domingo, 12 de janeiro de 2014

De churrasco gente diferenciada, protestos e rolezinho

Foi há quanto tempo o churrasco gente diferenciada em Higienópolis?  14 de maio de 2011, um sábado, esclarece o Google. Quase três anos, tanto tempo. Era para marcar presença contra moradores do bairro que bradavam contra a construção de uma estação de metrô em zona tão nobre e explodiu via redes sociais. Estive por lá e só tinha “gente bonita” (cerca de 600, segundo a matéria que encontrei), como dizem em São Paulo. Tradução: aqueles privilegiados com acesso à educação, bons shampoos, entre outros itens muito do bons. Uma frequência semelhante a do primeiro protesto bombado na cidade, o do Largo da Batata, ano passado, na segunda-feira 17 de junho. Também estive por lá e me beliscava a toda hora para acreditar naquela imensidão de “gente bonita” por todo lado. É bom nunca esquecer por que estavam lá: não, nunca foi só por vinte centavos e sim para marcar presença contra a polícia do governador Geraldo Alckmin que, na sexta anterior tocou o terror e barbarizou com suas bombas qualquer pessoa que estava na região da Avenida Paulista. Noite truculenta para jamais esquecer – e outras viriam. Sim, foi essa indignação que levou aquele mar de “gente bonita” a tomar de assalto a nobre Avenida Faria Lima, endereço do Shopping Iguatemi, que logo entra em cena aqui.


Como as coisas se espalham e se transformam, alguns meses depois (mais pro final do ano passado) surgiram os rolezinhos. Oh, audácia do bofe, promovidos pela internet por uma garotada mais pra bem pobre, que ouve funk e mora longe demais dos bairros abonados. E ousadia das ousadias:nos shoppings, o oásis paulistano por excelência. Não importa a localização: mesmo na periferia, shopping representa status. Bateu o terror e a civilizada polícia de São Paulo voltou a cena com suas bombas. Ontem, bombas e balas de borracha entraram em cena para deter os participantes de um rolezinho no Shopping Itaquera, Zona Leste. Os shoppings, apavorados, acenam com liminares e benesses de quem tem o poder. Também no sábado quente em SP, um dos reinos da “gente bonita” paulistana, o Shopping Iguatemi`, fez valer a proibição para a entrada de menores desacompanhados. Oi, é um shopping ou um filme com cenas fortes, feito o Ninfomaníaca do Lars Von Trier? Ah, tem a ameaça de multa diária de 10 mil reais para quem ousar em dar o seu rolezinho em área tão estrelada. Mais perfeita tradução do que rola em São Paulo nesses dias estranhos, o rolezinho escancara o apartheid na cidade que se orgulha de ser a maior em tudo. Parabéns para quem teve a ideia. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Água Viva ainda viva 33 anos depois

Novela de Gilberto Braga exibida em 1980, Água Viva está de volta no Canal Viva. Trinta e três anos depois, acompanhar aquela história assume outros sabores. E permite observar a mudança do gênero novela: cenas e diálogos imensos, elenco enxuto, uma trilha sonora de sonhos puxada por João Gilberto e a preciosa Wave, assuntos sérios tratados sem apelação (o dinheiro e o valor dele é tema central). Dia desses, por exemplo, o professor Edir (Claudio Cavalcanti) ensinou que Umberto D, o clássico de Vittorio de Sica tem esse título em homenagem ao pai do diretor: o "D" é uma simplificação de De Sicca. Sim, nos anos 80 neorealismo italiano cabia na novela das oito e não assustava a audiência. E alguns dos temas discutidos continuam polêmicos no Brasil do séc 21, "O toplessaço" no Rio há alguns dias mostra isso.

Isto É, 23 de abril de 1980
A "comuna" que abriga a turma jovem da trama é destaque e esse texto abaixo fala dela com propriedade. É um box de um perfil de três páginas com Lucélia Santos na revista Isto É de 23 de abril de 1980 - O tipinho que deu certo, título que se referia ao padrão de beleza da estrela bem diferente das gostosonas da época. “Nova estética às oito da noite” e “Lucélia Santos um mito erótico para os 80?” eram chamadas da matéria assinada por Benicio Medeiros. A novela estava há dois meses no ar. A "comuna" abrigava Fabio Junior e Jorge Fernando (e Lucélia Santos circulava sempre por lá) que, em 1978, protagonizaram (junto com Denise Bandeira) a série Ciranda Cirandinha, precursora de assuntos jovens e ousados na televisão. Quem se interessar, Ciranda Cirandinha foi lançada em DVD. Bom, segue o texto sobre os jovens da novela de Água Viva. Ah, só mais um detalhe: Gilberto Braga tinha 34 anos quando escreveu Água Viva. Bem jovem para o padrão de autores do horário nobre. João Emanuel Carneiro, o mais jovem deles, tinha 42 quando fez Avenida Brasil.


                                          A esfuziante rapaziada global

Uma noite deu para perceber que enrolavam cuidadosamente alguma coisa entre os dedos, na forma de um baseado. Discutem política com a liberdade que a retórica dos mais velhos não conhece. Soltam-se em seus windsurfs ou voam em suas motocicletas. Expressam-se em gíria. Libertam-se em topless. Extravassam-se em sentimento e emotividade. Vivem em comunas ou estão mergulhados num permanente conflito com os pais, caretas, imbecis, idiotizados.

Em Água Viva, a batalha de gerações já tem um vencedor. O autor. Gilberto Braga, 34 anos, fez a esperada opção. Seus meninos são exuberantes, amam a vida, amam-se e são amados. E, em toda essa bronzeada e risonha galeria, nenhum deles apresenta o efeito multifacetado, a densidade existencial, o elenco de contradições do personagem Janete – o alter ego telenovelístico de Lucélia Santos e, dizem, cópia impecável da própria protagonista.
A censura cororoca certamente deve estar de olho nessa esfuziante moçada, com o já surrado argumento de que nem sempre o que é bom para Ipanema (leia-se, no caso, Leblon) é bom para o fundão do Brasil. Dir-se-à, logo, que há exageros, perigosa e exemplar licenciosidade em se viver junto, por exemplo, sem estar casado. Eis aí a composta meta-ironia: censura contra novela reproduzindo a batalha de gerações. Aguardar para ver a quem a Globo dará razão. (Revista Isto É, 23 de abril de 1980)

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O cabeludo magrela e a menininha


O cabeludo com Etty Fraser e Paulo Autran: 1972

A menininha com Milton Moraes e Elsa Gomes: 1976
Post rapidinho que estas duas fotos anos 70 merecem. Na PB, foco no garotão cabeludo e magrela que divide a cena com Etty Fraser e Paulo Autran. Na colorida, na menininha ao lado de Milton Moraes e Elsa Gomes. O cabeludo e a menina estão juntos em Água Viva (1980), novela de Gilberto Braga em reprise no Canal Viva. "Ah, esse suspense está me matando" hahaha Pois é. Chega. Vamos às fotos.

O cabeludo é Fábio Júnior, ainda longe dos "vinte e poucos anos" - tinha 19 - e se chamava Fábio D'Ayrosa. É de Um Pássaro no Meu Ombro, teleteatro exibido pela TV Cultura em 1972.

A menininha é Isabela Garcia, com oito/nove anos no filme Ninguém Segura Essas Mulheres, de 1976. Curiosidade: essa comédia em três episódios foi produzida por Silvio Santos em rara (e única) incursão ao cinema.

PS: A Ana Oliveira (@anamdo) me mandou via twitter um vídeo (abaixo)do "magrela cabeludo" contracendo com Cacilda Becker no teleteatro Inês de Castro. É de 1968 e Cacilda morreu em junho do ano seguinte.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Droga: DVD de Pé na Cova não tem a temporada completa

 
O povo todo do Irajá
A boa: tá saindo o DVD de Pé na Cova, a melhor série 2013 - e não só da TV aberta. A nem tão boa: não é a temporada completa, os dois dvds acomodam 10 dos 22 episódios da primeira temporada. E a libertária série de Miguel Falabella merecia DVD com a 1ª temporada completa, como acontece com as estrangeiras. 

O DVD começa com A Nação Laica, o segundo episódio, quando Ruço completa 50 anos. Os Furacões Têm Nome de Mulher, o episódio inicial, com apresentação dos personagens, ficou de fora. E quem não viu na TV vai ficar sem saber, por exemplo, o passado de Luz Divina. A irmã de Juscelino e vizinha de Ruço era funcionária pública (categoria y) e um belo dia surtou na repartição, achou que as divisórias de fórmica eram um labirinto e ficou zanzando ali dois dias seguidos, até ser internada.

Antes de estrear, houve quem dissesse que a série era chupada da gringa A Sete Palmos (Six Feet Under). Coitados, não sabiam de que falavam - a única semelhança é o tema morte. Pé na Cova estreou no começo do ano e muitas vezes as confusões do povo da FUI (Funerária Unidos do Irajá) retratavam o que rolava na realidade. Quero Morrer no Carnaval, o terceiro episódio também fora do DVD, o morto era o travesti Giselle, cujo nome de batismo era Amarildo (olha as coincidências!). O Tal do Civismo e A Morte é Uma Canção, os dois últimos epísódios, exibidos no começo do julho e incluídos no DVD, foram embalados pelas manifestações de rua – e no Irajá também rolava a confusão (olha as trapaças do acaso). Alô, Som Livre, está na hora dos DVDs das séries da Globo sairem com temporada completa.

Pé na Cova: todos os episódios


1 – Os Furacões Têm Nome de Mulher
2 – A Nação Laica (No DVD)
3 – Quero Morrer no Carnaval
4 – Toma Que o Defunto é Teu
5 – O Primeiro Homem na Lua (No DVD)
6 – O Lobo no Rebanho
7 –  Na Primavera da Vida (No DVD)
8 – A Beleza Está no Olho de Quem Vê
9 – A Virgem do Irajá
10 – Freud Nunca Explica
11 – A Ausência do Pai
12 – Ladrão Que Rouba Ladrão
13 – Seria Cômico se Não Fosse Sério
14 – O Morto de Chinó
15 – A Surpresa do Inesperado (No DVD)
16 – Se Houver Amanhã (No DVD)
17 – O Céu Que Nos Espera (No DVD)
18 – O Vôo da Borboleta Monarca (No DVD)
19 – O Beijo no Irajá (No DVD)
20 – A Mais Sólida Mansão
21 – O Tal do Civismo (No DVD)
22 – A Morte é Uma Canção (No DVD)

sábado, 7 de dezembro de 2013

"Eu fui obrigada a conhecer o avesso do mundo": texto de Fauzi Arap

"Eu vou lhe contar que você não me conhece. Eu tenho que gritar isso porque você está surdo e não me ouve...".  Um hino para os fãs de Maria Bethânia este texto é de Fauzi Arap,   introduz Um Jeito Estúpido de Te Amar (Isolda e Milton Carlos) no disco Pássaro da Manhã (1977) e frequentou bastante as redes sociais no dia da morte de Fauzi (quinta, 5 de dezembro). Há outro texto incrível de Fauzi no show Pássaro da Manhã, nunca lançado em disco, mas disponível para baixar na internet. No final, vai o mapa da mina e o texto, mas antes uma historia.

Programa do show Pássaro da Manhã
Desde que comecei a ouvir Bethânia me encantei com Fauzi Arap, com o nome dele nos créditos, mas só muitos anos depois assisti a um show Dela com direção Dele. E houve um dia Imitação da Vida, maravilha de show da Bethânia dirigido por Fauzi e que para mim foi como se eu tivesse visto o encantado Rosa dos Ventos (sei lá o que daria pra ter assistido esse show). Era dezembro de 1996, assisti com Olair Coan, que era amigo de Fauzi e, ao final, foi cumprimentá-lo e me apresentou a ele. Tenho dificuldade pra tietar, mas não resisti. Fui logo dizendo que enlouquecera com Mare Nostrum, o livro de memórias dele que tinha acabado de sair, e já tinha lido duas vezes. O homem, que era reservado, me olhou com uma cara entre assustado e satisfeito  e disse bem humorado "duas vezes você leu o meu livro, tenho que dar atenção especial". E ficou ali de conversa com o Olair e comigo. Perguntei quem era o autor de um texto absurdo no show. Ele disse que não sabia, achava que era do José Vicente, mas que Bethânia havia encontrado entre seus guardados e não tinha certeza.

Bom, abaixo o lindo texto de Fauzi Arap que introduz o bolero Pecado, quase ao final do 1º ato do show Pássaro da Manhã.

"Eu fui obrigada a conhecer o avesso do mundo. Pra sobreviver a dor de não entender o que tinha acontecido, à dor de te perder, tudo. Eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um... E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança."

Mapa da mina. Lindeza de texto, né? E na voz de Maria Bethânia, então, é de arrepiar. Para ouvir, é só acessar o incrível blog Maria Bethânia Re (verso) e baixar o show Pássaro da Manhã. E lá tem outros incríveis shows de Bethânia, inclusive o lendário Rosa dos Ventos, lançado em CD sim, mas em versão reduzida. Eis o link:

E aqui "Eu vou lhe contar...", na voz de Bethânia



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A única capa de revista de Cleyde Yaconis


Fotos de Hélio Santos

Cleyde Yaconis completaria 90 anos hoje, 14 de novembro. Tive a honra de escrever Dama Discreta, o livro dela para a Coleção Aplauso, lançado em 2004 e, desde então, não nos perdemos de vista. Mesmo anos depois de o livro publicado, continuava buscando material sobre ela. E nesse tempo todo, a internet facilitou muito a pesquisa em jornais e revistas antigas.

Ainda nas entrevistas para o livro, me impressionou que Cleyde Yaconis nunca havia sido capa de revista. Bom, nas minhas lembranças há (será?) uma Manchete (ou Cruzeiro) dos anos 60 com ela dividindo a capa com a irmã Cacilda Becker na peça Maria Stuart. Na década de 70, um suplemento de tv da Amiga. Em 2009, ela e mais uma dúzia de paulistanos ilustravam a capa da Veja SP. E nesse mesmo ano, foi homenageada com uma bela capa da Olhares, da Escola Célia Helena, onde deu aulas. Mas capa de revista assim da grande imprensa só com Cleyde Yaconis nunca vi. E olha que ela foi uma das maiores atrizes desse país.

Ano passado, encontrei na rede um exemplar da revista A Cigarra, de setembro de 1959 e na capa, surpresa, estava Cleyde loira, jovem e linda. Corri ao telefone para avisá-la da “descoberta”, como fazia sempre – lembro de quando achei um jornal de dezembro de 1939 com a notícia da formatura ginasial dela. Descrevi as fotos, a reportagem (claro que ela não lembrava de nada) e fiquei de levar o material na próxima visita. Umas três semanas depois, Cleyde foi internada, era o dia do último capítulo de Avenida Brasil, que ela assistiu no hospital. Fui visitá-la no sábado final da manhã e levei a “capa”. Ela gostou muito e soube que mostrava para os médicos. Seis meses depois, Cleyde faleceu no dia 15 de abril desse ano, sem ter saído do hospital. Eu adoro essa capa de revista e o fato de que a encontrei e mostrei para ela. É a única capa de revista com a grande Cleyde Yaconis. Se outras existirem, adoraria conhecê-las.


Sobre a capa de A Cigarra: Cleyde tinha 35 anos de idade. A Criatura e a Personagem é o título da matéria de A. Accioly Netto. É em primeira pessoa e trata essencialmente de teatro. Funciona como uma palestra de Cleyde Yaconis e o que ela pensava mais de 50 anos depois não era muito diferente do que está ali publicado. É só ler O Amor Que Vem do Conhecimento, o primeiro capítulo de A Dama Discreta, para perceber as semelhanças. Abaixo, a matéria de A Cigarra.
                                                         
                                  A Criatura e a Personagem                        




- O teatro , como toda atividade artística, não é apenas fator de cultura. É muito mais que isso, pois o grau de civilização de um povo pode ser medido de acordo com o grau de desenvolvimento do seu Teatro. O “representar” faz parte do homem, está dentro de si, podendo ser considerado como sua mais primitiva necessidade. Ontem, como hoje e sempre, o homem fará Teatro. Observemos as crianças... Elas brincam? Sim, mas representando sempre! Eu, por exemplo, que nunca pensei, quis ou pretendi ser atriz, detestava declamar na escola, “brincava”, no entanto, de “casinha”, recebendo as visitas como dona de casa ou fazendo de modista para garotas de 4 a 10 anos, maquiladas e vestidas de “gente grande”, enrolando-nos em toalhas de mesa com franjas, de sapatos altos e nos dando nomes estranhos e inexistentes. Durante horas improvisávamos textos, inventávamos danças, compenetradas de que, de fato, éramos outras pessoas. Os garotos também se transformavam em bandidos, mocinhos, heróis, chegando à preocupação da escolha dos tipos para diferentes papéis. Com o correr do tempo, porém, poucos são os que se dedicam à arte teatral. A maioria fica constituindo o público. De ambos, porém, dependerá o futuro do Teatro, pois de nada adiantarão os esforços conjuntos dos autores e atores em fazerem bom teatro, se o público não os apoiar com sua presença. Mesmo procurando divertir, deverá o Teatro ter sempre em mira o “fator cultura”, do contrário fugirá da sua finalidade. Voltando ao princípio, portanto, essas crianças que representavam por insinto, quando tornadas adultos, indicarão, pelas suas exigências de arte e de teatro, o nível de cultura a que atingiram.



Importante dentro do teatro é toda obra completa, isto é, literatura, arquitetura teatral, conteúdo humano, obra social etc. Para mim, tanto é importante (no sentido exato da palavra) transmitir a cultura, como divertir, trazer alegria e bem-estar ao publico. Nos gêneros mais populares, portanto, também deveria ser exigido o melhor. O “boulevard” por si só não pode ser considerado importante como obra teatral. Possui, porém, certo valor dentro do teatro, quando executado primorosamente com a finalidade precípua de distrair, o que não deixa de ser importante. Quando levado à cena, tem que ser mais do que nunca “bom”. É preciso não esquecer que o grau de civilização de um povo também se pauta pela exigência que ele faz ao gênero “boulevardier”. Eu mesma, como público, aceito até a alta comédia. Contudo, quando cansada, nervosa, exausta da vida que levo, prefiro, às vezes, um filme musicado, leve, colorido, de final feliz... Mas principalmente nessas películas, sou intransigente no que diz respeito à sua qualidade. Como atriz, acho ótimo intercalar no repertório sério a comédia inconsequente, tipo “boulevard” de categoria, pelo descanso dos ensaior, mas estou sempre apavorada, com medo de que a peça “pegue” e fique quatro meses em cartaz! O ideal seria, dentro de um repertório pesado, difícil, árduo para os atores, uma peça leve que servisse como repouso para atores e público, mas que ficasse pouco tempo em exibição. No TBC, por exemplo, foi incluida entre a peça “Jornada”, de O´Neill e “Maria Stuart”, a peça de Hugh Mills, “Perigos da Pureza”. O fito da programação foi divertir o público e os atores. Apesar disso, a peça exigiu desses últimos, o maior de seus esforços para levar a cabo uma representação no estilo de uma época de fim de século, quando se combatia os convencionalismos da Comédie Française e do Teatro de “Boulevard”. Aliás, como todos sabem, esse sistema de intercalação de peças leves é usado nas melhores companhias do mundo inteiro. A elite do teatro poderá assistir a uma peça pelo prazer do texto, apenas como forma literária, mas a massa do público espera sempre mais alguma coisa e deve receber. Como atriz prefiro sempre os textos que contenham uma ideia, uma mensagem.



O ator só poderá chegar a viver integralmente o personagem quando a sua criação é o produto de estudo e composição. No estudo e na preparação de um personagem é necessário considerar o presente, o passado e o futuro, assim como as relações deste personagem com os outros. Quanto mais perto conseguirmos chegar, mais nos sentiremos como ele próprio. Tomando a Elizabeth, por exemplo, posso dizer que após três anos da primeira representação, reensaiando o papel, gradativamente sinto que a própria Elizabeth vai se aproximando de mim ou eu dela. Todos os problemas reais dessa criatura extraordinária vão interferindo no texto de Schiller. As razões políticas, religiosas e femininas que tanto influíram em seus atos cruéis, vão abrindo diante de meus olhos extasiados novas facetas para a representação dessa personagem. Esse mesmo fenômeno acontece quando contraceno com os meus colegas. Quanto mais próximo do personagem nos achamos, tanto mais nos identificamos com ele. Posso dizer, portanto, que chego a sentir verdadeiro ódio de Maria Stuart, quando contraceno com Cacilda Becker. Somos seres humanos, e não máquinas que se ligam à hora de entrar. Para qualquer artista são necessários, antes de sua apresentação, não somente a concentração, como também a abstração e o maior afastamento possível dos problemas que o afligem. Quando não o consegue completamente, a representação poderá, às vezes, se ressentir de falhas. Isso tanto no que diz respeito a preocupações, como ao mal estar físico, doenças, etc. Para qualquer ator, porém, pior do que 40 graus de febre ou dores tremendas, é a voz se achar afetada. As doenças, no entanto, desaparecem ou diminuem de 80% ao se entrar em cena. Do mesmo modo, não se sente, no palco, nenhum ferimento que resulte de queda, corte, pancada ou qualquer outro acidente.


A influência do personagem é exercida na vida comum, principalmente durante o estudo e a sua preparação, pois se dorme e acorda pensando no papel. Durante o dia, nesse período de busca contínua qualquer incidente com coisas ou pessoas constitui material para a construção do personagem. Quando a represento, ela não interfere diretamente no meu modo de agir ou de pensar. Continuo sempre sendo eu mesma, embora certos papéis possam me trazer, com a continuidade da representação, estados psicológicos diversos, tais como depressão, irritação, nervosismo ou mesmo uma certa euforia. Fatos de minha vida íntima também não interferem na apresentação da personagem que eu represento. Quando o papel é bom, não tenho preferências, tanto represento com prazer o cômico como o dramático. Papel bom não é exclusivamente o de protagonista e, sim, aquele que foi ideado pelo autor de tal forma que dê margem ao artista constituí-lo totalmente. Os papéis indesejáveis são, portanto, os mal idealizados, abandonados pelo autor, ou incluídos na peça sem outra finalidade senão a de prestar algum esclarecimento ao entrecho. Enfim, a minha preferência é decididamente para os papéis característicos, tanto no setor cômico como no dramático.

Eu entrei para o teatro por acaso. Fiquei como meio de vida e continuei por vocação. Comecei no TBC, em 1950, onde permaneci até 1957. Saí para formar a companhia com gente já conhecida do TBC. No TBC aprendi tudo que sei graças as oportunidades e aos diretores excelentes que tive: Ziembinski, Celi, Salce, Bollini e Vaneau. Nestes mais de sete anos representei em mais de 30 peças e recebi três prêmios: 1953 – Governador do Estado – Senhora Frola, 1956 – Saci – Conjunto das interpretações do ano, 1957 – Medalha de Ouro da ABCT do Rio de Janeiro – Leonor de Mendonça. Meus papeis favoritos até hoje: Senhora Frola em “Assim É, Se Lhe Parece”, direção de Celi; Luci, em “Mortos Sem Sepultura”, direção de Bollini; Elizabeth, em “Maria Stuart”, direção de Ziembinski; Coroba em “O Santo e a Porca”, direção de Ziembinski; Elisa, de “A Rainha e os Rebeldes”, direção de Vaneau. O papel mais difícil é o que me dá mais trabalho, continua sendo Elizabeth. Acidentalmente entrei para o teatro e nele continuo. Não posso saber se poderia viver longe dele, antes que isso aconteça. Sempre desejei ser médica e sinto ainda a vaga melancolia de um sonho não realizado. Nenhuma outra profissão, pelo fato de ser rendosa, me afastaria do teatro e, se enriquecesse subitamente, hoje aplicaria ¾ da fortuna no teatro e ¼ reservaria para um outro desejo: propriedade agrícola, pois já possuo até uma pequena chácara. Amanhã, talvez, minhas ideias não sejam as mesmas a respeito de aplicação de capitais... O meu futuro, dentro dos meus planos, não vai além da excursão do TBC à Europa, porque 24 horas do meu dia estão tomadas com os preparativos para essa viagem. Não me sobra tempo para divagações...

sábado, 9 de novembro de 2013

Diretor de elenco: uma profissão à procura de reconhecimento


O documentário Casting by (Diretor de Elenco), de Tom Donahue, estreou no começo do mês nos Estados Unidos. E por aqui, está sendo exibido nos canais da HBO e disponível no NOW para os assinantes net. Como o título explicita, trata de uma profissão importante, mas ainda sem reconhecimento na indústria do cinema - a única categoria dos créditos principais,  que não concorre ao Oscar. Através da história da pioneira Marion Dougherty, que começou na TV no final dos anos 40 e que por cinco décadas trabalhou na escalação de atores para filmes, o documentário conta a história da profissão.

Marion Dougherty e o cartaz de Golpe de Mestre (The Sting)
James Dean, Clint Eastwood, Jon Voight, Christopher Plummer Jack Lemmon, Robert Duvall, Bette Middler, Glenn Close, Dustin Hoffman são alguns astros que, nos primórdios, passaram pelo olho clínico de Marion Dougherty. É ela estrela de Casting by, ao lado de colegas como Lynn Stalmaster e Juliet Taylor. Enquanto Marion atuava em Nova York, Lynn era o homem para elenco em Los Angeles. E Juliet Taylor, a mulher que escala o elenco para Woody Allen desde o final dos anos 70, começou como assistente de Marion. A Primeira Noite de Um Homem, Perdidos na Noite, Butch Cassidy, Taxi Driver, A Última Sessão de Cinema, Máquina Mortífera, O Mundo Segundo Garp têm seu processo de seleção de elenco contados no documentário e algumas histórias deliciosas. No roteiro, o parceiro de Mel Gibson em Máquina Mortífera não era negro, mas Marion Dougherty não hesitou em indicar Danny Glover para o papel. 

E nos depoimentos estão Martin Scorsese, Woody Allen, Clint Eastwood, Robert Redford, Al Pacino, John Travolta, Glenn Close. Marion Dougherty morreu em 2011 e o filme é dedicado a ela. No começo dos anos 90, um elenco de estrelas fez campanha para ela ser homenageada pelo Oscar, mas isso não aconteceu. Com histórias deliciosas, Casting by é documentário pra ser visto e reflete as transformações na indústria do cinema. Para muita gente, a época de ouro do cinema já passou e perdeu lugar para as séries de TV e isso também está na parte final do documentário, em um depoimento de Linda Lowy, a diretora de elenco de Grey´s Anatomy. Casting by está disponível no NOW e tem exibição na HBO HD na próxima terça, às 14:25.

Woody Allen escreveu um artigo para o Hollywood Reporter pedindo o reconhecimento dos diretores de elenco e falando da participação decisiva de Juliet Taylor em seus filmes. Ele cita vários atores que foram lhe apresentados por Juliet, inclusive Meryl Streep que, ainda desconhecida, fez um pequeno papel em Manhattan. Abaixo o link com o artigo de Woody Allen.




Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...