domingo, 16 de dezembro de 2012

Mania de Gilberto Gil


Ando numa fase completamente Gilberto Gil, que começou a partir da presença dele no programa do Jô. Gil cantou várias do novo Concerto de Cordas e Máquina de Ritmo e sereno, sábio, aos 70 anos, contou histórias incríveis. Com Gil na cabeça, separei alguns discos dele (em LP) que não ouvia há um bom tempo. Gil e Jorge (o prazer e a liberdade de tocar no encontro com Benjor), Gil em Concerto (com participação de Jorge Mautner, retrospectivo) e O Eterno Deus Mudança, que acabei de escutar. Daí me veio uma entrevista que fiz com Gil na época (1994, credo quase 20 anos!) do disco Unplugged MTV, que tinha o título de O Mais Zen dos Baianos (ao lado a capa da revista).
Gosto muito desse trecho: “Diz o I Ching e Gil fica atento, pois é admirador do oráculo considerado o mais antigo livro chinês. O observador mais atento vai encontrar hexagramas do I Ching nas capas dos discos Luar, Um Banda Um,Extra e Diadorim Noite Neon. Ele conta que antes de começar o projeto comemorativo (excursão e disco) Tropicália, jogou o I Ching e recebeu o hexagrama 35 que assim recomenda: um governante esclarecido e um servo obediente, eis os requisitos para um grande progresso. Gil reconheceu ali sua porção “servo obediente) e entregou-se ao que chama de “doce liderança” de Caetano. “Ele é mais racional, mais iluminista. Lidera o processo e eu vou a reboque. Ao longo de todo relacionamento, tem sido assim”.

Vem cá, alguém que faz essa análise tem que ser muito seguro de si, né?  Nunca esqueci essa parte da entrevista, que é das minhas preferidas e feita num longo papo telefônico a maior parte. Ah, e nela Gil falava também do rejeitado pelo público e arrasado pela crítica Eterno Deus Mudança, que chegou a ser chamado de “disco de vereador”, gravado em 1989, quando estava na Câmara de Salvador. Justamente o disco que acabei de ouvir e me interessaram várias das 10 faixas. Doidas essas voltas do tempo. No ritmo dele, Gilberto Gil vai construindo uma carreira impressionante – e não só de cantor e compositor, sua participação como Ministro da Cultura do governo Lula abriu caminhos e vai ficar para a história, assim como suas canções. “Minhas músicas são como parentes distantes que você não pode visitar com frequência”: outro trecho da entrevista.

E no tal Eterno Deus Mudança, topo com uma daquelas músicas que vale por um disco inteiro e até mais que um. É Cada Tempo em Seu Lugar (abaixo), para mim uma canção oração – chamo assim aquelas mais reflexivas que você vai cantando e parece estar a rezar. Exemplos? Tempo Rei e Retiros Espirituais (Gil), Clarisser (Vitor Ramil), Oração ao Tempo e Boas Vindas (Caetano), Amor de Índio (Beto Guedes), Tocando em Frente (Almir Sater, com Bethânia), Everybody Hurts (R.E.M.) e mais algumas e raras que nunca canso de ouvir e nunca sem lacrimar um bocadinho. Daquelas canções que aclaram e acarinham. Sempre.




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