sexta-feira, 29 de março de 2019

A Nana Caymmi que encontrei no meu baú



Tive a honra de entrevistar Dorival Caymmi por telefone em 1994, pouco antes de ele completar 80 anos. Foi por telefone, tempo marcado - 20 minutos - mas a primeira coisa que ele perguntou foi quanto tempo eu precisava para uma boa entrevista. E a nossa durou uns 40 minutos. Desliguei o telefone emocionado. Era perto do meio-dia, lembro bem.

É das minhas entrevistas inesquecíveis. Saiu em três páginas da revista Áudio News e não houve espaço para um texto da Nana falando sobre o pai. Dia desses, apareceu uma lauda (folha com o logo das publicações e marcação) com esse "depoimento" - a entrevista com Nana foi pessoalmente e não foi a única que fiz com ela, que tem um estilo de falar despejando palavras e com os palavrões usados feito vírgula e sem aquele peso que costuma acompanhá-los em outras bocas ou quando transcritos. O pai Dorival não falava palavrões, a mãe Stella sim, ela disse. E falou de Pequeri, a cidade onde o velho Dorival vivia: "uma merda".

Nana Caymmi, aos 53 anos, fazia sucesso com o disco Boleros (ao lado, essa publicada) que a devolveu ao mercado depois um daqueles longos afastamentos meio comuns em sua carreira.

Abaixo Nana fala de Dorival Caymmi, exatamente como escrevi (e não saiu publicado) em 1994.

"Tenho que botar Dorival Caymmi para trabalhar nas comemorações dos 80 anos e isso é uma missão difícil. Toda vez que tenho que falar com papai, vou primeiro ao banheiro, porque ele não é fácil. Ele fala e tenho que ouvir, senão ele já diz: "Você nunca me ouve, sempre foi assim." Quando começa a falar fica horas e horas.
Uma vez em excursão por Portugal, o show acabou e Danilo sumiu com os músicos me deixando a missão de tomar conta do papai. A fila de cumprimentos era enorme, cheia de autoridades, o Mario Soares tava lá, uma festa. E papai ficava dando a maior atenção para todos, contando histórias, falando de Amália Rodrigues. Era uma da manhã, estávamos em Cascais e nada de ele ir embora. Eu falava: Papai, o pessoal tá querendo fechar o teatro e ele lá na maior tranquilidade, conversando com todos.
Agora, nas comemorações dos 80 anos é minha vez de convencê-lo a fazer shows. O Danilo cobra e me deixa com a missão de convencê-lo.
Ele e a mamãe estão casados há 52 anos e desde pequena ou ele ameaça de ir pro hotel e ela de ir embora.
Papai é contido. Não falava palavrão, só mamãe. Ela já foi internada várias vezes para desentupir as artérias. Tá sempre reclamando e brigando com a mulher do Dori, aliás com qualquer mulher que se aproxime do Dori. Dori é a vida da mamãe.
São Pedro do Pequeri, a cidade mineira que mamãe nasceu é uma merda e papai adora. Não dá para entender como o homem que fala do mar no lugar que não corre um córrego.
Não tem nada por lá. Nada: cinema, teatro, nada. Eles só falam de comida e futebol. Ano passado, papai  fez uma grande pesquisa para escolher o artista que eles queriam ouvir. Venceu Elba Ramalho. O show dela foi um acontecimento e até hoje as pessoas falam disso."

quinta-feira, 28 de março de 2019

A velhice segundo Clarice Lispector


Clarice Lispector não conheceu a velhice. A morte a alcançou na véspera do dia em que completaria 57 anos, 9 de dezembro de 1977. Ela escreve sobre velhice e sobre as quatro velhas que criou nesta que é uma de suas últimas crônicas na famosa coluna do Jornal do Brasil - foi publicada em 8 de dezembro de 1973 e ela foi demitida três colunas depois, nos últimos dias daquele ano. Dureza Necessária ficou fora de A Descoberta do Mundo e do recente Todas as Crônicas, os livros que cobrem a fase cronista da escritora. É muito interessante lê-la 46 anos depois, quando a aposentadoria está ameaçada.

PS: Clarice começa falando de A Procura de uma Dignidade, publicado em quatro partes na coluna, durante todo o mês de julho de 1973. Em livro, o conto A Procura de Uma Dignidade abriu Onde Estivestes de Noite, lançado em abril de 1974.



                                   Dureza Necessária
                                         Clarice Lispector

Escrevi um conto de umas 10 páginas sobre um senhora de quase 70 anos. Esta senhora passa por situações difíceis, embaraçosas, pela perplexidade, pela vergonha. Dou-me ela o tempo todo, e eu tinha o impulso de interromper para dizer: coitada de minha filha. Mas não podia. Eu tinha que ser neutra e fingir de dura.

E por que não tirá-la das situações difíceis, já que eu mesma as inventei? Por que não melhorar a sua sorte? Foi impossível pois estas eram as suas realidades e eu não posso mentir. Quando minto sobre a verdade de um personagem, não estou sendo honesta. Há que haver uma ética a observar.

Que seja dito de passagem que o conto, chamado de A Procura de uma Dignidade, não é inspirado em nenhum fato real acontecido: tudo é inventado, assim como o nome da senhora.

Pergunto-me eu agora: inventado? Inventa-se? O que a gente inventa já existe de algum modo. Eu devo ter captado expressões sutilíssimas de algumas senhoras e calculei o resto. Será isto que sucedeu? Resposta: mistério.

Também tenho começado um outro conto sobre uma senhora sentada no trem. Ainda não sei para onde vai esse trem. Tenho pena também: ela precisaria de companhia, de um guia, de uma segurança: Interrompi o conto porque no momento não me interessou mais. Provavelmente ou o recomeçarei de novo.

Já tenho quatro velhas descritas ao longo do meu percurso.

O mais curioso é que essas quatro velhas são tão diferentes uma das outras e de tal modo diferem seus acontecimentos e temperamentos que elas não teriam possibilidade de diálogo. Seriam estranhas uma para a outra. E tem a questão do nome, que acho muito importante. A velha de Feliz Aniversário é chamada por mim de velha, por outros de vovó, por uma vizinha de Dona Anita. A de Passeio a Petrópolis chama-se Margarida, mas tem o apelido de Mocinha. A de A Procura de uma Dignidade chama-se Sra. Jorge B. Xavier. É como se ela não tivesse identidade própria. A velha do trem não terá a oportunidade de dizer seu nome: é apenas uma velha senhora no trem.

O problema da velhice não foi resolvido pelos humanos. Raras vezes se vê pessoa de idade com uma harmonia interna e com vida externa correspondente. Materialmente muito se poderia fazer pelas pessoas idosas, dando-lhes o conforto possível, deixando-as serem úteis, não as afastando como a um ser de outra espécie.

É. Mas não resolve não. É um dos sofrimentos humanos.

                 Jornal do Brasil, Sábado, 8 de Dezembro de 1973


domingo, 24 de março de 2019

Milton Nascimento no Altas Horas dá saudade da Música como protagonista na TV


 Foto: Marcos Rosa/TV Globo: no Gshow

Na TV do fim dos anos 60, começinho dos 70, a música (e os cantores) tinham o status de atores de novelas. Festivais, programas como Jovem Guarda, Fino da Bossa, Divino Maravilhoso. As novelas foram se consolidando e os cantores cada vez mais distantes do protagonismo na televisão. Nesses anos todos, houve na Globo exceções: Chico e Caetano, a série antológica Grande Nomes, entre eles. Vista com os olhos atuais, a  Globo dos anos 80 parece um outro mundo. E na Manchete, o Bar Academia foi outra tentativa de devolver à música o protagonismo na TV. E nem vou falar aqui da MTV.

Ao assistir ao Altas Horas em homenagem a Milton Nascimento me veio a saudade da música brasileira, nosso maior produto cultural de exportação, na telinha. Há quem me fale do Ding Dong, do Faustão. Tá, pode ser interessante para ver cantores distantes da mídia, mas é apenas um jogo, um quadro, um dos recheios do bolo, como parece ser o papel da música na TV atual. 

Sergio Groisman consegue algo raro (e não só na TV aberta) no Altas Horas, que é tratar a música com respeito e quase devoção. E sem distinção de gêneros. A música e os cantores são os protagonistas do programa. Sim, como o nome indica, não é horário nobre. E quando aparece um programa especial em homenagem a um gênio como Milton Nascimento essa profissão amor à música do Altas Horas explode. A repercussão nas redes - Altas Horas e Milton Nascimento foram os assuntos mais comentados do twitter por várias horas -, quase comoção, mostra que tem muita gente saudosa de ver a música brasileira tratada com respeito (e protagonismo) na televisão.


sexta-feira, 22 de março de 2019

Adriana Calcanhotto lá bem atrás e agora, sempre inquieta



A foto acima é print screen de Margem, vídeo da nova canção de Adriana Calcanhotto que acabei de assistir. E vieram lembranças. 

Minha primeira entrevista com Adriana Calcanhotto - e acho que a minha primeira entrevista - foi lá pela metade de 1986, tarde de inverno, na casa em que ela morava. Era pro jornal da faculdade, o Experiência da PUC de Porto Alegre. A matéria não era apenas com Adriana e juntava um bando de mulheres cantando que surgiam por lá. Abria com Adriana:

Jornal Experiência, PUC/RS, agosto 1986
"São dezesseis mulheres cantando, não há como negar que existe um movimento. Numa terra onde os machos tiveram a cultura sempre na mão é uma coisa que não dá pra camuflar, enfatiza a cantora e compositora Adriana Calcanhotto. Ela vem fazendo shows com Luciana Costa em bares onde iniciou sua carreira. Adriana diz que gosta de cantar nestes locais, mas observa que o público é difícil - "é preciso chamar a atenção, nem que seja no volume".

"A música do sul ganha espaço com novos talentos" era o título da tal "reportagem", em parceria com um colega - eu entrevistei quase todas as cantoras, aquelas coisas de faculdade. Por aqueles azares, só o nome dele apareceu no impresso, seguido de uma barra onde viria o meu, que deve ter caído na gráfica. Claro que fiquei maus, mas a vida segue e pode ter surpresas: poucos anos depois, já morando em São Paulo, a entrevistaria outras vezes e meu nome apareceria assinando as matérias.

Adriana é de uma turma de cantoras, que inclui Marisa Monte e Cássia Eller, que começaram no final dos anos 80, início dos 90. E desde o início me chamou a atenção a maneira como conduziu sua carreira, batendo o pé e gravando o que queria e isso quando ainda nem tinha cacife para tanto. E aproximando-se da literatura: em seus discos pode-se ouvir a voz da escritora americana Gertrude Stein, nome de livros de poesia inseridos em letras - A Cinza da Horas (Manuel Bandeira) e Dentro da Noite Veloz (Ferreira Gullar) em Vambora, por exemplo, e muitas outras audácias. Adriana Partimpim é outra audácia da pilombeta e toda vez que ouço a "versão para crianças" de Jorge da Capadócia fico tocado. Nesse "gravar o que quer", há um quê de Maria Bethânia, que sempre a elogiou e gravou várias de suas composições.

Bom, essas lembranças vieram pós o vídeo de Margem, onde ele aparece raspando o cabelo. A canção é ótima e Adriana Calcanhotto segue inquieta após esses anos todos. E isso não é para todos, só para os que se arriscam.

quinta-feira, 14 de março de 2019

O encontro de Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector



É um perfil de Clarice Lispector, em agosto de 1961, na revista Manchete, assinado por Paulo Mendes Campos, que era íntimo da escritora. Clarice lançava A Maça no Escuro e Paulo acaba a matéria de duas páginas assim, com um diálogo que ele deve ter presenciado.

"Mas termino este texto com um esplêndido diálogo de Clarice Lispector e Carolina Maria de Jesus. A autora de Quarto de Despejo autografou um livro seu para Clarice com a seguinte dedicatória:

"À ilustrada e culta escritora Clarice Lispector desejo felicidades na vida."

- Ah, muito obrigada. Gostei da dedicatória.

- Botei felicidades porque é isso que importa pra gente, não é?

Clarice é fã de Carolina. Tiraram juntas uma fotografia. Carolina:
- Tive olhando o seu livro: Como você escreve elegante!
- E como você escreve verdadeiro, Carolina!"



domingo, 10 de março de 2019

Luiz Gama, homenageado da Mangueira, por Luiz Gama



Dias depois do desfile da Mangueira fui atrás de Luiza Mahin, homenageada pela escola com seu filho Luiz Gama (post anterior) na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional. E na busca, me chamou a atenção a descrição de Luiz sobre a mãe em carta para o escritor Luis de Mendonça, onde contava sua vida. A carta foi escrita em 1880, dois anos da morte do poeta e abolicionista Luiz Gama e oito antes da abolição da escravatura.

Abaixo, a carta, uma aula sobre a história brasileira, aquela que nem sempre (ou raramente) se conta.

Nota: Breve Luiz Gama estará no cinemas: o diretor Jeferson De filma Prisioneiro da Liberdade, com a história dele.

                                 LUIZ GAMA POR LUIZ GAMA

                                    "São Paulo, 25 de Julho de 1880
                                           Meu caro Lucio

Recebi o teu cartão com a data de 28 do pretérito.Não me posso negar ao teu pedido, porque antes quero ser acoimado de ridículo, em razão de referir verdades pueris que me dizem respeito, do que vaidoso e fátuo, por as ocultar, de envergonhado: aí tens os apontamentos que me pedes e que sempre eu os trouxe de memória.

Nasci na cidade de São Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da rua do Bângala, formando ângulo interno, em a quebrada, lado direito de quem parte do adro da Palma, na Freguesia de Sant’Ana, a 21 de Junho de 1830, pelas 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.

Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina, (Nagô de Nação) de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.

Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa.
Dava-se ao comércio - era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.

Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube, por uns pretos minas que conheciam-na e que deram-me sinais certos, que ela, acompanhada com malungos desordeiros, em uma "casa de dar fortuna", em 1838, fora posta em prisão; e que tanto ela como os seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses "amotinados" fossem mandados pôr fora pelo governo, que, nesse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores.

Nada mais pude alcançar a respeito dela. Nesse ano, 1861, voltando a São Paulo, e estando em comissão do governo, na vila de Caçapava, dediquei-lhe os versos que com esta carta envio-te.

Meu pai, não ouso afirmar que fosse branco, porque tais afirmativas neste país, constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas: era fidalgo; e pertencia a uma das principais famílias da Bahia, de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.

Ele foi rico; e, nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837. Era apaixonado pela diversão da pesca e da caça; muito apreciador de bons cavalos; jogava bem as armas, e muito melhor de baralho, amava as súcias e os divertimentos: esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e, reduzido à pobreza extrema, a 10 de Novembro de 1840, em companhia de Luiz Candido Quintela, seu amigo inseparável e hospedeiro, que vivia dos proventos de uma casa de tavolagem na cidade da Bahia, estabelecido em um sobrado de quina, ao largo da praça, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho "Saraiva".

Remetido para o Rio de Janeiro, nesse mesmo navio, dias depois, que partiu carregado de escravos, fui, com muitos outros, para a casa de um cerieiro português, de nome Vieira, dono de uma loja de velas, à rua da Candelária, canto da do Sabão. Era um negociante de estatura baixa, circunspecto e enérgico, que recebia escravos da Bahia, à comissão. Tinha um filho aperaltado, que estudava em colégio; e creio que três filhas já crescidas, muito bondosas, muito meigas e muito compassivas, principalmente a mais velha. A senhora Vieira era uma perfeita matrona: exemplo de candura e piedade. Tinha eu 10 anos. Ela e as filhas afeiçoaram-se de mim imediatamente. Eram cinco horas da tarde quando entrei em sua casa. Mandaram lavar-me; vestiram-me uma camisa e uma saia da filha mais nova, deram-me de ceiar e mandaram-me dormir com uma mulata de nome Felícia, que era mucama da casa.

Sempre que me lembro desta boa senhora e de suas filhas, vêm-me as lágrimas aos olhos, porque tenho saudades do amor e dos cuidados com que me afagaram por alguns dias.
Dali saí derramando copioso pranto, e também todas elas, sentidas de me verem partir.
Oh! eu tenho lances doridos em minha vida, que valem mais do que as lendas sentidas da vida amargurada dos mártires.

Nesta casa, em Dezembro de 1840, fui vendido ao negociante e contrabandista alferes Antonio Pereira Cardoso, o mesmo que, há 8 ou 10 anos, sendo fazendeiro no município de Lorena, nesta Província, no ato de o prenderem por ter morto alguns escravos a fome, em cárcere privado, e já com idade maior de 60 a 70 anos, suicidou-se com um tiro de pistola, cuja bala atravessou-lhe o crânio.

Este alferes Antonio Pereira Cardoso comprou-me em um lote de cento e tantos escravos; e trouxe-nos a todos, pois era este o seu negócio, para vender nesta Província.

Como já disse, tinha eu apenas 10 anos; e, a pé, fiz toda viagem de Santos até Campinas. Fui escolhido por muitos compradores, nesta cidade, em Jundiaí e Campinas; e, por todos repelido, como se repelem cousas ruins, pelo simples fato de ser eu "baiano".
Valeu-me a pecha!

O último recusante foi o venerando e simpático ancião Francisco Egidio de Souza Aranha, pai do excelentíssimo Conde de Três Rios, meu respeitável amigo.
Este, depois de haver-me escolhido, afagando-me disse:
- Hás de ser um bom pagem para os meus meninos; dize-me: onde nasceste?
- Na Bahia, respondi eu.
- Baiano? - exclamou admirado o excelente velho. - Nem de graça o quero. Já não foi por bom que o venderam tão pequeno.

Repelido como "refugo", com outro escravo da Bahia, de nome José, sapateiro, voltei para a casa do senhor Cardoso, nesta cidade, à rua do Comércio número 2, sobrado, perto da igreja da Misericórdia.

Aí aprendi a copeiro, a sapateiro, a lavar e a engomar roupa e a costurar.

Em 1847, contava eu 17 anos, quando para a casa do senhor Cardoso veio morar, como hóspede, para estudar humanidades, tendo deixado a cidade de Campinas, onde morava, o menino Antonio Rodrigues do Prado Junior, hoje doutor em direito, ex-magistrado de elevados méritos, e residente em Mogi Guaçú, onde hoje é fazendeiro.

Fizemos amizade íntima, de irmãos diletos, e ele começou a ensinar-me as primeiras letras. Em 1848, sabendo eu ler e contar alguma cousa, e tendo obtido ardilosa e secretamente provas inconcussas de minha liberdade, retirei-me, fugindo, da casa do alferes Antonio Pereira Cardoso, que aliás votava-me a maior estima, e fui assentar praça. Servi até 1854, seis anos; cheguei a cabo de esquadra graduado, e tive baixa de serviço, depois de responder a conselho, por ato de suposta insubordinação, quando tinha-me limitado a ameaçar um oficial insolente, que me havia insultado e que soube conter-se.

Estive, então, preso 39 dias, de 1 de julho a 9 de agosto. Passava os dias lendo e às noites, sofria de insônias; e, de contínuo, tinha diante dos olhos a imagem de minha querida mãe. Uma noite, eram mais de duas horas, eu dormitava; e, em sonho vi que a levavam presa. Pareceu-me ouvi-la distintamente que chamava por mim.

Dei um grito, espavorido saltei da tarimba; os companheiros alvorotaram-se; corri à grade, enfiei a cabeça pelo xadrez.

Era solitário e silencioso e longo e lôbrego o corredor da prisão, mal alumiado pela luz amarelenta de enfumarada lanterna.

Voltei para a minha tarimba, narrei a ocorrência aos curiosos colegas; eles narraram-me também fatos semelhantes; eu caí em nostalgia, chorei e dormi.

Durante o meu tempo de praça, nas horas vagas, fiz-me copista; escrevia para o escritório do escrivão major Benedito Antonio Coelho Neto, que tornou-se meu amigo; e que hoje, pelo seu merecimento, desempenha o cargo de oficial-maior da Secretaria do Governo; e, como amanuense, no gabinete do excelentíssimo Sr. Conselheiro Francisco Maria de Souza Furtado de Mendonça, que aqui exerceu, por muitos anos, com aplausos e admiração do público em geral, altos cargos na administração, polícia e judicatura, e que é catedrático da Faculdade de Direito, fui eu seu ordenança; por meu caráter, por minha atividade e por meu comportamento, conquistei a sua estima e a sua proteção; e as boas lições de letras e de civismo, que conservo com orgulho.

Em 1856, depois de haver servido como escrivão perante diversas autoridades policiais, fui nomeado amanuense da Secretaria de Polícia, onde servi até 1868, época em que "por turbulento e sedicioso" fui demitido a "bem do serviço público", pelos conservadores, que então haviam subido ao poder. A portaria de demissão foi lavrada pelo dr. Antonio Manuel dos Reis, meu particular amigo, então secretário da polícia, e assinada pelo exmo. dr. Vicente Ferreira da Silva Bueno, que, por este e outros atos semelhantes, foi nomeado desembargador da relação da Corte.

A turbulência consistia em fazer eu parte do Partido Liberal; e, pela imprensa e pelas urnas, pugnar pela vitória de minhas e suas ideias; e promover processos em favor de pessoas livres criminosamente escravizadas; e auxiliar licitamente, na medida de meus esforços, alforrias de escravos, porque detesto o cativeiro e todos os senhores, principalmente os Reis. Desde que fiz-me soldado, comecei a ser homem; porque até os 10 anos fui criança; dos 10 aos 18, fui soldado.

Fiz versos; escrevi para muitos jornais; colaborei em outros literários e políticos, e redigi alguns.

Agora chego ao período em que, meu caro Lucio, nos encontramos no "Ipiranga", à rua do Carmo, tu, como tipógrafo, poeta, tradutor e folhetinista principiante; eu, como simples aprendiz-compositor, de onde saí para o foro e para a tribuna, onde ganho o pão para mim e para os meus, que são todos os pobres, todos os infelizes; e para os míseros escravos, que, em número superior a 500, tenho arrancado às garras do crime.

Eis o que te posso dizer, às pressas, sem importância e sem valor; menos para ti, que me estimas deveras.
Teu Luiz".

Encontrei a carta nessa matéria do jornal Hora do Povo




sexta-feira, 8 de março de 2019

Luiza Mahin na hemeroteca da Biblioteca Nacional



Representada por Leci Brandão, Luiza Mahin brilhou no desfile campeão da Mangueira. E seu nome está no samba enredo, ao lado de Marias, Marielle. Quem foi essa negra poderosa? Em uma pesquisa rápida no arquivo digital da Biblioteca Nacional, achei raras referências ao nome de Luiza Mahin nas últimas seis décadas do século passado e praticamente todas em matérias sobre seu filho Luis Gama, poeta e abolicionista, que também foi escravo.

Sim, na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional não estão todas as publicações impressas do Brasil, mas algumas delas e bem representativas. Nada de O Globo, Folha e Estadão (só o Suplemento Literário), mas tem Jornal do Brasil, Correio da Manhã, A Noite, Ultima Hora e duas das principais revistas brasileiras: O Cruzeiro e Manchete. 

A seguir as citações e, depois, um perfil de Luiza Mahin e poema e descrições dela pelo filho Luiz Gama.

Luiza Mahin na Hemeroteca da Biblioteca Nacional

Anos 40: Uma referência em três publicações: O Malho, O Tico_Tico e Vamos Lêr.

Anos 50: Quatro citações. Uma no Jornal do Brasil, outra em Vida Carioca e mais outras nos suplementos literários de O Estado de S. Paulo e do Correio Paulistano.

Anos 60: três citações e todas no Correio da Manhã. Na coluna de José Condé, trechos de um poema de Luiz Gama para a mãe e as descrições que ele fez dela.

Anos 70: Duas no suplemento literário do estadão e uma no Diário de Pernambuco.

Anos 80: Duas no Jornal do BRasil e o mesmo número na revista alternativa Mulherio (SP), que circulou entre 1981 e 1988. O nome Luiza Mahin aparece citado uma vez em Correio de Notícias (PR), Diario de Pernambuco e Jornal do Commercio (RJ).

Anos 90: Duas em O Pioneiro (RS), uma no Jornal do Brasil, Jornal do Commercio (AM) e Jornal do Commercio (RJ).

Correio da Manhã
A coluna "Livros", de José Condé, em 1969, fala sobre Luiz Gama e a mãe, inclusive com trechos de um poema dele, Minha Mãe, que começa dizendo:

"Era mui bela e formosa
Era a mais pretinha,
da adusta Líbia rainha,
e no Brasil pobre escrava!"

E cita trecho de uma carta que Luiz Gama escreveu em 1880 para o escritor Lucio de Mendonça, relatando toda a sua vida.

Aqui o link com essa carta: http://www.horadopovo.com.br/2012/01Jan/3022-11-01-2012/P8/pag8a.htm )

"Sou filho natural de u'a negra. Africana-livre da Costa da Mina (Nagô de Nação), de nome Luiza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo, e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa."

Luiz Gama informa um pouco mais adiante que "ela (fora) apanhada, com malungos desordeiros, em u'a casa de dar fortuna, tendo sido posta em prisão. O filho nunca mais a encontraria, apesar de todos os esforços.

Diário de Pernambuco
Em 1975, foi publicado este perfil de Luiza Mahin, o único dedicado apenas a ela e não ao filho Luiz Gama. É o "destaque feminino", em página assinada por Zenaide Barbosa.
"Descendente da raça negra Malês, Luiza Mahin, princesa na África, veio para a Bahia capturada na sua terra natal e vendida como escrava.
Foi libertada por um português tido como nobre, mas que, na realidade, era alcoólatra, jogador e devasso.
Graças a seus dotes pessoais de inteligência, bravura e amor à liberdade. Luiza Mahin tornou-se a figura feminina de maior saliência nas conjurações e revoltas de escravos que aspiravam à liberdade.
Perfil (sem ilustação) do Diario de Pernambuco, 1975
Os escravos da Bahia respeitavam-na e amavam-na e ela exercia indiscutível liderança sobre eles. Acoitava os fugitivos, protegia-os, alforriava-os.
Ignora-se o que aconteceu a Luiza Mahin após a revolta dos escravos da raça malês, em 1835, mas o certo é que essa negra alforriada sempre lutou pela causa da libertação dos escravos da Bahia, dando tudo em prol da redenção da sua raça, aviltada por séculos de cativeiro.

Ela simboliza a obstinação e a coragem da mulher negra. O Célebre abolicionista negro Luiz da Gama era filho de Luiza Mahin. Na Bahia, tem sido objeto de muitas pesquisas de historiógrafos e sociólogos a personalidade curiosíssima dessa filha de reis africanos, provavelmente do Sudão, a área dos melhores estoques antropológicos trazidos como escravos para o Brasil.

Segundo o professor Orlando Parahym, que nos fornece essas informações, os negros da raça malês - a que pertence Luiza Nahim - representavam o grupo de escravos mais inteligentes da Bahia e promoveram muitas conspirações e movimentos para a libertação."


Jorge Fernando: Eu sou o show

Releio a entrevista que fiz e da qual guardo ótimas lembranças, na primavera de 1994, com Jorge Fernando. Foi na revista Video News), ...