quinta-feira, 19 de novembro de 2020

E lá se vai Jonas Mello, ator brasileiro

 


Leio sobre a morte de Jonas Mello. Ele tinha 83 anos, faleceu na tarde de ontem, de causas naturais em seu apartamento no bairro paulistano de Santana. Logo me veio uma tarde na primeira década do século, quando conversamos para Disciplina e Liberdade, a biografia de Geraldo Vietri que escrevia para a Coleção Aplauso.

Foi no teatro amador em sua Santos natal os primeiros passos do ator Jonas Mello. E antes de engrenar na profissão, deu duro por lá: foi feirante, estivador e trabalhou no pronto socorro.

"Ensinaram-me que enchendo a boca de pedras a gente melhorava a dicção. Não tive dúvidas, todo dia ia até a praia e treinava, começando a falar alto.Quando o tempo estava bom, o pessoal me olhava como se eu fosse maluco. Acredito que esse recurso é que me ajudou a vencer o concurso em São Paulo para ator, onde me inscrevi com mais de cem pessoas. Ali comecei profissionalmente, atuando na peça Lisístrata, ao lado de Ruth Escobar e Isabel Cristina", Jonas contou ao repórter Rogaciano de Freitas em uma matéria da revista Amiga, em 1976, quando já era ator consagrado.

Desde Lisístrata (1967) foram muitas peças.  Só para citar algumas atuações em clássicos: o Jasão de Medéia (1970)  com Cleyde Yaconis , Leonardo, o ex que reaparece em Bodas de Sangue (1973), com Maria Della Costa e o Teseu de Fedra (1986) na montagem com Fernanda Montenegro.

Jonas e Maria Della Costa em Bodas de Sangue

Na TV, atuava em Os Inocentes, quando Geraldo Vietri o viu nos corredores da Tupi. O autor e diretor buscava o intérprete para o papel título de Meu Rico Português (1975), Jonas usava um bigodão e Vietri deve ter achado que ele tinha o tipo ideal para sua personagem e o chamou para teste. Resultado: foi o protagonista e também das duas próximas e últimas de Vietri na Tupi e as três com Márcia Maria como par romântico.

Jonas Mello e Marcia Maria em Meu Rico Português

Em Os Apóstolos de Judas (1976), Vietri aproveitou detalhes da vida do ator, os seus tempos de feirante, quando vendia brincos e bijuterias na barraca do pai. Em João Brasileiro, o Bom Baiano (1978)  era um jornalista de Salvador em fuga de seu passado e que vem parar numa pensão de São Paulo.

Com Sandra Bréa, Bambolê
Foram muitas novelas, o IMDB lista mais de 30 e em todas as emissoras de Televisão. Sol Amarelo e Os Deuses Estão Mortos, ambas de 1971,  na Record, são das primeiras. Após o fim da Tupi, estreou na Globo com Os Gigantes (79) e esteve em várias - Coração Alado (1980), Baila Comigo (1981), Terras do Sem Fim (1981), Bambolê (1988)  Barriga de Aluguel (1990) são marcantes -  e as últimas foram participações em Salve Jorge (2012) e Flor do Caribe (2013). Dona Beija (1986)  foi na TV Manchete, Antônio dos Milagres e Irmã Catarina, ambas em 1996, na CNT, Canavial de Paixões (2003)  no SBT e Escrava Isaura (2004) na Record.


E no cinema, Jonas começou no udigrudi do fim dos 60 - Hitler 3º Mundo (1968), de José Agripino de Paula. Alguns dos filmes que tiveram Jonas Mello no elenco: Um Anjo Mau (1971), de Roberto Santos, Que Estranha Forma de Amar (1977), de Geraldo Vietri e Um Céu de Estrelas (1996), de Tata Amaral.

Jonas e Adriana Prieto no fime Um Anjo Mau

Quando entrei em contato com Jonas para o livro do Vietri, ele foi extremamente solícito, fez questão de uma conversa longa e veio até minha casa. Passamos uma tarde de muitas histórias. Por vezes olhava aquele homem que então andava pelos 70 anos e me parecia estar conversando com Marlon Brando. Pode ter sido viagem minha, claro, mas havia algo (o porte, a voz marcante) de Brando em Jonas Mello. Alguns anos depois, em 2010, Jonas Mello esteve no lançamento do livro.


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Amor Estranho Amor, o ex-proibidão de Xuxa

A equipe de Amor Estranho Amor. Fotos de Mituo Shiguihara/Manchete

"Eu não transei, aquilo é ficção": É Xuxa, nas manchetes após a entrevista de ontem no Fantástico.. Ela se refere ao filme Amor, Estranho Amor e a declaração soa ridícula como se o primeiro filme que fez fosse um pornô. Amor Estranho Amor é dirigido por Walter Hugo Khouri (1929-2003), um dos mais celebrados diretores brasileiros e célebre por lançar atrizes - Lilian Lemmertz, por exemplo - e dirigí-las como raros. 
Era 1981. Vera Fischer, saída há pouco da novela Brilhante e com cabelo ainda curto também estreava sob a direção de Khouri, estrelando o filme ao lado de Tarcisio Meira. Xuxa, 18 anos, era uma modelo em início de carreira, namorava Pelé, e marcava um gol com sua estréia cinematográfica: ser dirigida pelo requintado Khouri. 

"Quando estive em Nova York e na Europa, vi que as modelos de lá têm um pique incrível. Fazem tudo - TV, rádio, cinema e fotos - tudo ao mesmo tempo. Eu quero me testar também. Já tinha recebido dezenas de propostas para fazer cinema, mas só esta do Khouri me interessou. Acho que estou começando bem.", ela declarou em matéria de capa da revista Manchete, em matéria de capa da revista Manchete, em maio de 1982, quando do lançamento do filme. 

E Khouri, como via a modelo que, segundo a matéria, conheceu nos bastidores de um programa de TV e agora lançava no cinema, sem a necessidade de testes, apenas uma conversa: "As pessoas me cobraram muito esse convite que fiz a ela, porque ainda confundem a vida de manequim com debilidade total. Mas foi uma intuição minha. Nada acontece por acaso. Se alguém aparece tanto como a Xuxa deve ter um it todo especial. E acertei. Ela é uma grande revelação." 

O final de "O Estranho amor de Xuxa e Vera Fischer", a matéria assinada por Celso Arnaldo Araujo, é bem interessante. "Toca o telefone no andar térreo da mansão (onde estavam filmando). Massaini (o produtor) vai atender. É Pele, querendo notícias sobre sua amizade colorida. Ele estava louco para saber como a menina ia se saindo na nova atividade. E recebeu ótimas referências. "Fica tranquilo, Pelé. A garota vai longe"." 

 E Xuxa foi longe, tão longe que, dez anos depois quando "rainha dos baixinhos" poderosa, usou a força da grana para manter Amor Estranho Amor longe do público por 30 anos. Agora diz que quem não viu veja. Deveria é pedir desculpas por interditar o trabalho de um grande cineasta e de seus colegas atores, Vera Fischer e Tarcisio Meira, que eram os astros do filme. 

O menino que contracenou com Xuxa em Amor Estranho Amor. Marcelo Ribeiro também era lançamento Walter Hugo Khouri. Estava em seu segundo filme com o diretor e no anterior, Eros, O Deus do Amor, tinha uma cena altamente erótica (ao lado) com a personagem de Kate Lyra, mas essa sem "polêmicas" e nem interdição do filme. "O diretor põe muita fé no garoto. Brincando, o chama de pestinha e comenta que aos 13 anos e com dois filmes ele já pode escrever suas memórias.", diz a matéria da Manchete.

A matéria da revista Manchete no lançamento de Amor Estranho Amor


terça-feira, 27 de outubro de 2020

História da Canções: "Será", a que virou nome de operação policial

 

Foto de Mauricio Valladares, de"edição comemorativa Legião Urbana 30 anos", lançado em 2016


Na loucura dos tempos, o primeiro e dos maiores sucessos da Legião Urbana, a canção que abre o primeiro disco lançado em 1984, virou nome de operação policial atrás de possíveis músicas inéditas e a pedido do filho de Renato Russo. E doideira total, os alvos de batidas policiais atrás de inéditas pra faturar mais com o roqueiro morto são fãs da Legião que municiam seus sites na internet. O alvo mais recente da "Operação Será" é o produtor Marcelo Fróes que, nos anos 90, foi editor e diretor do International Magazine. Em janeiro de 1995, Renato Russo foi o primeiro entrevistado do jornal de música "e a partir de então tornou-se um dos nossos principais entusiastas, opinando sobre as entrevistas", diz a introdução de livro lançado em 1997 com as entrevistas do International. Foi pro International Magazine e para Marcelo Fróes que Renato Russo deu sua última entrevista, três meses antes de morrer e para falar de Tempestade, o último disco da Legião lançado quando ele ainda vivia. 

Em janeiro de 1995, Renato Russo foi o primeiro entrevistado do jornal de música "e a partir de então tornou-se um dos nossos principais entusiastas, opinando sobre as entrevistas", diz a introdução de livro lançado em 1997 (ao lado) com as entrevistas do International. Foi pro International Magazine e para Marcelo Fróes que Renato Russo deu sua última entrevista, três meses antes de morrer e para falar de Tempestade, o último disco da Legião lançado quando ele ainda vivia.

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Bom, mas e Será? É sobre a banda e o verso "Tire suas mãos de mim" é um recadinho para as gravadoras, Renato conta pra Leoni em Letra, Música e Outras Conversas, ótimo livro de entrevistas com o pessoal do rock 90 dos 80 (Herbert Vianna, Marina, Lobão) e alguns que vieram depois (Adriana Calcanhotto, Samuel Rosa).

Leoni pergunta: Será, para você, fala de quê?

"Deixa eu me lembrar. Ah, é sobre a banda. É sobre o lance da gente ser de Brasília. Foi a última música composta para o primeiro disco, tirando "Por Enquanto". (...) Pelo que me lembro, a letra falava de uma coisa específica, mas dando o maior número de interpretações possível. Não sei nem se é o caso, porque o tempo vai passando, a música vai crescendo e vou me lembrando de certas coisas. Às vezes eu acho que era, às vezes que não era. Mas pela época a gente ainda compunha as músicas de um jeito normal: pegava o violão e fazia. Essa foi das primeiras porque a gente ia gravar o disco. Aí eu, com as minhas tradições rock´roll, tinha que ter um single, tinha que ter a faixa de abertura do disco. Geralmente a gente trabalha montando o disco todo, já sabendo da ordem e tal. O Dado tinha esse riff que a gente achava legal. Pelo que eu me lembro é algo assim: nós da banda contra o mundo. Então tinha recadinhos para a gravadora: "Tire suas mãos de mim".

 

 


domingo, 25 de outubro de 2020

O programa de Elis que era a live de Teresa Cristina dos anos 60

 


Era a metade de 1966 e O Fino da Bossa, que então já se chamava somente O Fino, completara um ano em maio, O programa apresentado por Elis Regina, 21 anos e há pouco mais de dois anos chegada do Rio Grande do Sul, reunia várias gerações da música brasileira. Dos veteranos Ciro Monteiro, Lupicinio Rodrigues, Dorival Caymmi a Roberto Carlos e a turma da jovem guarda e os que chegavam Chico Buarque, Nara Leão, Gilberto Gil, Simonal, Jorge Ben... Enfim, era a live da Teresa Cristina daqueles tempos de TV Record ainda preto e branco. E o sorriso de Elis reinava no cenário.

As fotos abaixo são de "Elis é o elo entre duas gerações", matéria de oito páginas e chamada de capa da revista Cruzeiro, em 29 de junho de 1966. A reportagem é assinada por Oswaldo Amorim e as fotos não estão creditadas. As legendas são as publicadas pela revista.

Aqui, o parágrafo final: "Elis é um elo entre as escolas musicais populares, não resta dúvida. Para isso não lhe falta ecumenismo. Com ela tem vez a Velha Guarda, a Bossa nova, o Afro, o Sambalanço e o Yé-yé-yé´da Jovem Guarda. Por último, o "protest song" de grande popularidade nos Estados Unidos -, onde visa, de preferência, como temática, à guerra do Vietname, e que já deu seu prefixo em nossa terra, encontrou nela uma adepta: "Acho que a gente tem de protestar. Afinal, está tudo errado mesmo..."

O repertório eclético de Elis Regina inclui composição de seu consagrado conterrâneo Lupicínio Rodrigues (que a vê cantar, na foto), autor de sucessos como "Vingança"

Ao lado, o próprio Bidu! (nota: Bidu era o apelido de Roberto Carlos)

Hebe Camargo, outro estilo em "O Fino"

Caymmi compareceu ao horário de Elis, levando a Bahia em sua voz e em seu violão

As novas gerações têm sempre vez no programa de Elis (Nota: É, claro, Chico Buarque)


Wilson Simonal e Nara Leão - presença da Bossa Nova no programa "O Fino", de Elis

Ciro Monteiro, da Velha Guarda, faz dupla com Elis, em um samba de telecoteco

Escoltada por Wilson Simonal e Jair Rodrigues, Elis Regina reúne todas as "Guardas" em torno dela (nota: O de branco à direita é Lennie Dale)


Agnaldo Rayol, que deve seu sucesso à interpretação de canções românticas foi um dos convidados ao 1º aniversário do programa


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

As sessões de terapia de Odete Lara e Nara Leão


Revista O Cruzeiro, 1963. A Foto de Antonio Rudge está inteira abaixo


Nara e Odete com Baden Powell 
Rio, final dos anos 50. Sala de espera do consultório de um psicanalista. "Vamp" do cinema esconde o rosto por trás de uma revista sempre que percebe que a porta vai se abrir e de lá sair uma moça "bem", discreta, bem vestida e com uma franja cobrindo a testa. Elas tinham treze anos de diferença - a da franja, morena, ainda não completara vinte e a vamp, loira, uma mulher de quase trinta. 

Corte para um tempo depois. As duas se cruzam em uma feijoada do povo da bossa nova. Daí vem aulas de violão e as duas ficam amigas. As duas mulheres são Odete Lara (1929-2015) e Nara Leão (1942-1989). E quem conta a história é Odete em Minha Jornada Interior (1990), o segundo livro de memórias dela escrito dez anos depois de Eu Nua (1976), uma das primeiras autobiografias de uma estrela brasileira, "numa tentativa de dissecar o processo neurótico que me levou à beira da demência e do suicídio", nas palavras da autora. Ambos são excelentes. Abaixo o texto, que abre o capítulo intitulado "Com Vinicius, Nara e Baden"


 Nara por Odete: "Ela era reservada, observadora e retraída, como eu. Tocava violão, mas só atendia aos pedidos para cantar quando a insistência passava dos limites. Sua voz saía contida, quase inaudível" 


"Benê Nunes, cupincha e pianista preferido de Juscelino Kubitscheck, e Dulce, sua mulher, costumavam abrir seu apartamento da Gávea todos os sábados para o pessoal da bossa nova, com uma feijoada que se estendia até o domingo à noite. Além de compositores, músicos, intelectuais e artistas, lá se revezava uma constante variação de visitas esporádicas. 

Uma tarde, para minha surpresa,encontro entre os demais a moça que eu via todos os dias saindo do consultório do psicanalista. Eu ficava na sala de espera folheando uma revista atrás da qual entreescondia o rosto sempre que percebia que a porta ia se abrir para dar passagem àquela moça discreta, bem vestida, com vasta franja cobrindo a testa. 

Intrigada, ao vê-la essa tarde dedilhando um violão, perguntei a um músico quem era. "É Nara Leão, o pessoal se reúne muito na casa dela também."

Os livros de memórias de Odete Lara
Fiquei observando-a, querendo descobrir o que é que podia fazê-la ir ao psicanalista se aparentemente era normal. Mas aparentemente eu também não era normal? Ela era reservada, observadora e retraída, como eu. Tocava violão, mas só atendia aos pedidos para cantar quando a insistência passava dos limites. Sua voz saía contida, quase inaudível. 

Algum tempo depois a vi de novo numa reunião em torno de um piano de cauda na Avenida Atlântica. Era seu apartamento. Voltei lá várias vezes, e ainda que tivéssemos trocado algumas palavras, continuávamos distantes, observando-nos. 


Mais tarde, quando soube que ela dava aulas de violão, passei a ser sua aluna, e só aí, com o contato quase diário, nos tornamos amigas. Quando a confiança permitiu, nos divertíamos às gargalhadas, confessando uma à outra as fantasias que fazíamos quando nos cruzávamos no consultório. 

"Quem problema pode ter uma vamp de cinema diante de quem os homens devem tombar? Aposto que ela vai usar um negligé de cetim bem decotado para seduzir meu namorado se um dia ele for entrevistá-la para o jornal onde trabalha. Na certa o dr. Ivan quer se ver logo livre de mim para atendê-la..."

 "Que problema pode ter uma filhinha de mamãe como essa, a quem nada deve faltar? Deve fazer psicanálise porque não tem como preencher o tempo. Na certa, o dr. Ivan prefere dar mais atenção a ela, que é moça "bem", de família, do que a mim, uma bastarda...""

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

O jornalista Gilberto Braga

 

Quatro duplas de Quebra-Cabeça, série de Gilberto Braga

Em O Globo de hoje Gilberto Braga conta suas primeiras vezes com a TV, como espectador quando ela chegava ao país e uns vinte anos depois como autor (é um papo com a historiadora Rosa Maria Araujo, irmã dele, e o link vai no final).  O autor de Vale Tudo fala do critico teatral, atividade que exerceu até começar a escrever para TV (A Dama das Camélias, especial com Gloria Menezes exibido no fim de 1972 foi a estreia e as novelas viriam logo). Então assinava com o sobrenome materno (Tumscitz) e, além de crítico, também escrevia algumas matérias como repórter na revista Manchete.

Uma série de reportagens chamada Quebra-Cabeça veio no fim de 1970. Dois nomes conhecidos enfrentavam perguntas culturais. Eis o elenco: Marilia Pera X Regina Duarte, Betty Faria X Aizita Nascimento, Dina Sfat X Renata Sorrah, Paulo Gracindo X Sergio Cardoso, Paulo José X Claudio Cavalcanti, Maria Bethânia X Elis Regina, Nara Leão x Danuza Leão, Gloria Menezes X Yoná, Tarcisio Meira X Carlos Alberto. As duas últimas duplas foram os casais mais famosos da Globo lá nos primórdios -Tarcisio/Gloria vinham de Irmãos Coragem e Yoná/Carlos Alberto estavam na Tupi com Simplesmente Maria. Os convidados respondiam os questionários separadamente e os encontros só ocorriam para as fotografias e nem sempre. Ao final vinha quem havia "vencido", meio programa de tv.


E como eram as perguntas do Quebra-Cabeça? Eis algumas delas:

Como se chama o bairro dos estudantes em Paris?
Qual o único ato violento de Jesus Cristo?
3) Que personagens simbolizavam a avareza
nas obras de Moliére e Walt Disney
Quantos filhos têm a Rainha Elizabeth?
Quando, à mesa somos servidos à francesa, o garçom deve nos servir pela nossa direita ou esquerda?
O que quer diz black-power, young-power e gay power?

Em 1971, Gilberto Tumscitz passou a assinar outra série e com menor duração: O Conflito das Gerações, com os artistas e seus filhos. Alguns deles: Paulo Gracindo e Gracindo Junior, Yoná Magalhães e Marco Antonio, Danuza Leão e Pinky Wainer, Chacrinha e Jorge, Flavio Cavalcanti e Flavinho, dessa vez traçando perfis das duplas familiares naquele momento. E sempre em quatro páginas.

Paulo Gracindo, Yoná Magalhães, Carlos Imperial e Chacrinha em O Conflito de Gerações, uma série de Gilberto Braga

Além das séries, Gilberto Tumscitz escrevia alguns perfis na revista - Elizeth Cardoso e Renata Sorrah, por exemplo -, além de críticas de shows e peças. Hoje é Dia de Rock (Zé Vicente), Corpo a Corpo (Oduvaldo Vianna Filho, com Juca de Oliveira), Abelardo e Heloisa (Com Miriam Mehler e Perry Salles) e de disco, como A Tua Presença, de Maria Bethânia.


Os Galãs, Esses Desconhecidos é matéria dessa época, com 6 seis páginas, com um pequeno perfil dos onze focalizados por Gilberto Tumscitz. Na página dupla de abertura, Tarcisio Meira ("Um galã muito romântico"), Francisco Cuoco ("Aquele Padre Lindo") e Claudio Marzo ("Vitorioso mas não tanto"), os galãs mais famosos da Globo naquele começo de década. No elenco de galãs estavam Carlos Alberto ("Um galã muito intelectual), Claudio Cavalcanti ("Ele surgiu como um meteoro), Arduíno Colassanti ("Viagem de um pão italiano"), Carlo Mossy ("Ele perturba as mulheres e os homens"), Paulo José ("Um arquiteto diferente dos outros"), Jece Valadão ("Ele não é cafajeste nem quando está dormindo"), Jardel Filho ("Jardel é um galã que mantém a classe"), Zózimo Bulbul ("Comunicativo, versátil e, além de tudo, negro"). E muitos dos galãs perfilados viriam a trabalhar nas novelas de Gilberto Braga.


Os galãs 1971 por Gilberto Braga

O link para a entrevista de Gilberto Braga em O Globo

https://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/gilberto-braga-conta-qual-sua-novela-favorita-nao-vale-tudo-24646128

https://outline.com/z4kTXF

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

As ousadias que Marina Lima trouxe pra MPB





Foi a primeira cantora (e compositora, né) que acompanhei desde o surgimento. Por uma questão de idade cheguei tarde em Maria Bethânia e Gal Costa e até na Rita Lee dos Mutantes e dos três primeiros solos. Marina não, ouvi a primeira a tocar no rádio (não lembro se Transas de Amor ou Tão Fácil), comprei no lançamento o primeiro disco e vi o primeiro show - um projeto Pixinguinha com Zezé Motta e Luiz Melodia e ela de novidade.

Dia desses fiz algo que vinha ensaiando (Ensaios de Amor é título de canção dela em parceria com Ana Terra) há tempos: Ouvir os álbuns na ordem em que foram lançados e em LP. Tenho todos em CD e em LP do primeiro, Simples Como Fogo até Próxima Parada: os dez primeiros anos, de 1979 a 1989. O aparecimento, o estouro a partir do quinto disco (Fullgás, 84) e o último, meio que transição pro próximo sucessão. E tudo na fase transição de LP pra CD. Uma mudança importante viria no próximo: a incorporação do sobrenome ao nome em Marina Lima (91) - Ela usava o nome completo na assinatura das canções desde o primeiro disco.

O Manifesto de Fullgás
E ouvindo os álbuns me vieram ousadias que Marina trouxe pra música brasileira junto com Antônio Cícero, irmão parceiro e poeta, hoje na Academia Brasileira de Letras. São muitas. Abaixo, algumas. Outra "redescoberta" o manifesto (ao lado) dos irmãos que vinha com o disco Fullgás, o do estouro. É um papel branco, bem menor que o encarte que vinha junto com o LP e assinado pelos dois. "Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas tentam impor a sua "ordem". E a ordem dos caretas é e sempre foi a da fidelidade às tais "raízes" ou "purezas" ou sabemos lá o quê..."

E abaixo as ousadias, dez delas  que a lista é enorme. E no fim, o link pras dez canções citadas.


1 - Palavra vetada pela censura
Alma Caiada, da parceria Marina e Cícero, seria a primeira canção dos dois gravada - e por Bethânia - se a tesoura da censura não tivesse agido. A marca da censura ficou em Mais Uma Vez (Lulu Santos - Nelson Motta, a penúltima do de Fullgás, quando a abertura política já acenava. E não era proibição de tocar no rádio, era disco riscado mesmo, pulando a palavra censurada. E qual era a palavra? Não sei até hoje, imagino que "tesão", que era perseguidíssima. Será? A letra da canção aparece assim no encarte: "O que eu amo é o amor / Eu desejo o desejo / E quero sempre, sempre mais querer / Um amor, um... (palavra vetada pela censura) / Ou razão ou motivo / Pro riso, isso é o que eu quero mais". E "a palavra censurada" segue mistério mesmo em tempos de plataformas digitais.

2 - Gay, a palavra
Foi em Quem É Esse Rapaz (Marina Lima - Antônio Cícero) que ouvi pela primeira vez "gay" e deve ter sido a vez primeira que, com o sentido de homossexual, aparece na música brasileira. Tá, pode o de "alegre" da palavra inglesa, mas basta ouvir pra perceber que é não. "Eu o vejo perto, longe e gay / E vou prová-lo quente e carinhoso": dizem os últimos versos da segunda de Certos Acordes (81), o terceiro disco. Anos depois, no final dos 80, a canção seguia embalando pistas de boates gays.

3- Comê-la
Difícil (Marina Lima - Antônio Cícero) abre Todas (85) e tem o verso "Então pensei: ela é bela / Porque não com ela / Sexo é bom." Todas ao Vivo (86), o álbum seguinte, é a gravação do show e ali Marina escancara o que muita gente já cantava e o "Porque não com ela" vira "Porque não comê-la" na repetição do verso ao final. Uma mulher cantando isso era ousadia das ousadias. E falando "sexo é bom" também. E "sexo é bom" bem poderia ser o subtítulo de Difícil.

4 - Dama / Homem - Ricardos / Solanges
Não Estou Bem Certa (Pedro Pimentel - Marina Lima) é versão de Sign Your Name, de Terence Trent D'Arby que aponta pra dubiedade sexual e está em Marina Lima (91), o de Criança e Grávida. "Tudo que eu pensei ser pra sempre / Eu já nem sei se é mais / Penso na menina e fico atenta aos braços do rapaz." O refrão: "Será que você será a dama que me completa? / Será que você será o homem que me desperta?" E quase no final: "Procurar Ricardos em Solanges nunca me fez mal."

5 - Nirvana
Everyone is Gay é verso de All Apologies, uma das mais tocantes canções do Nirvana. Marina, sempre esteve atenta em Kurt Cobain e o verso é chave em Na Minha Mão, parceria com Alvin L e faixa de Pierrot do Brasil (98). "O fato é que eu já comecei / A olhar em outra direção / Se todo mundo é mesmo gay / O mundo está na minha mão"

6 - Sauna Gay
Anna Bella (Marina Lima - Antonio Cícero) é mais recente, a terceira  de Lá Nos Primórdios (2006). Foi composta pra artista plástica Anna Bella Geiger, que hoje tem 87 anos. "Já que é assim me pergunto / Uma coisa que pensei / Por que as mulheres também não podem ter a sua sauna gay?" Já se passaram 14 anos e a pergunta continua na bela canção que é bem menos conhecida do que deveria.

7 - Bundinhas
Uma Noite e 1/2 (Renato Rocketh) virou uma espécie de hino do verão, desde que apareceu no disco Virgem e tem participação do autor nos vocais e no baixo. Era 87 e "bundinha" não era palavra que frequentasse a música brasileira e nem top-less. "Não demora muito agora, / Todas de bundinha de fora, / Top-less na areia, / Virando sereia." E o refrão não fica atrás em deliciosas ousadias: "Essa noite eu quero te ter / Toda se ardendo só pra mim / Essa noite eu quero te ter, / Te envolver, te seduzir."

8 - Pátrias, famílias, religiões e preconceitos
Pra Começar (Marina Lima - Antônio Cícero) abre o Todas ao Vivo (86) e foi tema de abertura da novela Roda de Fogo. "Pátrias, Famílias, religiões e preconceitos, quebrou não tem mais jeito",  provavelmente um dos temas de novela mais libertários. É daquelas que Marina voltou a cantar, regravou e não costuma faltar nos shows.

9 - Francisca
É o subtítulo de Me Diga (Marina Lima - Antonio Cícero), faixa de Setembro (2001). A "ousadia" aqui é pela abordagem social de uma nordestina há muitos anos no Rio (veio "no tempo em que eu não era nascida), algo não corriqueiro na parceria dos dois irmãos. E a canção tem trechos recitados por Marina e Cícero. "Entre o nordeste que deixou na infância/ E o sul que nunca pareceu real / A Francisca tem saudade de uns lugares / Que passam a existir quando ela os pinta: / São mares turquesados e espumantes em frente a uns casarões abandonados que, não sei bem por que, nos desamparam / no meio de algum lugar tão distante."

10 - Coxinhas
O funk Só os Coxinhas (Marina Lima - Antônio Cícero) é do ótimo e recente Novas Famílias (2018) repleto de novos parceiros e ótimas canções, como a faixa título, Árvores Alheias (só dela), Mãe Gentil (Arthur Kunz - Marina Lima -Leticia Novaes) e Do Mercosul (Silva / Marina Lima / Dustin Galan).
"Nunca me senti tão envolvida com o Brasil. (...) Aqui está a minha trilha para o Brasil de agora. Realista, crítica, porém cheia de amor pra dar": ela escreve em texto no disco. Só os Coxinhas veio no auge (em um dos auges) da polarização política e provocou barulho. Como assim, o acadêmico Antonio Cícero fazendo letra de funk e usando o termo coxinha? Bobagens, meu filho, bobagens, apenas mais uma das ousadias de Marina Lima, sempre inquieta, graças aos deuses.

As dez canções citadas



Mais Uma Vez


Quem é esse rapaz



Difícil

Não Estou Bem Certa

Na Minha Mão

Anna Bella


Uma noite e 1/2 


Pra Começar

Francisca


Só os Coxinhas







Um perfil escrito por Antônio Maria para celebrar o dia dos 110 anos de Aracy de Almeida

19 de agosto: o dia que seria o dos 110 anos de Aracy de Almeida. E Aracy é uma paixão: as canções, o jeitão, as tiradas, as histórias. Esse...