domingo, 4 de agosto de 2013

A juvenília de Caetano Veloso

Hoje, na coluna de O Globo, Caetano Veloso fala do primeiro show solo, em Salvador, 1965. As lembranças dele chegam a partir da leitura de Billie Holiday e a biografia de uma canção, livro sobre Strange Fruit, que conta ter ganhado em João Pessoa. Já li muito sobre Caetano e não lembro de nada sobre esse show, que tinha a participação de Dedé (ainda namorada) e se chamava Cavaleiro (link no final). Com a coluna na cabeça, lembro um achado recente em meus guardados: uma Vogue especial Caetano. Não encontrei a data, mas deve ser de 1987. Bom, são vários textos interessantes, mas o que interessa aqui é um sobre os primeiros tempos do cara em São Paulo, quando era somente “o irmão de Bethânia”, em 1965, logo após o show de Salvador. Foi escrito por Edmar Pereira, que já faleceu e tive a honra de conviver na redação do Estadão/ Jornal da Tarde, na primeira metade dos 90. E mais: uma das fontes da matéria é Dirceu Soares, jornalista daquela turma de mineiros que fez o JT. Também já falecido, Dirceu Soares foi uma das pessoas (a pessoa) que mais força me deu quando cheguei em São Paulo. E nem preciso fechar os olhos para ouvir agora a voz dele, aquele sotaque mineiro, a me contar bem devagarinho histórias de quando convivia com os então desconhecidos garotos da Tropicália. Em homenagem a ele e a Edmar, segue a citada matéria. 

E olha que doido: abro agora “Críticas de Edmar Pereira” (Imprensa Oficial) e no primeiro parágrafo da apresentação escrita por Luiz Carlos Merten (que eu chamo de “mestre”), encontro o seguinte: “Em junho de 1974, Edmar Pereira, na época um jovem crítico chegado de Minas, publicou seu primeiro texto no Jornal da Tarde, de São Paulo. Era uma ode a Billie Holiday”. Pronto: Havia sim uma ligação com a coluna do Caetano. Tudo fecha, então, porque tudo é fechado, não deve haver espanto. Queria ter escrito essa frase, mas quem o fez foi o Caio Fernando de Abreu numa crônica belíssima: Para embalar John Cheever. Sim, não deve haver espanto.


                                                  Quando eu te encarei
                                                  frente a frente,
                                                  não vi o meu rosto

                                                   Por Edmar Pereira

São Paulo não era ainda seu espelho. E Narciso achava feio e apavorante o reflexo que via, não existia ainda a convivência que destrói os temores, prevalecia a aparência sobre qualquer realidade menos hostil. E o espelho, como via o Narciso ainda inédito, ou quase? Tão magro, tão baiano, cabelos encaracolados, uma blusa de gola roulée. Um pouco depois o famoso paletó xadrezinho, que acabaria se tornando um modelo nacional. Mas isso seria depois, ainda seria muito cedo para o trinfo de Alegria, Alegria. Era ainda antes que corações brasileiros se enchessem de maternal ternura pelo garoto magricela, que coçava a cabeça, sorria sem jeito e acertava todas no Esta Noite se Improvisa. A voz da irmã Bethânia reverberava Carcará na Ipiranga com São João e outras esquinas da cidade, mas Caetano era ainda apenas um discreto coadjuvante de um certo grupo baiano que tomaria, primeiro na surdina e depois ruidosamente, de assalto a música brasileira.

Caetano, Gracinha e Gil
Todos estavam ainda ofuscados pelo brilho do cometa Bethânia. Mas ouvidos atentos e olhos curiosos já eram capazes de identificar Caetano como “irmão dela”, o autor do outro lado do compacto que levara o Carcará a todas as paradas. Caetano anunciava a manhã, o canto do galo, o tempo de buscar uma flor nova, a sua. Mas tão discreto e tão tímido, falando tão pouco e tão baixo que se ouvia muito melhor a metralhadora verbal de Tom Zé, via-se muito melhor a inteligência fascinante de um Gilberto Gil redondinho, cuja enorme simpatia era quase que completamente disfarçada por um cavanhaque pedante. Ouvia-se também mais uma certa Maria da Graça, que os íntimos chamavam Gracinha e já saudavam como a mais afinada voz do grupo, espécie de João Gilberto em versão feminina e juvenil.

Caetano ainda procurava seu rosto. E se ocupava em decifrar enigmas propostos pela esfinge, como a possibilidade concreta de poesia das suas esquinas, onde passeavam meninas discretamente deselegantes. O poeta de Santo Amaro, calçado de sandálias de couro, tinha sobressaltos, e mesmo nas noites de segunda-feira, amparado pelo violão no Teatro de Arena ou nas inconstantes passagens pelo Juão Sebastião Bar, não descobrira ainda como usar seu magnetismo. O jornalista Dirceu Soares lembra desse tempo, entre 1965 e 1966. Lembra do “menino elétrico, vivo, observador, atento a tudo, que era capaz de expressar uma opinião a respeito de qualquer coisa. Mas para quem não conhecia sua intimidade, ele era somente “o irmão da Bethânia”, frase imediatamente entreouvida pelas mesas do Barrouquinho cada vez que ele movimentava sua silhueta magra pela Galeria Metrópole.

Essas lembranças coincidem com as de Paulo Cotrim, jornalista, crítico de comidas, sempre apaixonado por jovens artistas, na época o criador do histórico Juão Sebastião Bar, uma das ilhas de liberdade no revolto mar da ainda jovem ditadura. Cotrim contra que certa vez abrigou Caetano por duas noites no seu apartamento, aliás hiperpovoado: “O Paulo José e o Paulo Cesar Pereio, jovens atores recém chegados do Sul, estavam morando lá. O Plínio Marcos, jovem autor de Dois Perdidos Numa Noite Suja, peça que não era uma das favoritas dos novos donos do poder, também aparecia clandestinamente para dormir. Caetano e seu amigo Macalé tiveram que ficar na sala, não havia outro espaço. Ele levava então uma vida extremamente simples e despojada. Impossível não lembrar de suas sandálias. Ou de que, mesmo aparentemente apagado e feioso, era um espírito aberto, de diálogo agradável e boa cultura.


A primeira imagem de Caetano arquivada pelas retinas de Cotrim “é sua chegada no Juão, em 65, todo tímido e sem jeito. Ele às vezes tocava, era aplaudido quando cantava É de Manhã, mas o Gil chamava muito mais atenção e Bethânia naturalmente já era a grande estrela, fazendo o show Opinião, no TBC. Tinha também a Gal, ainda Gracinha, e todo mundo insistia para que ela ficasse em São Paulo, porque com aquela voz faria certamente uma carreira. Mas ela só falava em saudades da mãe, que ia mesmo voltar para a Bahia, que não aguentava mais... Caetano já mostrava outras canções, mas as pessoas prestavam pouca atenção. 

o link para Lendo: a coluna de Caetano Veloso em O Globo

3 comentários:

Rodrigo Levino disse...

Que demais esse resgate. E findou que me proporcionou outro: pela citação da crônica de Caio Fernando descobri um livro do John Cheever, autor que gosto muito, que nunca soube ter sido publicado no Brasil. Acabei de achá-lo por R$ 10 no Estante Virtual. Grato!

Vilmar Ledesma disse...

Ueba, a juvenília de Caetano leva a Cheever e a descoberta de um livro. Gosto dessas coisas, Rodrigo Levino. Há alguns meses, a Piauí publicou trechos do diário do Cheever numa matéria impressionante. E incluí swui o link para a crônica do Caio F. Gracias!

Rodrigo Levino disse...

Sim, esse diário é uma preciosidade. Pena que não foi publicado no Brasil na íntegra. Recomendo também as cartas dele:

http://www.bookdepository.co.uk/Letters-John-Cheever-John-Cheever/9780099529644

E obrigado pelo caminho pra descoberta =)

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