quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Maria Schneider: tangos e noites felinas



Obviedade é coisa que odeio. Piadas óbvias, então. Sabe gente que fala “loser” pra se referir à banda Los Hermanos? E “loser” é, provavelmente, uma das palavras mais escrotas do planeta, daquelas que só fica feia para quem a pronuncia. Loser pra quem, cara pálida? Bom, voltando, hoje morreu Maria Scheneider e no twitter, claro, eclodem as piadinhas sobre manteiga. Pobreza de espírito. A tal cena da manteiga é apenas um detalhe (quase cândido aos olhos atuais) de um filme obra-prima.

Pois o escândalo O Último Tango em Paris crucificou Maria Schneider. Para o então quase cinquentão Marlon Brando, ao contrário, representou a volta ao estrelato. Mas a garota de 19 anos só faltou ser mandada à fogueira por tal ousadia. E isso que era a primeira metade dos anos 70, tempos mais liberais.

O Último Tango demorou anos pra chegar ao Brasil. Assisti pela primeira vez bem garoto e a famosa cena da manteiga nunca me impressionou. A beleza - sem retoques e ao estilo natural de então - de Maria Schneider sim, tanto que virou símbolo de uma época. A fama da jovem francesa foi tanta que até nas sátiras musicais dos Trapalhões foi parar – Maria xinaida, na linguagem do Didi.
La Schneider fez pelo menos mais dois bons filmes: Passageiro – Profissão Repórter e Caros Pais, esse menos visto e com Florinda Bolkan como uma mãe à procura da filha na swinging London. O escândalo O Último Tango e a loucura daqueles anos não davam trégua. Maria Schneider aparecia nas revistas com uma namorada ("lésbica!"), mergulhava nas drogas e aos poucos o mundo foi esquecendo dela. Nada de novidade, atitudes ousadas costumam ser punidas pela sociedade conservadora e machista – vide Frances Farmer e Lindsay Lohan, em épocas tão distintas.
No começo dos anos 90, quando a epidemia da aids estava no auge, ela apareceu no elenco de Noites Felinas (Nuit Fauves), filme escrito, dirigido e estrelado por Cyrill Collard, que era soropositivo e morreu praticamente quando o filme fo lançado. A moça linda dos anos 70 já não existia e aquele rosto trazia as marcas de uma vida complicada. O mundo também era outro e menos liberal.
O corpo de Maria Schneider será enterrado no famoso cemitério Père-Lachaise, de Paris. Olho agora a foto dela aos 58 anos, a idade com que morreu. Não é a imagem que vou guardar, pra mim será sempre a garota linda e à procura da felicidade de O Último Tango em Paris. A cena da manteiga? Ah, não me venha com obviedades. É tudo bobagem de uma sociedade impiedosa para punir quem ousa fugir de suas amarras.


6 comentários:

simone disse...

belo texto. sim, estamos submersos na obviedade. e aqueles que ousam dela sair, ai ai, pagam caro. mas vivem. abraço!

leah disse...

Esse filme marcou uma época.
Fez toda diferença para história do cinema.
Vi várias vezes e, em todas elas, me emocionei.
Teu texto é uma grande homenagem!

Anônimo disse...

Na cabeça, compadre!!!

Anônimo disse...

maria scherneider sempre foi vanguarda , para qualquer tempo,somos privilegiados , por poder contemplar sua arte, sua vida pessoal, não interessa. Essa galera de atores de agora , deveria assistir ao menos um dos 50 filmes que ela fez, aprender o que e dramaturgia e genialidade.

Justo disse...

Esse filme é uma obra de arte! Maria Scheneider está linda e Marlon Brando com uma atuação impecável!

M. Exenberger disse...

Na verdade, não houve sexo real. Bertolucci afirma que Maria Scheneider sabia da cena do estupro, pois estava no roteiro. Causou surpresa, no entanto, ela ter divulgado, pouco antes de falecer, que foi surpreendida com o uso da manteiga como lubricante.Essa improvisação irritou a atriz, que disse ter se sentido humilhada. Por outro lado, é fato que o filme deu fama internacional e prestígio à Maria Scheneider. Não foi ruim para a imagem dela, porque na época o sexo era mais comum nas telas de cinema do que hoje em dia. Os filmes eróticos e explícitos atraíam multidões aos cinemas. Não havia o patrulhamento do politicamente correto. Temas como abuso sexual não era associado ao estupro e o que acontecia no set de filmagens entre os casais ainda não faziam parte da agenda das feministas, embora elas já condenassem a exploração da mulher como objeto sexual.

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