segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os livros na estante



Tem um quê de humanos os meus livros. Os do coração, quero dizer, os queridinhos. Depois de lidos e muito lidos, eles vão parar na principal estante da casa – imensa, de madeira, pesada, desenhada por mim mesmo que não tenho a menor noção de desenho. Mas foi.

Bom, lá na estante, eles são agrupados por afinidades. Como assim? Nada de ordem alfabética ou critérios de bibilioteca, são afinidades eletivas, que só eu poderia explicar e vou tentar aqui. Mario Quintana, por exemplo, fica do ladinho de Bruna Lombardi e não só pelo vínculo poesia, claro. Seu Mario tinha uma quedinha especial pela colega de versos, a quem considerava musa: “E depois de ter lido Gaia, eu só pude exclamar: puxa! como a Bruna é ela, como a Bruna é Bruna...” Há uma foto linda dos dois em uma Feira do livro de Porto Alegre nos anos 80.

Durante algum tempo, Caio Fernando Abreu, que também esteve naquela feira do livro, ficava encostadinho na Bruna. Era excelente o convívio do trio animado, mas a produção do cara de Morangos Mofados foi crescendo e hoje ele divide com Clarice Lispector uma prateleira inteira e, por favor não espalhe isso, a mais nobre.

Novas edições de Caio e Clarice vão surgindo e faço verdadeiros malabarismos pra que os dois permaneçam lado a lado. Pertinho, Katherine Mansfield (a primeira inspiração de Clarice e que também contaminou Caio) e Lucio Cardoso – foi paixão de Clarice e, anos depois, Caio chegou a passar uns tempos no quarto que fora do autor de Crônica da Casa Assassinada. Ana Cristina César, grande amiga do Caio, mora ali pertinho, pra evitar ciúmes. Lygia Fagundes Telles, duas prateleiras abaixo, quer um espaço mais próximo dos amigos Caio e Clarice. Hilda Hilst também.

Virginia Woolf até já habitou aquelas redondezas, mas devido a um problema de espaço, Mrs. Dolloway se mudou. Michael Cunningham, o cara de As Horas, ficou sabendo e fez de tudo pra conseguir espaço naquele largo, também habitado por Paul Bowles, Carson McCullers, F. Scott Fitzgerald. Todos eles habitam a mesma prateleira, numa profusão de histórias encantadas.

É bem assim: gosto de unir meus livros com critérios da vida daqueles que os escreveram. Minha Razão de Viver, do Samuel Wainer, mora ao lado de Na Sala Com Danuza – e a biografia de Nara Leão juntinho, nada mais natural. Rubem Braga é vizinho. Certas vezes às coisas acontecem meio ao acaso: só agora me dei conta da proximidade absurda de Adélia Prado, Cecilia Meireles, Florbela Espanca e Carlos Drummond de Andrade. Só pode ter sido uma poética conspiração. Só pode. E eu lá sou doido pra separá-los? Nem pensar.

3 comentários:

Fabiana (fabiana@moreiramagalhaes.com.br) disse...

Que delícia ler seus textos sempre. Embora vc deva ter seus motivos, que acredito não serem apenas impulsionados pelo tal ócio criativo, permito-me dizer que deveria escrever mais.
Suas impressões, sempre tão próximas das minhas, escritas com o dom de quem o tem, pois este não se compra, com considerável esforço talvez apenas se desenvolva.
Sua relação com a forma que guarda seus livros mto se aproxima da forma que lido, nas palavras de um grande amigo, com meu "acervo".
Meu armário tão bem cuidado com peças que contam histórias, o qual a passadeira é proibida de adentrar seus limites.
Lá dentro, tudo disposto de um jeito que apenas eu mesma sou capaz de entender, porque é a minha vida está contada ali.
Aparentemente, sem critérios, mas unidas pela afinidade, do que só eu senti.
Boa semana!

Anônimo disse...

Está explicado pq não quis "organizar". rs show de texto.

leah disse...

Que texto maravilhoso!
Desde o Diário do Sul sou tua fã (disso tu já sabe).
E temos as mesmas paixões literárias.

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