quinta-feira, 5 de abril de 2012

Bethânia é danada

Foto do app Maria Bethânia

Quem é o meu ator/ autor/ cantor/ diretor preferido? Encanei muito com isso, até que resolvi priorizar. Assim: o diretor é Woody Allen. Ah é, por quê? Simples, ninguém me deu tanto prazer ao ver seus (tantos) filmes como ele.  E a cantora é Maria Bethânia. Quase pelos mesmos critérios e com ela descobri mundos. Foi pela voz de Bethânia que vieram Clarice Lispector, Fernando Pessoa, o repertório de Dalva de Oliveira e cantores de outras eras que minha mãe deve ter ouvido.

Oásis de Bethânia é o 50º disco dela. E me pego fazendo contas: devo ter comprado uns 75 discos dela, entre vinis e, depois, CDs. E nem vou contabilizar os DVDs. Compraria tudo outra vez.

Bethânia é danada. Foi quem chamou a atenção do mano Caetano e dos amigos tropicalistas para Roberto Carlos. Quando tudo era rock no meio dos 80, ela veio com um trabalho completamente acústico – o incrível Ciclo. E logo os acústicos, aqueles via MTV, virariam mania.

Esse Oásis é repleto de ousadias Maria Bethânia. O barulho dela está nos silêncios, nas pausas, nas palavras que aquela voz realça, destaca. São 12 músicas, na maioria delas apenas voz e um instrumento – piano, bandolim, entre outors-, no máximo um trio de instrumentos. Em Calmaria, a sonoridade vem de berimbaus e a canção acaba com um poema de Fernando Pessoa seguido por um fado.

A poeta vem inteira em Carta de Amor (vídeo abaixo), que reúne um sambão de Paulo César Pinheiro e versos da própria Bethânia, onde se reconhece a paixão por Pessoa, Guimarães Rosa, Caymmi e tantos outros de sua devoção. É um manifesto em forma de samba e poesia - e só ouvidos fechados não vão entender o recado. Das de Dalva de Oliveira, é Calúnia e vai para o mesmo endereço.

Oásis é disco raro. E melhor quando ouvido como concebido, música após música e na ordem em que foram gravadas. É como se peças fossem se encaixando. Ao final, aquelas canções não se vão, permanecem. Mas é preciso “ouvir”, “escutar”, não é tipo vapt vapt não. É essa a ousadia maior da minha cantora preferida fiel a tanto tempo aquilo que ela acredita, só aquilo a que ela acredita.


Um comentário:

Dani Cascaes disse...

Amo teus textos! Sempre me faz bem ler-te! :)

Houve um revólver na minha vida. E fuzil também

Um trezoitão foi personagem de minha infância. Episódio difuso, enigmático, envergonhado, repleto de sombras: só fui saber mais dele quan...