quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Minha amiga chefe

Tenho uma amiga que é chefe. Grandes bostas, tenho trocentas amigas chefes, mas essa é novata na coisa, e depois de anos sendo chefiada. Ainda por cima, a danada tem espírito rebelde que nem operário do ABC nos primórdios do PT. Com a chefia vem resposabilidades outras e aí também não vai nenhuma novidade. Ela até que estranhou os cursos para formação de líder, mas no terceiro já curtia e se sentia uma líder nata.

Sempre chega o dia da verdade e o dela não demorou: teria de estrear na demissão e dar cartão vermelho para uma zinha há pouco mais de dois meses naquele trabalho. Pra quê? Minha amiga entrou em parafuso, passou noites sem dormir só pensando naquela coitada e sua filhinha de 10 anos sem o bendito salário no fim do mês. E pouco importava que a mulher com a cabeça na forca fosse incompetente, mau caráter, puxadora de tapete e outras amenidades. Ela sabia de tudo isso, mas se doía mesmo assim.

Ficou combinado que a tacada final seria no final da primeira semana útil de janeiro por causa das festas de fim de ano e que tais. E não exagero dizendo que a demissionária não saiu de seus pensamentos por mais de uma hora nesses dias todos. Mas o serviço tinha que ser feito e assim o foi. A futura desempregada ficou indignada, disse que nunca esperava aquilo, falou em perseguição e representou muito bem o papel da vítima até o final. Minha amiga ficou se sentindo a última das moicanas, a desalmada e morria de medo de levar um processo da ex-funcionária. Mas por quê? Nem adiantava perguntar e ela só desencanou dias depois quando a analista lembrou que empregados em período de experiência podem ser tranquilamente mandados embora e sem maiores dores de cabeça. Hoje ela até ri contando isso, mas sofreu e se torturoi como uma tirana.

Nada como um dia após o outro e aquela primeira demissão libertou minha amiga líder. Agora, basta alguém olhar atravessado que ela já pensa em puxar o cartão vermelho. Dia desses implicou com uma garota que andava por lá, morreu de ganas de demití-la, mesmo depois que lhe contaram que era a filha do chefão. Minha amiga anda doidinha pra demitir mais alguém. Viciou na coisa e até pensa em frequentar um "demitidores anônimos".

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