quarta-feira, 20 de março de 2013

O encontro


Aprendi a gostar das manhãs. Tanto que até dei pra acordar meia hora mais cedo só pelo prazer de alguns momentos a mais em casa, despertando sem pressa pros afazeres de todo dia. Na hora de sair pra rua, um quase ritual: ipod no aleatório e vou prestando atenção naquelas que ele vai escolhendo. A de hoje foi Diga Lá, Coração, com o Gonzaguinha. “São coisas dessa vida tão cigana, caminhos como as linhas dessa mão”: atento àqueles versos, no passito a caminho do ponto de ônibus, observo árvores, prédios e pessoas com quem cruzo praticamente todo dia e no mesmo horário, alguns com cachorros, uma velhinha com a tratatadora – o maluco é que a moça tá sempre conversando com alguém e fica lá a velha senhora com o olhar perdido em algo que adoraria saber o que.

Antes de dobrar a esquina, o encontro. Uma mulher me aborda para pedir dinheiro. É negra, ali pelos 25 anos, toda vestida de preto. Tiro o fone do ouvido, cato moedas no bolso e ela me diz: “moço, tô toda inchada aqui”,  e levanta a camiseta e toca por sobre a legging na altura da virilha. A voz parece saída de algum lugar muito próximo de onde habita a tristeza mais tenebrosa. “Calma, vai passar”, digo. “Não, não vai passar”, recebo de volta, com um olhar demolidor fixo no meu e, depois de um breve silêncio, vem um “tô fedendo”, naquela voz só desamparo. Falo para ela procurar um abrigo, sei que tem um ali bem pertinho, e me responde com os olhos algo como “vou fazer isso”. 

Mais silêncio entre nós e digo pra ela tentar pensar em um momento feliz que lhe tenha acontecido. Aqueles olhos negros fixos nos meus se amainam de repente, agora não existe apenas miséria ali, há um brilhar, um brilhar triste, mas um brilhar. Mais alguns segundos de silêncio, olhos nos olhos: “fica com esse momento, pensa nele”, digo antes de seguir o meu caminho. “Dá um cigarro” e lhe passo o que tinha acabado de acender. “Fica bem”, digo antes de virar as costas. Ela nada responde, fica ali, parada na esquina, fumando. Passos lentos, sigo o meu caminho, recoloco os fones no ouvido, Gonzaguinha ainda está cantando e, de algum jeito muito doido, aquela mulher triste me acompanha. Tento pensar em algum dos meus momentos felizes (hábito meu para momentos complicados), não consigo. Ela não me sai da cabeça. São coisas dessa vida tão cigana.


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