Leio sobre a morte de Jonas
Mello. Ele tinha 83 anos, faleceu na tarde de ontem, de causas naturais em seu apartamento no
bairro paulistano de Santana. Logo me veio uma tarde na
primeira década do século, quando conversamos para Disciplina e Liberdade, a
biografia de Geraldo Vietri que escrevia para a Coleção Aplauso.
Foi no teatro amador em sua Santos
natal os primeiros passos do ator Jonas Mello. E antes de engrenar na profissão,
deu duro por lá: foi feirante, estivador e trabalhou no pronto socorro.
"Ensinaram-me que
enchendo a boca de pedras a gente melhorava a dicção. Não tive dúvidas, todo
dia ia até a praia e treinava, começando a falar alto.Quando o tempo estava
bom, o pessoal me olhava como se eu fosse maluco. Acredito que esse recurso é
que me ajudou a vencer o concurso em São Paulo para ator, onde me inscrevi com
mais de cem pessoas. Ali comecei profissionalmente, atuando na peça Lisístrata,
ao lado de Ruth Escobar e Isabel Cristina", Jonas contou ao repórter
Rogaciano de Freitas em uma matéria da revista Amiga, em 1976, quando já era
ator consagrado.
Desde Lisístrata (1967) foram
muitas peças.Só para citar algumas
atuações em clássicos: o Jasão de Medéia (1970) com Cleyde Yaconis , Leonardo, o ex que
reaparece em Bodas de Sangue (1973), com Maria Della Costa e o Teseu de Fedra (1986)
na montagem com Fernanda Montenegro.
Jonas e Maria Della Costa em Bodas de Sangue
Na TV, atuava em Os Inocentes,
quando Geraldo Vietri o viu nos corredores da Tupi. O autor e diretor buscava o
intérprete para o papel título de Meu Rico Português (1975), Jonas usava um
bigodão e Vietri deve ter achado que ele tinha o tipo ideal para sua personagem
e o chamou para teste. Resultado: foi o protagonista e também das duas próximas
e últimas de Vietri na Tupi e as três com Márcia Maria como par romântico.
Jonas Mello e Marcia Maria em Meu Rico Português
Em Os Apóstolos de Judas
(1976), Vietri aproveitou detalhes da vida do ator, os seus tempos de feirante,
quando vendia brincos e bijuterias na barraca do pai. Em João Brasileiro, o Bom
Baiano (1978) era um jornalista de
Salvador em fuga de seu passado e que vem parar numa pensão de São Paulo.
Com Sandra Bréa, Bambolê
Foram muitas novelas, o IMDB
lista mais de 30 e em todas as emissoras de Televisão. Sol Amarelo e Os Deuses
Estão Mortos, ambas de 1971, na Record,
são das primeiras. Após o fim da Tupi, estreou na Globo com Os Gigantes (79) e
esteve em várias - Coração Alado (1980), Baila Comigo (1981), Terras do Sem Fim
(1981), Bambolê (1988) Barriga de Aluguel (1990) são marcantes -e as últimas foram participações em Salve
Jorge (2012) e Flor do Caribe (2013). Dona Beija (1986) foi na TV Manchete, Antônio dos Milagres e Irmã Catarina, ambas em 1996, na CNT,Canavial de Paixões (2003)no SBT e Escrava Isaura (2004) na Record.
E no cinema, Jonas começou
no udigrudi do fim dos 60 - Hitler 3º Mundo (1968), de José Agripino de Paula. Alguns
dos filmes que tiveram Jonas Mello no elenco: Um Anjo Mau (1971), de Roberto
Santos, Que Estranha Forma de Amar (1977), de Geraldo Vietri e Um Céu de
Estrelas (1996), de Tata Amaral.
Jonas e Adriana Prieto no fime Um Anjo Mau
Quando entrei em contato com
Jonas para o livro do Vietri, ele foi extremamente solícito, fez questão de uma
conversa longa e veio até minha casa. Passamos uma tarde de muitas histórias. Por vezes olhava
aquele homem que então andava pelos 70 anos e me parecia estar conversando com
Marlon Brando. Pode ter sido viagem minha, claro, mas havia algo (o porte, a
voz marcante) de Brando em Jonas Mello. Alguns anos depois, em 2010, Jonas Mello esteve no lançamento do livro.
A equipe de Amor Estranho Amor. Fotos de Mituo Shiguihara/Manchete
"Eu não transei, aquilo é ficção": É Xuxa, nas manchetes após a entrevista de ontem no Fantástico.. Ela se refere ao filme Amor, Estranho Amor e a declaração soa ridícula como se o primeiro filme que fez fosse um pornô. Amor Estranho Amor é dirigido por Walter Hugo Khouri (1929-2003), um dos mais celebrados diretores brasileiros e célebre por lançar atrizes - Lilian Lemmertz, por exemplo - e dirigí-las como raros.
Era 1981. Vera Fischer, saída há pouco da novela Brilhante e com cabelo ainda curto também estreava sob a direção de Khouri, estrelando o filme ao lado de Tarcisio Meira. Xuxa, 18 anos, era uma modelo em início de carreira, namorava Pelé, e marcava um gol com sua estréia cinematográfica: ser dirigida pelo requintado Khouri.
"Quando estive em Nova York e na Europa, vi que as modelos de lá têm um pique incrível. Fazem tudo - TV, rádio, cinema e fotos - tudo ao mesmo tempo. Eu quero me testar também. Já tinha recebido dezenas de propostas para fazer cinema, mas só esta do Khouri me interessou. Acho que estou começando bem.", ela declarou em matéria de capa da revista Manchete, em matéria de capa da revista Manchete, em maio de 1982, quando do lançamento do filme.
E Khouri, como via a modelo que, segundo a matéria, conheceu nos bastidores de um programa de TV e agora lançava no cinema, sem a necessidade de testes, apenas uma conversa: "As pessoas me cobraram muito esse convite que fiz a ela, porque ainda confundem a vida de manequim com debilidade total. Mas foi uma intuição minha. Nada acontece por acaso. Se alguém aparece tanto como a Xuxa deve ter um it todo especial. E acertei. Ela é uma grande revelação."
O final de "O Estranho amor de Xuxa e Vera Fischer", a matéria assinada por Celso Arnaldo Araujo, é bem interessante.
"Toca o telefone no andar térreo da mansão (onde estavam filmando). Massaini (o produtor) vai atender. É Pele, querendo notícias sobre sua amizade colorida. Ele estava louco para saber como a menina ia se saindo na nova atividade. E recebeu ótimas referências. "Fica tranquilo, Pelé. A garota vai longe"."
E Xuxa foi longe, tão longe que, dez anos depois quando "rainha dos baixinhos" poderosa, usou a força da grana para manter Amor Estranho Amor longe do público por 30 anos. Agora diz que quem não viu veja. Deveria é pedir desculpas por interditar o trabalho de um grande cineasta e de seus colegas atores, Vera Fischer e Tarcisio Meira, que eram os astros do filme.
O menino que contracenou com Xuxa em Amor Estranho Amor. Marcelo Ribeiro também era lançamento Walter Hugo Khouri. Estava em seu segundo filme com o diretor e no anterior, Eros, O Deus do Amor, tinha uma cena altamente erótica (ao lado) com a personagem de Kate Lyra, mas essa sem "polêmicas" e nem interdição do filme. "O diretor põe muita fé no garoto. Brincando, o chama de pestinha e comenta que aos 13 anos e com dois filmes ele já pode escrever suas memórias.", diz a matéria da Manchete.
A matéria da revista Manchete no lançamento de Amor Estranho Amor
Foto de Mauricio Valladares, de"edição comemorativa Legião Urbana 30 anos", lançado em 2016
Na loucura dos tempos, o
primeiro e dos maiores sucessos da Legião Urbana, a canção que abre o primeiro disco
lançado em 1984, virou nome de operação policial atrás de possíveis músicas
inéditas e a pedido do filho de Renato Russo. E doideira total, os alvos de
batidas policiais atrás de inéditas pra faturar mais com o roqueiro morto são
fãs da Legião que municiam seus sites na internet. O alvo mais recente da "Operação
Será" é o produtor Marcelo Fróes que, nos anos 90, foi editor e diretor do
International Magazine. Em janeiro de 1995, Renato Russo foi o primeiro
entrevistado do jornal de música "e a partir de então tornou-se um dos
nossos principais entusiastas, opinando sobre as entrevistas", diz a
introdução de livro lançado em 1997 com as entrevistas do International. Foi
pro International Magazine e para Marcelo Fróes que Renato Russo deu sua última
entrevista, três meses antes de morrer e para falar de Tempestade, o último
disco da Legião lançado quando ele ainda vivia.
Em
janeiro de 1995, Renato Russo foi o primeiro entrevistado do jornal de música "e
a partir de então tornou-se um dos nossos principais entusiastas, opinando
sobre as entrevistas", diz a introdução de livro lançado em 1997 (ao lado) com as
entrevistas do International. Foi pro International Magazine e para Marcelo
Fróes que Renato Russo deu sua última entrevista, três meses antes de morrer e
para falar de Tempestade, o último disco da Legião lançado quando ele ainda
vivia.
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Bom, mas e Será? É sobre a
banda e o verso "Tire suas mãos de mim" é um recadinho para as
gravadoras, Renato conta pra Leoni em Letra, Música e Outras Conversas, ótimo
livro de entrevistas com o pessoal do rock 90 dos 80 (Herbert Vianna, Marina,
Lobão) e alguns que vieram depois (Adriana Calcanhotto, Samuel Rosa).
Leoni pergunta: Será, para
você, fala de quê?
"Deixa eu me lembrar.
Ah, é sobre a banda. É sobre o lance da gente ser de Brasília. Foi a última
música composta para o primeiro disco, tirando "Por Enquanto". (...)
Pelo que me lembro, a letra falava de uma coisa específica, mas dando o maior
número de interpretações possível. Não sei nem se é o caso, porque o tempo vai
passando, a música vai crescendo e vou me lembrando de certas coisas. Às vezes
eu acho que era, às vezes que não era. Mas pela época a gente ainda compunha as
músicas de um jeito normal: pegava o violão e fazia. Essa foi das primeiras
porque a gente ia gravar o disco. Aí eu, com as minhas tradições rock´roll,
tinha que ter um single, tinha que ter a faixa de abertura do disco. Geralmente
a gente trabalha montando o disco todo, já sabendo da ordem e tal. O Dado tinha
esse riff que a gente achava legal. Pelo que eu me lembro é algo assim: nós da
banda contra o mundo. Então tinha recadinhos para a gravadora: "Tire suas
mãos de mim".
Era a metade de 1966 e O
Fino da Bossa, que então já se chamava somente O Fino, completara um ano em maio, O
programa apresentado por Elis Regina, 21 anos e há pouco mais de dois anos
chegada do Rio Grande do Sul, reunia várias gerações da música brasileira. Dos
veteranos Ciro Monteiro, Lupicinio Rodrigues, Dorival Caymmi a
Roberto Carlos e a turma da jovem guarda e os que chegavam Chico Buarque, Nara
Leão, Gilberto Gil, Simonal, Jorge Ben... Enfim, era a live da Teresa
Cristina daqueles tempos de TV Record ainda preto e branco. E o sorriso de Elis reinava no cenário.
As fotos abaixo são de "Elis
é o elo entre duas gerações", matéria de oito páginas e chamada de capa da
revista Cruzeiro, em 29 de junho de 1966. A reportagem é assinada por Oswaldo
Amorim e as fotos não estão creditadas. As legendas são as publicadas pela revista.
Aqui, o parágrafo final: "Elis é um elo entre as escolas musicais populares, não resta
dúvida. Para isso não lhe falta ecumenismo. Com ela tem vez a Velha Guarda, a
Bossa nova, o Afro, o Sambalanço e o Yé-yé-yé´da Jovem Guarda. Por último, o
"protest song" de grande popularidade nos Estados Unidos -, onde
visa, de preferência, como temática, à guerra do Vietname, e que já deu seu
prefixo em nossa terra, encontrou nela uma adepta: "Acho que a gente tem
de protestar. Afinal, está tudo errado mesmo..."
O repertório eclético de Elis Regina inclui composição de seu consagrado conterrâneo Lupicínio Rodrigues (que a vê cantar, na foto), autor de sucessos como "Vingança"
Ao lado, o próprio Bidu! (nota: Bidu era o apelido de Roberto Carlos)
Hebe Camargo, outro estilo em "O Fino"
Caymmi compareceu ao horário de Elis, levando a Bahia em sua voz e em seu violão
As novas gerações têm sempre vez no programa de Elis (Nota: É, claro, Chico Buarque)
Wilson Simonal e Nara Leão - presença da Bossa Nova no programa "O Fino", de Elis
Ciro Monteiro, da Velha Guarda, faz dupla com Elis, em um samba de telecoteco
Escoltada por Wilson Simonal e Jair Rodrigues, Elis Regina reúne todas as "Guardas" em torno dela (nota: O de branco à direita é Lennie Dale)
Agnaldo Rayol, que deve seu sucesso à interpretação de canções românticas foi um dos convidados ao 1º aniversário do programa
Revista O Cruzeiro, 1963. A Foto de Antonio Rudge está inteira abaixo
Nara e Odete com Baden Powell
Rio, final dos anos 50. Sala de espera do consultório de um psicanalista. "Vamp"
do cinema esconde o rosto por trás de uma revista sempre que percebe que a porta
vai se abrir e de lá sair uma moça "bem", discreta, bem vestida e com uma franja
cobrindo a testa. Elas tinham treze anos de diferença - a da franja, morena,
ainda não completara vinte e a vamp, loira, uma mulher de quase trinta.
Corte
para um tempo depois. As duas se cruzam em uma feijoada do povo da bossa nova.
Daí vem aulas de violão e as duas ficam amigas. As duas mulheres são Odete Lara
(1929-2015) e Nara Leão (1942-1989). E quem conta a história é Odete em Minha
Jornada Interior (1990), o segundo livro de memórias dela escrito dez anos
depois de Eu Nua (1976), uma das primeiras autobiografias de uma estrela
brasileira, "numa tentativa de dissecar o processo neurótico que me levou à
beira da demência e do suicídio", nas palavras da autora. Ambos são excelentes.
Abaixo o texto, que abre o capítulo intitulado "Com Vinicius, Nara e Baden"
Nara por Odete: "Ela era reservada, observadora e retraída, como eu. Tocava violão, mas só atendia aos pedidos para cantar quando a insistência passava dos limites. Sua voz saía contida, quase inaudível"
"Benê Nunes, cupincha e pianista preferido de Juscelino Kubitscheck, e Dulce,
sua mulher, costumavam abrir seu apartamento da Gávea todos os sábados para o
pessoal da bossa nova, com uma feijoada que se estendia até o domingo à noite.
Além de compositores, músicos, intelectuais e artistas, lá se revezava uma
constante variação de visitas esporádicas.
Uma tarde, para minha
surpresa,encontro entre os demais a moça que eu via todos os dias saindo do
consultório do psicanalista. Eu ficava na sala de espera folheando uma revista
atrás da qual entreescondia o rosto sempre que percebia que a porta ia se abrir
para dar passagem àquela moça discreta, bem vestida, com vasta franja cobrindo a
testa.
Intrigada, ao vê-la essa tarde dedilhando um violão, perguntei a um
músico quem era. "É Nara Leão, o pessoal se reúne muito na casa dela também."
Os livros de memórias de Odete Lara
Fiquei observando-a, querendo descobrir o que é que podia fazê-la ir ao
psicanalista se aparentemente era normal. Mas aparentemente eu também não era
normal? Ela era reservada, observadora e retraída, como eu. Tocava violão, mas
só atendia aos pedidos para cantar quando a insistência passava dos limites. Sua
voz saía contida, quase inaudível.
Algum tempo depois a vi de novo numa reunião
em torno de um piano de cauda na Avenida Atlântica. Era seu apartamento. Voltei
lá várias vezes, e ainda que tivéssemos trocado algumas palavras, continuávamos
distantes, observando-nos.
Mais tarde, quando soube que ela dava aulas de
violão, passei a ser sua aluna, e só aí, com o contato quase diário, nos
tornamos amigas. Quando a confiança permitiu, nos divertíamos às gargalhadas,
confessando uma à outra as fantasias que fazíamos quando nos cruzávamos no
consultório.
"Quem problema pode ter uma vamp de cinema diante de quem os homens
devem tombar? Aposto que ela vai usar um negligé de cetim bem decotado para
seduzir meu namorado se um dia ele for entrevistá-la para o jornal onde
trabalha. Na certa o dr. Ivan quer se ver logo livre de mim para atendê-la..."
"Que problema pode ter uma filhinha de mamãe como essa, a quem nada deve faltar?
Deve fazer psicanálise porque não tem como preencher o tempo. Na certa, o dr.
Ivan prefere dar mais atenção a ela, que é moça "bem", de família, do que a mim,
uma bastarda...""
Quatro duplas de Quebra-Cabeça, série de Gilberto Braga
Em O Globo de hoje Gilberto
Braga conta suas primeiras vezes com a TV, como espectador quando ela chegava
ao país e uns vinte anos depois como autor (é um papo com a historiadora Rosa Maria Araujo,
irmã dele, e o link vai no final). O autor de Vale Tudo fala do critico teatral, atividade que
exerceu até começar a escrever para TV (A Dama das Camélias, especial com Gloria
Menezes exibido no fim de 1972 foi a estreia e as novelas viriam logo). Então assinava com o sobrenome materno (Tumscitz) e, além de crítico, também escrevia algumas matérias como repórter na revista
Manchete.
Uma série de reportagens chamada Quebra-Cabeça veio no fim de 1970. Dois nomes conhecidos enfrentavam perguntas
culturais. Eis o elenco: Marilia Pera X Regina Duarte, Betty
Faria X Aizita Nascimento, Dina Sfat X Renata Sorrah, Paulo Gracindo X Sergio
Cardoso, Paulo José X Claudio Cavalcanti, Maria Bethânia X Elis Regina, Nara Leão
x Danuza Leão, Gloria Menezes X Yoná, Tarcisio Meira X Carlos Alberto. As duas
últimas duplas foram os casais mais famosos da Globo lá nos primórdios -Tarcisio/Gloria
vinham de Irmãos Coragem e Yoná/Carlos Alberto estavam na Tupi com Simplesmente
Maria. Os convidados respondiam os questionários separadamente e os encontros só ocorriam para as fotografias e nem sempre. Ao final vinha quem havia "vencido", meio programa de tv.
E como eram as perguntas do Quebra-Cabeça? Eis algumas delas:
Como se chama o bairro
dos estudantes em Paris? Qual o único ato violento de Jesus Cristo?3) Que personagens
simbolizavam a avareza nas obras de Moliére e Walt Disney Quantos filhos têm a
Rainha Elizabeth? Quando, à mesa somos
servidos à francesa, o garçom deve nos servir pela nossa direita ou esquerda? O que quer diz
black-power, young-power e gay power?
Em 1971, Gilberto Tumscitz
passou a assinar outra série e com menor duração: O Conflito das Gerações, com os artistas e
seus filhos. Alguns deles: Paulo Gracindo e Gracindo Junior, Yoná Magalhães e
Marco Antonio, Danuza Leão e Pinky Wainer, Chacrinha e Jorge, Flavio Cavalcanti
e Flavinho, dessa vez traçando perfis das duplas familiares naquele momento. E
sempre em quatro páginas.
Paulo Gracindo, Yoná Magalhães, Carlos Imperial e Chacrinha em O Conflito de Gerações, uma série de Gilberto Braga
Além das séries, Gilberto
Tumscitz escrevia alguns perfis na revista - Elizeth Cardoso e Renata
Sorrah, por exemplo -, além de críticas de shows e peças. Hoje é Dia de Rock
(Zé Vicente), Corpo a Corpo (Oduvaldo Vianna Filho, com Juca de
Oliveira), Abelardo e Heloisa (Com Miriam Mehler e Perry Salles) e de disco, como A
Tua Presença, de Maria Bethânia.
Os Galãs, Esses
Desconhecidos é matéria dessa época, com 6 seis páginas, com um pequeno perfil dos
onze focalizados por Gilberto Tumscitz. Na página dupla de abertura, Tarcisio Meira
("Um galã muito romântico"), Francisco Cuoco ("Aquele Padre
Lindo") e Claudio Marzo ("Vitorioso mas não tanto"), os galãs
mais famosos da Globo naquele começo de década. No elenco de galãs estavam Carlos
Alberto ("Um galã muito intelectual), Claudio Cavalcanti ("Ele surgiu
como um meteoro), Arduíno Colassanti ("Viagem de um pão italiano"), Carlo
Mossy ("Ele perturba as mulheres e os homens"), Paulo José ("Um
arquiteto diferente dos outros"), Jece Valadão ("Ele não é cafajeste
nem quando está dormindo"), Jardel Filho ("Jardel é um galã que
mantém a classe"), Zózimo Bulbul ("Comunicativo, versátil e, além de
tudo, negro"). E muitos dos galãs perfilados viriam a trabalhar nas
novelas de Gilberto Braga.
Os galãs 1971 por Gilberto Braga
O link para a entrevista de Gilberto Braga em O Globo
Foi a primeira cantora (e
compositora, né) que acompanhei desde o surgimento. Por uma questão de idade cheguei
tarde em Maria Bethânia e Gal Costa e até na Rita Lee dos Mutantes e dos três primeiros
solos. Marina não, ouvi a primeira a tocar no rádio (não lembro se Transas de
Amor ou Tão Fácil), comprei no lançamento o primeiro disco e vi o primeiro show
- um projeto Pixinguinha com Zezé Motta e Luiz Melodia e ela de novidade.
Dia desses fiz algo que
vinha ensaiando (Ensaios de Amor é título de canção dela em parceria com Ana
Terra) há tempos: Ouvir os álbuns na ordem em que foram lançados e em LP. Tenho
todos em CD e em LP do primeiro, Simples Como Fogo até Próxima Parada: os dez primeiros anos, de
1979 a 1989. O aparecimento, o estouro a partir do quinto disco (Fullgás, 84) e o último, meio que transição pro próximo sucessão. E tudo na fase
transição de LP pra CD. Uma mudança importante viria no próximo: a incorporação
do sobrenome ao nome em Marina Lima (91) - Ela usava o nome completo na
assinatura das canções desde o primeiro disco.
O Manifesto de Fullgás
E ouvindo os álbuns me
vieram ousadias que Marina trouxe pra música brasileira junto com Antônio
Cícero, irmão parceiro e poeta, hoje na Academia Brasileira de Letras. São
muitas. Abaixo, algumas. Outra "redescoberta" o manifesto (ao lado) dos
irmãos que vinha com o disco Fullgás, o do estouro. É um papel branco, bem
menor que o encarte que vinha junto com o LP e assinado pelos dois. "Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas tentam impor a sua "ordem". E a ordem dos caretas é e sempre foi a da fidelidade às tais "raízes" ou "purezas" ou sabemos lá o quê..."
E abaixo as ousadias, dez delas que a lista é
enorme. E no fim, o link pras dez canções citadas.
1 - Palavra vetada pela censura
Alma Caiada, da parceria
Marina e Cícero, seria a primeira canção dos dois gravada - e por Bethânia - se
a tesoura da censura não tivesse agido. A marca da censura ficou em Mais Uma
Vez (Lulu Santos - Nelson Motta, a penúltima do de Fullgás, quando a
abertura política já acenava. E não era proibição de tocar no rádio, era disco
riscado mesmo, pulando a palavra censurada. E qual era a palavra? Não sei até
hoje, imagino que "tesão", que era perseguidíssima. Será? A letra da canção
aparece assim no encarte: "O que eu amo é o amor / Eu desejo o desejo / E
quero sempre, sempre mais querer / Um amor, um... (palavra vetada pela censura)
/ Ou razão ou motivo / Pro riso, isso é o que eu quero mais". E "a
palavra censurada" segue mistério mesmo em tempos de plataformas digitais.
2 - Gay, a palavra
Foi em Quem É Esse Rapaz
(Marina Lima - Antônio Cícero) que ouvi pela primeira vez "gay" e
deve ter sido a vez primeira que, com o sentido de homossexual, aparece na música
brasileira. Tá, pode o de "alegre" da palavra inglesa, mas
basta ouvir pra perceber que é não. "Eu o vejo perto, longe e gay / E vou
prová-lo quente e carinhoso": dizem os últimos versos da segunda de Certos
Acordes (81), o terceiro disco. Anos depois, no final dos 80, a canção seguia embalando pistas de boates gays.
3- Comê-la
Difícil (Marina Lima -
Antônio Cícero) abre Todas (85) e tem o verso "Então pensei: ela é bela
/ Porque não com ela / Sexo é bom." Todas ao Vivo (86), o álbum
seguinte, é a gravação do show e ali Marina escancara o que muita gente já
cantava e o "Porque não com ela" vira "Porque não comê-la"
na repetição do verso ao final. Uma mulher cantando isso era ousadia das
ousadias. E falando "sexo é bom" também. E "sexo é bom" bem poderia ser
o subtítulo de Difícil.
4 - Dama / Homem - Ricardos
/ Solanges
Não Estou Bem Certa (Pedro
Pimentel - Marina Lima) é versão de Sign Your Name, de Terence Trent D'Arby que aponta
pra dubiedade sexual e está em Marina Lima (91), o de Criança e Grávida.
"Tudo que eu pensei ser pra sempre / Eu já nem sei se é mais / Penso na
menina e fico atenta aos braços do rapaz." O refrão: "Será que você
será a dama que me completa? / Será que você será o homem que me
desperta?" E quase no final: "Procurar Ricardos em Solanges nunca me
fez mal."
5 - Nirvana
Everyone is Gay é verso de
All Apologies, uma das mais tocantes canções do Nirvana. Marina, sempre esteve
atenta em Kurt Cobain e o verso é chave em Na Minha Mão, parceria com Alvin L e
faixa de Pierrot do Brasil (98). "O fato é que eu já comecei / A olhar
em outra direção / Se todo mundo é mesmo gay / O mundo está na minha mão"
6 - Sauna Gay
Anna Bella (Marina Lima -
Antonio Cícero) é mais recente, a terceirade Lá Nos Primórdios (2006). Foi composta pra artista plástica Anna
Bella Geiger, que hoje tem 87 anos. "Já que é assim me pergunto / Uma
coisa que pensei / Por que as mulheres também não podem ter a sua sauna
gay?" Já se passaram 14 anos e a pergunta continua na bela canção que é
bem menos conhecida do que deveria.
7 - Bundinhas
Uma Noite e 1/2 (Renato
Rocketh) virou uma espécie de hino do verão, desde que apareceu no disco Virgem
e tem participação do autor nos vocais e no baixo. Era 87 e
"bundinha" não era palavra que frequentasse a música brasileira e nem
top-less. "Não demora muito agora, / Todas de bundinha de fora, / Top-less
na areia, / Virando sereia." E o refrão não fica atrás em deliciosas
ousadias: "Essa noite eu quero te ter / Toda se ardendo só pra mim / Essa
noite eu quero te ter, / Te envolver, te seduzir."
8 - Pátrias, famílias, religiões e preconceitos
Pra Começar (Marina Lima - Antônio Cícero) abre o Todas ao Vivo (86) e
foi tema de abertura da novela Roda de Fogo. "Pátrias, Famílias, religiões
e preconceitos, quebrou não tem mais jeito",provavelmente um dos temas de novela mais
libertários. É daquelas que Marina voltou a cantar, regravou e não costuma faltar nos
shows.
9 - Francisca
É o subtítulo de Me Diga (Marina Lima - Antonio Cícero), faixa de
Setembro (2001). A "ousadia" aqui é pela abordagem social de uma
nordestina há muitos anos no Rio (veio "no tempo em que eu não era
nascida), algo não corriqueiro na parceria dos dois irmãos. E a canção tem trechos recitados por Marina e Cícero. "Entre o
nordeste que deixou na infância/ E o sul que nunca pareceu real / A Francisca
tem saudade de uns lugares / Que passam a existir quando ela os pinta: / São mares
turquesados e espumantes em frente a uns casarões abandonados que, não sei bem
por que, nos desamparam / no meio de algum lugar tão distante."
10 - Coxinhas
O funk Só os Coxinhas (Marina Lima - Antônio Cícero) é do ótimo e
recente Novas Famílias (2018) repleto de novos parceiros e ótimas canções, como
a faixa título, Árvores Alheias (só dela), Mãe Gentil (Arthur Kunz - Marina
Lima -Leticia Novaes) e Do Mercosul (Silva / Marina Lima / Dustin Galan).
"Nunca me senti tão envolvida com o Brasil. (...) Aqui está a minha
trilha para o Brasil de agora. Realista, crítica, porém cheia de amor pra
dar": ela escreve em texto no disco. Só os Coxinhas veio no auge (em um
dos auges) da polarização política e provocou barulho. Como assim, o acadêmico
Antonio Cícero fazendo letra de funk e usando o termo coxinha? Bobagens, meu
filho, bobagens, apenas mais uma das ousadias de Marina Lima, sempre inquieta,
graças aos deuses.