Quanta, lançado em 1997)


No Acústico, Gil é acompanhado por uma super banda. Há quem prefira ouví-lo acompanhando-se apenas pelo violão e Gilberto Gil “adora cantar sozinho”. Mas explorador e músico também, como se define, gosta muito de extrapolar o Gilberto Gil que conhece muito bem e alçar novos vôos. “Eu já sei que sou um cara bacana, uma personalidade, e trabalhar com bandaé tudo que eu quero nesse momento”. Nos ensaios com Marcos Suzano e Celso Fonseca, ele redescobriu o prazer de fazer versões integrais e completas de versões antigas. Assim, em Sampa – sugestão de Caetano Veloso -, Gil e músicos exploraram uma sonoridade do tipo Radamés Gnatalli. Já Tenho Sede ganhou uma versão folk.

Em dezembro, faz um ano que acabou o mandato de Gilberto Gil como vereador de Salvador. “Não demonstrei talento para as funções. Era surpreendente me ver tão calado, tão inibido. Acho que a cidadania coletiva inibia a cidadania individual”, analisa. O Eterno Deus Mudança (89), gravado nessa época, foi rejeitado pelo público, recebeu críticas pesadas e chegou a ser chamado de “disco de vereador”. “Como repertório, gosto mais dele do que de Parabolicamará. Mas, como disse Caetano, eu ajudei a crítica, fazendo um disco apressado no tratamento musical, tímbrístico”. Hoje, o cidadão Gilberto Gil dedica-se ao grupo ecológico Onda Azul e faz parte da executiva nacional do Partido Verde. Já o músico Gilberto Gil é cada vez mais cidadão do mundo.
                                          Revista Audio News, 1994

domingo, 16 de dezembro de 2012

Mania de Gilberto Gil


Ando numa fase completamente Gilberto Gil, que começou a partir da presença dele no programa do Jô. Gil cantou várias do novo Concerto de Cordas e Máquina de Ritmo e sereno, sábio, aos 70 anos, contou histórias incríveis. Com Gil na cabeça, separei alguns discos dele (em LP) que não ouvia há um bom tempo. Gil e Jorge (o prazer e a liberdade de tocar no encontro com Benjor), Gil em Concerto (com participação de Jorge Mautner, retrospectivo) e O Eterno Deus Mudança, que acabei de escutar. Daí me veio uma entrevista que fiz com Gil na época (1994, credo quase 20 anos!) do disco Unplugged MTV, que tinha o título de O Mais Zen dos Baianos (ao lado a capa da revista).
Gosto muito desse trecho: “Diz o I Ching e Gil fica atento, pois é admirador do oráculo considerado o mais antigo livro chinês. O observador mais atento vai encontrar hexagramas do I Ching nas capas dos discos Luar, Um Banda Um,Extra e Diadorim Noite Neon. Ele conta que antes de começar o projeto comemorativo (excursão e disco) Tropicália, jogou o I Ching e recebeu o hexagrama 35 que assim recomenda: um governante esclarecido e um servo obediente, eis os requisitos para um grande progresso. Gil reconheceu ali sua porção “servo obediente) e entregou-se ao que chama de “doce liderança” de Caetano. “Ele é mais racional, mais iluminista. Lidera o processo e eu vou a reboque. Ao longo de todo relacionamento, tem sido assim”.

Vem cá, alguém que faz essa análise tem que ser muito seguro de si, né?  Nunca esqueci essa parte da entrevista, que é das minhas preferidas e feita num longo papo telefônico a maior parte. Ah, e nela Gil falava também do rejeitado pelo público e arrasado pela crítica Eterno Deus Mudança, que chegou a ser chamado de “disco de vereador”, gravado em 1989, quando estava na Câmara de Salvador. Justamente o disco que acabei de ouvir e me interessaram várias das 10 faixas. Doidas essas voltas do tempo. No ritmo dele, Gilberto Gil vai construindo uma carreira impressionante – e não só de cantor e compositor, sua participação como Ministro da Cultura do governo Lula abriu caminhos e vai ficar para a história, assim como suas canções. “Minhas músicas são como parentes distantes que você não pode visitar com frequência”: outro trecho da entrevista.

E no tal Eterno Deus Mudança, topo com uma daquelas músicas que vale por um disco inteiro e até mais que um. É Cada Tempo em Seu Lugar (abaixo), para mim uma canção oração – chamo assim aquelas mais reflexivas que você vai cantando e parece estar a rezar. Exemplos? Tempo Rei e Retiros Espirituais (Gil), Clarisser (Vitor Ramil), Oração ao Tempo e Boas Vindas (Caetano), Amor de Índio (Beto Guedes), Tocando em Frente (Almir Sater, com Bethânia), Everybody Hurts (R.E.M.) e mais algumas e raras que nunca canso de ouvir e nunca sem lacrimar um bocadinho. Daquelas canções que aclaram e acarinham. Sempre.




quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Caetano e Marighela: tempo tempo tempo

O abraço virou abraçaço numa diferença de 43 anos entre o disco novo de Caetano Veloso e uma velha capa de Fatos e Fotos (foto acima). Quem junta tudo é Marighela, homenageado por Caetano na canção Um Comunista. Na capa da tal revista, Caetano e Gilberto Gil em Londres e a chamada “Aquele Abraço”, referência, claro, à canção de Gil. Em cima, uma foto pequena de um homem morto e em letras garrafais: “Marighela: A Morte do Terrorista”. Data da edição: 30 de novembro de 1969.

 A matéria sobre Caetano e Gil, escrita por eles em primeira pessoa, tem seis páginas e muitas fotos coloridas London london. E a seguinte abertura: “Depois de três meses fora do Brasil, Caetano Veloso e Gilberto Gil escrevem da Inglaterra, especialmente para Fatos e Fotos, contando que Londres “continua sendo”. Já alugaram uma casa de três andares em Chelsea, a apenas dois quarteirões de King´s Road, a rua onde os hippies se misturam aos turistas. Os dois estão aprendendo inglês – Caetano em curso normal e Gil pelo processo audiovisual – dormindo cedo e trabalhando muito, já tendo prontas muitas músicas novas. Mas não vão lançar nada agora e, a todos os convites de gravação, respondem com a mesma frase: “Obrigado, mas só mais tarde”. Explicam: “Quando sair, o disco tem que ser da pesada”. Nenhuma referência à exílio, bem no espírito negror daqueles tempos.
A Última Batalha do Terror, a reportagem da morte de Marighela também tem seis páginas e abre com uma página dupla espalhada dele morto no banco do carro e a seguinte abertura: “Caído no banco traseiro de um Volkwagen, a peruca cinza ao lado, o corpo crivado de balas e ensanguentado: Assim, Carlos Marighela, o líder terrorista de 58 anos, chegou ao fim de sua carreira; surpreendido em uma emboscada pela polícia paulista. A morte de Marighela, exatamente dois meses após o sequestro do embaixador Elbrick, será também a morte do terror?”


"O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado
que eu que tinha morrido
e que ele estava vivo/ Mas ninguém entendia...”
É um trecho de Um Comunista, a canção de Caetano em homenagem a Marighela, 43 depois da morte dele.




quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Um encontro para a eternidade



O texto abaixo "veio ocasionalmente" e a foto me capturou. Comecei a ler e fez ainda mais sentido - e de um jeito impressionante meio idas e voltas da vida. É do Samuel Wainer, uma capa da Ilustrada em julho de 1980, alguns dias depois da morte de Vinicius de Moraes. Samuel conta que escreveu a partir da foto e o poema O Operário em Construção, de Vinicius, é destaque. Bom, é Vinicius, Lula, O Operário em Construção, Serra e muita coisa da nossa história recente por Samuel Wainer. Boa leitura!

                                 Um encontro para a eternidade
                                           Samuel Wainer

À medida que a imagem de Vinicius de Moraes vai se fixando na memória nacional como a do seu grande poeta e compositor, mais afastada fica a sua figura de militante político. Entretanto, a herança cultural e a herança ideológica de Vinicius lhe asseguram perfeitamente ocupar um dos lugares só reservados aos verdadeiros heróis do povo.

Já escrevi alhures que fomos amigos durante quase quarenta anos. E como minha atuação jamais se situou propriamente no campo da poesia, nem da música, é de Vinicius sempre pronto a apoiar as causas populares, sempre entre os que se colocavam à frente dos movimentos libertários, simples e modesto, mas infalível, é dele que desejo dizer algumas linhas.

E para que falar mais do que lembrar que foi aqui, em São Paulo, num daqueles sombrios dias de fins de 1963, que Vinicius leu no Teatro Paramount, pela primeira vez, esta sua homília cívica: “O Operário em Construção”. Não há na nossa poesia de conteúdo socializante muita coisa mais bela que esse cântico de desespero e esperança que brotou certamente do mais fundo da alma de Vinicius.

E ele jamais se afastou desse caminho. Desde quando, nos inícios da década de 40, ainda tão adolescente, rompeu com as amarras oligárquicas que o prendiam à decadente aristocracia nacional. Não ficava apenas nas palavras, embora mais de uma vez eu me lembre de Vinicius aqui, em Paris ou Santiago, sempre suave, mas irremovível, batendo-se como um leão pelas suas ideias. Não há nada que possa pagar o estímulo nacionalista, por exemplo, que Vinicius deu ao cinema brasileiro. Como será impossível estimar o que representa em influência política a que ele exerceu pela sua música, poesia, prosa e ação sobre a mais bela geração artística que o Brasil já produziu. João Gilberto, Nara, Baden, Tom, Chico, Caetano, Toquinho, Gil, Carlinhos Vergueiro e tantos outros. E porque não lembrar, enfim, a presença de Vinicius no histórico CPC, o Centro de Cultura da UNE, onde a sua poesia e seus cânticos já abrindo caminhos para a “bossa nova”, eram a chama que alimentava o romantismo político da geração de José Serra?

Creio melhor poupar o espaço desta “Folha” da nossa editora Helô Machado, espaço que será muito melhor ocupado se nele couber o poema de Vinicius “Operário em Construção”, um poema de que tantos falam, tão poucos ouviram e tantos precisariam conhecer hoje.

A foto que ilustra o poema veio ocasionalmente às mãos do redator destas linhas. É de autoria de Buby Costa e nela surge Vinicius, à sombra da cruz, entre Lula e Tito Costa, na inesquecível missa de 1º de maio de 1979, comemorativa da greve dos metalúrgicos que naquele ano lançou as raízes do novo sindicalismo brasileiro.

Quem ouviu no Estádio da Vila Euclides, mais tarde, e pela manhã no Paço da Prefeitura de São Bernardo, aqueles milhares de operários, recitando em coro o poema de Vinicius, jamais poderá esquecer aquele momento. A que Vinicius, apesar do “show” de véspera no Tuca haver terminado de madrugada, foi dos primeiros a comparecer e o último a partir. Foi um encontro para a eternidade.

                                        FSP, 20 de julho de 1980 

E aqui, o poema O Operário em Construção:
http://letras.mus.br/vinicius-de-moraes/87332/

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A novela da fonte HP




Em janeiro do ano passado (http://viledesm.blogspot.com.br/2011/01/o-valor-real-das-coisas.html), contei aqui sobre o preço abusivo de uma mera “fonte de energia” pra alimentar meu notebook HP (morri com $ 270,00 e, felizmente, a bendita continua funcionando). Nesse mesmo período, comprei um desktop da mesma marca que funcionou mucho bem até poucos dias e, de repente, embestou de não mais ligar. Um telefonema pra HP me revelou a existência de duas (sim, duas numa cidade pequena feito São Paulo) assistências autorizadas. E lá fui eu, na da Vila Mariana onde, ueba, descobri que o problema não era com o computador, mas com a “fonte” que custava “$ 240,00, mas em falta e sem previsão de chegada”. Em Pinheiros, na segunda autorizada, nunca tinham visto o tal modelo da “fonte” e o cara da loja chegou a fotografar o objeto exótico, como se eu estivesse em poder de um modelo pirata.

Mas onde encontro essa bendita fonte? Nova ligação para a HP, meia hora para contar a história e, número do protocolo anotado, me avisam que o controle de qualidade vai me contatar em 48 horas. Bom, passaram 4 dias e nada de telefonema. Faz pouco liguei e a simpática atendente, Elizabete, me disse que estava esperando “uma resposta”. Como assim?, falei. Ela pediu um momento e logo voltou me perguntando se já tinha ido na HP store que tem em todo shopping. “Não, nem sabia que existia. Mas vem cá, porque nunca me falaram isso?”. Um pouco alterado disse pra moça que estava me sentindo desrespeitado como cliente da empresa dela e outras “amenidades” ao estilo cobras e lagartas. “O senhor está sendo desagradável”, ouvi. “Desagradável eu? E você que nunca me deu uma resposta. Nunca mais compro nada da HP e...” A moça do controle de qualidade da HP desliga na minha cara. Beleza.

Ah, a fonte. Então, entrei no site da HP Store que, desligado que sou, só soube hoje que existia, e “parece” ser essa  (existem vários modelos) que ilustra esse post, mas com uma informação informação adicional: “produto indisponível no momento”. Quer dizer, a novela da fonte continua continua e HP nunca mais. 

P.S: Bom, a novela fonte continua sim, mas como preciso muito de um arquivo no computador, descobri agora uma "similar" por $ 99,00 e com garantia de seis meses. Fazer o quê se não existe um produto original para comprar? Pelo menos existe uma economia de pelo menos $ 150,00 que "o valor das coisas" importa sim - e muito.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

De oráculo, índios e Bethânia

Todo dia é assim: De manhã, ainda no elevador, aciono “música aleatória” no ipod e atento à primeira como se oráculo fosse. Tem vezes que nada acontece, mas em muitas vêm canções pra se prestar atenção. Hoje foi assim. Não propriamente uma canção, mas um texto – Texto do índio, que eu nunca tinha ouvido com atenção. Que texto é esse? Bom, fez parte de Estranha Forma de Vida, show de Maria Bethânia de 1981, nunca lançado em disco. É o texto-carta de um chefe índigena americano que, há 150 anos atrás, “antevia toda a salada ecológica que o homem branco começava a preparar”, nas palavras de Fauzi Arap, o diretor do show.


Estranha Forma de Vida não é Drama nem Rosa dos Ventos, mas é show encantado. De nunca gravadas, Bethânia canta por exemplo Bastidores e muitas do Chico da Ópera do Malandro – Tango do Covil, O casamento dos Pequenos Burgueses, Terezinha, O Meu Guri, Geni e o Zepelin. Mais? Tem A Volta do Boêmio, Se Eu Quiser Falar com Deus. E textos? Além do antológico do índio tem um da Clarice Lispector: “Passei a minha vida tentando corrigir os erros que cometi na minha ânsia de acertar. Ao tentar corrigir um erro, eu cometia outro. Sou uma culpada inocente. 

Abaixo está o Texto do Índio inteiro. Começa com uma introdução e depois aquela voz vai recitando aquelas palavras e você se arrepiando. Mas não precisa ficar imaginando não. Estranha Forma de Vida está disponível na rede e dá para baixá-lo na íntegra,  gracias ao ótimo site Maria Bethânia Re (verso) que têm outros espetáculos históricos de Maria Bethânia, aqueles que pensava que nunca ia ouvir. 

Texto do Índio:
Em 1854, há mais de 120 anos atrás, o presidente dos Estados Unidos fez uma oferta aos índios para a compra de uma grande extensão de suas terras, oferecendo em troca a concessão de uma outra reserva. A resposta do chefe índio, recentemente difundida pelas nações unidas, é considerada um dos mais belos pronunciamentos já feitos em defesa do meio ambiente.

"Como se pode comprar ou vender o firmamento? Essa ideia é desconhecida para nós. Se não somos donos da frescura do ar e do fulgor das águas, como poderão ser comprados? Cada porção dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada brilhante mata de pinheiros, cada grão de areia nas praias, cada gota de orvalho nos escuros bosques, cada colina e até o som de cada inseto, tudo é sagrado ao passado e à memória do meu povo. Os mortos do homem branco esquecem o seu país de origem quando empreendem seus passeios entre as estrelas. Os nossos mortos, no entanto, não podem nunca esquecer essa bondosa terra, pois que ela é a mãe dos pele-vermelhas. Somos parte da terra, assim como ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs, os escarpados penhascos, os úmidos prados, a grande águia, o calor do corpo do cavalo, o homem, todos pertencemos a mesma família.


Por tudo isso, quando o grande chefe de Washington nos envia mensagem de que deseja comprar nossas terras, ele nos está pedindo demasiado. Também nos diz o grande chefe que nos reservará um lugar onde possamos viver confortavelmente entre o nosso povo. Ele se converteria em nosso pai e nós em seus filhos. Por isso consideraremos a oferta para comprar nossas terras, mas se lhes vendermos a terra devem ensinar a seus filhos que são sagradas. Os rios são nossos irmãos e também são seus. Portanto devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. Mas isso talvez seja porque o índio é um selvagem e não compreende nada. Que o barulho somente parece insultar nossos ouvidos. Depois de que serve a vida se o homem não pode escutar o grito solitário do noite bó? O ar...O ar tem um valor inestimável para um pele-vermelha já que todos compartilham do mesmo alento, a besta, a árvore, o homem: todos respiramos o mesmo ar. 

O homem branco parece não ter consciência do ar que respira, como um moribundo que agoniza durante dias insensível ao fétido odor. Eu vi milhares de búfalos apodrecendo nos prados, mortos a tiros pelo homem branco de um trem em marcha. Eu sou um selvagem e não posso compreender como uma máquina fumegante pode importar mais que um búfalo que nós matamos apenas para sobreviver. O que seria do homem sem os animais? Se todos fossem exterminados o homem também morreria de uma grande solidão espiritual. Porque tudo que suceder aos animais também sucederá ao homem. Tudo está entrelaçado. O homem não teceu a trama da vida, ele é somente um rio. Tudo que ele fizer com a trama ele fará a si mesmo. Tudo está entrelaçado. Tudo que correr à terra ocorrerá aos filhos da terra. Contaminem os seus leitos e uma noite perecerão afogados em seus próprios resíduos. Aonde está a floresta espessa de escuridão? Onde a grande águia nos apareceu termina a vida e começa a sobrevivência." (E Bethânia emenda o texto com Rosa dos Ventos).

E no vídeo abaixo, o show Estranha Forma de Vida Inteiro. Bethânia começa a dizer o texto mais pro final, a partir de 1:27:58


sábado, 7 de julho de 2012

O momento prazer e raiva de Marlene, a maior

Fuçar em lojas de CDs é um dos meus prazeres. Volto para casa sempre com novidades (novidade = tudo aquilo que eu desconheço), que ficam ali à espera da hora certa de deixarem de ser novidades (a hora certa é importante). Hoje, um CD que repousava há meses junto a outros e ainda lacrado me chamou. É de 1970, chama-se É a Maior!, gravação de um show da cantora Marlene. E Marlene, para mim, é meio mistério. Sei quem é, claro, mas sempre com aquela sensação de que a conheço (e ouvi) menos que deveria.


É a Maior! é assinado por Fauzi Arap e Herminio Bello de Carvalho, responsáveis por espetáculos históricos de Maria Bethânia, por exemplo, que é doida pelos dois. Desde Comigo me Desavim (1967), Fauzi já dirigiu alguns dos shows mais lindos de Bethânia, Rosa dos Ventos, inclusive. E Herminio é produtor/diretor de maravilhas feito Rosas de Ouro e aquele show de Elizeth Cardoso em 1968, com Zimbo Trio + Jacob do Bandolim + Época de Ouro. Basta citar esses dois, sempre no topo da lista dos shows que eu adoraria ter visto.

E como nada é por acaso, Bethânia não entrou aqui de graça. A estrututura de É a Maior! lembra os shows dela: textos conduzindo as canções no formato pot-pourris bem costurados juntando os sucessos dela e novidades. Marlene usa a palavra para uma espécie de acordo com os tempos modernos. “Há uma hora em minha vida em que eu resumo todas as grandezas e todas as tristezas que eu já presenciei. É na hora que eu canto. È na hora que me dão um pedaço de palco para eu ser Marlene”: o disco/show inicia nesse clima confessional.

Era 1970, a era das cantoras de rádio havia passado há muito, o auge dos festivais também e a tropicália estava nas bocas, Caetano e Gil no exílio em Londres. Marlene tinha 46 anos, olha a mudança dos tempos, praticamente a idade de Marisa Monte hoje. Dos novos de então, Caetano é presença marcante com Tropicália, Atrás do Trio Elétrico, Coração Vagabundo e Irene, que encerra o disco. E tem Jorge Ben (País Tropical), Marcos e Paulo Sergio Valle (Mustangue Cor de Sangue na sequência de Se é Pecado Sambar) e Milton Nascimento (Beco do Mota, parceria com Fernando Brant, em interpretação impressionante). E da geração mais antiga, Mario Lago, Wilson Batista, Assis Valente, Luiz Gonzaga

“Eu não vejo diferença nenhuma naquela gente que gritava Marlene e Emilinha e ainda ontem gritava por Chico e Caetano. Talvez as bocas que gritem hoje nos festivais sejam mais bem tratadas, mas isso também não era culpa da Emilinha nem minha”, ela desabafa, ovacionada, em momento sobre a expressão “macacas de auditório”. É o final que chega com o hit maior Lata D´Água emendado com Irene. O público delira. Momento de virada na carreira de Marlene, É a maior! nada tem de datado e retrata um importante momento de mudança na música popular brasileira. Quatro anos depois, Marlene fez outro show antológico dirigido por Herminio – Te Pego Pela Palavra.

Abaixo, o áudio com o momento final do show É a maior!. Depois, a abertura do show Te Pego Pela Palavra. E ao final, dois textos bem reveladores, que Marlene fala durante o espetáculo.




“A minha voz é pequena. Sempre disseram que a minha voz é pequena. Ouvi isso a vida inteira. Eu comecei no rádio aos 20 anos, brigando com Deus e todo mundo, brigando até comigo mesma. Eu misturava prazer e raiva quando me jogava no auditório para cantar. E foi com esse prazer e com essa raiva que eu cheguei até aqui. Eu começo e recomeço minha vida toda hora sem medo nenhum. Cantei muito em auditório de rádio, botei muita faixa nesse corpo. E hei de continuar cantando, seja na rua ou em qualquer lugar onde haja alguém que queira me escutar. E, porque não, hei de cantar em muito auditório ainda” (E aí, Marlene começa a cantar País Tropical)

“Às vezes eu não gostaria de ter a voz que tenho. Às vezes eu gostaria de ter uma voz despreocupada, uma voz calma. Às vezese eu não gostaria de me agitar. Às vezes eu não gostaria de quase ter de me esfregar na cara de todo mundo para me fazer perceber. Às vezes eu gostaria de simplesmente cantar” (E aí, Marlene canta Carinhoso)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

A "diferente" Clarice Lispector faz doer os nervos

Autógrafo em O Lustre, da biblioteca de Benjamin Moser
Sabe quem é o autor mais citado no twitter? Sim, é Clarice Lispector. Diz levantamento recente do YouPix que ela é citada 3,5 mil vezes por dia. "Ah, mas muitas frases não são delas", tem gente que reclama. Também não faltam gaiatos para escrever uma sandice qualquer e assinar Clarice Lispector como se isso fosse muito, mas muito engraçado. Pra mim, se 10% das frases forem  verdadeiras já é o máximo. Gosto dessa faceta pop de Clarice que em vida esteve longe de ser campeã de vendas e precisou ralar em trabalhos para jornais e traduções para sobreviver. E ela ainda tinha a fama de “diferente”, desde os primórdios, como mostra essa matéria abaixo, de 17 de março de 1946, de Solena Benevides Viana, a mesma da entrevista do post anterior. Aqui, a jornalista escreve sobre o primeiro encontro com Clarice que estava no Rio para lançar seu segundo livro. E só pode ter sido nesse encontro que Clarice autografou O Lustre para Solena e esse exemplar faz parte da biblioteca brasileira de Benjamin Moser, autor da biografia Clarice,. Gentilmente, Benjamin, o enviou (foto acima). 

Abaixo, a matéria publicada na coluna Miscelania do Suplemento literário do jornal carioca Amanhã.
                                                                      



Ao saber que Clarice Lispector estava no Rio, de passagem, resolvi aproveitar a oportunidade e agradecer-lhe uma antiga gentileza. Confesso, também, que me movia uma certa curiosidade de conhecer pessoalmente a escritora que, durante algum tempo serviu de assunto à grande parte das “rodinhas” literárias da cidade e, principalmente, às dos novos.
   Não só o seu primeiro livro foi discutidíssimo, levantando a comentada questão sobre se a autora teria sofrido ou não influência de Joyce – contra o que há o argumento de que o seu livro já estava escrito quando travou conhecimento com a obra do grande autor inglês – como a própria Clarice Lispector passou a figurar na lista das pessoas “diferentes”.
  Telefonei-lhe, pois, e marcamos um encontro que não teve, em absoluto, caráter de entrevista. Foi apenas uma palestra cordial sem a preocupação de colher informações, que versou sobre assuntos os mais variados. Uma miscelânia, enfim.

Para começar, Clarice pode ser “diferente” mas não no sentido que lhe querem dar. Fisicamente é uma moça esbelta, alta, loura, de olhos claros, de maneiras simples e naturais. Não se mostra demasiado expansiva, nem muito retraída. Como se vê, portanto, até agora – nada de “diferente”. Confessou-me, com toda a sinceridade, estar naquele dia em ótima disposição de espírito, não obstante o calor – que era tremendo!!! – o que nem sempre se verificava. Mas, qual é aquele que se pode gabar de conservar inalterável o seu humor!

Estudou direito, interessada sobretudo em direito penal; todavia, entre outras coisas, depois de tomar parte num júri simulado desinteressou-se da aludida disciplina e passou a cogitar de outros afazeres. Exerceu atividades jornalísticas durante quatro anos, tendo trabalhado inclusive em “A Noite”. Em 1944, embarcou para Nápoles, onde residiu dois anos no Consulado por falta de habitações e, hoje em dia, a sua maior aspiração é... uma casa!

Na Itália, as perturbações da época interfiriram na sua vida. Passou cerca de um ano quase sem sair de Nápoles, limitando-se a fazer algumas viagens a Roma. Ultimamente conseguiu ir a Florença. Apesar dos naturais estragos causados pela guerra a maioria das obras de arte foi poupada. Várias galerias ainda estão fechadas, num trabalho de reforma e reorganização. Toda a Itália, aliás, se ergue aos poucos. E aos poucos renascerá o seu ânimo e a sua glória.
Quanto ao movimento literário italiano, dentro do âmbito restrito que lhe foi dado observar, o último conflito mundial nada introduziu de especialmente novo. As antigas tradições continuam a predominar, e o trabalho prossegue com esforço e esperança. A escultura e a pintura, segundo observou Clarice Lispector, estão sob a força de um grande impulso, tendo na vanguarda nomes como o de Leonor, Fazzini, Savelli, Guzzi, De Chirico.

As condições de vida na Itália a seu ver, são precárias, mas caminha-se para uma lenta reorganização. Os sofrimentos suportados incutiram nas criaturas uma nova coragem, permitindo-lhes encarar com ânimo forte situações desesperadoras. Certa vez, por exemplo, encontrou um rapaz iugoslavo aparentemente alegre, lançando mão de seus conhecimentos linguísticos para sustentar-se, enquanto aguardava oportunidade de embarcar com destino ao Brasil. Pouco depois foi surpreendido com a informação de que perdera toda a família na Iugoslávia. E acidentes desta natureza repetem-se diariamente.

Os gêneros alimentícios e artigos de primeira necessidade são vendidos por alto preço. O café, por exemplo, está a 2000 liras o quilo. Um negociante que se lembrou de vender camisas por 150 liras cada uma, acabou forçado a recorrer à intervenção da polícia. Lá também as atividades do câmbio negro são intensas.

Nesta altura da palestra, a escritora declarou-me – mais uma prova de que não é assim tão “diferente” – que pagou o seu tributo à decantada “saudade da pátria distante” e procurou mimitiga-la tomando... caldo de cana, bebida na qual antes, no nosso país, pouco pensava.
Portanto, diante do que acima ficou exposto, muitas pessoas devem estar conjecturando até agora: “uma criatura, assim tão humana, que sente saudades como toda gente e age com tamanha simplicidade, será mesmo “diferente”?

Sim, Clarice Lispector é “diferente”. É “diferente” na aplicação das suas energias, no amor ao trabalho, na sua produção literária. Sente necessidades de escrever, e quando dá início a uma obra a ela se consagra inteiramente. Não vacila em admitir a importância que atribui ao seu trabalho, o esforço dispensado à sua elaboração. E, por isso mesmo, embora respeite a opinião do público, regogizando-se quando nele encontra ressonância, coloca acima de tudo o mundo interior do escritor, o impulso criador que o animou e a liberação absoluta do  seu eu.

O seu estilo é único e escapa, muitas vezes, à percepção do leitor apressado. Não se pode ler um romance de Clarice Lispector como um simples passatempo, seguindo o enredo, salientando esta ou aquela imagem interessante. A sua intensidade exige do leitor o mesmo esforço de concentração com que foi escrito; faz doer os nervos. E assim Perto do Coração Selvagem surgiu inopinadamente na nossa literatura e nela permanece até hoje como um marco isolado.

Clarice Lispector acaba de publicar, pela editora Agir, O Lustre. Neste novo romance – fruto também de intenso labor – o ardor primitivo cedeu lugar à reflexão comedida, à psicologia sutil da análise dos sentimentos desordenados a uma poesia pessimista e vaga, que a cada passo se manifesta:
- Dez é como domingo. A gente pensa que domingo é o fim da semana passada, não é? mas já é o começo da outra. A gente pensa que dez é o fim de nove, não é? mas já é o príncipío de onze.
E ainda mais adiante, quando Virginia – a personagem principal – ao observar os bonecos de barro que modelara reflete:
“... mesmo bem acabados eram toscos como se pudessem ainda ser trabalhados. Mas vagamente pensava que nem ela nem ninguém poderia tentar aperfeiçoá-los sem destruir sua linha de nascimento. Era como se eles só pudessem se aperfeiçoar por eles mesmos, se isso fosse possível.
E as dificuldades surgiam como uma vida que vai crescendo”.

Na sua visão sombria, ou talvez fosse melhor dizer, na crueza da sua realidade, dentro da originalidade que o caracteriza, o livro assinala mais uma vitória para sua autora.
                          

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O após-guerra de Clarice Lispector



Há um tempo postei aqui uma entrevista que garimpei de Clarice Lispector quando estudante de direito, em 1941. Acabou publicada no livro Entrevistas / Clarice Lispector (editora Azougue) que reúne algumas entrevistas da escritora, que não era chegada a dar entrevistas. Garimpar Clarice me é sempre um prazer e dia desses deparei com outra entrevista bem rara dela. É do final de 1945, quando o após-guerra era recente, ela morava em Nápoles e estava elaborando "apenas vagamente" um novo livro (O Lustre, o segundo dela, foi publicado no ano seguinte, 1946). É do jornal carioca A Manhã. Fiz uma busca nos livros sobre Clarice Lispector e não encontrei nada sobre essa matéria. E nem a bela foto que ilustra a matéria. Bom, chega de falar, melhor ler e acompanhar o pensamento de Clarice Lispector no após-guerra para a opinativa jornalista Solena Benevides Viana. Abaixo, a entrevista toda.



                                              CLARICE LISPECTOR FALA DE NAPOLES

A situação literária no Velho Mundo – Interesse na Itália pelo romance social – Os poetas franceses da resistência – Uma nova liberdade

                                                                                           Solena Benevides Viana

O presidente dos Estados Unidos, em discurso recente, salientou mais uma vez aquilo que tantos estadistas já haviam afirmado e que está ao alcance de qualquer criatura de bom senso, isto é, que a vitória dos armas de nada valeu se não conseguirmos ganhar a paz. Esta última etapa, porém, se nos apresenta bem mais árdua do que a anterior. Enquanto no período de luta todos se congregaram em prol da causa comum, aplainando obstáculos e relegando para segundo plano, em benefício da coletividade as diferenças pessoais, na fase de reconstrução mundial e ajustamento político que atravessamos multiplicam-se as divergências agravadas pela precária situação econômica e material dos povos na sua totalidade, e os proclamados direitos do homem restringem-se ao papel, sufocados pelo incomensurável egoísmo da espécie humana em geral.

O fracasso da Conferência de Ministros das Relações Exteriores de Londres em assentar as bases dos tratados de paz da Europa, explicado pela falta de preparo prévio do conclave, trouxe novamente à ordem do dia a Itália vencida. Sendo os escritores os mais lídimos representantes do pensamento de um povo, considerei o momento oportuno para transcrever algumas impressões da romancista Clarice Lispector sobre o que pode observar no aludido país. São informações ligeiras e de caráter exclusivamente literário, mas que de algum modo contribuirão para iluminar um pouco as trevas que envolvem a Europa quanto ao panorama intelectual, neste momento de tão grande absorção política.

                                                                     A ESCRITORA

Antes de dar início ao interrogatório sobre as letras europeias desejei que a própria autora de “Perto do Coração Selvagem” esclarecesse se houve de fato real influência de Joyce na sua obra.  Mas, evitando uma pergunta direta que poderia ser mal interpretada, apesar de eu ser da opinião de que não há criação alguma absoluta, indaguei:

Algum autor, nacional ou estrangeiro, contribuiu de forma poderosa na sua formação?

- Não sei dizer, - declarou a interrogada – que autores influíram no que escrevi ou na minha formação. Possivelmente me influenciaram mais os motivos dos escritores, mesmo que eu nada soubesse deles, do que seus livros.

E adiantou:
- Cercando a questão mais de perto, eu poderia dizer de fora para dentro, concordando com pessoas que escreveram sobre meu trabalho, que eu tive influência de Proust e Joyce, o que tem como obstáculo material apenas o fato de eu não ter lido Proust e Joyce antes de escrever o primeiro livro. Como para mim não tem tido importância consciente a questão de influência, é-me difícil sair dos meus verdadeiros problemas e analisá-la.

                     “PRÊMIOS ALEGRAM E HONRAM MAS SÃO ALÉM DO TRABALHO”

A resposta da entrevistada ao primeiro quesito, levou-me a desejar saber se recebera algum prêmio que a encorajasse ou se alguém a incentivara no caminho das letras.
- O prêmio que recebi foi depois de publicar o primeiro livro (Prêmio Graça Aranha de 1943), o que me agradou, surpreendeu e deu-me vários tipos de sensações e reações que não se podem chamar de encorajamento. Prêmios alegram e honram mas são além do trabalho. Houve sim pessoas que me deram muito ânimo, sempre.

Insisti:


Na sua vida escolar, por exemplo, tinha acentuada predileção pelas letras?
- Tinha sim, mas como fora da vida escolar. Tinha “predileção pelas letras” no sentido de ler.

Apesar da observação inicial da Sra. Clarice Lispector, de que não tinha jeito para dar entrevistas, habituada como estivera a tomá-las durante muito tempo, antes de passar a assunto de maior amplitude, ainda no terreno pessoal, ponderei:


O seu livro implantou uma nova técnica em matéria de estilo e no que se refere à disposição do romance na literatura brasileira contemporânea, qual é a surpresa que nos reserva para o futuro?
- Elabora, apenas vagamente, um novo trabalho.

                                O MODERNO MOVIMENTO LITERÁRIO ITALIANO

Pedi então à escritora que me dissesse alguma coisa sobre o que tem observado na Itália, com relação ao movimento literário. Se notara algo que viesse a reforçar a opinião de alguns escritores patrícios de que o mundo de após-guerra nos reserva grandes surpresas no mundo das letras.
Eis a sua cautelosa resposta:

- Lamento não poder dar muitas informações sobre a situação literária na Itália e na Europa em geral, o que certamente mais interessa a qualquer leitor. Todo o ambiente durante esse meu ano de Itália tendo sido de guerra, e eu mesmo estando afastada dos meios literários, torna-se difícil dar-lhe noções mais precisas sobre o que acontece nesse setor. Depois de responder às suas perguntas conversei com várias pessoas autorizadas que concordaram com as minhas impressões.

E reafirmou:

- Não tendo estado em contato com escritores de um modo geral, o é difícil dada a perturbação do momento, chegar a uma conclusão. Editam-se aqui muito livros antigos, fazem-se inúmeras traduções da melhor qualidade. Quanto a um movimento literário italiano, parece-me que há um interesse especial pelo romance social; é do que se ocupam os mais jovens. Mesmo durante o fascismo havia essa tendência, velada, nos romances, o que a censura permitia por não compreender. Agora mesmo o romancista Ignazio Silone, que esteve fora da Itália durante anos e cujos livros eram desconhecidos pelos italianos por ordem fascista, está tendo sucesso e despertando simpatia sobretudo pela intenção boa, política e social. Em relação a uma surpresa literária no mundo de após-guerra, nada notei que me fizesse esperá-la; essa surpresa virá amanhã ou daqui a cem anos. È provável que venha amanhã, não sei.


                                                             A CRÍTICA EUROPÉIA

Tem ouvido falar de algum escritor novo que, no momento, esteja despertando a atenção da crítica europeia?
- A crítica europeia esteve tão regular e congestionada como a vida europeia. Mal acabou a guerra, e o último tiro de canhão infelizmente não pôs a funcionar todas as delícias da paz. Lêm-se muitos poetas franceses da resistência, que também são conhecidos no Brasil; as poesias deles estão espalhadas em revistas e jornais, creio por toda a Europa. Não falando dos novos, um novo que cada vez mais ganha em evidência e importância é o de Jean Paul Sartre, que tem escrito para o teatro e vai se ocupar do cinema também.



                                                O BRASIL E O APÓS-GUERRA LITERÁRIO

A meu ver a guerra não terminou, muito ao contrário, atingiu agora o seu clímax, que terá de ser resolvido não pela força das armas, mas pela conjugação de todos os recursos e reservas do espírito humano. Daí a ter proposto à Sra. Clarice Lispector a indagação:

O longo período de luta armada que finalizou terá influído decisivamente na literatura brasileira, abrindo-lhe novos horizontes?
- Naturalmente a guerra terá influência na literatura brasileira, como em todas. Revelaram-se várias realidades, criaram-se muitas novas. Desses dois fatos e da consciência deles podem nascer novos rumos. Que se tomou consciência da situação prova a atitude dos escritores do Brasil e o movimento da imprensa em geral.

                                                           O FUTURO NAS LETRAS

A referência da entrevistada ao “Interesse especial pelo romance social” veio demonstrar ser oportuna a minha curiosidade sobre se estava de acordo com a corrente que vaticina o ressurgimento do romantismo, e, neste caso, qual seria o destino da literatura social? Desapareceria? Tomaria novos rumos? Impor-se-ia demais?

Clarice Lispector aquiesceu em opinar a respeito.

- Não creio – disse ela – que a chamada literatura social desapareça, exatamente no instante em que a questão social está em vias de se resolver e de tomar algum rumo aberto. E naturalmente ela poderá coexistir com qualquer outra corrente literária. Não sei se ressurgirá o romantismo. É possível que venha uma literatura de intimidade porque numa realidade de mundo quase igual para todo o movimento, seja em direção ao recolhimento, que teria como sempre o valor de uma descoberta para o escritor. Quem sabe também o problema social entre nas pessoas com tal realidade que elas escrevem sobre ele como escrevem sobre o único tema possível durante algum tempo, e nascem bons livros. Quem sabe, o que mudará é a forma, e os temas não tenham importância por algum tempo. Quem sabe, afinal, tudo isso suceda e coexista e dê uma nova combinação e uma nova liberdade, uma liberdade que penetre no quarto onde as pessoas trabalham. O que dessa liberdade resultará não sei prever.


Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...