terça-feira, 19 de maio de 2009

Salve salve Mélissa

Delícia “descobrir” uma nova cantora e em tempos de you tube a coisa fica bem mais fácil. Foi assim no sábado, quando encontrei uma matéria com Mélissa Laveaux no El País. A moçoila é canadense, filha de imigrantes haitianos, radicada em Paris e esbanja estilo. Pra quem tem alguns anos na estrada pop dá pra perceber rastros de Tracy Chapman, Macy Gray e Lauryn Hill – isso pra não ir muito longe.

É só ouvir Needle in the Hay pra se encantar com Mélissa, que com uma voz cortante se apropria da canção de Elliot Smith, um dos nomes mais interessantes do folk anos 90.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

A mulher que berra

Maria, o nome é lindo. Mas basta alguém chamá-la assim pra começarem gritos absurdos que muitas vezes duram um tempão. É a louca de plantão aqui do meu bairro. Aparenta andar ali pelos quarenta e poucos (será?), vive pelas ruas da vizinhança, tem uma cara forte, nariz pequeno, cabelos pretos encaracolados e aquele ar de quem há muito vive em outra sintonia. Faz muitos anos que a conheço e até a cumprimento de vez em quando. Ela nunca me respondeu, apenas com os olhos, vivos, espertos.

Ela não tem hora pra entrar erupção e não é raro acordar de madrugada com seus gritos. E olha que moro num sexto andar, fundos, bem afastado da rua. Às vezes vou a janela e a vejo caminhando pelo meio da rua deserta, enrolada num cobertor a bradar seu desespero aos quatro ventos. Grita tanto e há tantos anos que suas cordas vocais sofrem o calejo de tanto esforço. Não se entende o que ela berra, fica apenas aquele som terrível que parece vindo das entranhas e que é acionado sempre que alguém diz a palavra terrível: Maria.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

De um lugar Perdido

Tenho um CD chamado De un Lugar Perdido do madrilhenho Antonio Vega. Foi recomendação do Pedro Almodovar, via um site, faz alguns anos. Comprei pela internet e logo aquelas canções bem melancólicas foram me capturando. Li sobre Vega na internet e mal conhecia seu rosto que o encarte do CD ocultava por meio de sombras. Acabo de ler num jornal espanhol que Vega morreu nesse 12 de maio, aos 51 anos e vinha doente faz algum tempo. Ese Chico Triste y Solitario é o título da matéria do El Mundo.

Antonio Vega era da geração de Cazuza e Renato Russo e no final de 1978 formou a Nacha Pop, inspirada por Ramones e Siouxie & The Banshees. A banda durou dez anos e ele partiu para a carreira solo. Teve sua fase de mergulho nas drogas, caiu em
depressão quando a mulher morreu em 2004...
“No creo en más infierno que tu ausencia. Paraíso sin ti, yo lo rechazo. Que ningún juez, declare mi inocencia”, diz a dolorosamente bela A Trabajos Forzados.

Pálido, fraco, doente, enfrentava a saúde frágil no palco e suas apresentações costumavam provocar arrepios nos fãs. Era um cara bonito, talentoso e triste. O CD que tenho parece mesmo ter vindo De un Lugar Perdido.

Abaixo, o link para Estaciones, que abre o CD e é a minha preferida.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Foi mal aí

"São cem, São mil, São cem mil. Um milhão. Do mal, do bem. Lá vem um”.

É Perdeu, que abre o ótimo Zii e Ziê de Caetano Veloso. Versos feito esse, que escancaram sem explicitar, impressionam tanto quanto “os 30 milhões de meninos abandonados do Brasil, com seus peitos crescendo, seus paus crescendo e seus primeiros mênstruos”, de Outros Românticos do disco Estrangeiro (1989) Os tais apocalipses mais totais, cada vez mais perto.

Sexta, depois das onze, um amigo saia da faculdade, no paulistano Moema, trocava música no i-pod e, distraído como ele só, nem percebeu dois caras se aproximarem e meterem a mão na mochila e no i-pod. Apavorado, teve presença de espírito e disparou: "mano, você tá louco... aqui é diadema... não é playba de moema não caralho... você tá louco?". E sabe o que ele ouviu? "Diadema, cara? foi mal... vai lá... foi mal aí". E olha que é o terceiro quase assalto que ele sofre, mesmo com o passaporte Diadema.

“Ai, dói no peito aparição assim”: Perdeu é trilha do meu outono.

sábado, 9 de maio de 2009

A vida é sonho e fantasia

Ritual sagrado: ler jornal no meu café preferido, no final da manhã de sábado, diante de um expresso, água com gás e cigarro. É incrível como ali certas matérias (deixo as notícias do dia-a-dia de lado) assumem outros ares e são capazes de influenciar o meu dia. Hoje foi assim.

Primeiro, uma entrevista com uma atriz quarentona que tem uma cara serena e sempre despertou minha curiosidade, mesmo sem ser das mais conhecidas –pouco sabia dela. Começa falando da mãe, que começou a perder a memória quando ela tinha uns 20 anos. “A vida é sonho e fantasia”, lhe ensinou a mulher intensa, interessante e não exatamente um exemplo de maternidade. Depois, a atriz fala das duas filhas, de como são diferentes, de como se preocupa em fazê-las sentir amada, de como conheceu o marido artista plástico, de como se sente com 23 tendo 46... banalidades assim, bem a vida como ela é, ou costuma ser pra alguns.


Nas páginas de literatura, topo com Carol Ann Duffy, poeta escocesa de 53 anos, a primeira mulher a ganhar um título inglês carregado de tradição. “Mãe solteira e lésbica assumida”, tá escrito com destaque. Vou direto a um verso dela: “Em algum lugar do outro lado desta vasta noite e da distância que existe entre nós dois, eu penso em ti”. Pronto, bastaram essas palavras pra me interessar devorar a matéria imensa e viver alguns minutos de puro delírio descobrindo alguém de quem nunca ouvi falar e saber um pouquinho de suas paixões desenfreadas e inquietações. Foi como se naquele café me tivessem apresentado duas novas e interessantes pessoas. E todo sábado costuma ser assim. É só escolher o jornal certo.


É bom contar que ao pagar a conta, conversei com a garçonete simpática. Ela me contou dos maltratos diários e das pressões que recebe do patrão apenas por estar grávida e breve sair em licença maternidade, que sai de lá todos os dias chorando e outras barras nada leves. Os temas que me tocaram no papel estavam ali diante de mim. Ela trabalha até julho, depois vou ter de trocar de café, me recuso a frequentar um lugar onde os patrões maltratam uma mulher grávida.

terça-feira, 5 de maio de 2009

No hype do hype

Odeio ficar de fora de um bom hype pop. Como assim? Isso mesmo: um hype pop é fundamental e um bom exemplo é Susan Boyle e primeira vez daquele vídeo. Ok, poucos dias depois eu não aguento mais nem ouvir falar dela, algo relacionado a uma hypefobia que deve habitar em mim.

Sim, não existe nada imperdível nessa vida, mas alguns filmes, livros, discos, vídeos a tornam mais interessante. Sei lá porque havia perdido o filme Crepúsculo, uma história de vampiros e hype adolescente total, baseado num best-seller. Enfim, chegou o dia de eu entrar na zona Twilight, me diverti bastante, o clima kitsch não me incomodou e descobri uma coisa: hype adolescente não tem idade e os mais velhos que embarcam vão com uma vantagem extra: a bagagem de uma vida de cultura pop.

Depois de um tempo as novidades escasseiam e tudo remete a algo que você já viu. Com Crepúsculo, história moderna de vampiros, me aconteceu isso, ali estavam elementos de Os Garotos Perdidos, O Vampiro Lestat. Noviça Rebelde e de vários filmes de Tim Burton – até poderia se chamar Os Vampiros se Divertem e cenas como o jogo de baseball e a visita da lindinha mocinha humana à casa dos vampiros são de rolar de rir.

Ah, e tem os atores. A lindinha Kristen Stewart já foi filha da Jodie Foster (O Quarto do Panico) e a namoradinha do carinha de Na Natureza Selvagem – e foi aí que me apaixonei por ela. É um daqueles rostos que poderia ser uma mistura das jovens Demi Moore, Julia Roberts, Winona Ryder. Sim, elas já tiveram 20 anos. E o mocinho Robert Pattinson? Tem um quê de canastrão, os lábios mais vermelhos que a mocinha, um olhar de peixe morto. À primeira vista pensei no vesgo charmoso Christopher Lambert de Subway, um cult dos anos 80. Mas era rebate falso e logo me veio um produto nacional – eta Brasilzão -, o Carlos Alberto Ricelli garotão – a voz sussurada é mais um ponto de semelhança entre os dois. Bom, acho que não vou ler o livro agora, mas já estou à espera da sequência The Twilight Saga: New Moon e dessa vez juro que assisto nos primeiros dias. Hype pop fica ainda melhor quando consumido assim que sai do forno.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Sem essa de gata mimada


Quem me conhece ou já conversou cinco minutos comigo sabe: existe uma maravilha chamada Ava em minha vida. É uma montanha de pelos, pretos por todo lado e brancos apenas nas quatro patinhas, bigode e peito. São 11 anos de intenso convívio, uma relação perfeita, com raríssimas rusgas. Aquela cara sempre séria onde reinam dois olhos de um verde profundo, está sempre ali e atenta a tudo que acontece comigo e se estou triste, a atenção é redobrada. E de vez em quando até brincamos de piscar.

Dizem que os animais não têm inteligência. Dizem, né, dizem tanta coisa. Eu questiono o que seja inteligência e pra que ela serve. Ava e eu não falamos a mesma língua. Ela entende meu “humanês” perfeitamente, não o fala talvez por timidez ou pra não me intimidar e até desenvolveu um “miadês” pra se comunicar comigo. É todo um alfabeto de diferenciados miados, cada um com seu significado, alguns se assemelham a pios, outros são longos, repetitivos, insistentes, quase lamentos.
Quando bate a fome, utiliza praticamente uma sinfonia miaus pra que a leve até seu prato, localizado estrategicamente na área de serviço. É um dos caprichos da preta. Ali, entre um e outro grão de ração, me olha feliz e solta os mais doces e incríveis ronronados – e ronronados, quem é propridade de um gato sabe, é sonido que representa prazer total não que eles transmitem asma, como muito ignorante costuma propagar. Quando estou mais paciente, fico ali vendo Ava se banquetar e atento aos ronronados, misturando ao som da ração sendo triturada por aqueles dentes afiados.
Ah, Ava veio das ruas, está longe de fazer o tipo gatinha dócil, tem temperamento forte e indomável e seu nome é homenagem a Ava Gardner, a diva de Hollywood que Jean Cocteau elogiou como “o animal mais lindo do mundo”. Monsieur Cocteau estava certo, e muitas vezes me divirto a imaginar o que ele diria se conhecesse essa montanha de pelos que mora aqui em casa.

Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...