quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Um prédio em 3 atos (e 3 anos)

Você passa diante de um prédio, percebe algo diferente e pensa "mas era assim?". Na maioria das vezes não era, mas é tão grande a velocidade com que a cidade vai se modificando que fica difícil pra memória registrar as transformações. Aqui, a transformação de um prédio de São Paulo, em três fotos e durante três anos.

É um prédio comercial na Hadock Lobo, entre as alamedas Santos e Jaú. Já foi banco, curso de inglês e outras ocupações que não lembro mais. A foto abaixo é de 2012. Olho na parede sem janelas, ela vai se transformar.

Em 2012
Lá pelo final do ano passado, 2013, o prédio passou por uma reforma e a parede ganhou janelas (foto abaixo). Achei tão legal que no fim daquele ano postei uma foto com algo meio assim: "No Ano Novo, abra janelas e deixe o sol entrar".

2013
E a reforma seguiu em frente por todo 2014. Ainda não acabou, mas o prédio ganhou vidros, uns metais e adquiriu um jeitão moderno, mais iluminado. 
2014

sábado, 18 de outubro de 2014

Grande Otelo: 99 anos hoje

Grande Otelo faria 99 anos hoje. Ele foi imenso. Dia desses revi Macunaíma na televisão e não conseguia tirar os olhos dele. Sempre que Otelo me vem à cabeça, penso em Joana Fomm falando dele com muito carinho nas nossas conversas que resultaram no livro Minha História é Viver (Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial de SP). Há pouco, quando soube dos 99 dele, abri o livro e voltei a me deliciar com Joana falando dele. Em Macunaíma, ela interpreta a feiticeira que transforma Grande Otelo em Paulo José e o trecho abaixo eu tirei de um perfil dele (Otelo, o Grande, num diálogo simples e franco) que Joana escreveu no jornal Última Hora, em dezembro de 1969. Segue abaixo, exatamente como está no livro. 

Joana Fomm e Grande Otelo em Macunaíma
“Otelo fazia o papel de Macunaíma quando criança, andava com uma camisolinha de neném e uma chupeta na boca pra lá e pra cá. Ninguém notava, pois aquela figurinha já fazia parte do cenário. Quando o diretor lhe pedia para fazer uma careta, a figurinha se transformava e todo mundo em volta morria de rir.Agora chora, Otelo. E ele derramava lágrimas e mais lágrimas, deixando-nos emocionados. Uma vez lhe perguntei: olha, eu sei que a gente ri e chora, mesmo, quando é preciso. Concentra um pouco, pensa no personagem, procura na memória alguma coisa parecida e manda ver. Mas você... diz pra rir, ri; manda chorar, chora. Tudo num estalo, sem truque. Como é que você consegue isso? Meu querido colega me olhou espantado e respondeu: Mas Joana, eu estou fazendo isso há 50 anos. É a minha profissão. Eu vivo disso. O que você queria? Foi a primeira vez que me passou pela cabeça que, dependendo das necessidades, da intuição e talento, Stanislavski e companhia podiam ser nada. Foi aí que comecei a conhecer o Grande – com ele não tinha porém.”




sábado, 4 de outubro de 2014

Hugo Carvana: o homem que perseguia a alegria


Hábito de todo final de manhã/ começo de tarde de sábado, estava num café lendo jornal, perto da uma da tarde. Acabei de ler uma matéria sobre José Wilker no Globo, entro no twitter e estava lá: Hugo Carvana morre aos 77 anos. Tão zonzo fiquei que nem li a matéria, não sei se estava doente, de que que foi: não me interessa. Tudo cala diante da morte de um cara que eu admirava e que, para mim, era a alegria.

Em 1975
Tenho mania de guardar matérias das pessoas de quem eu gosto (e das que não, também) e vou direto ler algumas do Carvana. A mais antiga é de uma Ele e Ela junho 1975, título “Eu não sou malandro, sou otário”, fotos de Carvana com cigarro na mão e diante de um copo de chope. Tempos da novela Cuca Legal, ele já tinha dirigido Vai Trabalhar Vagabundo e completava 21 anos de carreira e “64 filmes nas costas”. Em outra matéria, sem data (provavelmente 2002), Carvana chegava a 78 filmes. “No princípio não foi mole, gente boa. Muita luta e eu tive que dar muito pinote. Comecei aos 17 anos como figurante no filme Trabalhou Bem, Genival. Fiz mesmo de curtição, e o Joel Barcelos me incentivava – “vai nessa que é uma boa”. E estou nessa até hoje, onde pretendo continuar. Não tenho porque largar o meu cinema”, disse ele pra Ele e Ela.

“Os cineastas brasileiros se dão muita importância” é o título de uma capa do Segundo Caderno do Globo, em 2007, quando Carvana ganhava mostra em sua homenagem no Rio, captava recursos para a finalização de A Casa da Mãe Joana e já anunciava o próximo, Não se Preocupe, Nada Vai Dar certo. Abaixo, alguns trechos dessa deliciosa entrevista assinada por Patricia Villalba.

“Por sorte, eu estava nos lugares certos nas horas certas. Começou tudo na chanchada, que me despertou o desejo de ser ator. Daí eu fui estudar teatro, fazer uma escola de teatro. Dei um pulo, fui fazer teatro mambembe, viajei pelo Brasil. Por acaso, eu conheci o Teatro de Arena, de São Paulo, que estava fazendo testes para uma temporada no Rio. Eu não sabia, mas era um teatro revolucionário, propunha uma mudança radical na postura teatral. Ali me fiz homem, foi um salto das brincadeiras, da molecagem, para entender mais o homem, suas contradições. Naqueles anos, estou falando de 1958, 59, outro grupo de jovens no Rio tinha vontade de fazer cinema. Esse grupo de jovens quando viu esse grupo de teatro ficou fascinado, se aproximaram. Foi meu terceiro movimento. O destino me chamou, e lá fui eu fazer o Cinema Novo”.

“Quando eu decidi dirigir, já tinha 20 anos de cinema. Quis o destino que a primeira história, de Vai Trabalhar Vagabundo, estivesse carregada de alegria. Depois, eu descobri que essa alegria veio da chanchada. Vai Trabalhar Vagabundo (1973) começa com o personagem saindo da cadeia. Fiz esse filme em plena ditadura Médici onde, ao contrário, as pessoas estavam na cadeia. Além da alegria, da brincadeira, que era a chanchada, o filme escondia esse desejo autoral – confesso que não consciente. Foi emblemático o “bom dia, professor!”. Eu seria falso se ficasse procurando a angústia, os amores incompreendidos. A fome passa longe dos meus filmes, apesar de o banquete não estar dentro deles também”.
“Ninguém sabe que eu trabalho como um louco para produzir meus filmes. Todo mundo quer é tomar um chope comigo”.

Outra capa do Segundo Caderno do Globo, em julho de 2011, quando lançava Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo, o oitavo filme como diretor, com Gregório Duvivier e Tarcísio Meira no elenco. Dois trechos da matéria de Luiz Fernando Vianna:
“Não sou politicamente correto e não tenho problema em dizer isso. Aos 74 anos e 55 de cinema, já estou diplomado. Não estou a fim de tratar de coisas boazinhas. O que me interessa é o mauzinho, o sacana, esses personagens que invertem a lógica – afirma ele, entre baforadas de charuto, em sua casa na Barra da Tijuca, longe da boemia – A vida boêmia é passado, são só flaschbacks.”

“O cineasta se interessa pelos malandros de pequeno vulto, anônimos, como o que está imaginando para um futuro filme: velho punguista que teve seu ofício de furtar dinheiro prejudicado pela invenção da calça jeans, que comprime as carteiras aos corpos.
- Essas figuras são como mamutes. Devem continuar existindo por aí. Sempre que puder, eu vou recuperá-las – promete Hugo Carvana”

Grande cara, esse Hugo Carvana.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

santíssima (família) trindade

Domingo vi no twitter uma foto (ao lado) que o Pedro Alexandre Sanches tirou da Raquel Trindade, 78 anos, no encontro de intelectuais que apoiam a candidatura Dilma. Olha a Raquel, pensei. E fiquei com aquela mulher incrível na cabeça. Eu a conheci há oito anos. Foi uma matéria para o primeiro número da FFW Mag!. Abaixo, a saga de uma família de raízes africanas que faz da paixão pela arte o motor de sua existência, os Trindade. E vai pro saudoso Ailton Pimentel, que também era negro, editava a revista e me chamou para escrever essa matéria que deixou belas lembranças.

                                     santíssima (família) trindade

Poesia, dança, música, artes plásticas e muitas outras formas de expressão compõem, de geração em geração, a saga de uma família de raízes africanas radicada em São Paulo, que faz da paixão pela arte o motor de sua existência.


Raquel entre os netos Manuel e Zinho. Foto Bob Wolfenson
Quando criança, o agora rapper MC Zinho Trindade ficava “zoado” com a quantidade de pessoas entrando e saindo de sua casa. Era um povo alegre que gostava de música, dança e muita festa, algo bem diferente da calmaria nas residências vizinhas. Foi assim que Zinho começou a tomar consciência de que nascera numa família de artistas – e a descobrir, aos poucos, um baú de preciosidades. “Sou negro, meus avós foram queimados pelo sol da África/ minh’alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs”. É com orgulho que Solano Trindade, o bisavô de Zinho, deixou registrada em versos sua descendência. Poeta, pintor, teatrólogo, ator e folclorista, ele dedicou a maior parte de sua vida a batalhar pela cultura popular. Nascido em Recife, em 1908, foi um dos maiores animadores culturais de seu tempo, como provou a Frente Negra Pernambucana, fundada por ele em 1930, quando publicou seus primeiros poemas. A militância nunca mais parou e estendeu-se para outros estados nas temporadas em que morou em Belo Horizonte, em Minas, e em Pelotas, no Rio Grande do Sul.

“Papai foi criado ouvindo histórias de mula-sem-cabeça e de saci e da literatura de cordel e assistindo nas ruas ao maracatu e as outras danças populares”, contra outra integrante do clã, Raquel Trindade. Artista plástica, coreógrafa e ialorixá de candomblé, ela herdou de Solano o amor pela cultura negra e pelas tradições populares e é quem mantém o trabalho de resgatar as danças, a religiosidade e os ritmos afro-brasileiros.

Solano Trindade
                                                     DE RECIFE PARA O MUNDO

Na memória de Raquel está bem vivo o dia em que ela e a mãe, Margarida, a irmã e uma amiga deixaram Recife, em plena Segunda Guerra Mundial, quando os navios estavam indo a pique, para encontrar Solano Trindade no Rio de Janeiro. A única pista que tinham era o bar Vermelhinho, famoso na década de 50 por ser ponto de encontro de artistas, políticos e intelectuais da época – e que ele frequentava todos os dias. Ao desembarcar, Margarida deixou as crianças no navio e foi até o bar, onde teve notícias do marido pelo ator Grande Otelo. Logo a família Trindade estava reunida outra vez, morando no subúrbio do Rio, principalmente num barraco improvisado na Gamboa e depois numa casa em Duque de Caxias.

A mãe era presbiteriana; o pai, comunista – e a casa, bem peculiar: “Num caixote de cebolas havia O Capital, de Karl Marx, ao lado da Bíblia”, relembra Raquel. Na casa dos Trindade funcionava a célula Tiradentes do Partido Comunista, sempre com muitos operários e camponeses. “Apesar de presbiteriana, minha mãe servia cafezinho para os comunistas, ensinava dança para eles. Era uma mulher muito inteligente, muito avançada”.
Solano foi preso pelo governo Dutra, e a temporada no cárcere “não diminiuiu em nada seu amor pela arte e pela vida”, conta Raquel. Sem nunca parar de escrever seus poemas, fundou vários grupos de teatro. Um dos principais foi o Teatro Popular Brasileiro, em 1950, que fazia uma leitura nova de danças como maracatu e bumba-meu-boi, com ricas e coloridas coreografias apresentadas por operários e gente do povo.

Raquel faz questão de chamar a atenção para a frase que era chave no trabalho de seu pai: “Pesquisar nas fontes de origem e devolver ao povo em forma de arte”. Em 1955, o grupo viajou para a Europa como atração de um Festival da Juventude, com artistas do mundo todo. A dançarina Raquel tinha então 19 anos e foi com o pai. No navio, conheceu o primeiro marido (depois dele, viriam mais sete), pai de Vitor de Trindade, hoje percussionista em atividade na Alemanha. Raquel tem mais duas filhas: Regina, a única da família que não se dedica às artes, e Dadá, que canta, dança, toca e escreve nos Estados Unidos.


                                                 RITMO E POESIA

Perto de completar 70 anos, Raquel mora no Embu, a cerca de uma hora do centro de São Paulo, numa casa bem simples, repleta de livros e quadros. Ao lado, funciona o Teatro Popular Solano Trindade, que ela fundou em 1975, um ano após a morte do pai. O que no princípio era um barracão está se transformando num prédio amplo, moderno, ainda não totalmente concluído. Durante a semana, o lugar abriga aulas e, no fim de semana, os ensaios do grupo de danças folclóricas, formado por 30 pessoas.

Os netos, Manuel e Zinho, filhos do percussionista Vitor, também são músicos. Zinho, 23 anos, optou pelos caminhos do hip hop. Seu estilo é o freestyle, em que a rima é feita na hora, e o primeiro CD, Zinho Trindade Resgatando as Raízes, vai misturar maracatu, coco e folclore com hip hop. Alguns poemas do bisavô Solano vão entrar na rima – e a atualidade dos versos impressiona o rapper: “Eram muito avançados para a época. Um deles, escrito nos anos 50, já fala nos manos. Tem outro chamado Salve, que é a saudação de hoje em linguagem de ruas. Tudo numa linguagem popular, numa valorização da periferia”. Manuel, 21 anos, começou nas pegadas do pai percussionista, se encantou pela bateria e também mistura ritmos folclóricos em seu trabalho. Ele e o pai preparam um show com os poemas de Solano Trindade, que Vitor vem musicando. No CD Airá Otá, que gravou em parceria com Caçapava em 2001, Vitor já incluiu três: Rio, A Velhinha do Angu e Zumbi.

Para vários críticos, Solano é o criador da poesia assumidamente negra no país. Em versos repletos de musicalidade e ritmo, ele cantava o amor, as mulheres, as cidades onde viveu e o cotidiano da família, mas também falava do negro e das más condições da vida do povo, entre outros temas sociais. “Ainda são versos muito atuais em sua defesa das tradições culturais e em sua luta por um mundo melhor”, diz Raquel. Hoje restrita a um público especializado, a poesia de Solano Trindade ganhou mais exposição nos anos 70, quando foram musicadas Mulher Barriguda e Tem Gente com Fome, gravados pelo grupo Secos e Molhados e por seu líder, Ney Matogrosso, respectivamente.


Tem Gente com Fome: Rev. Semana, 1954


                                                      CONTINUIDADE

A ligação da família Trindade com o Embu começou nos últimos anos da década de 50. A convite do escultor Assis, Solano foi conhecer a cidade e se instalou com seu grupo de 30 pessoas no barracão do amigo. Nos fins de semana, cantavam e dançavam pelas ruas do lugar e começaram a atrair um público cada vez maior. Em 1959, Solano e o grupo participaram de Gimba, peça de Gianfrancesco Guarnieri montada no TBC e estrelada por Maria Della Costa, que fazia o papel de uma mulata. Apaixonado por Embu, Solano instalou-se na cidade em 1961, e sua casa tornou-se um núcleo artístico. Em 1968, Assis e Solano fundaram a feira de artesanato que, com o tempo, se transformou numa espécie de cartão de visitas da cidade.

Separado de Margarida, Solano teve mais duas mulheres. Terapeuta ocupacional, Margarida continuou no Rio de Janeiro e trabalhou 25 anos com a legendária Nise da Silveira, no Museu do Insconsciente, ensinando aos doentes suas danças do Nordeste. Volta e meia vinha visitar a família no Embu. Quando Solano estava doente e em dificuldades financeiras, ela veio buscá-lo e o levou para uma clínica no Rio, onde ele faleceu.
“Minha forma de arte hoje é a pintura”, diz Raquel que, depois de um acidente no qual sofreu muitas queimaduras, descobriu as telas e as tintas. Praticamente na mesma época veio o candomblé. É ialorixá (“a mãe que zela pela energia da cabeça”) e faz palestras sobre sincretismo religioso.

Nos anos 70. Raquel foi carnavalesca. O primeiro desfile foi em 1976 para a paulistana Vai-Vai, sua escola de coração, que homenageou seu pai com o enredo Solano Trindade, Moleque do Recife. Vieram outros carnavais e uma passagem marcante pela Quilombo, escola de samba carioca. Ela fala com entusiasmo desses tempos. Mas o que a deixa mais animada é pressentir a continuação de seu trabalho de valorização da cultura popular por seus filhos e netos. Por isso, não se incomodou nem um pouco quando o neto Zinho enveredou pelos caminhos do hip hop: “É uma maneira de essa juventude se expressar. É arte, é evolução, é o futuro”, diz ela, com um brilho de orgulho nos olhos que já foram pretos e cada vez estão mais claros, uma característica das mulheres de sua família tão especial.
                                       
                                        Revista FFW Mag! nº 1 2006


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Uma visita a Mangueira de Cartola nos anos 40

Que tal um passeio pela Mangueira do começo dos anos 40, com Cartola mostrando como tudo funcionava? E o melhor, há um grito de carnaval à espera, com os compositores, as pastorinhas. Cartola, 33 anos, recebe o americano Aaron Copland, ciceroneado por Villa-Lobos. Não, nada de máquina de tempo. Quem conduz tudo é uma matéria incrível da Diretrizes, lendário jornal/revista de Samuel Wainer, publicada em novembro de 1941. Eram tempos onde se escrevia dança com s, coroa era gíria nova e "cai" era grafado com e, assim: "cae", tudo a ver com os tempos redes sociais. É uma beleza de matéria e traz a letra de um samba de Cartola em homenagem a Getúlio Vargas que não deve ter sido gravado - dei uma busca rápida e não achei referências. Boa leitura. A partir de agora é tudo da Diretrizes. Tudinho.

                                            Mister Copland caiu no samba

Cartola, cercado pelos companheiros, conta ao repórter as esperanças da escola de Mangueira no próximo carnaval. Villa-Lobos e Aaron Copland homenageiam um compositor: Cartola. Villa-Lobos está satisfeito com a recepção que foi proporcionada ao colega americano
O FAMOSO MÚSICO NORTE AMERICANO ASSISTIU AO GRITO DO CARNAVAL NA MANGUEIRA – O TELEGRAMA DE VILLA LOBOS – O POEMA DE ZÉ COM-FOME – CARTOLA E A ALA DOS COMPOSITORES – O CANTO SURPREENDE AO AUTOR DE “SALON MEXICO

Reportagem de Francisco de Assis Barbosa


Bate o tamborim. Ronca a cuíca. O surdo faz pum-pum, marcando a cadência. As vozes estridentes das pastorinhas saltam da única casa iluminada no morro. Misturam-se ao barulho das cuícas, dos tamborins, do surdo.

Meu primeiro amor
Não me olhes assim
Eu já te disse adeus
E os olhos teus

Não cansam de fitar os meus


A mangueira está em festa. À porta do barraco, muita gente ficou espiando o grito de carnaval da escola de samba Estação Primeira. O samba é quente e melancólico.

Fiz mal em te dar o meu amor
Você não merece e não sabe dar
                                              valor
Pensavas que ias me trair
Os prantos que eu derramava
Eram sempre a sorrir...

As vozes morenas cortam a noite.

Os prantos que eu derramavaEram sempre a sorrir...

Cartola e outros rapazes da ala dos compositores da escola de samba Estação Primeira desceram para receber Villa-Lobos, que anunciara a sua visita com um telegrama. Logo depois chegavam os automóveis da comitiva do maestro brasileiro que convidara Aaron Copland e a reportagem de DIRETRIZES para uma audição no morro da Mangueira.


Cartola explicou: 

- Damos hoje o nosso grito de carnaval. A turma ainda não esquentou. Desculpe alguma coisa.
A música do morro parece encantar os ouvidos de Copland.

Os prantos que eu derramava

eram sempre a sorrir...



O CANTO SURPREENDE COPLAND

Genevieve é uma endiabrada fotógrafa
americana. Nem o ritmo excitante do
tamborim conseguiu afastá-la um minuto
sequer da máquina
A princípio, o barulho é infernal. Não se percebe uma palavra do canto estridente. Os tamborins batem com força. São quinze tamborins batendo na pequena sala enfeitada com papel crepom.

Os olhos azuis de Aaron Copland não perdem um só movimento das danças. Os passos são miúdos. E os bailarinos quase não movem os braços largados.
- Há um contraste entre a música e a dança – observa o músico norte americano. A melodia é forte e vibrante, ao passo que a dança é relaxada e lenta.

Na escola, a presença de Villa-Lobos e de Copland não faz diferença. Villa-Lobos chama o rapaz da cuíca.

- Eu não sei tocar direito...
- Não faz mal.
O instrumento delicia Copland. O americano quer saber tudo. Villa-Lobos conta-lhe que o samba na Mangueira é o mais puro, o mais autêntico.
- Interessante, diz Copland. A mim não me surpreendeu a música mas o canto. Esse mesmo tipo de ritmo eu já havia notado em todos os compositores brasileiros.

O repórter intervem:

- Em todos?
- Sim, em todos – responde Copland. Em todos que eu ouvi. Villa-Lobos, Gnatalli, Ovalle, Vianna, Cosme, Guarnieri, Mignone, Fernandes...

O QUE É UMA ESCOLA DE SAMBA
Deixo Copland e Villa-Lobos conversando na sala com Samuel Wainer. Num bar improvisado, encontro Cartola que me informa a organização da escola de dança.
- Somos uma sociedade. Cada sócio paga dois mil réis de mensalidade. A joia custa três mil réis. A escola funciona no tempo de carnaval. Em novembro, começam os ensaios. Hoje, como é o grito, as pastoras não são convidadas a comparecer. Mas de sábado em diante, a coisa é outra. Entram no regime da disciplina.

Pergunto sobre o número de sócios e Cartola me responde:

- Já tivemos duzentos. Hoje não chegamos a cento e vinte.

Dá uma explicação simples do fenômeno:

- Não vê que muita gente tem se mudado da Mangueira. Com essa história de se falar que a favela vai abaixo, o pessoal vai procurar outro pouso para morar. E assim o samba vai morrendo.

Faço que não entendo e a linguagem de Cartola então se torna mais clara e convincente:

- Acabando o morro, o samba também se acaba. E a gente, meu velho, aí vai ter que procurar outro divertimento.

O SAMBA DE ZÉ COM-FOME
Zé Com-Fome, poeta do morro, escreveu um samba bonito em louvor da Mangueira:

Mangueira
Foste tu sempre a primeira.
Quem se muda pra Mangueira,
É verdade,
Leva a vida cheia de felicidade.
Quem se muda de Mangueira
Tem saudade
Voltará ou mais cedo ou mais tarde.


No entanto, Zé Com-Fome se mudou. Mora no Meyer e nunca mais voltou a Mangueira. Peço a Cartola informações sobre a ala dos compositores da escola de samba. É quando o Crioulo (Adriano Gomes da Silva), um preto simpático com poletó de pijama azul, entra na conversa.
- Essa ala é um grupo de rapazes que gostam de fazer as suas bobagenzinhas, as suas coisinhas. Cartola é o nosso mestre.

De fato, a voz unânime é que Agenor de Oliveira, o Cartola, é o maior poeta e bailarino da Mangueira.

- A ala dos compositores, dizem-me, se reúne às 5ªs feiras. É quando nós discutimos os nossos pagodezinhos.
É engraçado ouvi-los falar assim das próprias composições, bobagenizinhas, pagodezinhos...

MAIS IMPRESSÕES DE COPLAND
Tenho que voltar a Copland, que está sentado a ouvir atentamente a melodia patriótica de um poeta chamado Geraldo Diniz.

Ó meu Brasil,
É você sempre altaneiro.
Orgulha-me em ser brasileiro.
Sinto imenso prazer.
És varonil
E tens tudo de riqueza
Quem deu foi a Natureza
Só por você merecer.


Mas Aaron Copland não quer se incomodar com a letra. Está com atenção fincada nos pandeiros e nos tamborins.
- Os negros da América do Norte cantam diferente. É muitíssimo curioso.
Dois cantores se aproximam em homenagem a Copland e a Villa-Lobos.

És varonil

E tens tudo de riqueza
Quem deu foi a Natureza
Só por você merecer, 
Ó meu Brasil...

Quando a música termina, Aaron Copland diz com espontaneidade:
- Eu me esqueci de que isso poderia acabar...

Uma visão a lápis do samba

UM JAZZ PRIMITIVO
O músico norte americano quer saber tudo. Desce comigo ao salão de danças, ao lado da escola. A orquestra toca uma caricatura de Fox-blues. Os pares são muitos e enchem toda a sala. Copland olha, com a sua curiosidade sempre alerta.
Aproxima-se do jazz. Observa longamente os músicos tocando. O homem do piston, o do trombone, o da bateria. Olha, depois, os pares rodopiando com lentidão.
O calor cresceu ali.
Aaron Copland está sério e atento. O ar é pesado e o barulho da orquestra e dos pés se arrastando não deixa conversar. Copland esperou a música acabar e foi saindo devagar.

Comenta, à porta, risonho:

- É um jazz bastante primitivo, não acha?
E logo depois faz-me notar o seguinte:
- Eles dançam com muita distinção. Não há nada de sensual. Os negros norte americanos são selvagens quando dançam o Fox. Os do Brasil são mansos e respeitosos.

HOMENAGEM AOS POETAS
De novo na escola de samba. Há na parede um retrato a mais. É o de Villa-Lobos, a quem a diretoria presta uma homenagem simpática. As pastorinhas estão cantando agora um samba de Carlos Moreira, outro grande poeta da Mangueira, cujo retrato também figura na sala.

Recordar Castro Alves
Olavo Bilac, Gonçalves Dias,
E outros imortais
Que glorificam nossas poesias
Quando eles escreveram
Matizando amores
Poemas cantaram
Mas talvez nunca pensaram
Ouvir os seu nomes
No samba algum dia.


Essa música se chama “Homenagem aos Poetas”. Cartola me conta que outros quadros não foram colocados hoje, na sala de ensaios.

- Retratos de quem?

- De Castro Alves, Gonçalves Dias, Humberto de Campos, Catulo da Paixão Cearense, Olavo Bilac...



AARON COPLAND CAI NO SAMBA
As pastorinhas vão e veem mexendo as ancas. Os cavalheiros dançam também, com os pés agilíssimos. E entre eles está Paulo da Portella, o famoso sambista. Dança que é uma beleza. Faz umas visagens que outros não conseguem fazer.
O samba confraterniza, vem um faz sinal a Aaron Copland e o autor de “Salon Mexico” não foge ao convite. Dança também.
Copland está gostando da música. Cantarola quando o batuque termina. E eu pergunto a ele se escreverá música com motivos brasileiros, como fez com os temas colhidos no México.
- Ainda não sei. Estive três meses seguidos no México. A minha rápida permanência no Brasil não me permite responder-lhe afirmativamente. Só mesmo nos Estados Unidos, com mais vagar, é que poderei sentir e compreender melhor esses ritmos, que são aliás interessantíssimos. E por isso mesmo um verdadeiro desafio para o musicista.

UM SAMBA DE CARTOLA
Villa-Lobos chama-me ao bar:
- Olhe, o Cartola está aí com um samba notável que você precisa ouvir.

- Pois não.
- É em homenagem ao presidente Getlio Vargas, adianta o poeta, que não deixa fugir a oportunidade e se põe a cantar:

Brasil, Brasil,
No progresso que vais
Muito breve serás
A potência universal

Brasil, Brasil
Minha pátria altaneira
És para mim a primeira
E não vejo outra igual.
Brasil, Brasil
Enviado por Deus
Veio um dos filhos teus
E do mal te salvou


Brasil, Brasil
Em tuas páginas de história
Teus filhos gravaram
Mais dez anos de glória.
O teu chefe é um talento
Não descansa um momento
Quer te ver progredir
Coração magnânimo
Enche-nos de ânimo
Para a luta prosseguir.
Delirando orgulhoso
Com seus feitos famosos
Quero alto gritar
Gravem em vossas memórias
Dez anos de glória.


Cuicas, pandeiros e tamborins. O samba chega ao auge. Mister Copland, quase impassível, assiste, até o momento em que o samba também o arrasta para roda

ORGIA É MATO NA MANGUEIRA
Pedro Palheta não é poeta:
- Não tenho coro não senhor. Só se quiser tirar das minhas costas...
E conta ao repórter:
- Escute, meu compadre, já dobrei os quarenta. Hoje sou uma coroa mas a memória ainda trabalha.
Fico sabendo que o rapaz novo se chama estrela. Coroa, como o leitor decerto percebeu, é quem vai ficando maduro.

Cartola me fala das suas músicas:

- “Divina Dama”, “Fita meus Olhos”, “Não faz amor” e muitas outras. Tenho os meus negócios com o Chico Alves que sempre me pagou direitinho e coloca o meu nome nas músicas. “Divina Dama” foi assim. Lá está: música de Agenor de Oliveira. “Não faz amor” foi gravado pela Carmen Miranda, no tempo em que ela estava começando. Não era a Carmen Miranda falada, mas uma pilantra muito errada, aliás.

Crioulo chega perto de mim e diz:

- O senhor quer saber de uma coisa. Aqui, em Mangueira, orgia é mato. Nasce e cresce sozinha. E olhe, meu companheiro, mato é coisa que não falta por aqui.

FINAL DA NOITE
Aaron Copland não fuma e não bebe. Toma água mineiral com sua cara muito parecida com a de Manuel Bandeira:
- Todos me dizem a mesma coisa. Deve ser verdade. E é uma grande honra para mim...
Villa-Lobos desce o morro e esclarece a Copland que o samba carnavalesco não tem o mesmo sabor e a mesma originalidade dos sambas das escolas de samba.
Aaron Copland não esconde a satisfação que teve em descobrir algo novo:
- Não há dúvida, estou gostando muito do samba.
Villa-Lobos leva Copland para o hotel no seu vastíssimo Dodge de sete lugares. Lá em cima do morro, as pastorinhas continuam a cantar:

Mangueira,
Foste tu sempre a primeira.
Quem se muda pra Mangueira,
É verdade,
Leva a vida cheia de felicidade.
Quem se muda de Mangueira
Tem saudade
Voltará ou mais cedo ou mais tarde.


Aaron Copland, no automóvel, fala-nos da semelhança que encontrou entre a música brasileira e a cubana:
- Os ritmos são muito parecidos e eu estou convencido de existir uma relação entre uma e outra música. O canto porém é diferente. A melodia brasileira é mais forte, mais vibrante, mais selvagem.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Havia uma árvore no meio da calçada kabbalah


Na semana passada
Havia a árvore acima, coitada dela, plantada no meio da calçada da alameda Itu, bem em frente à Kabbalah Centre do Brasil. Isso foi semana passada e registrei aqui

A boa notícia é que desistiram da idéia, ouviram o bom senso e deixaram a calçada livre para pedestres, como deve ser. Bom, livre é meio exagero com tantos vasos e bancos no meio do caminho, mas sem a pobre árvore aprisionada irregularmente no meio da calçada já fica melhor.

Hoje







segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Mabel, um retrato íntimo da mana de Caetano e Bethânia

Dona Canô e Mabel em cena do documentário
Vários são os documentários sobre Caetano Veloso e Maria Bethânia, que devem ser os mais retratados da música brasileira. Devo ter visto todos e também li muito sobre os dois. Semana passada assisti Mabel, documentário de Margarida Mamede, que estreou no Canal Brasil, e entrei em contato com revelações inéditas (pra mim) sobre aquela família. Poetisa e educadora, Mabel é a terceira dos Velloso e chegou depois de Nicinha (adotada) e Clara. A família esperava um menino e a vinda de Maria Isabel foi uma “decepção”. Para falar de Mabel, surgem no vídeo os manos famosos e mais Clara, Rodrigo, Roberto e Irene – Nicinha já havia morrido nas filmagens – e também filhos, netos, amigos (Gilberto Gil, entre eles) e ex-alunos. Mabel lembra fisicamente a mãe que aparece em algumas cenas bem caseiras – dona Canô morreu no natal de 2012, enquanto o documentário era realizado. Em uma das sequências, Mabel mostra a sala de santos da mãe.

“A gente cresceu vendo minha mãe cantar e meu pai assoviar e dizer poemas”, diz Mabel. O pai José, que assoviava os dobrados das bandas de música, ninava os filhos andando de um lado para outro de um “corredor imenso”, recitando poemas – não apenas de amor, mas os que lhe vinham à cabeça. Mabel exibe com carinho um caderno com poemas copiados pelo pai, a quem era muito ligada. Oito anos mais velha que Caetano e doze que Bethânia, Mabel revela muito da família antes da chegada dos irmãos . O sobrado em frente, do seo Edgar, o telhado de Adal, a vó paterna que parecia enorme, a vó materna “muito magra, miúda, mas muito ligada”, a tia Ju, irmã do pai e madrinha, que ajudava o pai telegrafista a sustentar os filhos, a “tia de posses” que era casada com o padrinho de Clara, a prima Lindaura primeira a prestar atenção no que ela escrevia.

Uma das histórias mais deliciosas é o berço que o avô mandou fazer para presentear Clara, a primogenita de Seo Zezinho e dona Canô. Esse berço passou para Mabel, para Rodrigo (apenas 11 meses mais novo que a irmã), para Roberto, Irene, Caetano e Bethânia. “A heriditariedade bonita que era dormir no berço de Clara”, diz Mabel. Clara, a mais velha tinha cabelos lisos e louros e Mabel, como todas as meninas de Santo Amaro, era morena e de cabelos encaracolados. Nas rua, todos elogiavam Clara e a menor se sentia rejeitada. Mabel conta essas histórias de um jeito bem dramático e o irmão Rodrigo, com o maior bom humor, lembra o apelido familiar da mana: Carmelita Tragédia.

“Quando eu era menino, Mabel era minha irmã favorita. Olhava para ela com identificação, admiração, inteligente, interessada em assuntos da mente”, diz Caetano que a eternizou na memoralística Genipapo Absoluto: “promessa, poesia, Mabel”. A irmã e Toninho Mesquita namoravam no corredor, falavam muito de poesia, literatura e o garoto Caetano gostava de ficar perto. “Minha irmã, minha comadre, mãe de leite”, diz Maria Bethânia.

As poesias de Mabel (“a felicidade não é hereditária”) vão costurando histórias saborosas. E mais pro final, entra em cena a professora, que por 40 anos ensinou em colégios de Santo Amaro da Purificação e Salvador. Em uma cena comovente que parece saída dos documentários de Eduardo Coutinho, a ex-aluna Amélia Passos, recita um poema imenso que aprendeu com a professora. Sem truques de montagem, baseado apenas em depoimentos, o documentário Mabel revela com sensibilidade e poesia o “bairro da saudade” (passado), de uma mulher encantadora, que completou 80 anos em fevereiro.

O documentário Mabel está sendo exibido pelo Canal Brasil e também está disponível no youtube.



E aqui, Genipapo Absoluto, a canção de Caetano em que Mabel é citada

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Bogart e Bacall em 5 atos e por ela

Casal lendário dos anos dourados de Hollywood, Humphrey Bogart e Lauren Bacall viveram 12 anos juntos, até a morte dele, em 1957, depois de longa enfermidade. Quando se conheceram, Bogart tinha 44 anos e era um astro. A modelo Lauren, 19, iniciava no cinema ao lado dele em Uma Aventura na Martinica, onde tudo começou. Abaixo, o romance dos dois, em cinco atos, e nas palavras de Lauren na autobiografia Bacall Fenomenal, lançada em 1978. Lauren Bacall morreu na terça, 12 de agosto, aos 89 anos.

Casablanca


Numa manhã de sábado de 1942 Mamãe e Rosalie me levaram ao Cinema Capitólio para assistir a um filme intitulado Casablanca. Todas gostamos muito do filme e Rosalie ficou louca por Humphrey Bogart. Achei-o muito bem no papel – mas louca por ele? Absolutamente não. Rosalie julgava-o sexy; eu o julgava maluco. Mamãe gostou dele, embora não tanto quanto de Chester Morris, que ela realmente achava sexy, ou de Ricardo Cortez, que ocupava o segundo lugar de sua preferência. Eu não conseguia entender a opinião de Rosalie. Bogart nem mesmo se assemelhava a Leslie Howard. De forma alguma. Vejam só como eu pensava naquela época.

Apresentação
Certo dia, antes do final do ano (1943), Howard Hawks me chamou à Warner Brothers. (...) Ele adquirira os direitos de filmagem de um livro de Hemingway, no qual eu nunca ouvira falar, intitulado To Have and Have Not (Uma Aventura na Martinica). Na ocasião Bogart estava trabalhando num filme chamado Passage to Marseille (Passagem Para Marselha). “- Vamos dar um pulo até o set e ver como estão as coisas” – sugeriu Howard. (...) O palco de som para a filmagem de Passage to Marseille era enorme e vazio. Howard conduziu-me a um local onde o cenário fora montado e os técnicos experimentavam a iluminação da cena seguinte. Michèle Morgan estava sentada num banco, no cenário. Howard mandou-me esperar ali, dizendo que voltaria logo. E voltou – em companhia de Bogart. Apresentou-nos. Não houve raios ou trovões. Apenas “olá, como vai?”. Bogart era mais franzino do que eu imaginara – um metro e setenta e pouco de altura – e usava as roupas do filme: calças largas, camisa de algodão, um lenço no pescoço. Nada de importante foi dito – demoramos pouco no set – mas ele me pareceu um homem amável.



Primeiro beijo
Uma Aventura na Martinica
Não sei como aconteceu, pois foi quase imperceptível. Estávamos filmando (Uma Aventura na Martinica) há quase três semanas; no final do dia eu ainda tinha que fazer mais uma tomada e estava sentada à penteadeira do camarim, penteando o cabelo, quando Bogie entrou pra se despedir. Parou atrás de mim. Brincávamos, como de costume. Então ele se inclinou repentinamente, colocou a mão embaixo do meu queixo e me beijou. Foi um gesto impulsivo, pois ele era um tanto tímido. Não era uma tática de conquistador atrevido. Em seguida tirou do bolso uma caixa de fósforos e pediu-me que escrevesse meu telefone nas costas. Escrevi. Não sei exatamente porque o fiz; creio que fazia parte de nosso jogo. Bogie era por demais meticuloso em termos de vida pessoal; tinha fama de não se envolver com mulheres, quer no trabalho ou fora dele. Não era do tipo Don Juan, e além disso era casado com uma mulher famosa por beber demais e criar arruaças. Uma “durona”, capaz de agredir as rivais imaginárias com um cinzeiro, um abajur, ou qualquer outro objeto que estivesse a seu alcance.
(...)
Ao terminar o trabalho no dia em que dei meu telefone a Bogie voltei para casa, seguindo a rotina: após comer alguma coisa li o texto que deveria filmar no dia seguinte e fui para a cama. Por volta das onze o telefone tocou. Era Bogie. Tomara alguns drinques, ainda não voltara para casa e desejava saber como eu estava. Chamou-me de Slim e eu o tratei de Steve, como no filme. Fizemos algumas piadas e afinal ele se despediu, dizendo que me encontraria no estúdio, na manhã seguinte. Isso foi tudo – mas o fato é que nosso relacionamento mudou a partir daquele momento. Ele me levou várias vezes para almoçar no Lakeside Golf Club. Passamos a conversar no meu camarim – ou no dele – com a porta aberta, descobrindo coisas a respeito um do outro. Quando ele jogava xadrez com alguém no set – era um ótimo jogador – eu assistia, postando-me perto dele. A aproximação física se tornou cada vez mais importante. Mesmo assim continuamos a levar as coisas na base da pilhéria.

Vida normal
Na época, éramos um casal feliz, com fama e fortuna. Jamais conheci alguém que pudesse ameaçar nosso casamento. Quando eu, por acaso, flertava inofensivamente, estava apenas fazendo o que sempre fizera quando mais jovem. Tornávamo-nos um casal cada vez mais popular; espalhou-se a notícia de que o lar dos Bogart era muito divertido. Todos queriam ser convidados para nossas festas de Natal, e no ano em que Steve nasceu inaugurei mais uma tradição: nossa festa de aniversário de casamento. Era um divertimento total: o tempo estava sempre quente, as mulheres muito bonitas, as plantas sempre florindo. (...)


O Fim
Naquele período tínhamos duas enfermeiras. Quando a dor piorava, o médico receitava algo; não sei bem o que era – morfina? Áquela altura Bogie estava tão magro que cada injeção lhe deixava uma marca; as regiões limpas se tornavam cada vez menores. Uma tarde, ele saiu da cama e moveu a cadeira de rodas até a espriguiçadeira, vestindo apenas a parte superior do pijama. Sua vontade de viver era tão forte que ela conseguia obrigar o corpo a fazer coisas de que já não era capaz. Bogie era apenas pele e osso; não sei como pôde levantar-se – vê-lo fazer tamanho esforço foi algo terrível, de partir o coração.


(...)

É realmente extraordinário que Bogie jamais me tenha dito algo em termos de “Se algo acontecer comigo... Quando... Eu sei que...” Continuamos a nos comportar como se a moléstia não passasse de uma gripe forte. Bogie estabeleceu o ritmo e sua atitude me obrigava a acompanhá-lo. Certa vez, ele me disse: “Se você estiver bem, eu também estou; quando você se perturba, eu também fico perturbado”. Portanto, só me restava ficar bem.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O atentado urbano do Kabbalah Centre

árvore no meio da calçada da Itu
“Kabbalah é uma sabedoria milenar que revela como o Universo e a vida funcionam. No sentido literal, a palavra aramaica Kabbalah significa “receber”, logo, trata-se da ciência que ensina como alcançar plenitude na vida”, diz o site do Kabbalah Centre.  Mas quem passa na frente do Kabbalah, na alameda Itu entre a Consolação e Melo Alves, vê o universo e a vida funcionando de forma estranha. Além dos vasos, floreiras e bancos que povoam a estreita calçada do Kabbalah, agora resolveram plantar uma árvore no meio da calçada, com proteção e tudo. Repito: plantaram uma árvore no meio da calçada, o que torna transitar por ali uma experiência quase labiríntica. Bom, de repente, é “uma árvore milenar”, mas mesmo assim: plantar árvore na calçada é feio, não pode.
os vasos, floreiras e bancos
Para “alcançar plenitude na vida”, penso eu, deve-se respeitar o patrimônio pública. E calçadas são públicas, para que pessoas circulem da melhor maneira possível e não para abrigar vasos, floreiras e bancos. Esse atentado urbano cometido pelo Kabbalah Centre vai contra a sabedoria milenar que eles propagam. Alô, prefeitura, o Kabbalah Centre se apossa a cada dia dos poucos metros de calçada pública. Pode isso?
Fachada do Kabbalah Center

Aqui, o site do Kabbalah Centre SP
http://www.kabbalahcentre.com.br/

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ariano Suassuna por Cleyde Yaconis

É tão bonito o trecho em que Cleyde Yaconis fala de Ariano Suassuna em A Dama Discreta, que tive o prazer de escrever. Enquanto copiava, me veio na voz dela. Taí. Pra Ariano Suassuna. 


Fredi Kleeman, Cleyde Yáconis, Walmor Chagas e Cacilda Becker: O Santo e a Porca
“Uma das boas lembranças das época da Companhia Cacilda Becker é meu conhecimento com Ariano Suassuna, de quem montamos duas peças O Santo e a Porca e O Auto da Compadecida. Os personagens de Ariano são maravilhosos, brasileiros, têm o humor, a malícia e a safadeza do povo brasileiro, como ele se vira e se sustenta. Fiz um palhaço do Auto e a Caroba do Santo e a Porca, que foi a peça de lançamento do Teatro Cacilda Becker, em março de 1958, no Teatro Dulcina, no Rio. Ariano adorou a montagem e eu ganhei o Prêmio Governador do Estado de melhor atriz. Peça de estreia da Companhia em Lisboa, o Auto era dirigido pela Cacilda.

Quando a Companhia passou por Recife, rumo à excursão pela Europa, fui almoçar na casa do Ariano e ficamos amigos. Lembro que a casa dele tinha um muro amarelo, cheio de pinha e ele arrancou uma pinha do muro e me deu.*


Adoro O Santo e a Porca e, no começo dos anos 70, produzi uma remontagem da peça que fez bastante sucesso e chegamos a apresentar na Penitenciária de Bangu, no Rio, mas não trabalhei como atriz. Três anos atrás, o Ariano Suassuna foi homenageado por uma escola de samba, ele me telefonou e falou que fazia questão que eu fosse. Eu disse “Te adoro, mas não tanto”. Carnaval nem pensar. Só gosto porque são quatro dias e, quando eu estou trabalhando, fico de folga na minha casa.”

*Ah, a pinha que ela fala sempre esteve na varanda da casa de Jordanésia.

Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...