segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A arte de visitar amigos

É tempo de celebrar os 100 anos do nascimento de Vinicius de Moraes. E aqui, a faceta colunista do homem, no jornal Última Hora. É a segunda etapa, "a volta do colunista pródigo", como explicita o título da coluna deste retorno, em 4 de janeiro de 1966: “Uma das fatalidades da minha condição é escrever para ULTIMA HORA. Sou fundador do jornal em duas etapas de sua movimentada existência, isso sem falar em Flan, que foi seu único (e sensacional) rebento, um tablóide caindo de bossa, aí por volta de 1953”.

A partir daí, Vinicius escreveu diariamente e sobre tudo, até abril de 1966. O que me chama atenção nessa "A Arte de Visitar Amigos" é o momento zanga de "pessoas que se dizem seus amigos", nada a ver com “o poetinha”. E uma nota de redação, no final, explica que ele não "liberou" a tal coluna durante um tempo. Boa leitura.    


                                                 A arte de visitar amigos


Eu ando tão irritado com um certo tipo de gente, que vive “de graça” e pensa que tudo lhes é devido, que hoje resolvi ir à forra. Pombas! Não sou homem de guardar ressentimentos, prefiro extravasá-los. Em todo caso, se isso servir para alertar certas pessoas, não terei escrito esta série em vão. Porque são pessoas que se dizem seus amigos ou suas amigas, estão sempre nas praias e nos bares a erradiar que “o poetinha é meu do peito”, “o Vinicius é um grande praça”, “o poeta é um cara legal, gosta de todo mundo” – e diante da falta de que fazer, propõem imediatamente a dois ou três desconhecidos já mais para lá do que para cá:
- Vamos dar um pulo lá para vocês conhecerem ele? Tem uisque!



Uísque sempre tem em minha casa. Quando as vacas estão mais gordas, é do melhor “escocês”. Quando as vacas estão mais magras, há sempre um Drury’s ou uma cerveja para quebrar o galho. Mas alguma coisa há, no bar ou na geladeira. Com direito a ovos mexidos, naturalmente.

Mas não para quem eu não conheço, ou não o merece, faço questão de frisar, infenso a desconhecidos. Já vivi bastante para saber que a amizades é uma flor de cultivo longo e delicado, e meu tempo é curto para desperdiçá-lo com relações de meia-hora. Os “amigos” de quem falo só se lembram de você se o presunto estiver pendurado na sua porta, do contrário estão se danando para a sua existência. Eles gostam é da sua festa, do seu uísque, das moças que frequentam sua casa, da liberdade com que abrem sua geladeira, do desplante com que jogam a cinza do cigarro no seu tapete ou colocam os fundilhos molhados do copo justo no lugar que mancha, em sua mesa, quando há ao lado um objeto feito especialmente para protê-lo. Alguns frequentam sua casa há anos e nunca se lembraram que você tem uma mulher senão para, quem sabe um dia, fazer-lhe charme para ver que bicho dá. Nunca lhes ocorreu o pensamento de trazer-lhe uma flor, um maço de cigarros, uma bagana chupada que seja. Deixa a idiota fazer o café, o strogonoff, tirar o gelo, limpar os cinzeiros cheios dos “seus” cigarros até as bordas!


Vinicius de Moraes nos anos 60
Não sei o que mais admirar nessas pessoas, se a sua gratuidade ou a sua desfaçatez. Vivem a ditar regras sobre comportamento alheio. Quem as visse falar diria estar em presença do próprio Catão, o Antigo, pronto para destruir Cartago. Estão sempre a emitir conceitos e acham que a própria casa foi feita exclusivamente para dormir. E quanto mais tarde, melhor depois de ter desfrutado da casa alheia, da bebida alheia, da comida alheia e da mulher casual. Dormem então o sono dos justos, para no dia seguinte recomeçar tudo de novo, localizando pelo telefone as festinhas em perspectivas ou as garotas desprogramadas. Esses nunca pagam nada, não tem perigo! Na hora de “se coçar” há sempre um súbito pipi a fazer ou uma oportuna telefonada a dar. Quem paga é, naturalmente, o burro do Vinicius de Moraes, o bobo do Paulinho Soledade, o cretino do José Marques da Costa. Quando não com dinheiro, com cheque. Quando não com cheque, com um espeto assinado. Eles assistem com a maior superioridade a toda essa burocracia.



Sei que alguns amigos meus, de natureza desconfiada, mas inteiramente fora dessas acusações, vão ficar pensando se eles também... Mas não. Que cada um ponha a mão na consciência. Proque, daqui por diante, os que se tornarem arredios é porque enfiaram a carapuça. E nesse caso é porque ela lhes cabe. E se ela lhes cabe, passem muito bem.

Nota da Redação: Logo após enviar esta crônica à redação de ULTIMA HORA, Vinicius de Moraes resolveu suspendê-la. Muito delicado, e já arrependido de um primeiro impulso de zanga, temia ferir suscetibilidades a esmo. Antes de viajar para Cannes, contudo, Vinicius “liberou” a crônica, com duas ou três pequenas correções.
                                Ultima Hora – Sábado, 23 de abril de 1966

E aqui, uma beleza de carta que Vinicius escreveu para Chico Buarque no finalzinho de 1968
http://viledesm.blogspot.com.br/2012/01/carta-de-vinicius-para-chico-1968.html

2 comentários:

Sara disse...

Levamos tempo em nossas vidas para tentar relaxar e entender que temos que pensar mais do que eles costumam fazer acho que eu seria capaz de fazer em algum momento desde que você pode continuar a comer la caballeriza

Cotidiano disse...

Sábio Vinícius.

Houve um revólver na minha vida. E fuzil também

Um trezoitão foi personagem de minha infância. Episódio difuso, enigmático, envergonhado, repleto de sombras: só fui saber mais dele quan...