quinta-feira, 19 de março de 2009

Tim Maia e eu, eu e Tim Maia

Aquele vozeirão, melancolia e alegria misturando-se nas canções não sei se nas doses exatas, mas com precisão quase sempre. Tim Maia era o cara. E tive a honra de estar com ele, uma única vez pra nunca esquecer. Foi em abril de 1995, três anos antes de sua morte. Trabalhava numa revista e a gravadora ofereceu uma entrevista. Ele lançava disco novo, aquele do esfriamento global, e vinha a São Paulo. “Oba, entrevista com Tim. Quando?”. Quase caí pra trás quando me disseram que seria às 8:30 da manhã. Não, ela não estava brincando era mesmo nesse horário. Bom, ironia das ironias, eu teria de madrugar para entrevistar o homem.

Cheguei em cima da hora ao apart hotel onde ele estava hospedado, certo de que tomaria um chá de sofá ou que tudo não teria passado de brincadeira. Que nada, ele já me esperava e em minutos estava em seu apartamento – a mulher dele e a assessora da gravadora nos acompanhavam. Uma simpatia Tim Maia e a entrevista corria deliciosa. De repente, ele interrompeu pra comentar sobre um cachorro confinado numa varanda do prédio em frente, prisioneiro naquela miséria de metros quadrados. Falamos disso alguns minutos. E quando a entrevista acabou, veio a assessora: “mas onde estava aquele cachorro que vocês tanto falavam?”. Tive que dizer pra ela que não havia cachorro nenhum, mas se Tim Maia queria vê-lo quem seria eu pra questionar.

Foi um papo delicioso e ao final ele desceu pra ser fotografado no jardim. Já era perto do meio-dia. O homem alegre, cheio de histórias, que parecia se divertir com suas tiradas e sempre atento ao que lhe falava não estava mais ali. Tim continuava amável, mas uma certa melancolia parecia tomar conta. Foi aí que entendi porque a entrevista tão cedo: à medida que a tarde avançava vinha um certo desconforto. Desse encontro, guardo um autógrafo na capa do CD – com uma letra enorme como o próprio Tim Maia. Tenho o maior orgulho desse dia.

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