quinta-feira, 17 de julho de 2014

No Brasil tudo está bem se um sujeito é simpático

Implico com simpatia, com a obrigação de tem de ser. E nem vou citar exemplos, mas canso de ouvir “Ah, fulano não é simpático, sicrana é uma simpatia” e simplesmente esquecem de algo que se chama falsa simpatia ou simpatia profissional. Bom, isso pra falar de um texto que encontrei mexendo em livros. Tenho a mania de anotar a lápis na última página sobre certos assuntos que me chamam atenção. Em O Senhor Embaixador, de Erico Verissimo, estava escroto: “386 – Brasil”. Havia lido esse livro em julho de 1993 (tá anotado lá também) e claro que não lembro da história e, muito menos, do que significaria a anotação “Brasil”. Fui à página marcada e me deparei com uma visão sobre o país e os brasileiros. É bom lembrar que O Senhor Embaixador saiu em 1965, muita água rolou desde então, mas o poder de fogo do texto do Erico Verissimo continua. Tem muito do que penso sobre simpatia e vou copiar aqui esse trecho. É uma fala do personagem Gonzaga com Clare, logo após um escândalo sobre uma grande compra de feijão podre. Em dia de “humor negro” e já meio “alto”, Gonzaga é implacável:


- Feijão podre! Um símbolo de nosso regime, da podridão de nossos governantes e políticos. O Brasil, Clare, é um país saqueado. De fora para dentro. De dentro para fora. De cima para baixo... Ninguém nunca é responsabilizado por coisa alguma. Ninguém vai para a cadeia. Ó não! Somos encantadores, temos corações de ouro maciço! Inventamos as anedotas mais engraçadas do mundo. Achamos que todos devem nos adorar, pois não somos hospitaleiros e bons causeurs? Fazemos troça de todos, inclusive de nós mesmos. Temos remédios infalíveis para os males de todos os países, menos para os do nosso. A simpatia no Brasil é a grande panaceia. E é nessa simpatia, Clare, nesse bom-mocismo (que torna o convívio com o brasileiro individualmente tão agradável), que reside nossa desgraça como nação! No Brasil tudo está bem se um sujeito é simpático. Por simpáticos (e também irresponsáveis e levianos) esperamos que as coisas nos caiam do céu, Por simpatia votamos em homens incompetentes e ou desonestos para os cargos públicos. Se somos governantes ou políticos, por simpatia dizemos sim a tudo o que nos pedem, emborar depois não cumpramos o prometido. Por simpáticos damos empregos ou concessões rendosas (nem sempre lícitas) a parentes, amigos, compadres, afilhados, protegidos... e, que diabo!, por simpáticos fazemos as maiores concessões a nós mesmos, e satisfazemos a todos os nossos apetites. E essa nossa simpatia, sinal, repito, dum coração de açúcar, nos impede de fazer cumprir a lei, de sorte que bandidos e ladrões andam às soltas e podem ser senadores, deputados, governadores e até Presidentes da República. Por simpáticos achamos que todos devem ajudar sem nunca nos pedir contas de nada. Por simpáticos (ah! E por inteligentes, espertos e mestres na arte da improvisação) não planejamos nada, produzimos pouco, gastamos o que não podemos, e confiamos sempre nas soluções mágicas. Porque no Brasil se acredita que até o deus ex machina é brasileiro. Ah, Clare! Como somos simpáticos! Você já tinha notado isso, não? Pois é. Somos tão simpáticos que nos acostumamos à miséria em que vivem mais de dois terços da população total do país... uma miséria abjeta que, no nosso Nordeste, é igual ou pior que a asiática... E como somos simpáticos e caridosos e, às vezes, vamos aos domingos à missa, durante a qual sorrimos e acenamos de longe para Deus (que deve ser um sujeito simpático) de vez em quando damos esmolas aos mendigos, vagamente convencidos de que assim estamos contribuindo para resolver o problema social...

segunda-feira, 7 de julho de 2014

García Marquez, Hélio Pellegrino e o cocô

Os livros na estante, mexer neles, pegá-los ao acaso, folheá-los: Eis algo que me traz muito prazer e “redescobertas”. Abaixo uma delas, um trecho da bio de Hélio Pelegrino na série Perfis do Rio, escrita por Paulo Roberto Pires.

“Menos emocionado e infinitamente mais inusitado foi o encontro entre Hélio e Gabriel García Marquez, que então dava os últimos retoques em O amor nos tempos do cólera e também fora a Cuba para uma reunião de intelectuais com o líder cubano. Durante horas, ambos travam um diálogo inacreditável, transcrito por frei Betto em O paraíso perdido:

- Os homens se dividem entre os que cagam bem e os que cagam mal – disse Gabo, confessando-se estar incluído entre os segundos e ter inveja dos primeiros.

- É isso mesmo – animou-se Hélio, que não iria perder a chance de criar uma tese. – O sujeito, ao sentar na privada, entra em contato com aquilo que é mais abjeto em sua intimidade, a excrescência repelida pelo organismo e seu odor fétido. Há quem retenha as fezes como se temesse perder parte de si mesmo. Neste caso, o sujeito caga como quem sofre uma cirurgia, sofrendo que as vísceras lhe escapem por baixo.

- Eu gostaria de cagar na hora certa, como os europeus que se levantam da mesa do café e se dirigem à privada – diz o escritor.

- Alguém deveria fazer um estudo comparativo sobre a consistência do cocô. Há bostas piramidais, bostas compridas como a dos cães, bostas aguadas e disformes, como quem está sempre de caganeira – prossegue Hélio numa conversa infindável”.



Quer seguir no assunto? No link abaixo, a classificação do cocô segundo Vinicius de Moraes e Ronaldo Bôscoli

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O Mundo Caras

É uma maravilha o mundo Caras. Esse mundão anda tão violento e desigual? Não nas páginas da revista que persegue desesperadamente o glamour. As celebridades (e outras nem tanto) sempre estão muito do bem na fita, felizes, sem problemas. Às vezes bate a impressão que certas atrizes têm filho só pra aparecer na Caras (pode dar capa). Mas o que mais me atrai é a linguagem usada para descrever esse mundo tão especial, um português muito do bem pensado, digno dos tempos da corte. No mundo todo mundo Caras, as estrelas não têm filhos, elas têm herdeiros. Casamento é Boda, Prêmio é Láurea. Elas não só viajam - vão refazer sua vida, “no auge da carreira” “em meio à poderosa paisagem”. Na capa paisagem internacional dessa semana, “Estrela se encanta com deserto de Dubai, em sua primeira viagem após o fim da união com João Marcello, pai de seu único filho, Arthur”. Quem é? “Eliana, após separação: Ainda creio no amor”.

Tem mais andanças pelo mundo na edição: “Uma viagem radical de Suzana Pires”. Essa até vale ler as primorosas primeiras linhas: “A vida de Suzana Pires (37) passou por uma verdadeira transformação nos últimos meses. A ansiedade pessoal e profissional deu lugar ao equilíbrio e sabedoria para enfrentar suas questões mais íntimas, como o fim do namoro de quase dois anos com o empresário Diogo Sacco (32) e a dificuldade inicial para conciliar seus trabalhos como atriz e cantora.” Bom, a sofrida personagem cortou o cabelo e de visual novo foi para a França, “uma viagem radical”.

As celebridade até mostram as casas, (o ponto alto, dizem, é quando os casais são fotografados na cama), mas é mais comum serem capturadas em “mostra de décor”. Sabrina Sato foi clicada num espaço chamado “Beyond Chic” que o arquiteto criou para homenageá-la. Abaixo, algumas palavras que o mundo caras ama, com exemplos da edição dessa semana (Eliana em Dubai):

Amado/a – esposa, noiva, namorada, amante. “Com a amada, a jornalista Malu Verçosa, Dani era só sorrisos em Mônaco, onde posou com lúdicas esculturas, e Nice, onde presenteou a eleita”. Mais: “Lateral apoia a amada fashion” (Daniel Alves com Thaíssa)

Boda – Casamento.

Eleito/a - esposa, noiva, namorada, amante, amada. “A duquesa de Cambridge, que estava com o eleito, o príncipe William”

Gala – festa, mas cheia de “estrelas”, frequentada por “mulheres poderosas em looks deslumbrantes”. É muito usado “gala beneficiente”

Herdeiros: filhos, mas de um modo pra nunca esquecer que existe a herança. Ex: “Eduardo Suplicy aplaude show dos herdeiros”.

Láurea – prêmio, premiação. “unida, a família Civita aprendeu a láurea e não escondeu a emoção”

Pontuar – Marcar presença. “pontuaram a elegante e solidária noite”

Sua - esposa, noiva, namorada, amante, eleita. “Guy Ritchie e sua Jacqui”


União – Casamento. ‘Todos da união de Eduardo com a ex, a ministra da cultura Marta Suplicy”

sábado, 5 de abril de 2014

"O meu cão é o meu país": José Wilker na Playboy, em 1985


Li quando saiu e nunca esqueci a entrevista que José Wilker, morto hoje, deu para a Playboy, em outubro de 1985. Era o auge da novela Roque Santeiro, ele acabara de filmar O Homem da Capa Preta e fazia a peça Assim é se lhe Parece, com Ary Fontoura, Nathalia Thimberg e Henriqueta Brieba. Quem o entrevistou foi Nirlando Beirão e começava assim: “O pessoal da televisão diz que você é meio louco. Você é louco?”. Resposta dele: “Não sou, não”.  Joguei a revista fora, mas as 12 páginas da entrevista seguem comigo e já reli muitas vezes. Abaixo, vou copiar alguns trechos sobre loucura, política (o militante do Partidão quando garoto no Recife), os anos 70, drogas... 

O Pessoal da televisão diz que você é louco?
Não sou, não.


Então, já foi.
Nem fui. Eu nunca joguei dinheiro fora, nunca falei sozinho, nunca andei nu na rua. Sabe o que é? Há dois padrões que valem há mil anos. Primeiro, artista tem que ser estranho, é uma pessoa que não tem uma vida normal. O outro é o que determina que a pessoa que não se comporta segundo esses padrões só pode ser louca. Um ator não precisa necessariamente ser desvairado. Só que, pelo tipo de seu trabalho – é uma pessoa que se divide em duas -, ele nunca vai se comportar exatamente como um secretário ou um médico homeopata. Por isso é que, às vezes, um artista se dá ao luxo de tomar uma atitude mais extravagante, porque sabe que vão justificar, “deixa, é um artista”. Mas isso é mais malandragem que convicção.


Louco por convicção, como é?
As pessoas que não se comportam segundo os padrões não precisam, não merecem e não devem ser classificadas da forma como a gente as classifica. Eu tenho convicções rigorosamente diversas das convicções padrões. Eu não acredito que possa ter qualquer vislumbre de salvação me comportando como a maioria da classe média. As convicções dessa classe média me parecem deletérias. Não gosto, acho chato, entediante. É convicção de classe média que o casamento é um vínculo absoluto que se deve respeitar? Eu caso, e desrespeito. Para que fique bem claro que meu casamento é uma paixão, e não um contrato social. Está estabelecido que é responsabilidade do cidadão defender a pátria? Então, eu sou insubmisso. Não tenho que defender porra nenhuma de pátria, se ela não é exatamente a minha pátria. E esse lugar aqui, durante muito tempo, não foi a minha pátria, foi apenas o quintal de três ou quatro babacas. Eu desrespeito rigorosamente, e pago a pena de desrespeitar.

Você está dizendo que não serviu o Exército?
Eu não podia servir à pátria dirigida por esses generais que a governaram por um tempão. Imagine se eu tivesse ido, no momento em que invadiram a Nicarágua... Nicarágua não, a República Dominicana, defendendo os interesses dos Estados Unidos, servindo à minha pátria. Agora, sou capaz de me comover com o desfile de Sete de Setembro. Acho bonito aquele monte de caras marchando. Também acho muito babaca aquele monte de caras marchando. Mas acho bonito também.
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Tem gente que acha que você está imitando o Jack Nicholson, no Roque. Pode ser?
Sou mais o Marlon Brando.
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Você não estava na linha de frente das diretas. O que houve: você tem um certo recatamento na política?
Eu fui a alguns comícios e me comovi enormemente no comício da Candelária. Eu pude atravessar todo o comício, da Central até a Candelária, sem dar um autógrafo. A multidão estava ali para um ato político.

Você falou?
Fui ao palanque, ia falar, a Christiane (Torloni) disse que a relação dos artistas estava muito grande, que eu fosse breve. Eu pensei: “Ótimo, não preciso falar”. E desci lá para baixo. Mas me comoveu também, encontrar o Arraes (Miguel), encontrar o Prestes (Luís Carlos).

Você fez campanha para o Arraes, quando garoto, não fez?
Com 13, 14 anos, no Recife, fiz campanha do Arraes para prefeito, para governador, fiz campanha para o marechal Lott.

Você, garoto, tinha que posição política?
Eu era do Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, que até 64 era a coisa mais revolucionária que o país tinha. Em segundo lugar, vinha a UDN...

Não é à toa que a esquerda perdeu em 64.
Não deu certo no Brasil, mas, no Recife, deu sim. A gente fez um trabalho, no Movimento de Cultura Popular, do Arraes, que se tivesse continuado, com a devida seriedade e o devido senso de humor, seria fantástico. Acredito que o que faltou ao Partido e à esquerda brasileira foi, primeiro, seriedade, segundo, senso de humor. Você não é sério se não tem senso de humor.
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No Recife, como foi a vida de militante?
Morávamos uns três ou quatro garotos num chatô, como se chama lá, uma espécie de casinha de madeira em cima do último andar de um puteiro qualquer da zona. A gente tinha uns dois ou três livros, uns dois ou três discos, inclusive um que as putas adoravam, o Rodolfo Mayer dizendo As Mãos de Eurídice, e umas cento e tantas garrafas de cachaça, além de quilos e quilos de pão, e o tempo todo para falar besteira, sacanagem. As putas ficaram amigas e, de vez em quando, preocupadas com o estado de prostração causado pelos porres, nos davam gemadas e diziam: “Fora, o pessoal está esperando para o comício”.

Do Partidão.
É. Eu era membro do Comitê Estadual do Partido Comunista, secção de Pernambuco, junto com o Gregório Bezerra, o David Capistrano, o Hiram Pereira, todos esses ilustres mortos, o Paulo Cavalcanti, etc.

Você convivia com eles?
Convivia. Nos comícios, o Gregório me anunciava assim: “E, agora senhoras e senhores, vai falar um garoto”. Eu ficava puto. Eu dizia para ele: “Pô, não me chama de garoto, eu sou homem”. Ele: “Não, você é garoto sim”. Aí, um dia, eu comecei um comício em Casa Amarela mais ou menos assim: “Camaradas, aqui, nesta praça, onde futuramente tremulará a bandeira vermelha da foice e do martelo, redentora da classe operária...” Acabei com o comício, bicho. Não deixavam mais eu falar.
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Você é da geração de 68, da geração da Revolução. Desistiu?
Hoje, a revolução para mim, é uma coisa muito objetiva. Ela começa na minha casa, no meu dia-a-dia. Não faz sentido, para mim, que uma pessoa tenha um discurso público libertário e seja um repressor com a mulher e os filhos. Minha revolução começa na forma como eu me relaciono com o meu cão, passando pela relação com minha mulher, com minha família, com os meus amigos e, finalmente, com o meu país. O meu cão é o meu país.

Você sempre foi assim?
Olha, por mais que eu seja um cara de cabeça aberta, eu já me vi, de repente, fazendo parte dessa confraria franciscana. Não quero que suma da minha memória, por exemplo, o fato de que, na minha origem, como membro do Partido Comunista, no Recife, eu votei a favor de que se expulsasse do partido um homossexual, e disso nunca vou me perdoar.
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É verdade que você foi a uma reunião seríssima, da Globo, usando batom?

Eu fazia uma peça chamada A China é Azul, né? Aí, um dia antes da estreia, o Rubens (Correia), que dirigia a peça e também era ator, falou: “Pô, ficava bonito se a gente pudesse usar, todos nós, batom”. Era um espetáculo cubista, com as figuras multifacetadas, aí ficava legal haver alguma coisa que fosse usada pela Tetê Medina, pelo Rubens, por mim, pelo resto do elenco. Então, a gente pintou a boca, só que pintou com batom encontrado na esquina, um batom que não saía. Aí, eu tinha duas saídas: ou limpava com palha de aço a minha boca, toda noite, ou assumia aquilo pela temporada da peça.
Aí você ficou de batom alguns meses?
... e fui trabalhar normalmente, na Globo, de batom, e você não vai acreditar, bicho, mas ninguém reparou que eu estava de batom. Ninguém. Todo mundo fingia que não via. Até que o Daniel (Filho, então diretor de novelas) me puxou pelo braço e sussurou no meu ouvido: “Se manca, bicho, você está de batom”. Foi um alívio para mim.
...
Tem uma história que você ficou nu numa festa. É verdade?
É, eu estava a fim de uma moça que estava casada com outra e eu fiquei sentado no quarto dela, na cama das duas, dizendo que ela tinha que casar com um homem, e não só argumentei como tirei a minha roupa e, de repente, estava sentado ali na cama, dizendo que aquilo não podia, que era um absurdo.

Quando a dona da casa entrou...
Com o Fauzi (Arap, diretor de teatro), que foi o que me salvou. A moça ia me comer de porrada, mas aí o Fauzi me levou e ficou conversando comigo umas cinco horas, dizendo que eu tinha de parar com aquilo, e ele tinha razão, não é? Eu tomava um ácido por dia, e aí passava na frente do botequim e via aquele monte de pernil, aquele monte de carne, aí eu parava e queria convencer o dono do botequim a tirar aquilo dali: “São cadáveres que o sr. está expondo aí, o Sr. tem de tirar isso daí”. Então, tinha muito folclore a meu respeito...

Folclore?
Eu vivi tudo isso, mas o suco que ficou, pra mim, de tudo isso, é outro. Porque, você vê, nesse tempo eu fazia as loucuras, tudo bem, mas eu escrevi A China é Azul, eu fazia O Arquiteto (O Arquiteto e o Imperador da Assíria, peça de Arrabal), eu fazia Dona Flor, no cinema, eu fazia Xica da Silva, eu produzia o Rock (Hoje é Dia de Rock, de José Vicente), eu fazia o Ensaio Selvagem, eu fazia Bandeira Dois, na televisão, eu fazia O Tartufo, eu fazia O Dibuk, O Casal, eu fazia O Rei da Vela, tinha toda uma produção. Para mim, eu era isso que eu fazia: tudo.
...
Eu não estive de cara limpa seguramente por uns quatro anos. Por quatro anos, no mínimo, eu tinha colado um sonrisal na testa e corrido 100 metros. Nesse tempo...

Quando?
De 70 a 74, por aí.

Quer dizer que você cheirou cocaína, tomou ácido, fumou maconha?
Tudo.


Ao mesmo tempo?
Às vezes, ao mesmo tempo.
...
A droga te fez bem ou te fez mal?
De certa maneira, me fez bem. Mas me fez bem porque eu pude parar. Me fez bem porque eu sabia, o tempo todo... Bem, nessa época eu fazia análise também. Muitas vezes eu tomei ácido com um cara do lado.

Um analista?
É, eu estava querendo saber até onde eu podia ir com minha loucura. Isso corresponde a um momento meu. Em 67, 68, eu fui estudar Sociologia na PUC, não queria mais ser ator. Aí, eu fui convidado para fazer O Arquiteto e o Imperador da Assíria, com o Rubens Correia, que destampou a minha cabeça. Foi uma descoberta, um negócio que me revolucionou. Até então, eu tinha feito teatro porque era uma atividade político-partidária, depois eu fiz teatro porque precisava sobreviver no Rio, e eu só sabia ser ator. De repente, eu comecei, com O Arquiteto..., a fazer teatro porque gostava, porque era vital para mim, porque não podia mais viver sem teatro. No fim da peça, tem aquele cara que puxa o cérebro do outro, para saber como o outro é – a transgressão total, absoluta. Diante disso, o resto são acidentes, é crônica policial, a porra-louquice não quer dizer nada. O que ficou, para o resto da vida, foi o que a gente produziu nesse período, eu, o Fauzi, o Rubens Correia, o Ivan de Albuquerque, um pouco o Vianinha (Oduvaldo Viana Filho) – o Vianinha nem tanto, ele nunca pirou assim. Acho que minhas relações com as pessoas, desde então, são muito mais fundas, são muito mais definitivas do que tinham sido até então. Eu, até aquele momento da minha vida, não tinha tido um amigo ou uma amiga.




terça-feira, 1 de abril de 2014

Jornais americanos: militares do Brasil são mesmos de 1889



A notícia está no meio da página 4 do Diário Carioca, de 3 de abril de 1964. A leitura é rápida e esclarecedora. Na mesma página, outra que vale a pena ler: Mourão: golpe estava montado e prisão de líderes ajudou muito (no final, a reprodução). Abaixo, a matéria do Diário Carioca sobre a imprensa americana e o golpe.

 Jornais americanos: militares do Brasil são mesmos de 1889

NOVA IORQUE – O “The New York Times” diz, em sua edição de ontem, não ser certo que o presidente João Goulart estava levando o país para o comunismo, acentuando que as Forças Armadas adotaram a mesma posição de 1889, quando da proclamação da República.
Ressalta o telegrama da agência norte-americana UPI que o Sr. João Goulart não pôde modificar a estrutura do exército, “integrada por elementos da classe média, conservadora”. Adverte o órgão americano: “Seja quem fôr o vencedor, terá que se produzir, agora, um longo período de convalescença política e econômica”.

EQUILÍBRIO
O exército, segundo o “New York Times”, é constituído de “elementos da classe média conservadora”. Aponta o órgão a existência de “desequilíbrio entre as famílias que muito têm e os que nada têm, o que é agravado pela inflação”.
“Washington Post” diz que a luta no Brasil “é algo mais que uma disputa entre maus e bons”. Após colocar a posição do sr. João Goulart como “inclinado para a esquerda diz o “Washington Post”: “Mas também é certo que o sr. João Goulart apoiava a realização das reformas de base e que a oposição ao seu regime, por parte dos ricos e poderosos, não se baseava inteiramente no conluio do presidente com os comunistas”.

IMPARCIAL

O governo norte-americano se declarou “imparcial” na crise. Funcionário do Departamento de Estado disseram que o presidente Lyndon Johnson se manteve “informado” sobre a crise. Asseguram que “se o presidente Goulart apresentasse renúncia em favor do deputado Raineri Mazzilli “não haveria rompimento de relações”. 


sábado, 15 de março de 2014

A novela retroflix e a música da Carly Simon


Brinco com o povo Netflix que sou mais Retroflix. Como a oferta de canais é imensa, não aderi ao netflix e nem pretendo - tá, é baratinho, mas cadê  tempo pra tanta coisa? Fico com o Retroflix, que é como batizei as reprises do Canal Viva. Não perco um capítulo de Água Viva que, olha só, nem estava entre as principais do Gilberto Braga e é muito da boa. E a novela de 1980 tem me levado à músicas (e não só músicas)  que andavam lá recolhidas em algum recanto discreto da memória. Houve Cruisin', beleza de uma maravilha que é Smokey Robinson e Just Like You Do, da Carly Simon, o motivo dessas linhas.

Daquelas doloridas de amor, começa mais ou menos assim: "se você está se sentindo sozinho, e acha que é o único assim, deixa que eu diga, eu me sinto como você".  Sim, tem novidade nenhuma aí e dezenas de canções seguem essa pegada Everybody Hurts.

Na tarde de sábado, Just Like You Do me veio insistente e fui ouvir. Não tenho em CD e catei Spy, LP 1979 da Carly Simon, que mora faz muito tempo comigo. Capa preto e branco, foto linda, que Carly foi muito da bela. Ela e James Taylor formavam um dos casais 20 do pop. Nas nove faixas de Spy, todas dela, o amor agonizante - e logo veio a separação de James Taylor (o disco seguinte, que tem Hurt, foi dedicado a membros da família e "para aqueles que me fizeram chorar"). Tantos anos depois, Just Like You Do, que tem solo do sax de David Sanborn,  segue irresistível naquele formato pop perfeito. E depois do revival Carly Simon na tarde de sábado, acho que chegou a hora de mergulhar um livro que comprei faz alguns meses: Girl Like Us, sobre ela, Carole King e Joni Mitchell.  Quer dizer, muitas outras canções da Carly Simon devem estar vindo por aí.







domingo, 9 de março de 2014

Vontade, inteligência, sensibilidade e Proust

Seurat

Abaixo, um trecho de À Sombra das Raparigas em Flor, o segundo livro de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Inteligência, vontade e sensibilidade são protagonistas e a tradução é de Mario Quintana. A partir do final desse parágrafo, é tudo do Proust, na tradução gloriosa de Mario Quintana. 


“(...) Minha inteligência considerava esse prazer muito pouco valioso logo que o teve assegurado. Mas em mim a vontade não participou um único instante dessa ilusão, porque a vontade é a serva perseverante e imutável de nossas personalidades sucessivas; oculta-se na sombra, desdenhada, incansavelmente fiel, e trabalha sem cessar e sem se preocupar com as variações de nosso eu, para que não lhe falte nada do que necessita. No momento de efetuar uma ansiada viagem, no momento em que a inteligência e a sensibilidade começam a se perguntar se realmente valerá a pena viajar, a vontade, sabedora de que essas duas amas ociosas considerariam outra vez tal viagem como uma coisa magnífica desde que não se efetuasse, deixa-as divagar diante da estação e entregarem-se a múltiplas hesitações; e vai tomando as passagens e coloca-nos no vagão para quando chegue a hora da partida. Tudo quanto têm de mutáveis a sensibilidade e a inteligência, tem-no ela de firme; mas como é calada e não expõe seus motivos, quase parece que não existe, e as partes restantes do nosso eu obedecem às decisões da vontade sem dar-se por isso, ao passo que por outro lado percebem muito bem as suas próprias incertezas. (...) “

Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...